Todos os artigos de Valupi

Cineterapia

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La cage dorée_Ruben Alves

“Já não vou ao cinema há mais de 20 anos”, dizia a minha mãe enquanto se preparava para sair. E lá foi. Ao cinema. Voltou feliz da vida. Adorou a “Gaiola Dourada”, um filme que “mostra mesmo o que é a vida dos emigrantes”, sentenciou sem margem para dúvidas.

Ao dia 9 de Outubro, fazendo fé no ICA, a primeira obra de Ruben Alves ultrapassou oficialmente os 700 mil espectadores – o que a coloca em 9º lugar na lista dos filmes mais vistos em Portugal desde 2004. Irá acabar nos 5 primeiros antes do final do ano, pelo menos, sendo “A Paixão de Cristo” o próximo gigante a ser derrubado dentro de uma ou duas semanas. É um sucesso quase chocante de tão surpreendente, que pede reflexão cinematográfica, sociológica e até antropológica.

Tudo neste filme, sem excepção, é banal. O enredo é simplório, as piadas são chochas ou gastas, as personagens são caricaturais, o trabalho dos actores é apenas o suficiente para ninguém se queixar, os clichés culturais são a matéria que enche os espaços e os modos do princípio ao fim. Mas com esta ressalva: estamos perante um filme francês. Isso, neste caso, implica ter valores de produção que facilitam a entrada na narrativa, implica ter uma montagem com eficácia comercial e implica ter o espectador francês como alvo prioritário da obra. Este último ponto, paradoxalmente, é o que acaba por explicar o sucesso do filme também em Portugal.

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“Não há nada de grave no comportamento de Rui Machete”

Verdade. Se o comportamento de Machete tivesse alguma coisa de grave, em que língua, viva ou morta, existente ou por inventar, conseguiríamos descrever o comportamento de Passos, Portas e Cavaco? Portanto, não, tenham lá a santa paciência, que aquilo que Machete fez, essa auto-humilhação de Portugal para angolano curtir, não tem nada de nada de nadinha de nada de grave. Verdade.

A única lição

A questão do chumbo do PEC IV é crucial em qualquer análise das causas da presente situação, mas não só pelo óbvio prejuízo financeiro, económico e social causado tanto pela abertura de uma crise política naquelas circunstâncias como pela entrega directa e alargada da soberania aos credores. Há um outro aspecto tão ou mais relevante.

A razão pela qual a direita, em geral, e o PSD, em especial, se sentiam tão ameaçados por Sócrates encontrava-se no seu carácter; o alvo de todas as calúnias, ora pois. Aquele socialista não se limitava a não ter medo da oligarquia – como a raiva que despertou em Belmiro de Azevedo e Soares dos Santos o demonstra à saciedade, por exemplo – igualmente o seu pensamento e tacto político o levava a conseguir conciliar agendas do agrado de empresários e do agrado de vastas camadas sociais, inclusive conseguindo esvaziar o BE das suas queridas e mediáticas bandeiras vanguardistas ou tão-só contemporâneas no campo dos direitos e dos costumes. Talvez o conflito com os professores tivesse chegado para retirar a maioria absoluta em 2009, mas, num universo paralelo onde a crise de 2008 não tivesse acontecido, quem sabe o que se teria passado? A dinâmica da requalificação, do investimento em ciência e tecnologia e do alargamento dos mercados exportadores só poderia melhorar o que já era notável: o começo da mudança de paradigma da economia portuguesa.

Olhemos, então, para a equipa de Sócrates no seu núcleo perene: Teixeira dos Santos, Santos Silva, Luís Amado, Pedro Silva Pereira, Vieira da Silva e Alberto Martins (primeiro como líder de bancada até 2009 e depois como ministro). Se reuníssemos as suas ideias sobre as origens da crise encontraríamos como mínimo denominador comum algo parecido com isto que Teixeira dos Santos verbalizou há dias:

O antigo ministro das Finanças Fernando Teixeira dos Santos afirmou hoje, em Braga, que a Europa não estava nem está ainda preparada para responder à crise e defendeu um orçamento federal para ajudar os países em dificuldades.

Teixeira dos Santos, que falava à margem de uma conferência na Universidade do Minho, disse que, neste momento, a Europa ainda não tem instrumentos de política orçamental para poder intervir, para poder suportar ou apoiar o esforço de crescimento dos países e para atenuar os impactos da austeridade nos países que têm processos de ajustamento.

“A Europa deu claramente mostras de que não tem instrumentos de intervenção”, disse.

Aludiu ao caso da Grécia, que pediu ajuda aos parceiros europeus mas a União Europeia “não tinha meios para lhe valer”, pelo que houve necessidade de recorrer a “um esquema de empréstimos bilaterais.

Este entendimento, que é uma posição de módica prudência face às evidências, caso tivesse sido mantido por um qualquer Governo português maioritário desde 2010 – o ano a seguir àquele em que a Europa apostou tudo no investimento público para evitar uma depressão e sair o mais rapidamente possível da recessão, o que gerou o aumento da dívida em todos os países europeus – levaria a que jamais o País se tivesse afundado num agravamento demente da crise como aquele a que assistimos em Março de 2011. E o que veio a seguir foi verdadeiramente desastroso, pois subiu ao poder um grupo de fanáticos e de incompetentes.

Em 2011, Portugal tinha um Governo cujo elenco era o que melhor conseguiria defender o interesse nacional face às alternativas em compita. Sim, a austeridade continuaria e os protestos de tudo e de todos igualmente. Mas não estaríamos mergulhados na miséria intelectual e ética de uma direita decadente. Esta é a única lição que se aproveita dos últimos dois anos e meio.

Avisa o maior especialista em Portugal na matéria

O primeiro-ministro avisa que este não é o tempo para ceder a propostas demagógicas e simplistas. Numa crítica direta à oposição, Pedro Passos Coelho diz que é preciso estar consciente da realidade do país.

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Passos, ao longo deste ano, tem largado invectivas contra a retórica, a demagogia e o populismo. Ao mesmo tempo, agarrou-se ao termo “realismo” como muleta discursiva para embrulhar qualquer medida que o Governo tome ou deixe de tomar. Mas Passos é o mesmo que fez uma campanha eleitoral demagógica e populista, apresentando propostas ultra-simplistas para uma realidade ao tempo já demasiado complexa para ser lidada sem um fundo consenso nacional entre os partidos do projecto europeu. Nessa altura, aqueles que apelavam ao realismo eram catalogados como mentirosos e delirantes por um Passos que nos garantiu ter uma alternativa muito melhor, muito mais fácil, muito mais real do que as “fantasias” de Sócrates, Barroso e Merkel.

Estamos, portanto, face a uma manifestação da loucura. A loucura tem de ser isto, ou também isto: a capacidade de afirmar uma coisa e o seu contrário sem responsabilização pela automaquia. Esta a hipótese bondosa, a de uma loucura generalizada, institucionalizada, onde o Presidente da República igualmente se apresenta louco, a sua palavra para nada valendo e, por isso, nada de errado encontrando no comportamento do primeiro-ministro. Uma loucura de regime, onde a maioria dos deputados faz com que a Assembleia da República seja cúmplice de dois outros órgãos de soberania actualmente sem representantes dignos do estatuto e do poder que lhes foi dado pelo Povo.

Esta situação é nova em Portugal. Não tínhamos defesas para ela e sentimo-nos, passados dois anos de loucura diária, em completo esgotamento de recursos mentais para lidar com a perversão política e cívica em curso. Eis o maior desafio lançado aos fundamentos da comunidade que somos, e queremos ser, desde o 25 de Novembro.

Que saudades deste brilhante comentador político

Se em Janeiro a posição de princípio de Passos Coelho sobre o TGV era a de que a obra deveria ser suspensa, então não se compreende que logo após a entrevista à RTP em que Manuela Ferreira Leite defendeu essa mesma suspensão, ele tivesse contribuído para a circulação do sound-byte “Passos Coelho defende o TGV, em nova divergência com a líder do PSD”. Ao mesmo tempo que silenciava por completo a questão da suspensão do investimento, o ponto nuclear da posição de Ferreira Leite.

Os objectivos de Pedro Passos Coelho eram óbvios: publicitar uma divergência com Manuela Ferreira acerca da recalendarização do TGV e dos compromissos já assumidos. Uma divergência que, vemo-lo agora, nem sequer existia. Mas foi assim que em Janeiro a notícia circulou pelos jornais, numa estratégia destinada a enfraquecer a liderança do PSD.

É evidente que, nestas circunstâncias, qualquer pessoa politicamente decente e leal teria sustentado com clareza a necessidade de suspender o TGV. Esse mesmo aspecto teria escorrido normalmente para a imprensa. Mas Pedro Passos Coelho entendeu que deveria fazer política de segunda categoria. E foi esta ambiguidade política impostora que eu critiquei no meu artigo e que outros na blogosfera até já tinham criticado em Janeiro, com os mesmos fundamentos.

Essa impostura atingiu o cúmulo na entrevista de domingo, no momento em que Passos Coelho apareceu a defender as mesmas ideias económicas de Manuela Ferreira Leite e, em particular, a suspensão do TGV. Ficámos todos a perceber que a maior e mais insanável divergência não é entre Pedro Passos Coelho e Manuela Ferreira Leite. É entre Passos Coelho e ele mesmo.

Lomba, 2009

Revolution through evolution

Women should ask male colleagues how much they earn, says UK minister
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Ho-hum reaction to shutdown says it all
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If you want to ‘read’ people better, read more literature
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Short Sleepers Most Likely to Be Drowsy Drivers
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Study Reveals Americans’ Surprising Response to Government During Great Recession
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You Say He’s Just a Friend, but Your Voice Says Differently
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3D Printing: The Greener Choice

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O Sol até mete frio

Estes exercícios de recordação – Sado-maluquismo – andam a ser feitos por quem? Os direitolas não os fazem, ou porque concordam que vale tudo para obter e manter o poder ou porque entram em processos de negação e recusam o confronto com a sua consciência. Os esquerdolas também não são muito entusiastas da coisa, porque o seu passado está igualmente cheio de misérias parecidas ou piores (dada a sua suposta ideologia) pelo que utilizam pinças para seleccionar com muito cuidado o que lhes pode ser útil para a cassete. Quem não tem parado de trazer o passado para o presente por causa do nosso futuro são aqueles que não saíram da sua posição desde o início da tragédia. Estes limitam-se a demonstrar que as suas ilações e avisos ao tempo se confirmaram plenamente. Plena, completa e absolutamente. E aí estão os factos, aí estão as declarações, aí estão os episódios onde se decidiu entregar ao casal Passos-Relvas e a Cavaco os destinos da comunidade sob uma inaudita crise político-financeira europeia e mundial. Isto arrasta dois considerandos.

Um que consiste em constatar que os permanentes ataques ao carácter de Sócrates e de quem com ele assumiu responsabilidades, ou meramente manifestou a sua opinião de apoio ao Governo socialista, não são acompanhados por um argumentário factual, documentado em declarações e decisões, antes se fica pela pura explosão de ódio adjectivo ou pelas deturpações cretinas (como a referência à meta dos 150 mil empregos, bandeira de campanha em 2005, ou ao aumento dos funcionários públicos em 2009, medida que recolheu apoio parlamentar unânime, por exemplo). É digno de estudo ver tantas pessoas há tanto tempo a alimentarem uma obsessão delirante como nunca tínhamos conhecido outra igual em democracia. A estupidez e o medo explicarão parte maior do fenómeno, mas não explicam tudo.

Outro, ainda mais grave e de consequências imprevisíveis, consiste na extensão e grau das contradições que os representantes do actual poder exibem. Como se lê neste artigo da Fernanda, e em tantos outros que temos feito ao longo destes dois anos e tal de enxovalho nacional, até um Presidente da República que gosta de se apresentar como uma autoridade moral para dar lições aos indígenas é capaz de garantir que o Sol mete frio e que o gelo pode incendiar o mar. Bastando que sirva a sua visceral sonsice, Cavaco contradiz-se sem pestanejar e declara exactamente o contrário do que outrora afirmou perante um poder de esquerda. E se isto é assim com o Chefe de Estado, com o primeiro-ministro, ministros, deputados e dirigentes do PSD e CDS o espectáculo das mentiras e contradições é assombroso. Não há termo de comparação. Não existe nenhum período da História – a não ser que recuemos à ditadura – onde se tenha testemunhado esta impunidade que escarnece alarvemente da nossa passividade e cobardia.

Seria de esperar que a imprensa chegasse para obrigar o actual poder a assumir a responsabilidade das suas canalhices perante a comunidade. Mas não sejamos rápidos a pôr as fichas nessa casa, pois a imprensa – tomada no seu conjunto e nas agendas dos grupos respectivos – foi uma das principais alavancas para estarmos como estamos.

Muito nos contam

5 535 104 – 4 996 074= 539 030. Ou seja, em 2013 votaram menos 500 mil eleitores nas autárquicas do que em 2009. Que aconteceu? Aconteceu que alguns morreram, outros estão gravemente doentes, outros estão acamados, outros estão cansados, outros tinham mais o que fazer e até ficaram com pena de não ter ido votar, outros estão deprimidos porque estão desempregados ou sem dinheiro suficiente para si e para os seus e, principalmente, há quem calcule que a emigração levou nos últimos anos uma média de 120 mil pessoas por ano para fora da Grei. Tudo somado e subtraído, votaram os mesmos que sempre votam dentro da normalidade.

O que é completamente anormal é a manutenção dos cadernos eleitorais com eleitores que não podem votar pela simples razão de já terem desaparecido do mapa. Corre a suspeita de que tal disfunção é do interesse do poder autárquico. Se assim for, essa é uma verdadeira corrupção de Estado em que não há órgão de soberania que escape à vergonha.

Coerências

Afinal, faz todo o sentido. Qual produtividade, qual quê. Qual competitividade, qual caralho. Trata-se é de tornar oficial o que é a prática corrente. Trata-se de aceitar a realidade, abraçar a realidade, sujeitarmo-nos à realidade. E a realidade é esta: aqueles portugueses que dominam o Parlamento, o Governo e a Presidência emporcalham diariamente a República com o seu desprezo pela nossa Independência.

Acabar com esses dois feriados foi até um favor que nos fizeram em nome da coerência.

Valeu a pena afundar o País, congratula-se o Montenegro

O líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro, reitera que este é o “momento da verdade” e que o caminho apontado pela oposição como a redução dos impostos, a subida dos salários da Função Pública e falta de rigor orçamental já foi testado em 2009. “Só que agora foi reeditado, já não é com José Sócrates”, sublinha.

O resultado, defende Luís Montenegro, foi “irem de mão estendida pedir ajuda e depois perderam as eleições.”

“Valeu ou não a pena o caminho que conduziu è negociação das metas e que conduziu o país a ter seis meses seguidos de descida da taxa de desemprego, o PIB aumentar no segundo trimestre e eventualmente também no terceiro trimestre?”, questiona.

Hoje, na Assembleia da República

Pedido de ajuda interna

A direita seríssima queria Portugal de tal modo condicionado financeiramente que esse constrangimento levasse a uma perda de soberania. Foi para isso que trabalharam desde que a crise grega rebentou e a resposta da Europa foi a da austeridade. Achavam que só assim conseguiriam derrotar Sócrates, como esta notícia – a única que relata o episódio – revela:

O presidente da Comissão Europeia comunicou privadamente ao líder do PSD que discordava por completo da estratégia do partido depois de Passos Coelho ter anunciado que era intenção dos sociais-democratas chumbar as medidas de austeridade do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) IV, apresentado pelo executivo em Bruxelas em Março. Nos argumentos de Durão Barroso, o pedido de ajuda português era inevitável e devia ser accionado pelo governo de José Sócrates ainda antes do Verão, quando os empréstimos de Junho tivessem de ser pagos pela República. Para o presidente da Comissão Europeia, o PSD poderia abster-se no parlamento na votação do PEC, não se comprometendo com qualquer medida que vinculasse o partido para 2012 e 2013. O congelamento das pensões, por exemplo – o ponto mais controverso para Passos Coelho – só teria efeitos práticos a partir do próximo ano. Viabilizando o PEC e pré-anunciando um chumbo ao Orçamento de 2012, Passos Coelho conseguiria, na opinião de Barroso, evitar um crise política nesta fase, ganhar tempo para que fosse o actual governo a fazer o pedido de ajuda externa e conquistar capital político na opinião pública para precipitar posteriormente eleições.

“Mas Passos Coelho estava a ser pressionado internamente”, disse ao i fonte próxima do presidente da Comissão Europeia, “e respondeu que não havia garantias de que o governo fosse mesmo pedir ajuda”.

Barroso temia que a traição ao País acabasse por cair em cima dos traidores. Os traidores temiam que o Governo socialista se conseguisse aguentar sem ter de pedir o empréstimo de emergência – e contavam com a cumplicidade parlamentar do BE e PCP. O que se passou a seguir, onde se inclui a conivência da actual liderança do PS com o bombardeamento constante ao longo de dois anos contra Sócrates e quem com ele assumiu responsabilidades governativas, trouxe-nos para o dia de hoje. Um dia, mais um, onde Portas fez figura de capataz em nome de um grupo de mentirosos, incompetentes e lunáticos que sacrificaram milhões de concidadãos na sua ambição violenta e violentadora.

Mas nem esta história que alterou devastadoramente a História chega para abrir os olhos da legião de sectários e analfabrutos tão úteis à oligarquia.

Comissão de Inquérito

Este Zeinal Bava de quem tanto agora se fala será o tal sabujo socrático que, de braço dado com outro desqualificado de nome Henrique Granadeiro, estava disposto a destruir a sua carreira e a ir de cana só para poder usar o nosso rico dinheirinho em ordem a comprar a TVI e despedir logo a excelente jornalista Moura Guedes que andava a apresentar provas semanais e irrefutáveis da roubalheira do Grande Satã no outlet, senhora que assim teria continuado a dar lições à justiça dos homens e dos deuses não fora a providencial intervenção do Rei de Espanha, também conhecido como o “Tromba Rija Africano”, o qual finalmente lá conseguiu safar o engenheiro daquelas sexta-feiras negras como o breu?