Perdidos

2013 é um ano de perdas. As duas maiores, adentro do universo desta minha actividade blogosférica, foram as mortes de João Pinto e Castro e Osvaldo de Castro – com estas coincidências tétricas: ambos com o mesmo apelido, quase a mesma idade, falecidos quase no mesmo dia, pelo mesmo tipo de patologia, e exemplo ambos do melhor que a nossa comunidade foi e é. Dois desaparecimentos que transcendem as perdas para as famílias e amigos, pois muito ainda tinham para nos dar. A morte como derrota do sentido; e numa altura em que o regime se afundou no absurdo institucionalizado.

Assistir à implosão do Governo com as saídas de Relvas e Gaspar e a demissão de Portas, a que se junta o que cada um deles verbalizou nesses actos, e constatar que nem isso foi suficiente para derrubar Passos é uma dessas grandes experiências até à data supostamente impossíveis na democracia portuguesa. Só que o País tem um Presidente da República como não houve outro igual, e se espera não volte a haver. É alguém cujo percurso político o levou a ficar rodeado de escroques, os quais nunca atacou e até protegeu, alguém que patrocinou uma inaudita e canalha golpada eleitoral, alguém que apelou ao derrube de um Governo pela rua alegando que se tinha chegado ao limite dos “sacrifícios” e que depois passou a levar ao colo um Governo cujos responsáveis exploraram a crise para ir ao pote e lá chegados de imediato multiplicaram por 2, 5 ou 10 esses tais sacrifícios. Esta sórdida figura está sintonizada com aqueles que depois de anos a caluniarem por todos os meios disponíveis os adversários no exercício de funções governativas, recorrendo a poderosos agentes da Justiça e da imprensa para violentarem o espaço público à outrance, estão dispostos a espezinharem a Constituição na cobiça de aproveitarem a perda da soberania para alterarem os equilíbrios e parâmetros sociais que têm vindo a ser construídos demorada e penosamente desde o 25 de Abril. Foi Cavaco quem manobrou com eficácia para impor a continuidade de um Executivo que tinha perdido a sua legitimidade política 3 vezes de seguida no espaço de uma semana. Cavaco, pois, é o político mais poderoso em Portugal desde 1989.

Finalmente, a resposta da oposição merece um adjectivo que a caracteriza na perfeição: inane. Os independentes da esquerda pura e verdadeira puxados por Rui Tavares e Carvalho da Silva não passam de um magote de boas intenções que o Inferno terá todo o gosto em reduzir a cinzas. O BE é uma tragédia bicéfala, sendo que a bicefalia resulta da divisão entre os interesses do partido e os interesses de Louçã. Aquilo que está a acontecer é a natural consequência do que aconteceu desde a fundação do Bloco, nem mais e nem menos. O PCP é a mais conservadora das organizações nacionais, superando largamente o conservadorismo da Igreja Católica. Nos católicos é possível encontrar vozes diversificadas, e divergências face à doutrina tal como esta se promulga em Roma, que jamais seriam admitidas pela Soeiro Pereira Gomes. Os comunistas portugueses não fizeram o aggiornamento para a democracia, antecipando – e com razão – a sua futura irrelevância. Assim, e desde o 25 de Novembro, mantêm-se barricados num sectarismo d’aço e na clandestinidade – mas com esta diferença: não se importam nada de sacar dinheiro ao Estado que depois boicotam sistematicamente. O PS está entregue a um sonso egocêntrico que tem sido o que de melhor poderia ter acontecido a Passos, Portas e Cavaco. O facto de se manter apesar da constante deslealdade para com o próprio partido que chefia revela uma estrutura sem lideranças. Ninguém se salva no PS, sejam actuais ou antigos dirigentes e militantes, ficando Seguro, afinal, como o sintoma mais visível de uma doença colectiva.

O cenário é desolador. A sangria colectiva que leva os mais jovens, produtivos e criativos a saírem do País também explica a apatia dos que ficam, muitos criados no tempo em que suportarem calados a miséria reinante era a única forma de defesa que concebiam. Estamos perdidos, é a puta da verdade. Que fazer? Procurar pontos de referência. Por exemplo, recordar a vida de Osvaldo de Castro, reler João Pinto e Castro. Não são eles que precisam da nossa lembrança saudosa, somos nós que precisamos da sua saudosa presença. Para os homenagear da única forma que faz jus ao seu legado, avisando o destino de que não vamos ficar à sua espera para nos metermos ao caminho.

10 thoughts on “Perdidos”

  1. Pesquisava todos os días, o “Carta a García”. Os seus comentarios eram breves, lindos, generosos e frescos ; sempre bem acompanhados de videos , notícias , fotos, tudo interessante e atualizado. Esteve muito tempo a vê-lo apagado com a esperança de que o autor retomara à escrita, depois dum largo tempo chegou-me à noticia da sua morte,
    Dende aquí a minha homenagem e gratitude.
    Bom ano para todos.

  2. Não fora um pouco de optimismo bebido na leitura de ” O Inicio do Infinito” do autor David Deutsch e só me apetecia dizer com o Val: mas que “puta de verdade”.

  3. Osvaldo Castro e João Pinto e Castro foram, quanto a mim, dois eminentes estadistas portugueses sendo que Osvaldo Castro chegou a deputado e um dia a história venha a referi-los. Gostava de os ler. Mais dificuldade sentia com João Pinto e Castro porque a matéria era economia e de economia percebo menos, pelo menos nos aspectos técnicos. Se a história não os referir é porque caímos numa ditadura e estejam onde estiver os dois vão notar o quanto foi inglórias as suas lutas. Quanto ao texto Val ali está tudo dito. Este Portugal vai mal e não é recomendável. Um bom dois mil e catorze para si e todos os que passam por aqui.

  4. Val, impressiona-me tanto vê-lo começar o ano dizendo que estamos perdidos que me sinto obrigada a vir aqui contradizê-lo. Estaremos mesmo perdidos? As razões que invoca são fortes, as mortes são dolorosas, sim, os medíocres que ficam são um desconsolo, os que partem fazem falta, sim, tudo isso é verdade. Mas há ainda muita inteligência e ironia e você é disso um brilhante exemplo. A mim isso alegra-me e dá-me esperança. E como tem certamente muitos leitores, faça-nos o favor de considerar que entre nós ainda haverá uma quantidade de gente interessante…
    Ainda somos portanto bastantes. Teremos que fazer outra revolução? Pois seja.

  5. Queridos amigos, desejo-vos o melhor 2014 de sempre. Abraços.
    __

    Ariane, só uma correcção: não comecei o ano a dizer que estamos perdidos, acabei foi 2013 a dizer que foi um ano de perdas.

    E é bom esse sentimento de nos confrontarmos com o estado de perdição. Porque, quando nos sabemos perdidos, o menor sinal pode ser a descoberta do caminho.

    O ano novo para mim, quanto à escrita, começou exactamente na linha do apelo que fazes. Lançando um olhar para essa data redonda dos 40 anos de Abril e fazendo a pergunta que se impõe: qual é o sentido que lhe queremos dar? Seja qual for a resposta, mesmo a de declarar esse ciclo encerrado, será por aí que vamos, em cima da História e por dentro da comunidade. Contigo e com tantos mais, pois claro.

  6. mdsol, sim, um bom ano, como todos, afinal. E bons dias, bons momentos e bons encontros – dizem que é para isso que cá estamos (pelo menos, alguns de nós).

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