Os putos

Entre o fado e a política, Carlos do Carmo chama ao 25 de Abril, “uma data bonita” – “Foi um clarão que traz consigo a esperança de ver resgatar a dignidade de um povo e de acreditar que juntos íamos fazer qualquer coisa”. Mas a realidade desiludiu-o: “Foi essa a esperança que tive e na qual acreditei durante alguns anos, até ver que a política é uma coisa muito delicada”.

Tanto que hoje não se revê no País. E explica: “Vou tão somente falar de uma pessoa: Aníbal Cavaco Silva. Que foi primeiro-ministro deste país quando entraram vagões de dinheiro e nunca o ouvi dizer ‘Este dinheiro tem que ser pago’! Quando era primeiro-ministro, a nossa agricultura foi vendida a pataco, as nossas pescas foram vendidas a pataco, a nossa indústria quase desapareceu (…) É tão fácil bater em Guterres, em Santana Lopes, em Durão Barroso ou em Sócrates. Não quero centrar-me numa pessoa e dizer ‘Eis aqui o bode expiatório disto tudo’, pretendo é alertar os portugueses que têm esta tendência para ter um paizinho, só que precisamos é de ter um paizinho sério. E merecemos mais do que este homem, que foi primeiro-ministro e que é Presidente da República!”

Fonte

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Para além da soberba hipocrisia e deboche constitucional, que marcam a passagem de Cavaco por Belém, um dos aspectos mais extraordinários ligado à sua figura é o apoio que tem recebido do PCP e BE. Vejamos.

Aquando da comissão de inquérito parlamentar ao caso BPN, os deputados bloquistas e comunistas tentaram superar os deputados social-democratas e centristas na fúria com que apontaram todas as armas contra o Banco de Portugal. Porquê? Porque estava lá um socialista. Fazer de Constâncio o culpado moral da roubalheira de milhares de milhões, assim alinhando com a sórdida estratégia da direita, era tudo o que os imbecis pretendiam. Portugal que se fodesse.

Aquando da Inventona de Belém, na prática a tentativa de um golpe de Estado através da comunicação social, os esquerdalhos ficaram entre o entusiasmados e o divertidos. Para eles, acontecesse o que acontecesse, havia sempre ganho. Em especial, estavam muito agradados com a possibilidade de sacarem ainda mais votos ao PS. Portugal que se fodesse.

Aquando da moção de censura de Cavaco no discurso da tomada de posse, algo que nenhum presidente anterior teria tido estômago para fazer e não se acredita que algum no futuro volte a repetir, PCP e BE comportaram-se como se tivessem metido Marx na gaveta e de seguida pegassem fogo à casa toda. Só assim se explica a cumplicidade activa com um plano que dependia da sua cegueira para interromper a legislatura e entregar o Governo ao PSD e CDS. A verdade era que os comunas preferiam mil vezes a direita conspiradora e anti-patriótica no poder ao PS. Portugal que se fodesse.

Contudo, há alguma beleza poética nisto de ver uma figura tão política e intelectualmente miserável como Cavaco papar ao pequeno-almoço os rubros proprietários do povo e da História. São como os putos cantados pelo Carlos do Carmo, sentadinhos ao colo do pai, mas com a fatal diferença de não ser com este que aprendem a ser homens.

11 thoughts on “Os putos”

  1. Não sei, Val, quem é que aprendeu com quem.
    Este apontamento do Carlos do Carmo é o sinal claro de que a história escreverá o que deve ser escrito sobre o político Anibal Cavaco. Alguém disse, há dias, que ele é a figura mais perniciosa para o país saído do 25 de Abril.
    Os anos da sua presidência são o culminar de uma obra desgraçada, iniciada em 1985. O BPN é o dano colateral mais evidente do cavaquismo. Os esquerdalhos, como bem dizes, tudo fizeram para desviar a atençâo daquilo que poderia tornar-se na implosâo do mesmo cavaquismo. Muitos têm poucas dúvidas de que o presidente sairia tâo enlameado de uma investigação sobre o que se passou naquela instituiçâo bancária, que nâo lhe restaria outro caminho que não fosse a resignação. Foi a hora do tudo ou nada do cavaquismo e este venceu em toda a linha, para tanto bastando-lhe a fidelidade canina do BE e do PCP.
    Todos sabiam perfeitamente o que estava para acontecer.
    A entrega do BPN à guarda do cavaquista Mira Amaral visa enterrar de vez um cadaver comprometedor. Mas nunca se sabe se poderá vir a ser exigida uma autópsia. A história, essa, há-de fazê-la, a nâo ser que pulverizem, atempadamente, o cadaver. Porém, nos tempos que correm, até no pó de um túmulo se pode descobrir o ADN de um crime.

  2. De facto, a estratégia usada pelo BE foi bizarra. Ao Louçã só faltou espumar, enquanto proferia os “discursos”. Chegava a ser estranho ouvi-lo, porque tais discursos faziam antever um suicídio político – o resultado observou-se nas eleições.

    Já não colocaria o PCP ao mesmo nível. Ainda que não tivesse bem, é facto – não desceu ao patamar do BE.

    Abstive-me nestas eleições. Anteriormente votara BE.

  3. Valupi,

    Vou aproveitar mais este teu “ataque”, em nome da Nação como de costume, ao PCP e Bloco para aconselhar os leitores e oras a envergarem óculos protectores de soldador, de mergulhador também serve. Creio que bastarão para impedir que as areias muito finas da Ilha da Ramona que puzeste no bacamarte lhes dêem cabo das meninas. Na realidade, o que acontece nos bastidores do teu discurso é que é importante. E lá, por detrás do pano e dos cenários, vejo o PCP e o BE a funcionarem com aliados reais do PS, com Sócrates, ou sem ele, tanto às terças como aos sábados.

    O alvo principal nesta jogatana das dívidas do Estado aos banqueiros “anónimos” são os partidos mais ligados à Igreja. Era imperioso que fosse o PSD a aceitar a castanha quente. Não vês isso, meu querido? Há lá tanta gente do Cristo que vai à missa que até nos apetece fazer umas judiarias aos gajos, como se fez à Irlanda, como se quer fazer à Espanha, à Itália, etc e vira o milho.

    Comprende isto, ou tomos malucos?

  4. O Bloco e o PCP são furúnculos da velha extrema-esquerda europeia do século passado que teimam em fazer de Portugal o seu museu vivo. São indicadores do nosso atraso periférico, nos seus aspectos económico, civilizacional e mental. Perante a queda estrondosa do comunismo, fingiram e fingem que não é nada com eles, tal como Salazar e Franco fingiram, após o fim da segunda guerra mundial, não era nada com eles. “Cadáveres adiados que procriam” – chamou-lhes antecipadamente o profeta Fernando Pessoa.

    Ideologicamente putrefactos e cegos pelo ódio sectário, Bloco e PCP prestam-se miseravelmente a servir os desígnios da direita portuguesa, que agora recolocaram deliberadamente no poder. Preferem ver a direita a realizar o exacto contrário dos seus programas políticos (privatizações, legislação laboral, segurança social, saúde) a ter no governo um socialista moderado, isto é, um “traidor” dos seus dogmas arcaicos e estéreis. O desespero que a sua impotência ideológica e política intimamente lhes provoca leva-os, de facto, a agirem como incendiários. O Estado social a arder dá-lhes a perversa satisfação de poderem ter novamente algo por que lutar. Quando as últimas “conquistas de Abril” desaparecerem sob as chamas, terão novamente a sensação enganadora de que estão vivos. Desadaptados da realidade, incapazes de compreenderem a sociedade e de acompanharem o progresso, precisam da acção purificadora do fogo laranja para restabelecer uma imagem fantasmagórica do passado em que se julgavam úteis e actuantes.

  5. Sabe Júlio, isto faz-me lembrar aqueles bois/vacas mans@s que quando o/a cônjuge lhes põe os cornos, a culpa nunca é dele/a, é sempre d@s outr@s malandr@s. O PSD andou enrolado com o PS na aprovação dos famigerados PECs, que a esquerda sempre votou contra. Depois quando o PSD, aproveitou a votação de mais um PEC para pôr os palitos ao PS, está-se mesmo a ver a culpa só podia ser do PCP e do BE.

  6. Não generalizaria tanto, nem seria tão redutor – não tarda, ficamos com a ideia que o que mais há nos esqueletos é carne por onde se pegue.

  7. anonimo,

    A tua especialidade, pelos vistos, é na área da prospecção da merda com a ajuda do nariz e possivelmente de instrumentos digitais de invenção recente. Continua assim que vais bem, rapariga.

  8. este fadinho meio acelerado que dá para abanar até me convence: mete fisgas e as fisgadas, as populares, não dão com cavacos nem com amena cavaqueira. :-)

  9. E,já agora, impressiona ver como alguma comunicação social ( e alguns “grandes reporteres” ), sempre tão interessada em “grandes investigações” – desde que fosse para queimar o do costume – se manteve (e mantêm) passiva face ao enorme escandalo do BPN. Agarraram-se ao Oliveira e Costa, tornado bode expiatório, aceitaram as “explicações” de Dias Loureiro e..ficamos assim.

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