Todos os artigos de Valupi

Gasparismo ultrapassa gonçalvismo

A Isabel já aqui deixou a ligação para o artigo do Eduardo Cabrita, mas vale a pena renovar o convite à sua leitura pois, entre outros méritos, temos ali aquela que talvez seja a melhor síntese até agora do desgoverno que os portugueses elegeram para se verem livres dos Magalhães, aeroportos e TGV que lhes andavam a infernizar a vida:

Perdido o Norte, vamos já na segunda falsa partida orçamental, primeiro a TSU e depois o tsunami fiscal, com a amarga ironia de um Governo de obsessão liberal a bater os recordes de ritmo de crescimento da dívida pública (finalmente acima da Itália..), de impostos (com taxas marginais nórdicas…) e de destruição de empresas superior à do gonçalvismo.

O último dos neandertais

Apesar de já estar tudo visto, revisto e à venda na Amazon, ninguém nos preparou para este objecto aqui em baixo. Pior: ninguém nos avisou da possibilidade da sua existência. Pois ele existe, deixa-se ver e desafia os limites semânticos à disposição. A sua história – isto é, o conjunto das circunstâncias aleatórias regidas pela soberana necessidade – é fácil de contar. Um grupo de bifes foi para Gibraltar participar numa conferência sobre a evolução humana. E um grupinho, reunindo ecologistas, arqueólogos e paleoantropólogos, foi acabar um dos dias da jornada na caverna de Gorham, aquele que terá sido o local onde viveu e morreu o último dos neandertais. Lá chegados, fizeram uma cantoria. Porém – e estamos face a um grande enigma científico na área da antropologia como podem constatar se lerem a letra da canção – de quem eles estão realmente a falar na musiqueta é de António José Seguro, “the ultimate” em matéria de neandertalismo político.

LAST MAN STANDIN, May 3, 2005 © D.Larson

Pull the hood down on my face,
feel the cold wind steal my grace
Beg the sun to warm my back
beg the hunger not to attack

200 000 years of peace
all coming down to this
Left here all alone the others I will miss,
now it’s just me, me and the abyss

think I’m the
last man standing
the last one to recall
the last man standing
wonderin, wonderin,

I can recall the land was ours,
I can recall the many hours
I spent chipping at the stone,
now there’s nothin left nothing left but bones

We were hundreds just last year,
then the cold came and the fear
We saw Africa across the straight
but we cannot swim and cannot wait

See our mark upon the land, see my footprints in the sand

think I’m the
last man standing
the last one to fall
think I’m the
last man standing
wonderin, wonderin

Até prova em contrário

A escolha do próximo Procurador-Geral da República é uma das mais importantes de sempre para o regime, para o Estado de direito, para a democracia em Portugal. Atendamos ao contexto:

– Em 2009, tentou-se incriminar um primeiro-ministro e secretário-geral do PS em funções a partir de escutas ilícitas a conversas privadas e tendo a iniciativa ocorrido em período eleitoral. Essa golpada não foi avante apenas porque o Procurador-Geral considerou destituída de fundamento a acusação. Essa acusação improcedente, recorde-se, recorria à difusa figura de “atentado ao Estado de direito”. Leia-se o que de facto estava em causa: “Não há indícios de que Sócrates tenha proposto, sugerido ou apoiado a compra da TVI pela PT”

– O material recolhido nas escutas das conversas privadas, apesar de judicialmente irrelevante, serviu de alimento para o combate político e para a sua exploração na imprensa. De imediato, as máquinas de Belém e da São Caetano ocuparam o espaço público com todo o tipo de insinuações e sensacionalismos, sendo explícitos no afã de mostrar que aquele era o seu grande trunfo para vencer as eleições: pintar os socialistas como criminosos através do apogeu da caça a Sócrates. Cavaco Silva, Ferreira Leite e Pacheco Pereira, cada um a seu tempo e modo (e apenas para nomear os cabecilhas da campanha negra), vieram garantir que algo de muito grave tinha sido apanhado pelos bravos de Aveiro. O histerismo tomou conta do laranjal televisivo e jornaleiro, era desta que o demónio ia para o chilindró, juravam babados e a gargalhar.

– Essa golpada não avançou de acordo com o plano, o qual passava por fazer de Sócrates arguido a dois meses das eleições de Setembro. Porém, viria a ter continuação até meados de 2010, levando a duas comissões de inquérito parlamentares, sucessivas campanhas de desgaste do Governo e espasmos de difamação raivosa cujos alvos foram Sócrates, Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento que ficarão para sempre aos olhos dos canalhas e dos broncos como cúmplices de encobrimento criminal. O que avançou, qual plano B já em desespero para um bando de inimputáveis, foi a “Inventona de Belém” – igualmente a meter escutas na sua encenação, mas onde o verdadeiro espiado passava agora a espião. Este caso da conspiração nascida na Casa Civil para perverter actos eleitorais, e suportada até hoje pelo Presidente da República, é tranquilamente o episódio mais sórdido do regime democrático. Aqui, como no BPN, não se faz investigação jornalística nem se lançam livros a contar histórias. Reina um silêncio siciliano.

Continuar a lerAté prova em contrário

Revolution through evolution

Doctors Speak out About Unnecessary Care as Cost Put at $800 Billion a Year
.
Anthropologist Finds Evidence of Hominin Meat Eating 1.5 Million Years Ago: Eating Meat May Have ‘Made Us Human’
.
Among Voters Lacking Strong Party Preferences, Obama Faces 20 Percent Handicap Due to Race Bias
.
How Science Explains America’s Great Moral Divide
.
Bald Men: More Masculine, Less Attractive?
.
New Study Sheds Light On Cancer-Protective Properties of Milk
.
The More We Know About Celebrities, the Less We Like Them
.
Republican Strength in Congress Aids Super-Rich, President’s Affiliation Has No Effect

Acetilsalicílicalizando

O nosso amigo Joaquim Camacho enviou-nos este recado para dar ao Governo: pessoal, se o objectivo é reduzir as gorduras do nosso estado, antes pela farmácia do que pelos impostos:

*

A nossa amiga mdsol informa-nos do que o frontal, honesto, exemplar Paulo Portas diria do Governo a que pertence caso não estivesse sob o jugo da asfixia asnática que lhe tolhe o verbo:
“Isto é um bombardeamento fiscal de um governo sem palavra”

*

A nossa amiga Raquel recorda-nos aquele tempo em que teria sido possível evitar a desgraça actual, e onde vimos o maior mentiroso da história da democracia portuguesa a debater o destino de Portugal com um político que deixou algumas verdades para memória futura. Foi aqui:

Cala-te, Cavaco

Não atravessamos dificuldades unicamente para corrigir os erros do passado recente, mas também para encontrar um rumo de futuro.

Durante tempo demais, Portugal foi um país iludido pelo curto prazo, que de algum modo se deixou envolver pela espuma dos dias, vivendo o presente sem cuidar do futuro.

Patrocinador oficial do actual desgoverno

__

Aconteceu uma cena nas Américas em 2008 que só compara com outra acontecida nas mesmas paragens 80 anos antes. Como os sistemas bancários podiam ir para o galheiro um pouco por todo o Mundo, a Europa decidiu que a resposta a essa crise seria a injecção de dinheiro no sistema, com a suprema finalidade de evitar que a recessão se transformasse numa depressão. Quando os responsáveis políticos ao tempo falavam da crise, era desta, a única que conheciam, a única que existia. Foi assim possível constatar que o ano de 2009 correu bem naquela parte em que não correu tão mal como se temia. Ao mesmo tempo, circulava uma inevitável interrogação quanto à política europeia a respeito dos défices que iriam inevitavelmente aumentar em consequência dessa resposta à crise. Alguns alvitravam que a política dos 3% iria ser revista ou, pelo menos, suspendida até que a crise tivesse sido debelada e fosse possível voltar a essa meta. Assim estava a União Europeia até ao começo de 2010 e queda da Grécia: foi então que “o mundo mudou”, a Europa invertia por completo a sua estratégia e lançava-se desenfreada nas políticas de austeridade. Passados 2 anos, ainda não encontrou outra solução e agora é a própria moeda que começa a estar em risco pelo alastramento constante do problema a cada vez mais países da Zona Euro. Esta crise das dívidas soberanas, embora decorrente da crise de 2007-8, era uma outra crise.

A crise das dívidas soberanas está a expor de forma cruel aquela que é uma característica essencial da União Europeia: a partilha da soberania – que o mesmo é dizer, a cedência de soberania local para a obtenção de soberania de grupo. Portugal tem sempre de negociar as suas políticas com os parceiros, pois existe um património comum. É esse o preciso sentido do PEC enquanto instrumento de protecção e uniformização das economias da UE. Numa outra vertente, esta crise de 2010 veio também expor a fragilidade política do projecto europeu, revelando discrepâncias radicais entre os interesses dos diferentes países. Temos assistido a um festival de cimeiras, medidas e declarações que nos deixa atónitos perante tanta impotência das instituições e Estados europeus e tanto desvario verbal dos seus principais responsáveis políticos.

Altura de regressarmos a Cavaco, essa espécie de Presidente da República. Disse ele, num discurso solene a comemorar o 5 de Outubro, que as actuais dificuldades nasceram de erros, e que esses erros foram recentes. Disse ele, em nome da República, que este país andou iludido pelo curto prazo e pela espuma dos dias, sem cuidar do futuro. Mas não nos disse que erros foram esses nem quão recentes tendo em conta que a Nação já vai com quase nove séculos de bailarico. Mas não nos disse quem é que iludiu este país, quem é que nos privou do futuro, ou se o fenómeno surgiu por geração espontânea no cocuruto de cada português.

De que, e de quem, fala este homem? De Sócrates, o anticristo? Das muitas cigarras e das poucas formigas? Como é que alguém que está na política desde 1980, que já foi primeiro-ministro durante 10 anos, que é o Chefe de Estado desde 2006, pode insultar e ofender tanta gente sem que ninguém, nem sequer um único cidadão, lhe diga na cara para se calar?

Estado da coisa

Para além de ser uma manifestação do asco que a oligarquia tem pelo povo dizer-se que há feriados a mais neste país de mandriões e estróinas.

Para além de ser uma manifestação de profunda estupidez considerar que a abolição de feriados tem alguma consequência relevante para as contas públicas.

Para além de ser uma manifestação de humilhante leviandade abdicar da celebração do 1 de Dezembro e do 5 de Outubro na forma de feriado precisamente na altura em que o País está sob intervenção externa.

É ainda uma manifestação inesquecível da absoluta decadência da direita partidária portuguesa que tal atentado à comunidade que fomos e somos fique com as assinaturas dessas vergonhas de Estado que dão pelos nomes de Passos Coelho, Miguel Relvas, Paulo Portas, Vítor Gaspar, Paula Teixeira da Cruz, Aguiar-Branco, Miguel Macedo, Nuno Crato, Pedro Mota Soares, Assunção Cristas, Francisco José Viegas e Álvaro.

Muito mentem os socráticos, irra que isto é de mais

“Não só não tenho conhecimento como duvido que tenha existido algum acto de natureza ilícita ou menos transparente, em relação a esta ou a outras parcerias”, afirmou o ministro das Obras Públicas do último governo de José Sócrates na comissão parlamentar de inquérito às PPP, em resposta ao deputado socialista Fernando Serrasqueiro.

“É óbvio que se tivesse conhecimento de qualquer acto menos transparente teria imediatamente intervindo e todos os mecanismos tinham sido accionados”, garantiu o antigo governante, que na semana passada foi alvo de buscas domiciliárias no âmbito do inquérito crime às PPP.

António Mendonça duvida que tenha existido algum acto ilícito nas PPP

Resultado entregue

E também a explicação de vermos este Governo a mandar os portugueses saírem de Portugal:

Passos candidato a primeiro-ministro:

Eu não estou agarrado ao meu lugar, não quero ser Primeiro-Ministro a qualquer preço. Mas ninguém no PSD quer ganhar mais estas eleições do que eu porque numa altura em que o País enfrenta, provavelmente, a última grande oportunidade nos próximos anos de inverter esta tendência de empobrecimento em que tem caído, Portugal tem crescido, nos últimos dez anos, em média 0,5%. O que significa que, se não inverter esta situação, os 700 mil desempregados que hoje tem crescerão para perto de 900 mil muito rapidamente – o que significa uma situação absolutamente desastrosa e caótica. Nós hoje só não temos 15% de desemprego em Portugal porque temos a maior taxa de emigração dos últimos 90 anos em Portugal. Portanto, ou vamos inverter esta situação rapidamente e as pessoas acham que é importante fazê-lo, e escolher um Governo que, de uma vez por todas, entregue este resultado e lute por ele, ou não temos isso e então o País terá escolhido o seu destino e eu assumirei a minha responsabilidade; é porque eu não fui suficientemente convincente. Mas estou muito determinado em entregar este resultado e não será por falta nem de preparação, nem por não escolher as pessoas com melhor perfil, nem de levar a maior isenção e abertura para o Governo, que a estratégia não será bem sucedida.

Passos primeiro-ministro:

Governo prevê aumento da taxa de desemprego para 16,4% em 2013

Política de Verdade II, agora em rosa

«A manifestação que houve no dia 15 de setembro foi maioritariamente e esmagadoramente contra as políticas do Governo, mas há uma parte daquela manifestação que também é contra a forma como se faz política em Portugal. E o Partido Socialista tem que entender isso», declarou.

Por isso, defendeu o líder socialista, é preciso falar verdade e não prometer, como outros, soluções para tudo porque a crise portuguesa não se resolve com «uma varinha mágica».

Seguro, especialista-mor da manifestação de 15 de Setembro

__

Qual é a forma como se faz política em Portugal? A resposta será múltipla, obviamente, mas permite constatar as similitudes entre Cavaco, PSD e Seguro. Tanto Cavaco como o PSD, de Ferreira Leite a Passos, reduziram a política à moral e a moral à calúnia. Na ausência de propostas políticas cujo mérito chegasse para conquistar o eleitorado, Cavaco e PSD anunciaram estar na posse da verdade. Vai daí, inevitavelmente, quem não concordasse com eles estaria a mentir. Foi assim que apareceram, concatenadas, as fórmulas “falar verdade aos portugueses”, presidencial, e “política de verdade”, partidária. O propósito, plenamente conseguido, era o de inundar o espaço público com campanhas alarmistas, paranóides e de assassinato de carácter a um ponto de saturação tal que toda e qualquer acção, declaração e posição de governantes, dirigentes, deputados, militantes e simpatizantes socialistas fosse vista como peça de uma diabólica conspiração para mentir aos portugueses. Entretanto, esta bicefalia em que os auto-proclamados proprietários da verdade são os mais mentirosos é um fenómeno já com milhares de anos de observação em todas as partes do Mundo onde habitam humanos. Até Jesus falou eloquentemente do assunto, embora não seja de esperar que Cavaco e PSD sintam alguma inibição à sua praxis à conta de tão esquisitos e vetustos escritos.

Continuar a lerPolítica de Verdade II, agora em rosa

Ditadura da imbecilidade

A união, uma qualquer modalidade de união, entre o PCP e o BE seria profundamente benéfica para a democracia portuguesa. Porque implicaria que esses dois partidos teriam sido capazes de saírem do sectarismo em que se formaram e têm subsistido. Ver comunistas e bloquistas a conseguirem assinar um texto comum seria um daqueles acontecimentos históricos com direito a estátua, pelo menos duas estatuetas, para assinalar o dia em que esses grupos de fanáticos tinham conseguido lidar com a alteridade. Como a maior dificuldade está no começar, de seguida seria de esperar que estas duas entidades com tantos recursos intelectuais, e tão exemplarmente éticas, fossem capazes de assumir a responsabilidade de governar e, concomitantemente, de elaborar um programa eleitoral onde o modelo de sociedade proposto estivesse explícito e detalhado; em ordem a que finalmente soubéssemos o que pretendem para este país. Em particular, lá deveria estar consagrado o estatuto do capital nesse novo mundo. A questão de saber se o lucro é uma exploração do trabalho, marxismo, ou uma consequência da liberdade, liberalismo, é o princípio dos princípios no que à forma como a sociedade política se constitui e regula diz respeito.

Também altamente benéfica para a democracia portuguesa seria a união do PSD e do CDS – mas na relação inversa da actual, onde é o pior desses dois partidos que exerce o poder. Existir um claro, distinto, sólido projecto de direita, capaz de convocar recursos humanos competentes e corajosos para a sua concretização seria uma benesse para o eleitorado; pois este não voltaria a ser enganado e traído como o está a ser com estes usurpadores da marca “direita”. Assim, o espectro parlamentar teria três paradigmas ideológicos contrastantes e, por isso mesmo, também complementares nalgumas áreas e questões. Os Governos saídos desta trindade programática tenderiam a nascer de coligações onde grandes consensos políticos seriam alcançados e cumpridos, desse modo se promovendo mais, melhores, rápidos e estáveis desenvolvimentos económicos e sociais. Acima e antes de tudo, ver comunistas e bloquistas dispostos a governarem em democracia – isto é, dispostos a negociarem com ideologias até agora consideradas inimigas pela ditadura da imbecilidade – constituiria um triunfo revolucionário para a cidadania.

Ontem chegou a estar anunciada uma declaração conjunta do PCP e do BE, no seguimento de notícias que davam conta de um plano de acções partilhadas. O que saiu foi mais do mesmo, a expressão de um conservadorismo estéril, disfuncional e ridículo. Assino por baixo este texto da Leonete Botelho:

Caminhos paralelos

O PCP e o Bloco de Esquerda mostraram ontem como se pode dar a ilusão de haver um entendimento, quando, na verdade, não há senão interesses comuns. Conjugaram agendas, acertaram fórmulas, deram a ideia de que estavam a ter unidade na acção. Mas no fim cada um avançou com a sua própria moção de censura. Fazem o contrário do “dois em um”: usam o dobro das munições para atingir o mesmo fim.

Porque o farão? O calendário mostra dois acontecimentos próximos a que os dois partidos são muito sensíveis. Por um lado, a grande manifestação popular de 15 de Setembro, não enquadrada por partidos e sindicatos e que deixou a milhas de distância a da CGTP do passado sábado. PCP e BE tentarão sempre galvanizar os movimentos de protesto e surgir como seus representantes.

Por outro lado, na sexta-feira realiza-se o Congresso Democrático das Alternativas, promovido por antigos e actuais militantes de peso dos dois partidos, mas que lhes escapam às lógicas e alçadas. Basta lembrar que, entre os seus organizadores, estão o ex-líder da CGTP Manuel Carvalho da Silva e o ex-dirigente do BE Daniel Oliveira.

O BE e o PCP bem podem dizer que a censura é ao Governo e, pelo caminho, ao PS. Mas ao avançarem com duas moções — duas —, desperdiçando de uma só vez e logo de início este instrumento precioso de oposição que só pode ser usado uma vez por sessão legislativa, mostram que continuam a ser duas linhas paralelas. E ainda deixam ao PS um ano inteiro para gerir sozinho o uso daquela arma político-mediática.

Público, 2 de Outubro

Até os socráticos vêm em socorro deste Governo

O que está a acontecer no País não tem paralelo na história da democracia portuguesa, porque à situação de perda de soberania junta-se o estupor de termos um Governo tecnicamente incompetente, ideologicamente alucinado, moralmente iníquo e politicamente desastroso e ainda um Presidente da República que é uma vergonha ambulante para o regime desde 2008. Estamos face a uma catástrofe governativa que a cada dia agrava a catástrofe social nascida dessa outra catástrofe financeira e económica que a presença na Zona Euro torna inevitável.

Não espanta, pois, que Correia de Campos tenha vindo a terreiro exortar o Governo a resistir, a ter coragem, a mostrar um mínimo de dignidade numa altura decisiva para o nosso presente e futuro colectivos:

[…] O Governo tem que saber resistir. Por muitas e válidas razões.

Primeiro, porque não se desiste às primeiras dificuldades. Revela ausência de estratégia e covardia. Depois, porque estamos a semanas da aprovação do Orçamento, sem o qual a vida em 2013 seria mais penosa para todos. Depois, porque o Governo tem maioria, coligado com o CDS e não haverá grandes razões para o parceiro fugir do barco, pois a nado não se salvaria, tão longe da costa já se encontra. Depois, porque o Presidente o não permitiria. Sendo da mesma ou próxima família política ele sentirá acrescidas responsabilidades em aguentar a estabilidade. Depois ainda, porque não há alternativa política no horizonte, pois na opinião sondada observa-se apenas uma queda imensa do PSD, ainda sem subida visível do PS, e até com crescimento da esquerda fora do arco de governo, o que prefigura uma situação semelhante à grega. Muitas são as razões para recomendar resiliência.

[…]

A solução agora limita-se a resistir. Arrepiar caminho onde se errou, mas resistir. No início do ano construir um novo Governo, decente na sua dimensão real e competente sem experimentalismos. Perdida a moral para o acinte ao antecessor, restar-lhe-á o consenso. Qualquer novo arroubo de ideologia viciosa ser-lhe-á fatal. Juizinho, até que melhores dias despontem.

Público, 1 de Outubro

O registo é infantilóide pois Correia de Campos sabe que está a discursar para desmiolados. Mas gostaria de acrescentar mais uma razão para que o Governo se aguente: o problema dos retornados. É que foram tantos os escribas recrutados na blogosfera para encherem os gabinetes dos pouquíssimos ministros e demais lugares de confiança à confiança que o fim desse sonho lindo fará com que voltem aos trambolhões para os blogues onde passaram anos a conspurcar Portugal e os portugueses. Até 5 de Junho de 2011, esse grupo de adiantados mentais difamou, caluniou e denegriu o que cheirasse a Estado com todas as energias que tinha. Não havia suspeição que não alimentassem nem notícia positiva que não fosse carimbada como mais uma mentira. Temo que o seu regresso em manada ao HTML provoque irreparáveis danos no tecido espácio-temporal que suporta o Universo. Vejam lá isso e, se for mesmo para voltarem, venham em grupinhos pecaninos e finjam que estão apenas de passagem a caminho da casa do Relvas para uma jantarada de amigalhaços e compagnons de route.