A união, uma qualquer modalidade de união, entre o PCP e o BE seria profundamente benéfica para a democracia portuguesa. Porque implicaria que esses dois partidos teriam sido capazes de saírem do sectarismo em que se formaram e têm subsistido. Ver comunistas e bloquistas a conseguirem assinar um texto comum seria um daqueles acontecimentos históricos com direito a estátua, pelo menos duas estatuetas, para assinalar o dia em que esses grupos de fanáticos tinham conseguido lidar com a alteridade. Como a maior dificuldade está no começar, de seguida seria de esperar que estas duas entidades com tantos recursos intelectuais, e tão exemplarmente éticas, fossem capazes de assumir a responsabilidade de governar e, concomitantemente, de elaborar um programa eleitoral onde o modelo de sociedade proposto estivesse explícito e detalhado; em ordem a que finalmente soubéssemos o que pretendem para este país. Em particular, lá deveria estar consagrado o estatuto do capital nesse novo mundo. A questão de saber se o lucro é uma exploração do trabalho, marxismo, ou uma consequência da liberdade, liberalismo, é o princípio dos princípios no que à forma como a sociedade política se constitui e regula diz respeito.
Também altamente benéfica para a democracia portuguesa seria a união do PSD e do CDS – mas na relação inversa da actual, onde é o pior desses dois partidos que exerce o poder. Existir um claro, distinto, sólido projecto de direita, capaz de convocar recursos humanos competentes e corajosos para a sua concretização seria uma benesse para o eleitorado; pois este não voltaria a ser enganado e traído como o está a ser com estes usurpadores da marca “direita”. Assim, o espectro parlamentar teria três paradigmas ideológicos contrastantes e, por isso mesmo, também complementares nalgumas áreas e questões. Os Governos saídos desta trindade programática tenderiam a nascer de coligações onde grandes consensos políticos seriam alcançados e cumpridos, desse modo se promovendo mais, melhores, rápidos e estáveis desenvolvimentos económicos e sociais. Acima e antes de tudo, ver comunistas e bloquistas dispostos a governarem em democracia – isto é, dispostos a negociarem com ideologias até agora consideradas inimigas pela ditadura da imbecilidade – constituiria um triunfo revolucionário para a cidadania.
Ontem chegou a estar anunciada uma declaração conjunta do PCP e do BE, no seguimento de notícias que davam conta de um plano de acções partilhadas. O que saiu foi mais do mesmo, a expressão de um conservadorismo estéril, disfuncional e ridículo. Assino por baixo este texto da Leonete Botelho:
Caminhos paralelos
O PCP e o Bloco de Esquerda mostraram ontem como se pode dar a ilusão de haver um entendimento, quando, na verdade, não há senão interesses comuns. Conjugaram agendas, acertaram fórmulas, deram a ideia de que estavam a ter unidade na acção. Mas no fim cada um avançou com a sua própria moção de censura. Fazem o contrário do “dois em um”: usam o dobro das munições para atingir o mesmo fim.
Porque o farão? O calendário mostra dois acontecimentos próximos a que os dois partidos são muito sensíveis. Por um lado, a grande manifestação popular de 15 de Setembro, não enquadrada por partidos e sindicatos e que deixou a milhas de distância a da CGTP do passado sábado. PCP e BE tentarão sempre galvanizar os movimentos de protesto e surgir como seus representantes.
Por outro lado, na sexta-feira realiza-se o Congresso Democrático das Alternativas, promovido por antigos e actuais militantes de peso dos dois partidos, mas que lhes escapam às lógicas e alçadas. Basta lembrar que, entre os seus organizadores, estão o ex-líder da CGTP Manuel Carvalho da Silva e o ex-dirigente do BE Daniel Oliveira.
O BE e o PCP bem podem dizer que a censura é ao Governo e, pelo caminho, ao PS. Mas ao avançarem com duas moções — duas —, desperdiçando de uma só vez e logo de início este instrumento precioso de oposição que só pode ser usado uma vez por sessão legislativa, mostram que continuam a ser duas linhas paralelas. E ainda deixam ao PS um ano inteiro para gerir sozinho o uso daquela arma político-mediática.
Público, 2 de Outubro