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José Lello

Nunca falei com ele. Creio que nem sequer trocámos vogais e consoantes numa caixa de comentários, ao contrário do que aconteceu com João Pinto e Castro, falecido a 13 de Junho de 2013 com 62 anos, e Osvaldo de Castro, falecido a 20 de Junho de 2013 com 66 anos, duas pessoas com quem se estabeleceu, embora de diferente modo, um convívio blogosférico feito de simpatia, empatia e admiração.

A ligar as três personalidades nestas palavras está a morte prematura de quem viveu apaixonadamente a política, a cidade e a comunidade. É só isso que conheço deles na distância do nosso convívio. E seria facílimo destacar as diferenças de percurso biográfico, contributo intelectual e tipologia de intervenção cívica. Nada disso importa na comoção do mistério da sua finitude, a nossa.

José Lello deixou como última publicação no Twitter uma ligação para um texto que escrevi em Março deste ano. Isso, para além da mera coincidência, significa que ele não dava, ou já não dava, importância ao canal embora o continuasse a usar para dialogar com outros utilizadores. E significa também que isto de teclarmos sem qualquer preocupação outra que não seja o prazer de pensar e de falar, de pensar ao falar, de falar ao escrever, pode ter os resultados mais imprevistos.*

Adeus, José Lello

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* O ignatz alertou-me para o erro, nascido de um resultado num browser que não tem qualquer relação com o que aparece noutro computador. É um alívio descobrir ter sido enganado por algo cuja explicação, assim que a encontrar, publicarei.

** Está explicado o fenómeno: há dois perfis José Lello no Twitter, e aquele que vi primeiro, pensando que era o único, tem o meu artigo como última publicação. Este bizarro erro não teria acontecido se eu percebesse alguma coisa de como funciona o Twitter, mas não é o caso.

Ainda vamos acabar agradecidos ao Trump

A candidatura de Trump é tão grotesca que damos imediata razão a Mel Robbins, comentadora da CNN, quando escreve isto: “At this point, I believe that Donald Trump, as he has suggested, could actually shoot someone and it would not matter to the 40-45% of Americans who still appear to be voting for him” – The Trump tape doesn’t matter Acontece que estas palavras vieram a público antes do debate, antes de vermos Trump usar quatro mulheres social e mentalmente fragilizadas, tenham ou não tenham razão nas suas queixas nunca provadas contra Bill Clinton, como carne para o seu canhão populista e fascizante. Antes de vermos um candidato presidencial norte-americano, e num debate, a ameaçar de prisão a sua adversária na corrida presidencial caso consiga ser eleito e propondo-se manipular o sistema de Justiça para o efeito. Tal nunca antes tinha acontecido na História não só dos EUA mas da maioria, se não for mesmo a totalidade, das democracias onde esteja em vigor um Estado de direito respeitado pelo sistema político.

Porém, contudo, todavia, há várias facetas do que se está a passar do outro lado do Atlântico que são análogas ao que se passou e passa aqui no rectângulo. O mutatis mutandis é fácil de estabelecer:

– Em 2004 e 2005, o CDS e o PSD aceitaram e promoveram uma campanha de calúnias, apoiada por órgãos de imprensa, onde o secretário-geral socialista ao tempo foi carimbado como corrupto e homossexual.

– Em 2008 e 2009, o CDS, o PSD e o Presidente da República ao tempo alinharam a estratégia para a derrota do PS nas eleições de Setembro de 2009. Essa estratégia passou pelo regresso das calúnias, pelos assassinatos de carácter e pela espionagem de um primeiro-ministro em funções através de uma pessoa das suas relações pessoais com quem mantinha uma comunicação que permitia capturar conteúdos das áreas governativa, política, partidária, económica e pessoal. Tendo falhado por inexistência de provas o plano para constituir Sócrates como arguido numa caso de “atentado ao Estado de direito”, ou que fosse tão-só conseguir levá-lo a prestar declarações ao Ministério Público em cima da campanha eleitoral, foi lançada a “Inventona de Belém” a 5 semanas das eleições, uma réplica exacta, mas em versão cavacal, das “October surprises” americanas.

– De 2009 até hoje, a direita decadente – leia-se, a que não repudia a baixa política e golpadas dos que querem o poder pelo poder – repete a cassete de que Sócrates e o seu Governo foram protegidos pelos Procurador-Geral da República e Presidente do Supremo Tribunal de Justiça ao tempo. Apesar das violações do segredo de justiça e de os documentos do processo estarem agora ao dispor do público, nunca quem calunia e difama estas pessoas e instituições apresenta qualquer prova de ter havido qualquer ilegalidade no arquivamento. A argumentação a que se agarram é irracional, infantil e odiosa. Na sua distorção cognitiva, conseguem apagar o facto de todas as escutas a Sócrates, na sua versão integral, terem estado e continuarem a estar ao dispor das autoridades, dos jornalistas e dos adversários e inimigos de Sócrates e do PS.

– Directamente ligada com a acusação anterior, surgiu em 2011 o discurso de que bastaria mudar uma individualidade na Procuradoria-Geral da República para que tudo o resto mudasse – leia-se: para que Sócrates fosse finalmente engaiolado, juntamente com o seu bando. Essa individualidade dá pelo nome de Joana Marques Vidal e foi a escolha de uma ministra da Justiça que oficializou a nojeira ao comentar o envolvimento de ex-governantes socialistas em processos judiciais recorrendo à expressão “o tempo da impunidade acabou“. Isto é, a PGR estava finalmente descontaminada da corrupção que tinha impedido que esses criminosos fossem apanhados mais cedo.

– Aquando da detenção de Sócrates, um deputado do PSD foi para o Facebook manifestar a sua alegria – “Aleluia!”. Ex-líder da JSD rejubila com detenção de Sócrates – vindo depois a apagar a peça. O que ele fez conseguiu ser, ao mesmo tempo, o achincalhamento moral de um concidadão e ex-governante, a negação do seu estatuto de inocente até prova em contrário, a celebração da judicialização da política, a manifestação de uma barbárie provinciana e o desprezo pelos valores religiosos onde foi buscar a exclamação. Acontece que ele não estava sozinho nos festejos, foi apenas mais estouvado do que muitos dos seus colegas de partido e de facção. Este melro há muito que procurava o supremo consolo de ver Sócrates nas mãos das autoridades policiais e judiciais. Explodiu de prazer com o espectáculo da sua captura.

– Também Passos, depois de ter chegado a presidente do PSD e no aquecimento para as presidenciais de 2011, avançou com a ideia de prender os seus adversários políticos. Foi em Novembro de 2010, e as suas lapidares palavras, à luz do que o seu futuro Governo viria a praticar, são estas: «Quem impõe tantos sacrifícios às pessoas e não cumpre, merece ou não merece ser responsabilizado civil e criminalmente pelos seus actos? Sempre que se falham os objectivos, sempre que a execução do Orçamento derrapa, sempre que arranjamos buracos financeiros onde devíamos estar a criar excedentes de poupança, aquilo que se passa é que há mais pessoas que vão para o desemprego e a economia afunda-se. Não se pode permitir que os responsáveis pelos maus resultados andem sempre de espinha direita, como se não fosse nada com eles.» Este mesmo fulano fez meses depois uma campanha em que prometia tornar Portugal grandioso outra vez, sem ser preciso cortar salários, cortar pensões e fazer despedimentos. Só tínhamos que cortar nas “gorduras do Estado” – ou, indo para o exacto paralelo com Trump, para resolver os problemas da América só é preciso cortar nos mexicanos, nos muçulmanos e, já agora, nos impostos dos mais ricos.

– Igualmente em campanha eleitoral para as eleições legislativas de 2011, foi possível ouvir a Carlos Moedas a sua certeza de que “com as reformas que o PSD vai implementar, eu digo-lhe que ainda vão subir o ‘rating’ de Poertugal, não sei se nos próximos 6 meses, se nos próximos 12 meses“. Esta promessa é de um simplismo mágico que compara ao milímetro com a promessa de Trump de levantar um muro na fronteira do México.

Seria fastidioso listar os restantes exemplos do mesmo propósito populista: usar uma crise económica e social gravíssima para atacar os políticos com responsabilidades governativas numa estratégia de ódio e acirramento da turbamulta. Nesta estratégia, a comunicação social foi decisiva para o clima de caça às bruxas que levou a várias tentativas para conseguir enfiar Sócrates e quem com ele esteve em actividade partidária e governativa numa situação de perseguição judicial. O que faz o Correio da Manhã por sistema, despejando calúnias atrás de calúnias que são criminosas no plano moral e legal, explorando a Lei para violar as leis da República e da comunidade, também em nada se distingue do que fez Trump ao explorar quatro mulheres vítimas não se sabe de que circunstâncias para atacar quem é, para todos os efeitos, inocente das suspeitas e acusações levantadas. E esta marca do desprezo pelo Estado de direito, pela mera decência e pelo valor da palavra, expelindo mentiras com a mesma facilidade com que se dá um aperto de mão, é uma característica em que Passos não está em nada distante de Trump.

Há uma esperança a formar-se, no entanto. A de que este espectáculo de degradação seja o remédio de que precisamos para criar os anticorpos que impeçam que tal se repita seja em que grau e forma for. Se tal acontecer, se sairmos desta desgraça mais fortes, ainda teremos de agradecer a Trump e a Passos por serem como políticos os javardos que são.

Que pantomineiro, este Marcelo

marcelo-e-cavaco

«O Presidente da República homenageou esta manhã o seu antecessor no cargo, sublinhando a "sensibilidade social" demonstrada por Cavaco Silva há dez anos, quando elegeu a inclusão como uma prioridade política.

"Quero agradecer-lhe ter sabido compreender o que se passava na sociedade portuguesa, ter sabido eleger a inclusão social como tema do primeiro roteiro presidencial e ter sabido dar o seu próprio exemplo no lançamento da Bolsa de Voluntariado", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa na cerimónia que assinalou os 10 anos do lançamento da Bolsa de Voluntariado, que decorreu na zona de Alcântara, em Lisboa, e contou também com a presença de Aníbal Cavaco Silva.

Admitindo que a memória das pessoas às vezes é curta, o chefe de Estado disse ser necessário reconhecer que "representa uma perceção, uma sensibilidade social muito aguda" lançar em 2006 um roteiro preocupado com a inclusão social quando o mundo ainda não tenha conhecido a crise que atravessaria anos mais tarde.»


Fonte

Esta notícia leva-nos para uma situação que é um poço sem fundo de cinismo, de deboche político e de provocação moral. Atente-se no mimo da referência à “memória curta” e na sua ligação ao ano de 2006. Que barrigada de riso este número de apagar o que Cavaco fez em 2009, ao deixar um Governo minoritário a ser queimado em labaredas selvagens só para servir os interesses da sua recandidatura e do projecto de poder da direita, e ainda do que fez em 2011, em que empurrou o País para o resgate de emergência com toda a força que tinha, dessa forma condenando milhões a uma devastação fanática que ambicionava aumentar ainda mais as desigualdades. Que barrigada de riso este número de apagar o que Cavaco fez durante o Governo de Passos, validando os ataques à Constituição e a violência do “doa a quem doer”.

Que barrigada de hilariantes gargalhadas esta cena de vermos o circense e sectário Professor das homilias dominicais feito Presidente da República a homenagear o ex-Presidente das golpadas contra Governos democraticamente eleitos, partidos com representação parlamentar e actos eleitorais.

O que não iremos ver neste debate

Não iremos ver Hillary recusar-se a cumprimentar Trump no início do debate. Porém, bastaria isso para que se fizesse História e que não precisasse de dizer mais nada sobre a corda que está posta no pescoço do seu opositor.

Quanto ao caso da gravação de 2005 onde Trump faz comentários banais do ponto de vista da cultura machista que é prevalecente em tantas sociedades, etnias e contextos pessoais – comentários que não foram feitos com a intenção de serem tornados públicos, presume-se sem dificuldade – é confrangedor que se tenha de recorrer a uma violação de privacidade (pois as suas palavras não configuram qualquer tipo de crime) para gerar o actual grau de repulsa que se espalhou como se a pólvora tivesse sido descoberta a 1 mês das eleições. Já a resposta de Trump à crise, na qual ataca Bill e Hillary por causa dos seus escândalos sexuais nos anos 90, merece muito mais atenção do que aquela que está a receber. Porque se trata da exposição de alguém que não pretende assumir qualquer responsabilidade pelos seus actos. Nesse sentido, o seu “pedido de desculpas” fica como um monumento às evidências do que é um psicopata.

Também não veremos ninguém neste debate a chamar psico ou sociopata a Trump. Ou veremos?

Vamos lá a saber

David Dinis anunciou que os editoriais do Público vão passar a ser assinados – isto é, fulanizados. Em vez de posições que se assumiam colectivamente, o jornal passará a fazer do editorial uma mera coluna de opinião, embora com mais destaque. Qual dos dois modelos é melhor quanto à relevância e clarificação política do jornal enquanto órgão de imprensa?

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Pokemon Go: Expressing Our Inner Hunter

Perguntas simples

Isto de termos tido um Presidente da República que juntamente com a filha ganhou dinheiro através de favores concedidos por criminosos num banco criminoso, que violou o seu juramento constitucional ao lançar golpadas para manipular e perverter actos eleitorais e que andou a fugir aos impostos durante pelo menos 15 anos significa, portanto, que neste país cada um de nós à sua volta já nasceu mais de 10 vezes?

Muito se riem os cínicos

Porquê dar importância ao Governo Sombra, o programa humorístico de comentário político, ou o programa político de comentário humorista, que começou na TSF em 2008 e chegou à TVI em 2012? Não pela presença do João Miguel Tavares, esse delfim do Medina Carreira e liberal de pacotilha que não tem público para aguentar um programa a solo. Não pela presença do Pedro Mexia, esse intelectual-pop sem veia polemista que também não tem público para ficar sozinho em palco. E não pelo Carlos Vaz Marques, pois o seu papel poderia ser ocupado por muitos outros jornalistas ou por meros animadores mesmo que não tivessem carteira de jornalista. A importância do programa está sustentada na figura do Ricardo Araújo Pereira, sem ele a casa desaba e só ficam escombros mediáticos para espectador não ver. Uma importância nascida do seu mérito como humorista, trajecto onde só compara com o Herman em termos de criatividade, versatilidade e sucesso popular. Last but not least, ao contrário do Herman, o Ricardo ousou assumir posições políticas suficientemente claras para o podermos identificar como alguém situado nos terrenos do BE ou genericamente à esquerda do PS (não faço ideia se milita ou é simpatizante de alguma força partidária).

Acontece que o programa é um dos mais sofisticados produtos da indústria da calúnia. Ocupando canais de referência, sendo embrulhado como formato cómico, e apoiando-se no prestígio variado e acumulado de todos os participantes e, em especial, do Ricardo, o culto do desprezo pelo Estado de direito, pela deontologia jornalística e pela mera decência comunitária é uma prática obsessiva. Isso fica exposto à prova de estúpidos na forma como negam a Sócrates o seu estatuto de inocente até prova em contrário, declarando à boca cheia que ele cometeu os crimes de que é suspeito. Porém, a peçonha vai muito mais longe, por incrível que possa parecer e como o último programa mostrou. Nele, o Ricardo passou longos minutos a promover a leitura do livro do Saraiva, tendo chegado ao ponto de quantificar as ocorrências onde no livro se fazem supostas revelações acerca da vida sexual de terceiros. O Ricardo especificou quais eram as profissões dos envolvidos e o seu género, só lhe faltando nomear os alvos. Por que razão não deu esse último passo?

Recapitulemos. O Ricardo, coitado, tem de preencher com as suas rábulas um programa de entretenimento radiofónico e televisivo. Serve-se do imparável fluxo da actualidade para encontrar o seu material, natural e inevitavelmente. Eis senão quando ele vê chegar o livro do Saraiva e sua lúbrica promessa de se poder espreitar pelo buraco da fechadura para ver o que outros viveram na privacidade. Que fez o nosso génio humorístico? Pois tratou de o mastigar com toda a gula e veio defecar na edição de 26 de Setembro o que assimilou. Que era isto: seis ocorrências onde a intimidade sexual de alguns cidadãos era descrita pelas nobelizáveis palavras do Saraiva. Risota garantida, o dinheiro que lhe pagam para o espectáculo a ficar justificado e o editor e o autor do livro a esfregarem as mãos de contentamento. É que não pode haver publicidade mais poderosa à coisa do que o aceno de estarem lá cuecas penduradas de famosos prontas a cheirar pelo português médio.

E por que razão não disse o nome dos envolvidos, repito? Esse travão tem a sua origem na qualidade essencial do programa como máquina caluniosa: o cinismo. Se o dissesse, o Ricardo sabia que a sua promoção ficaria exposta e ele conivente com a devassa e/ou difamação e calúnias. Não o dizendo, mas identificando a profissão ou cargos governativos dos referidos e ainda o género, passa por sério, por engraçado – e alimenta a imaginação da audiência que só descansará quando chafurdar nesse conteúdo.

Este cinismo é comum aos quatro participantes do programa, e é vendido como humor e liberdade de expressão. Mas não é, ou não é só. Igualmente se pode dizer que é triste e que não passa de liberdade para a destruição.

Trump, what?

Começando logo pelos comentadores na CNN, e repetindo-se um pouco por todo o lado, ficou a ideia de que Trump iniciou bem o debate, e que terá tido uma meia-hora de superioridade sobre Hillary. É um fenómeno que merece análise, pois liga-se a uma faceta desta corrida presidencial que precisa de mais destaque; o facto de, pela primeira vez, uma mulher poder vir a ocupar a cargo mais poderoso em todo o Mundo.

O que as imagens e as palavras mostram é outra história. Assim que entraram em palco, Hillary já estava a ganhar. Vinha vestida de vermelho e de imediato concentrou em si o protagonismo visual. Ao mesmo tempo, a sua roupa era um estandarte semiótico. Ela vinha para o combate e estava disposta a disparar primeiro e fazer sangue. Foi isso que fez nesses segundos iniciais, tendo invadido o espaço de Trump para o cumprimentar e depois sendo a primeira a cumprimentar o apresentador. Este início teve exacta continuidade quando começou a contenda.

Na sua primeira intervenção, Hillary colocou o debate no quadro mais vasto das políticas que interessam à classe média e aos desfavorecidos. Passados uns instantes, tomou a liderança do encontro ao dirigir-se directamente a Trump, dizendo-lhe que era bom estar ali com ele – algo a que ele não correspondeu, assim reforçando o domínio de Hillary. Seguiu-se uma intervenção de Trump sem qualquer novidade ou especial relevância, consistindo na cassete da globalização e no seu plano de ajudar os empresários cortando impostos. E Hillary respondeu-lhe. Introduziu a expressão “trumped up, tricled down’ economics”, colocou Trump do lado do grande capital e reduzi-o a um menino rico que tinha recebido do pai uma fortuna que lhe permitiu fazer negócios. Estávamos no minuto 7 e Trump já era um saco de encher da candidata Democrata. Foi aqui que ele começou a perder a pouca cabeça que levava, tendo engolido o isco e a cana, e passando ao contra-ataque à sua maneira orgulhosamente arrogante, simplista e mentirosa. Nunca mais recuperou e foi cavando o buraco à volta. Houve alturas em que o seu desnorte era tanto que dava a ideia de estar a escutar Hillary para conseguir descobrir o que dizer sobre as matérias em discussão.

Trump, sem disso ter tido a mínima consciência, foi levado a assumir a convicção que o levou para esta aventura de tão grande sucesso até agora. Ele acredita que pode governar os EUA tal qual como tem feito a gestão das suas empresas. Daí as armadilhas em que mergulhou de cabeça, como as de se ter vangloriado por não pagar impostos ou dar a ideia de que não se importava de ter políticas racistas nos seus negócios empresariais desde que conseguisse escapar à Justiça. Do lado de Hillary, vimos uma prestação exemplar, sempre ao ataque a partir da racionalização das questões e da exposição do seu programa, tendo falado com sucesso para a classe média, para as mulheres, para os afro-americanos e demais minorias e para os jovens que estão a entrar no mercado de trabalho. O cuidado com que dominou a expressão oral, a confiança e liderança que projectou no confronto presencial com Trump, foram muito mais do que um bom espectáculo, foi também uma afirmação que se liga com uma das suas maiores fragilidades nesta campanha: ser mulher.

Colbert faz um bom resumo, logo ao início do vídeo abaixo, do peso acrescido que recai sobre Hillary Clinton por causa do seu género, levando a uma efectiva situação onde há dois pesos e duas medidas: