O triunfo do laranjal

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O Sol também é um grande veículo de promoção e aperfeiçoamento do “género Sócrates” e na última sexta brindou-nos com esta informação que a imagem documenta – para além de igualmente ter deixado um pedido para se despedir o comentador recorrendo ao critério da popularidade. Vamos admitir, e sem custo, que não há qualquer engano na notícia, que os números serão os mais exactos que as audimetrias permitem apurar e vamos esquecer as diferenças de programação entre os canais e a opção de se ter posto Sócrates a disputar o horário de Marcelo. Sendo o caso, é caso para dizer que faz todo o sentido quando o associamos a outras manifestações sociais e políticas.

Sócrates anunciou logo de início que tinha aceitado o convite da RTP para, e principalmente, ser a voz de uma leitura alternativa sobre os acontecimentos que levaram à sua demissão e derrota eleitoral, mais o que daí se originou e desenvolveu. Como fez questão de deixar explícito, não via o actual PS interessado nessa “narrativa”, pelo que sentia ser Abril de 2013 a data propícia para voltar aos palcos da política nacional, agora como mero opinador. E assim fez. Daí para cá, tem sido infatigável na tentativa de esclarecimento de factos passados e na crítica aos factos presentes, assumindo concordâncias e divergências seja com quem for com pleno à-vontade. No entanto, quem esperava ver Sócrates interessado em desgastar Seguro, quanto mais atacá-lo, tem passado fome e sede, pois a lealdade partidária – ou pessoal, sei lá – é uma constante nas suas intervenções. Temos 9 meses de Sócrates aos domingos, quais são os resultados no espaço público?

Há duas manifestações do regresso de Sócrates que, embora distintas, são similares. A primeira é o esvaziamento do discurso do ódio em modo febril e obsessivo – algo que foi reactualizado e alimentado pelo Governo, maioria e arraia-miúda fanática em crescendo logo a partir do começo de 2012, altura em que perceberam o erro da sua estratégia da austeridade máxima à cabeça e à maluca. Agora, com o homem aí exposto para o que der e vier, não só não aparece nenhum valente da direita a oferecer-se para um debate com Sócrates onde o levasse ao tapete no 1º assalto, tantas as malfeitorias do mafarrico à disposição, como parte da comunidade que alinhou nas campanhas negras, nem que fosse por aceitá-las passivamente, mudou de opinião face à razoabilidade e coerência do seu discurso – finalmente com um exemplo colossal para ser comparado: Passos Coelho. A segunda é a completa ineficácia da sua mensagem. A narrativa do PEC IV e do seu contexto de crise europeia não conquistou adeptos para além daqueles que já tinha. E percebe-se, entende-se e compreende-se facilmente porquê: o tema é demasiado complexo para a cognição mediana no espaço mediático e aqueles que se aproveitaram dessa situação para interromperem uma legislatura, os quais vão desde o CDS ao PCP, teriam de abandonar a sua identidade ideológica para reconhecerem que foram oportunistas e/ou sectários. Ora, tal não vai acontecer, o que gera esse silenciamento sobre o tema; e isto apesar de figuras influentes e tão contrastantes, como Carlos Carvalhas e Lobo Xavier, por exemplo, já terem admitido que o País tomou a pior das decisões ao chumbar o PEC IV.

Não ajuda nada para as suas audiências que Sócrates seja exemplarmente decente, obstinadamente pedagógico e cristalinamente apaixonado pelas causas públicas. Essas características – etimologicamente, essas virtudes – afastam-no na compita do padrão dos seus pares televisivos, aquela mistura de soberba debochada, só ao alcance de quem é sócio de um poderoso escritório de advogados, com a antropologia da Feira da Malveira, onde se aprende a lidar com o povoléu enquanto se fazem negócios. Podemos, e agradecendo ao grande arquitecto, ficar pela capa do Sol para tirar a pinta a um país que prefere, e de longe, Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes e Morais Sarmento nas suas casas e nas suas cabeças. É um país onde o laranjal esmaga a concorrência e invade a maior parte dos principais espaços de opinião política. É um Portugal que tem exactamente o que merece.

14 thoughts on “O triunfo do laranjal”

  1. Para além da desinformação que continua em tudo o que diz respeito a Sócrates – vide p. ex., o comentário de Rangel no “Público” de hoje a propósito da reunião com a comissão do Parlamento Europeu – temos a “graça” da “flexibilidade de horário” com que a RTP nos brinda para acedermos aos comentários de José Sócrates…! E decididamente, ele não é um comentador á procura de “tachos” nem de “claques”…Oxalá que a sementeira que está a fazer resulte num desabrochar de novas mentes, em que a politica da RES PÚBLICA volte a ter a dignidade dos ideais de Abril…! apesar da mentalidade generalizada

  2. ainda hoje me passei por causa disso. ouvir os comentários do Sócrates sempre foi para um nicho, talvez o nicho das audiências de agora – antes era a malina curiosa e invejosa a fazer número. ficam os que ainda podem, através de textos como este ou de oralidades, lançar alguma inteligência para o espaço individual tornado público. ficam os bons e é um orgulho no meio de tanta coisa podre.

  3. Será? ainda há gente que acha que o homem sendo fixe é pouco recomendável tecer-lhe elogios ou parecer aproximar-se mas talvez valha a pena ver as visualizações no youtub ou em alguns blogs e depois sim fazer contas certas assim não vou por aí por muito que custe ainda a muitos.

  4. Tem piada que dos 19,5% que vêm o Morais Sarmento não reza a história (se lermos as notícias da semana, Morais Sarmento tem pouco impacto na opinião pública). Mas, utilizando esse critério, os 9,8% que vêm o Sócrates valem pelos 31,4% do Professor Marcelo.

    Por outro lado, Manuela Ferreira Leite nem aparece na lista; suponho que isso iria dar cabo da pimbalógica associada ao gráfico. Pior que tudo: o que é escutado pelos <9% de audiência de Ferreira Leite e pelos 10% de Sócrates é o que a rapaziada mais gosta de falar, durante a semana…

  5. SERÁ O SÓCRATES O ÚNICO CULPADO PELO ESTADO DA NAÇÃO?

    Tudo começou pela gestão obediente de Cavaco Silva enquanto 1º ministro relativamente à então CEE, altura em que o governo se permitiu autorizar que a CEE dissesse que existiam excedentes de produção disto e daquilo, pagando a agricultores, pescadores, industriais, etc., para NÃO PRODUZIREM.

    Para além disso, foi nessa altura que começaram os grandes esquemas financeiros, nomeadamente na bolsa e também na banca.

    Paralelamente, Cavaco Silva permitiu, ao não criar condições para vigilância dos destinos das verbas, que milhões fossem desviados sem que fossem aplicados no desenvolvimento da economia.
    A responsabilidade era do governo, que não a teve.

    Depois, tivemos Guterres que nada fez e só gastou, para além das fraudes e dos “jobs for the boys”.

    Tivemos Durão Barroso que ia muito bem até que misteriosamente borrifou-se para o país e, ignorando o que são os compromissos de um primeiro-ministro, foi ganhar 25000 euros/mês mais outras mordomias para a UE.

    Seguiu-se Santana Lopes, um governo condenado a ser demitido, alvo de uma manobra da Maçonaria com a colaboração do próprio PSD até que caiu e, finalmente Sócrates, um matarruano com a chico-espertice necessária, com uma lábia sem precedentes, que destruiu o resto da economia.

    Por fim, chega a altura de Passos Coelho que, ao invés de fazer o que fazem todos os economistas com juízo que é baixar os impostos para atrair investidores, aumenta desmesuradamente a carga fiscal, provocando falências, desemprego, ao mesmo tempo que um ministro com problemas curriculares convida os portugueses a emigrarem se quiserem sobreviver.

    Os grandes interesses do PSD e do PS, tutelados pelas sociedades secretas, continuam unidos num elitismo para sugar Portugal e obedecerem a grupos económicos Portugueses e estrangeiros.

  6. A propósito da saga demente e cortejo fúnebre decadente-deprimente de bajulação e adoração ao querido líder, o Pinóquio, só existem 4 coisas a dizer:

    Maior miséria intelectual é impossível.

  7. oh, nuno miranda! então o barroso ia muito bem?! diga lá alguma coisa que o gajo tenha feito?
    os submarinos? o citybank? a ilha do pereira Coutinho e os terrenos da Falagueira? a, felizmente abortada, venda da galp ao carlucci+ângelo? a Somague? a recessão, quando a espanha crescia 4%? a segurança social nas lonas? as exportações a definharam (como agora estão outra vez)? o investimento a zero? …
    porra pá, és mesmo matarruano!

  8. Sócrates é um grande político, mas fracassou como comentador – já se antevia, aliás. Get over it e deixa de dizer mal do país, dos outros. Um pouco de terapia fazia-te bem.

  9. Ó nuno, diz-nos o que fez o socas para arrebentar com a economia tuga que vinha a crescer como 10% ao ano antes dele…oh wait…a economia já tinha sido esburacada pelo cavaquinho.

  10. E desculpa lá o homem por ter apostado na tecnologia, inovação e investigação, que isto de um país pequeno e sem recursos precisa é de lavoura.

  11. Alguns dos comentadores que opinaram antes, devem
    estar contaminados pelos fumos do laboratório da Mar-
    meleira por outro lado, não me parece justo estar a
    comparar diferentes programas a saber;
    – O prof. Martelo tem banca de barbaridades, não faz
    análise politíca, fala de tudo e mais o resto, tanto dá
    para o sim como para o não!
    – O ganda nóia toda a gente sabe ser o “garganta funda”
    de S.Bento com uns jeitinhos para Belém, falta-lhe o
    tal bocadinho que, poderia fazer dele um politítco!
    – Que dizer sobre esse grande comentadeiro conheci-
    do por Sarnento, parece que é … não é?
    Resumindo e concluindo, não se pode comparar a
    análise politíca com os “fait divers” das colunas, ditas
    sociais, os portugueses não são burros!!!

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