É muito triste ver um palhaço a pedir esmola

Noutros casos, em que incluo a experiência portuguesa, o modelo social foi concretizado numa perspetiva centralizadora, de intervenção direta da administração do Estado, muitas vezes marginalizando a ação das organizações de base territorial.

Duplicou-se a infraestrutura de prestação de serviços, sendo que nem por isso se ganhou eficiência ou se pouparam recursos. Mais grave ainda, criou-se uma cultura de protecionismo social protagonizado pelo Estado, desresponsabilizando de algum modo os cidadãos e menosprezando os valores da cultura cívica, da participação, do voluntariado e do espírito de solidariedade.

Reformado de Belém

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Cavaco, admitindo que os seus discursos públicos resultem de um qualquer exercício lógico vertido em palavras, está neste passo a dizer à Nação que algo de muito errado foi feito em Portugal: o proteccionismo social por intervenção estatal.

O texto não o explicita, mas é de caras. Essa tal cultura maligna terá começado com o 25 de Abril, pelo menos, mais coisa e menos coisa. No entanto, às tantas, o ilustre palestrante até poderá ter como estabelecido que a terrível duplicação da “infraestrutura de prestação de serviços” tenha começado antes; quiçá 1926, 1928, 1932 ou 1933, por exemplo. Também não sabemos qual a data em que terá terminado a tortura do proteccionismo; portanto, sendo mais avisado concluir que não terminou coisíssima nenhuma. Daí termos o nosso magnífico Presidente da República a espalhar tão sábias e corajosas reflexões.

Contudo, a ser assim o que assim parece ser, decorre que o período entre 1985 e 1995, período esse que vários investigadores de nomeada já consideraram corresponder a uma duração que ronda os 10 anos, foi igualmente uma era desgraçada onde se desresponsabilizaram de algum modo os cidadãos e menosprezaram os valores da cultura cívica, da participação, do voluntariado e do espírito de solidariedade. Tudo isto, recorde-se, com duas maiorias absolutas no bucho. É do caralho, senhores ouvintes.

Mas nada disso importa perante o que mais importa: afinal, que Portugal será esse onde, e finalmente, seja possível “conferir uma dimensão mais humanizada à alternativa burocrática que o Estado oferece“? Será que já existiu no nosso glorioso passado? Será que está destinado ao nosso glorioso futuro? De certeza que não se trata de uma utopia? Felizmente, estas perguntas encontram resposta peremptória:

O que seria dos mais de dois milhões e meio de portugueses em risco de pobreza e exclusão social não fora o espírito solidário dos seus concidadãos e, permitam-me que o destaque, o trabalho dos muito milhares de voluntários que, junto com as instituições de solidariedade, têm feito chegar uma réstia de esperança e de dignidade a quem se viu numa situação de dependência e até de miséria?

Cá está. Não se pode ser mais claro. O homem que ocupa os altíssimos cargos do Estado desde 1980, e que junta ao poder político triunfal uma excelência académica ofuscante, a que soma a pureza moral que só aqueles que nasçam duas vezes poderão almejar imitar, está a dizer-nos que ainda não se inventou nada melhor do que a esmola para lidar com os miseráveis. E ele é o primeiro do regime, literalmente, a dar-se como exemplo: como conseguiria este pobre coitado viver num palácio daquele tamanhão sem a esmola que o Estado lhe dá?

6 thoughts on “É muito triste ver um palhaço a pedir esmola”

  1. é tão bafiento e falho de respeito pelas pessoas, este coiso…é verdade, chamaste-lhe palhaço,prepara-te para teres a justiça à canela, acicatada pela procuradora do senhor presidente.

  2. É impossível descer-se tanto! Viva a caridadezinha cristã! Com ela se amansa a fúria do povinho o que me vai permitindo encher os bolsos e gozar à grande! Que miserável tudo isto é!

  3. Este caseiro da quinta da troika levou os familiares com ele e vão fzendo maldades a todos os portugueses mas deixo lhe um conselho de borla —a paciencia tem limites—

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