Todos os artigos de Valupi

O triunfo do laranjal

rsz_sócrates_-_audiências

O Sol também é um grande veículo de promoção e aperfeiçoamento do “género Sócrates” e na última sexta brindou-nos com esta informação que a imagem documenta – para além de igualmente ter deixado um pedido para se despedir o comentador recorrendo ao critério da popularidade. Vamos admitir, e sem custo, que não há qualquer engano na notícia, que os números serão os mais exactos que as audimetrias permitem apurar e vamos esquecer as diferenças de programação entre os canais e a opção de se ter posto Sócrates a disputar o horário de Marcelo. Sendo o caso, é caso para dizer que faz todo o sentido quando o associamos a outras manifestações sociais e políticas.

Sócrates anunciou logo de início que tinha aceitado o convite da RTP para, e principalmente, ser a voz de uma leitura alternativa sobre os acontecimentos que levaram à sua demissão e derrota eleitoral, mais o que daí se originou e desenvolveu. Como fez questão de deixar explícito, não via o actual PS interessado nessa “narrativa”, pelo que sentia ser Abril de 2013 a data propícia para voltar aos palcos da política nacional, agora como mero opinador. E assim fez. Daí para cá, tem sido infatigável na tentativa de esclarecimento de factos passados e na crítica aos factos presentes, assumindo concordâncias e divergências seja com quem for com pleno à-vontade. No entanto, quem esperava ver Sócrates interessado em desgastar Seguro, quanto mais atacá-lo, tem passado fome e sede, pois a lealdade partidária – ou pessoal, sei lá – é uma constante nas suas intervenções. Temos 9 meses de Sócrates aos domingos, quais são os resultados no espaço público?

Continuar a lerO triunfo do laranjal

O texto mais tonto de 2014 já tem um fortíssimo candidato

Este: A proposta de Pedro Magalhães que assusta os partidos

Porquê? Porque o supino Ricardo começa por descrever e apoiar o esboço de uma ideia que terá os seus méritos mas também os seus riscos, daí passa para a exposição de um desses riscos e acaba a festejar em registo circense a perversão absoluta da ideia que começou por defender.

Quando até o director do semanário mais prestigiado em Portugal (enfim, pois, é o que temos…) resfolega no asco larvar aos partidos e aos políticos, podemos ter a certeza de que estes são tempos de populismo generalizado, opressor e, portanto, fascista.

És isto, Portugal? És

2014-01-04002614_ca967162-b341-4feb-88dd-fecb0766bf67$$738D42D9-134C-4FBE-A85A-DA00E83FDC20$$6B5EA963-F719-4F5C-8549-3D88B3F86EAA$$imagem_capa$$pt$$1

Como se pode ler, a capa do CM noticia que o “Governo ataca 110 mil reformados e tira 264 milhões à função pública“. Mas este título, na sua literalidade, é um mimo de ambiguidade, apelando ao enfoque na função pública e no efeito da sua redução – ideia que agradará ao público do jornal ou que o deixa indiferente. Porém, a chamada de 1ª página para uma intenção do Governo não tem visibilidade. A caixa respectiva, já de si discreta face aos outros elementos gráficos da composição, é colocada na metade superior da mancha, junto do cabeçalho e da publicidade, levando a uma de duas consequências: ou é lida em primeiro lugar, o que aumenta a probabilidade de sair logo da atenção do leitor, ou nem sequer é lida, pois o olhar é automaticamente puxado para o destaque central dado à notícia acerca da mãe de Sócrates e logo depois para as fotografias que exibem o Cristiano Ronaldo, um espectacular acidente, uma gaja boa, um automóvel e um bolo-rei. Esta capa funciona como o letreiro de uma única mensagem, sendo o resto à sua volta apenas elementos cujo significado se transforma em sinal. Sinalizam a hierarquia da página, trabalham para enfatizar a semântica da notícia principal.

De um ponto de vista empresarial, o CM deve conseguir bom lucro com a exploração do “género Sócrates”. Terão uma equipa especializada na galinha dos ovos de ouro, ou dez, e perseguem o seu alvo sem parar como fazem os paparazzi com as maiores celebridades. Qualquer material que permita levantar suspeitas é utilizado, sejam almoços com estes e com aqueles, sejam meros telefonemas não se sabe para quem. E quando não se encontra material nessas óptimas condições, inventa-se. Aliás, o “género Sócrates” implica que toda e qualquer notícia é – e independentemente do seu conteúdo – uma fonte de suspeitas. Assim, se algum dia o CM noticiar que Sócrates se lançou ao mar para salvar uma menina de 4 anos, podemos ter a certeza que o efeito pretendido nos seus leitores é este: “Que grande cabrão este Sócrates que agora até já anda para aí a salvar miúdas de morrerem afogadas quando devia era estar preso!“.

Acontece que os ganhos comerciais do CM não se comparam com os ganhos políticos para a direita portuguesa. Num país de misérias variadas, este jornal tornou-se no campeão das vendas por se ter especializado na exploração do que há de mais sórdido na sociedade. Especialmente habilidoso é o posicionamento populista, ideal para este período de crise onde haja políticos sem escrúpulos. Cavaco, Passos e Portas correspondem na perfeição ao protótipo dos populistas à portuguesa, misturando mentiras sistemáticas, desprezo absoluto pela palavra dada e ganância desenfreada pelo poder. Para o CM, basta ir canalizando a fúria da turbamulta contra os políticos para os bodes expiatórios que, grande coincidência, estão todos no PS. Quão mais fortes forem, mais atacados serão. Com Sócrates, conseguiram uma estupenda vitória, pois obtiveram carta branca para um processo de permanente difamação e calúnia. O desgaste constante da presa e o emporcalhamento do espaço público geram um desânimo generalizado que reforça a passividade. Ganham os populistas suaves, os detentores da “verdade”, os que prometem a cirurgia estética sem dor e que depois tomam de assalto o Estado e o saqueiam e destroem enquanto puderem.

O que o CM faz tem vastas repercussões sociológicas e políticas. E é, também aqui, fascinante ver o modo cúmplice como a esquerda pura e verdadeira se comporta – não gastando uma caloria com a canalhice e aparentando não perceber que o cerco a Sócrates tem sido uma das mais eficazes manobras de condicionamento popular por parte daqueles que tudo farão para aumentarem as desigualdades entre os portugueses que vivem em Portugal.

Podemos criar uma família, uma empresa ou um partido só com estas regras

EMBRACE THE 70% SOLUTION
If there’s 70% confidence, Marines make those choices… now. “Between a good decision now and a great decision later, you choose the good decision now,” says Capt. Jake Owens.

DON’T LEGISLATE THE “HOW”
There’s no manual for advisers in Afghanistan. “A large part of our job is just figuring out what our job is,” says Lt. Michael LeBlanc. So they follow “the commander’s intent”: Commanders say what results should look like and leave the rest up to Marines.

FALL IN LOVE WITH FLEXIBILITY
“Don’t fall in love with the plan,” says Capt. Richard L. Shinn. Marines are taught that “no plan ever survives first contact.”

BE A “GOOD MOTHERFUCKER”
It’s Marine shorthand for being a good person. Do you place your mission first? Do you take care of your people? Do you go the extra yard? Do you give a damn? “Your reputation is out there,” Treglia says. “I’ll ask a guy I know, ‘Is this guy a good motherfucker?’ If he is, then he’s in the good motherfucker club. And if he’s not, fuck him.”

LEAD OR DIE

João Duque e a panspermia lusitana

Hoje, no Fórum da TSF, João Duque apresentou para espanto dos simples esta épica visão:

Terceira ideia – aproveitar bem a nossa emigração. Nós sabemos que o nosso mercado de trabalho está muito deprimido, há poucas oportunidades no mercado de trabalho e infelizmente os nossos quadros técnicos e os nossos jovens têm estado a sair de Portugal. Mas podemos olhar para esta saída de duas maneiras: ou pelo lado muito pessimista das lágrimas ou pela óptica um bocadinho mais optimista do sorriso. E aquilo que eu espero, sinceramente, é que esta nova diáspora – que é uma nova diáspora que, pela primeira vez eu sinto na minha vida, é uma diáspora educada, que tem aspirações e que tem capacidade para ascender a lugares de decisão nas organizações onde vai entrar – possa no período de 10 a 15 anos tomar lugar nos órgãos de decisão dessas empresas e fazer dessa diáspora aquilo que nós muito desejamos, que é: uma diáspora a puxar pelos produtos nacionais, pela prestação de serviços e fornecimento de produtos com valor acrescentado nacional, e que possam mais tarde vir a conduzir para Portugal investimento dessas empresas – e provavelmente, eu diria, a virem eles a lideraram essas empresas e essas participações e esses investimentos em Portugal porque são as pessoas mais capazes para o fazerem a soldo dessas empresas estrangeiras. Portanto, eu diria que 2014 pode ser também já um ano nesse sentido, que é o aproveitamento da nossa diáspora fora de Portugal.

Há várias ideias de arrebimbomalho aqui amassadas. Começando pela última, temos de louvar a opção do pensador pelo aproveitamento da “nossa diáspora fora de Portugal” tendo em conta o péssimo estado da diáspora dentro do País. Depois, é também enternecedor registar o conselho para sorrir perante o fenómeno da emigração cujos números já ultrapassam os da década de 60. Se sorrirmos, e isso está provado, os problemas ficam logo mais leves ou até desaparecem. Mas a manilha deste Duque visionário está guardada no homérico plano para tomar conta das empresas estrangeiras. A coisa não tem como falhar: estamos perante a 1ª diáspora educada quem tem educação vai trepar pelas hierarquias das organizações como macacos à procura de banana tendo em conta que no estrangeiro há pouca gente com as capacidades intelectuais e morais desta diáspora, chegar ao topo das empresas é canja lá chegados aos gabinetes onde se põe e dispõe, alteram de imediato as ordens de compra e passam a encomendar cenas de Portugal, desde serviços de consultoria a queijos, vinho do Porto e sapatos giros não contentes, ainda conseguem que as empresas decidam passar a investir em Portugal pelo simples facto de terem portugueses a trabalharem para elas last but not least, todo o dinheiro que virá encher Portugal de investimento terá de ficar nas mãos da diáspora, a qual, depois de 10 ou 15 anos a aperfeiçoar o sacanço da massa à estranja, é quem deve mui justamente usufrur das benesses alcançadas com tanto esforço. O ás de trunfo exibe-o Duque ao concluir que 2014 já dá para apreciar esta economia planificada em acção, qual esperar 15 anos qual quê. Andamos a ejacular sementes com pujança para os óvulos corporativos além-fronteiras há tempo suficiente para podermos tomar posse dos seus activos este ano mesmo.

O que aqui temos chapado com clareza meridiana é o sonho de um pacóvio alucinado. É deste material que se faz parte maior da direita portuguesa, são merceeiros armados em doutores. Uma sua alma gémea também escreveu há dias um panfleto de igual sentido –A emigração é mesmo uma desgraça? – enaltecendo os heróis que não tem essas pieguices de ficarem a viver na terra onde nasceram e estudaram. Esta é a voz da oligarquia, para quem as crises económicas podem ser extraordinárias oportunidades para ganhos financeiros e/ou políticos. Na oligarquia, essa torre de marfim, os indivíduos que compõem o suporte da comunidade estão lá muito ao longe, são pontos moventes na paisagem, sem rosto e sem voz. Por isso é fácil sorrir durante uma crise desta dimensão, brincar no Excel, delirar com reengenharias económicas e sociais, desprezar a Lei e a História, encher a boca com esse ódio ancestral nascido do medo. O ódio aos pobres.

Tens toda a razão, importa não esquecer

 

Importa não esquecer que Portugal chegou, no início de 2011, a uma situação de colapso financeiro iminente, que levou o Governo de então a solicitar o auxílio de emergência das instituições internacionais.

Hoje, existe a consciência clara de que não era possível continuar a caminhar rumo àquilo que, na altura devida, classifiquei de “situação explosiva”.

Cavaco, 2014

__

Tal como no discurso de tomada de posse, em 9 de Março de 2011, não se encontra qualquer referência ao contexto e consequências das crises mundiais e europeias que condicionavam as finanças portuguesas desde 2008, assim em 2014 Cavaco apaga o facto de ter viabilizado um Governo minoritário que estava condenado ao boicote sistemático e rasura o PEC IV, com todo o apoio europeu que congregou, só para poder repetir a cassete da bancarrota por culpa de um partido e de um homem.

Acontece, porém, que Cavaco não está sozinho na vilania. De um lado, os vitoriosos do pote aplaudem consolados. Do outro lado, a esquerda pura e verdadeira sorri em consolo.

Perdidos

2013 é um ano de perdas. As duas maiores, adentro do universo desta minha actividade blogosférica, foram as mortes de João Pinto e Castro e Osvaldo de Castro – com estas coincidências tétricas: ambos com o mesmo apelido, quase a mesma idade, falecidos quase no mesmo dia, pelo mesmo tipo de patologia, e exemplo ambos do melhor que a nossa comunidade foi e é. Dois desaparecimentos que transcendem as perdas para as famílias e amigos, pois muito ainda tinham para nos dar. A morte como derrota do sentido; e numa altura em que o regime se afundou no absurdo institucionalizado.

Assistir à implosão do Governo com as saídas de Relvas e Gaspar e a demissão de Portas, a que se junta o que cada um deles verbalizou nesses actos, e constatar que nem isso foi suficiente para derrubar Passos é uma dessas grandes experiências até à data supostamente impossíveis na democracia portuguesa. Só que o País tem um Presidente da República como não houve outro igual, e se espera não volte a haver. É alguém cujo percurso político o levou a ficar rodeado de escroques, os quais nunca atacou e até protegeu, alguém que patrocinou uma inaudita e canalha golpada eleitoral, alguém que apelou ao derrube de um Governo pela rua alegando que se tinha chegado ao limite dos “sacrifícios” e que depois passou a levar ao colo um Governo cujos responsáveis exploraram a crise para ir ao pote e lá chegados de imediato multiplicaram por 2, 5 ou 10 esses tais sacrifícios. Esta sórdida figura está sintonizada com aqueles que depois de anos a caluniarem por todos os meios disponíveis os adversários no exercício de funções governativas, recorrendo a poderosos agentes da Justiça e da imprensa para violentarem o espaço público à outrance, estão dispostos a espezinharem a Constituição na cobiça de aproveitarem a perda da soberania para alterarem os equilíbrios e parâmetros sociais que têm vindo a ser construídos demorada e penosamente desde o 25 de Abril. Foi Cavaco quem manobrou com eficácia para impor a continuidade de um Executivo que tinha perdido a sua legitimidade política 3 vezes de seguida no espaço de uma semana. Cavaco, pois, é o político mais poderoso em Portugal desde 1989.

Continuar a lerPerdidos

Nogueira Leite, filho, és mesmo tu?

Nojeira Leite 2

Ao ler isto, na semana passada, fui teletransportado para aqui. O aqui é um texto de Paulo Pinto Mascarenhas a convidar os seus leitores no Facebook a olharem para as capas do Correio da Manhã dos últimos 15 dias (o texto é de 5 de Dezembro) e, face à evidência das parangonas, concluírem com ele que é um disparate tanto rotular o jornal de apoiante do Governo como achar que exista por lá alguma perseguição a Sócrates.

Este Mascarenhas nasceu com 40 anos de atraso. Teria tido uma carreira fulgurante na PIDE, não fora o atraso na chegada. Mas ele venceu os constrangimentos espácio-temporais e encontrou o palco perfeito para a sua vocação, o CM, depois de ter provado estar à altura da missão no jornal i. Foi lá que sacou uma 1ª página com a “revelação” da identidade de alguém que, entre outras facetas de uma actividade social isenta de qualquer ilegalidade ou relevância política, escrevia em blogues. Porém, como o que escrevia desagradava ao Mascarenhas e vendo nisso a ocasião para despejar um balde de merda na ventoinha, o Mascarenhas tratou de lhe mostrar para que serve realmente uma carteira de jornalista quando na posse de um pulha. Octávio Ribeiro e Eduardo Dâmaso, seguindo a operação de binóculos, terão olhado consolados um para o outro e decidiram que o seu quotidiano profissional seria muito mais agradável, e produtivo, com aquele carrasco anti-xuxas na equipa.

Continuar a lerNogueira Leite, filho, és mesmo tu?