Todos os artigos de Valupi

Osvaldo Castro, paladino da Liberdade

Na partida do Osvaldo, generosíssimo amigo do Aspirina B, convido à leitura desta memória – A revolta estudantil de 17 de Abril, em Coimbra, já lá vão 41 anos – e deixo as imortais palavras com que abriu o seu Carta a Garcia:

O título do blog apenas quer significar que a determinação, o sentido do dever, o respeito pelo cumprimento rigoroso das tarefas que aceitamos e a que nos propomos, bem como a decisão de superar obstáculos, são alguns dos valores que queremos que continuem a pautar a nossa vida.

Aqui procuraremos deixar fluir livremente palavras, enraizadas em ideias e princípios norteados pelos valores democráticos que desde há muito perfilhámos. Sempre aceitaremos as palavras dos que aqui passem para dois dedos de conversa ou de contradita…

Estaremos atentos a causas, designadamente às que se prendem com a defesa dos desprotegidos e dos que carecem do apoio e da palavra de outro ser humano.

Bater-nos-emos pela defesa dos direitos humanos e não pactuaremos com intolerâncias sejam de que tipo forem.

Sabemos bem do valor da liberdade, da igualdade e da fraternidade.

Continuamos a poder dizer mais de 35 anos depois que o 25 de Abril foi, nas palavras de Sofia de Mello Breyner, “O dia inicial inteiro e limpo/Onde emergimos da noite e do silêncio…”

Gaspar, és o maior

Porquê pagar o subsídio de férias só em Novembro, espezinhando (mais uma vez, e com a satisfação dos celerados) a Lei? Porque assim consegue-se boicotar as férias a essa gente, parte dela que deixará de ir para o estrangeiro gastar o rico dinheirinho que receberam acima das suas possibilidades, e porque assim se garante um reforço no bolso do povoléu para gastar na quadra natalícia, agora sem o perigo de os euros serem esbanjados em luxos e desvarios fora do reino.

Desastre orçamental laranja oblige.

É muito triste ver um palhaço a pedir esmola

Noutros casos, em que incluo a experiência portuguesa, o modelo social foi concretizado numa perspetiva centralizadora, de intervenção direta da administração do Estado, muitas vezes marginalizando a ação das organizações de base territorial.

Duplicou-se a infraestrutura de prestação de serviços, sendo que nem por isso se ganhou eficiência ou se pouparam recursos. Mais grave ainda, criou-se uma cultura de protecionismo social protagonizado pelo Estado, desresponsabilizando de algum modo os cidadãos e menosprezando os valores da cultura cívica, da participação, do voluntariado e do espírito de solidariedade.

Reformado de Belém

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Cavaco, admitindo que os seus discursos públicos resultem de um qualquer exercício lógico vertido em palavras, está neste passo a dizer à Nação que algo de muito errado foi feito em Portugal: o proteccionismo social por intervenção estatal.

O texto não o explicita, mas é de caras. Essa tal cultura maligna terá começado com o 25 de Abril, pelo menos, mais coisa e menos coisa. No entanto, às tantas, o ilustre palestrante até poderá ter como estabelecido que a terrível duplicação da “infraestrutura de prestação de serviços” tenha começado antes; quiçá 1926, 1928, 1932 ou 1933, por exemplo. Também não sabemos qual a data em que terá terminado a tortura do proteccionismo; portanto, sendo mais avisado concluir que não terminou coisíssima nenhuma. Daí termos o nosso magnífico Presidente da República a espalhar tão sábias e corajosas reflexões.

Contudo, a ser assim o que assim parece ser, decorre que o período entre 1985 e 1995, período esse que vários investigadores de nomeada já consideraram corresponder a uma duração que ronda os 10 anos, foi igualmente uma era desgraçada onde se desresponsabilizaram de algum modo os cidadãos e menosprezaram os valores da cultura cívica, da participação, do voluntariado e do espírito de solidariedade. Tudo isto, recorde-se, com duas maiorias absolutas no bucho. É do caralho, senhores ouvintes.

Mas nada disso importa perante o que mais importa: afinal, que Portugal será esse onde, e finalmente, seja possível “conferir uma dimensão mais humanizada à alternativa burocrática que o Estado oferece“? Será que já existiu no nosso glorioso passado? Será que está destinado ao nosso glorioso futuro? De certeza que não se trata de uma utopia? Felizmente, estas perguntas encontram resposta peremptória:

O que seria dos mais de dois milhões e meio de portugueses em risco de pobreza e exclusão social não fora o espírito solidário dos seus concidadãos e, permitam-me que o destaque, o trabalho dos muito milhares de voluntários que, junto com as instituições de solidariedade, têm feito chegar uma réstia de esperança e de dignidade a quem se viu numa situação de dependência e até de miséria?

Cá está. Não se pode ser mais claro. O homem que ocupa os altíssimos cargos do Estado desde 1980, e que junta ao poder político triunfal uma excelência académica ofuscante, a que soma a pureza moral que só aqueles que nasçam duas vezes poderão almejar imitar, está a dizer-nos que ainda não se inventou nada melhor do que a esmola para lidar com os miseráveis. E ele é o primeiro do regime, literalmente, a dar-se como exemplo: como conseguiria este pobre coitado viver num palácio daquele tamanhão sem a esmola que o Estado lhe dá?

Take five

O que disse ontem Paulo Portas:

1. Portugueses, vós pensais que eu faço parte do Governo, mas estais enganados.

2. Eu faço parte do Governo, mas eu não mando no Governo. Logo, eu não faço verdadeiramente parte do Governo.

3. Eu faço parte do Governo, mas o Governo de que eu faço parte não governa, faz o que a troika manda. Logo, eu não faço verdadeiramente parte do Governo, porque a bem dizer ele não existe.

4. Eu faço parte do Governo, mas eu não concordo com o que o Governo faz. Logo, eu não faço verdadeiramente parte do Governo.

5. Portanto, sabendo eu que vós, Portugueses, estais furibundos com o Governo, tenho a dizer-vos que podeis contar com a minha solidariedade. Vós perdestes toda a confiança no Governo, certo? Pois, também eu!

Augusto Santos Silva

Suspensão da memória

Manuela Ferreira Leite discursava segunda-feira à noite numa sessão subordinada ao tema “O estado da Nação. Perspetivas?”, no âmbito das comemorações do 873.º aniversário da freguesia da Estela, Póvoa de Varzim, onde reiterou que a receita aplicada pela ‘troika’ a Portugal “está errada” e os seus “resultados são desastrosos”.

“Eu se pudesse satisfazer um desejo, teria tido imenso prazer em que o Sócrates tivesse enfrentado a ‘troika’ e ficar ele a tomar as medidas terríveis. Não mais falavam de camarote tanto quanto agora falam”, respondeu a antiga governante, quando lhe perguntaram se achava que o PSD se tinha precipitado aquando do chumbo do PEC 4.

Manela, dois anos depois do que andou a fazer e a dizer

“Aquilo está a ser feito a este país tem de ter um limite. Esse limite passa por este Parlamento, tenho pena que não passe em primeira fase pela ponderação do PS, como é que resolve o problema da existência de falta de confiança neste Governo. Era o PS que poderia com facilidade resolvê-lo”, afirmou a antiga líder social-democrata, sugerindo que o PS poderia ter substituído José Sócrates.

Chegados a esta crise, o país tem de se concentrar na produção e não avançar com cortes de salários e pensões, afirmou a vice-presidente do PSD. E disse ser necessário uma alternativa “a esta espiral de políticas erradas”. Se não se fizer isso o país continuará a afundar-se.

Manela, dizendo grandes verdades na tarde em que votou para a submissão de Portugal à Troika

Nem tranquila fico se Sócrates ficar na oposição.

Manela, a dois dias de entregar o País ao casal Passos-Relvas

Sorte a nossa, seres nosso

O falecimento de João Pinto e Castro atingiu-me de surpresa. E doeu fundo. Tal como a Penélope, atribuía ao seu recente silêncio digital e mediático diferentes hipóteses explicativas benignas, a começar logo pela mais provável quando nada se conhece da vida privada de outrem: estar farto, ter mais e melhor onde gastar o seu tempo. Acresce que nunca com ele falei, apenas o lia com gosto e proveito.

O João destacava-se entre os autores da blogosfera política por aliar uma sólida cultura académica com uma longa experiência empresarial e um superior domínio da escrita. Resultado: os seus textos nascem de uma investigação exigente e de uma reflexão ágil, mas oferecem igualmente ao leitor um prazer estético e uma recompensa afectiva que se passa a querer consumir como néctar para a inteligência.

Estamos perante um belo e trágico exemplo de alguém que nunca fez parte da elite e que foi sempre um activo representante do escol português. Na elite usufrui-se dos diferentes poderes, no escol conservam-se, aumentam-se e partilham-se os diferentes saberes. Se é verdade que esta morte absurda nos deixa mais pobres, tanto o que o João ainda tinha para viver com os seus e também para dar à comunidade, igualmente verdadeira é a constatação de que o seu desaparecimento físico permite sentir parte essencial do invisível, do intangível e do inefável da sua pessoa.

Testemunhos:

A carta que nunca te escrevi.André Castro

João Pinto e Castro. Eras assim, na minha memóriaIrene Pimentel

joãof.

O tempo de João Pinto e CastroHelena Garrido

Textos fulcrais:

OS TRABALHOS DE SÍSIFO

Memorando para a salvação do capitalismo

Revolution through evolution

Menopause May Be an Unintended Outcome of Men’s Preference for Younger Mates
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People Suffering Intimate Partner Violence Need Better Help
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Absent Fathers Create More Sexually Risky Daughters
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Humans Are Happier When They Do the Right Thing; It Also Helps Them Overcome Difficulties
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A Smartphone Spectrometer Diagnoses Disease At A Fraction Of The Price
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People Are Overly Confident in Their Own Knowledge, Despite Errors
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Why is it acceptable to take a sick day to rest your body, but not your mind?

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Bendita honestidade intelectual

O estado decadente da direita portuguesa não suscita investigações, reflexões, desabafos ou tremeliques na comunicação social profissional – o que diz muito, ou tudo, dos poderes fácticos que moldam esse mesmo sistema. Nem mesmo quando essa direita decadente chega ao poder através de campanhas de ódio, conspirações judiciais, perseguições jornalísticas e golpadas belenenses – com isso arrastando o País para o seu período mais desgraçado desde o 25 de Abril – aparece alguém a sugerir que os protagonistas deveriam ser… como é que é mesmo a palavra?… ah, já me lembro… responsabilizados. O secular respeitinho que a oligarquia impõe numa sociedade de pobreza material e miséria cívica endémicas continua a ser muito bonito.

Nesta paisagem, Pedro Marques Lopes brilha à distância e ofusca os seus pares ideológicos. Não se conhece mais ninguém dos que deram o voto a Cavaco e Passos com o seu presente fervor na defesa do Estado de direito, da decência e da comunidade. Mais ninguém, é devastador. Não sendo (ainda?) um político partidário, a sua actividade profissional como comentador dá força aos pilares da democracia que são a inteligência e a coragem. Em simultâneo, essa atitude de tolerância zero para com as pulhices, venham de onde vierem, em nada o impede de promover a sua visão onde Portugal deveria ser governado à direita. Precisamente ao contrário: quão maior o carácter, maior a relevância.

Ora, este nosso amigo ainda tem mais para nos dar, como se ouve em dois brevíssimos espasmos:

PEC 4

Europa

No primeiro, rotula como desonestidade intelectual estar a repisar os idos de Março de 2011 pois a queda de Sócrates era inevitável naquele contexto. No segundo, dilui a acção de Cavaco recorrendo a Sócrates a propósito do tema Europa. Em qualquer dos casos, podemos e devemos dar-lhe razão – mas não a razão toda, e não a melhor das razões.

Se é verdade que não havia condições para a continuidade do Governo minoritário do PS após o discurso da tomada de posse de Cavaco e subsequente ataque do PSD ao PEC 4, e não havia, tal não impede que se comparem os cenários possíveis. E tal não impede que se avaliem as decisões tomadas pelos agentes políticos. E ainda, e mais decisivo para o que mais nos importa, tal não impede que se retirem ilações sobre o que não aconteceu e poderia ter acontecido. Aqueles poucos, raríssimos, que justamente não se calam a respeito do PEC 4 não estão em modo de birra, antes expõem abundante argumentário. A conclusão, para quem prezar a honestidade intelectual, só pode ser esta: não era uma fatalidade ter-se escolhido o pior dos caminhos para Portugal, esse desfecho nasceu pelo arbítrio de alguns. Já quanto à temática da Europa, e continuando nas boas práticas da honestidade intelectual, comparar o silenciamento de Cavaco, o qual estava ao serviço da diabolização de um primeiro-ministro, de um Governo e de um partido, com a suposta ausência da temática nos discursos de Sócrates (o qual ou ainda não tinha apanhado com as crises pela frente ou tinha especiais responsabilidade governativas que lhe condicionavam a expressão verbal) só se desculpa porque tu, Pedro, és mesmo um excelente rapaz.

O que estas notas permitem pensar é relevante para a compreensão da reacção de tantos. É que muita gente moralmente íntegra, e nada parva, aceitou dar o seu voto a um Cavaco que vinha com a Inventona de Belém nos braços e ao casal Passos-Relvas que vinha com o pote na cabeça. São fenómenos que nascem da peculiar constituição da natureza humana, onde a racionalidade é sempre secundária no páreo com a identidade. Porém, a construção da identidade é absolutamente racional, de uma racionalidade já inscrita na biologia. Logo, vale a pena dialogarmos a partir das nossas diferenças, e quem mais apostar na inteligência do interlocutor é quem mais terá a ganhar.

O que nos leva para o corolário supremo daqueles que estão apaixonados pela cidade: a luta continua – ou seja, seremos quem nos inventarmos.

Geografia da traição

O ministro das Finanças aproveitou o momento para repetir uma ideia que tem sublinhado, a de que este Governo conseguiu em dois anos dissociar Portugal da Grécia e aproximar-se da Irlanda.

7 de Junho de 2013

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Na semana passada, Vítor Gaspar atingiu o cúmulo da sua provocação às instituições e aos políticos portugueses. Algo que tem vindo a fazer continuadamente desde que resolveu cortar 50% no subsídio de Natal, naquela que foi a sua primeira medida no Governo logo em Junho de 2011, só para chegar ao fim do ano com um défice de 4,2%; muito abaixo da meta acordada com a Troika de 5,9% e muito além do Memorando que a tal não obrigava – portanto, tendo causado inutilmente um desfalque na classe média e no consumo interno que iria ter imediatas e fundas repercussões nas contas do Estado. Começava assim um ciclo de fanática destruição da economia ao arrepio de todas as cautelas e evidências, o qual nem agora com a guerra aberta entre o FMI e a Europa a respeito da matemática da austeridade dá sinal de ir parar por iniciativa deste Governo de mentirosos e incompetentes.

A chuva de Gaspar causou uma inundação de gargalhadas na última sexta-feira, a qual se estendeu até uma comissão parlamentar dias depois, para galhofa debochada do Álvaro. Foi apenas o mais recente episódio de um crescendo onde o procônsul da Troika se permite exibir em jeito de bravata ultra-sonsa o seu asco pelos representantes eleitos. Também nessa sexta admitiu que se tinha enganado nas ordens dadas ao tipo que lhe puseram ao lado para brincar aos primeiros-ministros. Parece que fez exactamente o contrário do que deveria ter feito, mas ’tá-se bem e não há cá desculpas e muito menos demissões, os portugueses aguentam tudo e mais alguma coisa. Somos as cobaias perfeitas.

Ao que ninguém deu atenção foi à frase em epígrafe, onde Gaspar despeja um sofisma que ilustra o que fizeram e estão a fazer a Portugal. Para o compreendermos na sua eficácia e consequências temos de recuar a Outubro de 2010, data em que António Borges é escolhido para dirigir o Departamento Europeu do Fundo Monetário Internacional. Este cargo era posto nas mãos de um português numa altura em que se apostava que Portugal não conseguiria resistir à pressão dos mercados, indo recorrer à ajuda externa algures em 2011. Borges ficava assim com o poder de elaborar as exigências do FMI nessa eventualidade. Bastaria a abertura de uma crise política para a situação periclitante do País não dar para qualquer outra solução a não ser a rendição aos credores. Foi exactamente o que se passou logo após a reeleição de Cavaco e chegando o plano a afrontar Merkel que pretendia dar a Sócrates a possibilidade de evitar o resgate. Para a Europa teria sido melhor seguir pela via das alterações ao PEC, dessa forma evitando que mais uma peça do dominó caísse, logo aquela colada a Espanha, e para Portugal estava em causa manter a plena soberania de modo a conseguir o ajustamento financeiro imposto pelos parceiros europeus com o menor dano económico possível. Esta realidade de Março de 2011 reúne neste momento um quase consenso nacional, pois contra factos não há argumentos, só sofismas.

Gaspar diz que com a sua educação caríssima e amor à pátria made in Bruxelas conseguiu livrar-nos dos horrores gregos e pôr-nos a caminho da verdejante Irlanda. O que Gaspar não diz, nem há quem lhe pergunte, é a razão de estar a gozar connosco num Governo que nasceu de nos terem afastado à canzana da Espanha e da Itália – países que têm acesso aos mesmo apoios que nós recebemos de uma Europa perdida no seu labirinto, mas que não aceitaram a demência de verem um conjunto de malucos a tratar os seus cidadãos como bandidos que têm de ser castigados ferozmente.

A democracia vai cair de Maduro

A Isabel já escreveu o que mais importava gritar-se a respeito da chungaria de tasca do novíssimo braço-direito do primeiro-ministro, acima pendurada: Da “narrativa”, segundo Poiares Maduro. Mas o que este palhaço, acabado de chegar ao circo que é a direita de Passos, Portas e Cavaco, diz em menos de um minuto permanece, seja qual for o ponto de vista, inacreditável e tem de ser destacado mais uma vez. Ou mais mil, tamanha a estupidez.

Quem é Luís Miguel Poiares Pessoa Maduro? Lemos a biografia governamental dos seus feitos académicos, profissionais e científicos e ficamos siderados. Temos homem; ou melhor, temos super-homem. Para o espanto ser de caixão à cova, uma consulta rápida aos seus artigos revela-nos um intelecto apaixonado pelo conceito da narrativa, a qual utiliza como instrumento de análise e reflexão. Por exemplo, em A New Governance for the European Union and the Euro: Democracy and Justice contamos o vocábulo 11 vezes. Até aparece no índice, todo pimpão. Dezenas de outros exemplos poderiam ser dados, mas o Poiares não me paga o suficiente para lhe estar a promover o produto. Chega este quadro prévio para saltarmos até ao que se lembrou de bolçar para animar o laranjal algures em Mira:

– Aqueles que nos levaram ao tapete procuram de novo fazer política – uma forma diferente, mas é fazer política – e criam de novo uma realidade alternativa.

– Agora, como estudaram filosofia, chamam-lhe narrativa.

– Passa-se por Paris e, subitamente, fica-se mais sofisticado.

– A narrativa, o que é um paradoxo para quem conhece filosofia, é a construção de uma realidade que não existe.

– A narrativa é uma realidade falsa que, constantemente repetida, procura passar pela verdade.

– O País não pode viver mais de narrativas.

Elementar justiça tem de ser feita ao senhor antes de iniciarmos a sorte: ele estava a discursar para militantes do PSD. Cumprida a obrigação, o problema está em saber por onde pegar em primeiro lugar. O melhor será seguirmos a ordem narrativa.

Aqueles que nos levaram ao tapete procuram de novo fazer política – uma forma diferente, mas é fazer política – e criam de novo uma realidade alternativa.

De facto, há para aí alguns que nos levaram ao tapete. Todavia, o tapete era fixe. Sim, era um tapete, não se pode negar, mas, que diabo, quem é que não gosta de estar deitado num tapete de vez em quando? Já aqueles com quem o Poiares foi trabalhar levaram-nos à pobreza, à miséria e ao desespero. E ainda têm vagar para nos dizerem que não há alternativas à real tragédia nascida da sua forma de fazer política.

Agora, como estudaram filosofia, chamam-lhe narrativa.

Afinal, estudar filosofia sempre serve para alguma coisa. A menos que o Poiares nos esteja a alertar para os perigos do convívio com Sócrates, filósofo que teve o que merecia por andar a desviar rapazes e atentar contra os deuses da cidade (quase todos eles com menos currículo do que o nosso passarão).

Passa-se por Paris e, subitamente, fica-se mais sofisticado.

Muito a audiência riu com este chiste, e para deleite do cómico de serviço. É que as gargalhadas não vinham da referência a Paris, que talvez os presentes nem consigam identificar num mapa daqueles com legendas. A explosão de alegria resultava da evidência de algo tão sofisticado como isso do uso da palavra “narrativa” não poder, em caso algum, resultar de uma breve passagem seja lá por onde for. Como é óbvio, se é para andar aí a disparar narrativas a torto e a direito, tal pede muitos estudos, muitos anos em Coimbra, que é a terra dos doutores, muita pestana queimada para tentar perceber os incríveis mecanismos das malvadas das narrativas.

A narrativa, o que é um paradoxo para quem conhece filosofia, é a construção de uma realidade que não existe.

É inestimável o serviço prestado à comunidade por aqueles que partilham a sua superior inteligência com os simples, como este prendado Maduro. Aposto que poucas pessoas no mundo, inclusive no outro mundo que não só este, sabiam que a narrativa era uma tanga ou uma léria e nada mais. Isto vai ser um sarilho colossal estar a corrigir à pressa dicionários, enciclopédias, tratados disto e daquilo, mas vai ter de ser. A menos que as pessoas desistam de conhecer a filosofia, o que é uma opção de último recurso mas tremenda e pavorosa. Maneiras que o melhor é tratar de alterar dois ou três mil anos de História e vamos todos fingir que nunca ninguém narrou os acontecimentos a ninguém, muito menos que alguém ousou apresentar a sua interpretação das coisas recorrendo às técnicas da narrativa. Last but not least, sempre que ouvirem este marmelo a falar de narrativas estão por vossa conta. Depois não venham narrar que não foram avisados.

A narrativa é uma realidade falsa que, constantemente repetida, procura passar pela verdade.

Poiares queria muito mostrar à Nação que é leitor de Goebbels, e conseguiu-o com este desembaraço e limpeza.

O País não pode viver mais de narrativas.

Eis a puta da verdade. Isto das narrativas é um luxo, um desperdício, o regabofe dos regabofes. Está na altura de acabar com todas as narrativas. Todas? Bom, poderá ficar uma para o gasto. E chega, que não há dinheiro. Não o tivéssemos gastado com a saúde e a educação, mais os salários que só provocam vícios consumistas. É que as narrativas acumulam-se na zona do voto livre, criando uma camada adiposa chamada democracia. Temos de as cortar. E pegar-lhes fogo. Ficam tão bonitas as narrativas empilhadas, a arder. Iluminando a noite. Aquecendo a turbamulta frenética que celebra a salvação.

Um caso de moral ou de psiquiatria? Ambos.

Sempre discordei daqueles que entendem que a magistratura presidencial deve ser uma magistratura negativa e conflitual, daqueles que têm uma visão do Presidente da República como um ator político que participa e se envolve no jogo entre maiorias e oposições, na busca, muitas vezes, do engrandecimento do seu protagonismo pessoal.

Considero, pelo contrário, que o contributo de um Presidente da República deve ser dado pela positiva. Por isso, adotei como princípios-chave da minha atuação a cooperação estratégica e a magistratura ativa […]

10 de Junho de 2013, 2 anos depois de ter aberto uma crise política com o propósito de derrubar o Governo e afundar Portugal

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Não se podem pedir sacrifícios sem se explicar a sua razão de ser, que finalidades e objectivos se perseguem, que destino irá ser dado ao produto daquilo de que abrimos mão. Quanto mais se exigir do povo, mais o povo exigirá dos que o governam.

[…]

Portugal tem de ser um País de justiça para todas as idades. Não podemos deixar que sejam os dois extremos da pirâmide etária, os mais velhos e os mais novos, a suportar os encargos sociais mais pesados das dificuldades do presente.

[…]

Os Portugueses anseiam por limpar Portugal, aspiram a um País mais são, mais limpo, não querem viver numa atmosfera carregada e irrespirável, numa paisagem cercada de lixo e desperdício.

[…]

Como avisei na altura devida, chegámos a uma situação insustentável.

[…]


10 de Junho de 2010, a 6 meses de eleições presidenciais

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A abstenção deve, além disso, fazer reflectir os agentes políticos. A confiança dos cidadãos nas instituições democráticas depende, em boa parte, da forma como aqueles que são eleitos actuam no desempenho das suas funções.

Se não tivermos órgãos de representação prestigiados, será difícil aumentar a participação dos eleitores e demonstrar-lhes que o seu voto é importante e útil para a formação das decisões de interesse geral.

A credibilidade dos agentes políticos é tanto mais necessária quanto a situação económica e financeira actual representa um desafio, sem precedentes nas últimas décadas, à qualidade das instituições democráticas, à competência e visão de futuro dos decisores, e ao empenhamento responsável e solidário de cada um dos cidadãos. Da minha parte, asseguro aos portugueses que, nas boas como nas más horas, estarei aqui.

[…]

Conforme já tenho dito, «a verdade gera confiança, a ilusão é fonte de descrença». Só uma informação correcta permite às pessoas fazerem as escolhas mais adequadas para acautelarem o seu futuro e o das suas famílias.

Temos, antes de mais, de saber extrair da actual situação as lições que se impõem.

De pouco adiantarão os diagnósticos e, ainda menos, as lamentações ou recriminações, se nada, entretanto, mudar nas atitudes e nos comportamentos.

Face às dificuldades e aos desafios que temos pela frente, é imperativo promover uma cultura de valores, uma cultura que contemple a dignidade das pessoas, incentive o esforço e o mérito e favoreça a coesão social.

[…]

Mais do que simples regras formais, terá de haver, sobretudo, uma clara presença de princípios éticos nas instituições, no mundo dos negócios e no mundo do trabalho. A justiça, a equidade e a responsabilidade social não podem ser letra morta, simples palavras de que só nos lembramos em momentos de apuros.

Tanto no Estado como na sociedade civil é preciso adoptar uma cultura de transparência e de prestação de contas.

Não esqueçamos que, na origem de alguns dos principais problemas que o mundo actualmente enfrenta, esteve a ausência de escrúpulos e de princípios por parte daqueles que abusaram da confiança neles depositada, prejudicando milhões de pessoas e acabando por comprometer o bem-estar de muitos mais.

Se há um ensinamento claro a retirar da conjuntura actual é o de que o desenvolvimento económico não pode processar-se à margem da responsabilidade social e do respeito por normativos éticos, que vinculam tanto os governos e os políticos, como os mercados, os empresários e os gestores.

[…]

Sabemos bem quais são os grandes desígnios nacionais. Resta sabermos colocar o País no rumo certo, introduzir as mudanças necessárias, reajustar os comportamentos e expectativas individuais, apostar no que é, de facto, essencial para o aumento da nossa capacidade competitiva.

10 de Junho de 2009, a 3 meses de eleições legislativas

Revolution through evolution

15 Years Olds At Greatest Risk Of Sexual Assault
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LGBT-Inclusive Policies Lead To Healthier Workplaces And (Possibly) Better Bottom Lines
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Meet the new wave of activists making feminism thrive in a digital age
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Mental Imagery May Hasten Recovery After Surgery
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More TV Time Equals Higher Consumption of Sweetened Beverages Among Children
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Four Lifestyle Changes Will Protect Your Heart and Significantly Reduce Your Risk of Death
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‘Lending Circles’ Help Low-Income Communities Join the Financial Mainstream, Study Suggests

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