Com o lançamento do Na Sombra da Presidência, Fernando Lima permite-nos, e finalmente, saber do que o Pacheco Pereira estava a falar ao escrever isto:
Quando um dia se conhecer melhor o modo como a partir dos gabinetes ministeriais, e em particular o do primeiro-ministro, se conduzem operações de informação, contra-informação e desinformação, usando técnicas dos serviços secretos, alguém terá que pedir contas por tal abuso democrático. Do mesmo modo que veio a saber-se das operações para controlar a TVI, os seus protagonistas e os seus métodos, o país perceberá com que tipo de pessoas tem estado a lidar e o modo como se pratica todos os dias um abuso do poder, no limite da lei senão para além da lei.
Um exemplo é o blogue anónimo Câmara Corporativa, o blogue profissionalizado feito dentro do Governo, com meios públicos, por assalariados com dinheiro dos impostos dos portugueses, e que é uma típica operação de informações, muito provavelmente ilegal, ao usar meios e recursos pagos pelos contribuintes.
Outubro 2010
O Primeiro-ministro José Sócrates, ele próprio, suscita na blogosfera um apoio muito especial, sem equivalente no mundo exterior fora da Rede. Não sei se por desespero,- as coisas não tem corrido bem à persona tutelar, - se por simpatia, no sentido preciso do termo, se por imitação, os blogues socráticos desenvolveram um estilo agressivo de insulto e calúnia pessoalizada, que não tem paralelo com qualquer outra área política (se exceptuarmos algumas personagens passo-coelhistas como Nogueira Leite, conhecido por insultar tudo e todos no conforto do Twitter e do Facebook). Esses blogues, como o Câmara Corporativa, o Aspirina B, o Jugular, escritos muitas vezes sob o anonimato e onde pululam empregados do governo, e às vezes mais acima - o anonimato serve para ocultar os autores, mas o estilo denuncia-os –, representam um mundo aparte na blogosfera que revela as fontes do radicalismo que emana nos dias de hoje do centro do poder socialista à volta de Sócrates. Quem se mete com José Sócrates leva de imediato uma caterva de insultos, que inclui todos os clássicos e é sujeito a uma campanha ad hominem grosseira e, zanguem-se agora a sério, muito miguelista mas sem as qualidades de José Agostinho de Macedo.
A mecânica destes blogues está longe de ser a discussão política, mas uma regra típica dos aprendizes de feiticeiro: a destruição dos adversários a golpes de insultos e calúnias, já que não se pode prende-los, nem censurá-los. Os seus executores são gente mais à esquerda do que o PS, com pretensões intelectuais, mas com a pior das tentações intelectuais, a que vem da desenvoltura e do sentido de impunidade de quem acha que está no poder e tudo lhe é permitido.
Janeiro 2010
É preciso saber mais sobre as "questões de segurança" que refere o Presidente? É. E é preciso saber muito mais sobre a "operação Diário de Notícias". Muito do que é a "asfixia democrática" está presente na "operação Diário de Notícias", em que um jornal para obter um efeito político deliberado, enfraquecer o Presidente, cometeu vários crimes e violou todas as regras do jornalismo. Para quem a preparou valeu certamente os custos, que até agora têm sido poucos, porque há muita desatenção, muita leviandade e muita má-fé, ou seja vale tudo.
Sempre quero ver se esta nota é citada.
Setembro 2009
O Presidente da República tem certamente coisas graves para dizer ao país e entendeu que se as dissesse interferia no acto eleitoral. Muito bem, compreende-se que o faça, embora também se interfira na campanha por omissão. Mas o Presidente rompeu o seu próprio silêncio e "falou" através da demissão do seu assessor de imprensa e, sendo assim, interferiu de facto na campanha eleitoral. Mais valia agora que dissesse tudo para não acordarmos no dia 28 sabendo coisas que mais valia que fossem conhecidas já. Para contarem para a decisão de voto dos portugueses, com cujo resultado final ele já está inevitavelmente comprometido.
Setembro 2009
Pacheco Pereira disse aos militantes que o foram ouvir à "Pizzaria Camões", em Malpique, não ter "qualquer dúvida" de que está em curso uma campanha contra o Presidente da República "que vem em grande parte do PS".
Essa campanha, disse, visa "enfraquecer" Cavaco Silva, "não só para que aquilo que venha a dizer possa parecer mais frágil, como para as decisões que possa vir a tomar sejam não de um presidente forte e respeitado por todos os portugueses mas de um presidente alvo de uma campanha política".
Pacheco Pereira disse à Lusa que esta "campanha" visa "desbastar o terreno não só em relação ao que o senhor Presidente da República certamente dirá sobre as circunstâncias deste 'caso'", mas também sobre o "assalto" que já se deu ao Jornal Nacional da TVI e "se está a dar" ao jornal Público, os dois "alvos" apontados pelo primeiro-ministro, José Sócrates, no Congresso do PS.
Setembro 2009
Fernando Lima e Pacheco Pereira – leia-se, a Presidência da República e a presidente/Direcção do PSD, pois estes dois passarões eram os seus principais influenciadores ao tempo – olhavam para três ou quatro blogues e entravam num estado de excitação cujo diagnóstico vou ensaiar. Há uma primeira resposta, a mais fácil: pura hipocrisia. Eles sabiam que o argumento era ridículo, porém contavam com a ignorância e iliteracia digital generalizada da população para agitarem um tigre de papel. Há uma segunda resposta, cultural: tanto Fernando Lima como Pacheco Pereira, apesar da vasta experiência blogosférica deste último, não compreendiam o universo digital e, com a adrenalina e testosterona à solta, julgavam que o meio poderia ter uma importância hipertrofiada no combate político. Há uma terceira resposta, psicológica: ambos eram, e são, seres egóicos, narcísicos e arrogantes, pelo que iam à procura dos blogues para lerem algo a seu próprio respeito, e a respeito daqueles a quem estavam ligados politicamente. O que encontravam na comunicação social profissional não lhes chegava, eram dois agarrados ao vício de ler perigosos “anónimos” e demais facínoras. Daí a imaginarem que essas opiniões eram da autoria dos que viam como inimigos, e que esses se disfarçavam para lhes mandarem bocas, e logo depois passarem a explorar essa fantasia como suspeita política despejada junto das capelinhas e na praça pública, bastava meio passo. Há uma quarta resposta, clínica: o combate político, em todos os tempos e lugares, cria condições para disfunções mentais do foro paranóide, sendo que a liberdade e frequência de escrita na blogosfera política oferecia vasto material para se construírem teorias da conspiração, das mais banais às mais desvairadas. E há uma quinta resposta, antropológica e política: a blogosfera era o que resistia à verdadeira asfixia mediática, a aldeia gaulesa no cu do império da direita. Então, havia que tentar acabar com esse foco de liberdade através da antiquíssima receita da oligarquia palaciana, a calúnia.
De facto – e factualmente, de facto – quando num país existe o poder e agenda do Correio da Manhã, Sol, Público do Zé Manel, Expresso do Monteiro, TVI do casal Moniz, SIC do Balsemão, do Crespo, do José Gomes Ferreira, do mano Costa, RTP da Judite de Sousa e do José Rodrigues dos Santos, DN do Marcelino e saco de passistas na redacção, TSF do Baldaia e seus editoriais, jornal i do Martim Avillez, onde se faziam capas a devassar a privacidade de cidadãos só porque escreviam em blogues com pseudónimo e surgiam como defensores das políticas do Governo ou como simpatizantes do PS, Diário Económico do António Costa, Sábado, e ainda a Rádio Renascença e o Marcelo com o seu super-tempo de antena dominical, e deixando de parte a legião de auxiliares que estes meios cooptaram para “fazer opinião”, podemos dizer que mais de 90% (99%?) do espaço mediático politizado não estava apenas na mão da direita, antes era um dos principais instrumentos ideológicos e eleitorais da direita. Em contraposição, o PS não tinha nem títulos, nem canais, nem jornalistas talibãs, nem exército nas trincheiras da baixa política. Esta paisagem dos órgãos de comunicação social em 2009, a que se junta o PCP e BE no berreiro de alvo único, não levou Lima e Pacheco para um estado de segurança, descontracção, ataraxia. Foi ao contrário, tendo eles querido desferir os golpes mais mortais contra Sócrates e os socialistas precisamente a partir da sua posição de superioridade mediática. Toda a operação “Face Oculta”, a qual estará ligada à “Inventona das Escutas” por algo mais do que o calendário, tinha como pressuposto essa mesma vantagem, com a exploração mediática e política de conversas privadas – onde um primeiro-ministro foi espiado ilegalmente por instituições do Estado – a ter começado em cima do período pré-eleitoral e tendo em vista conseguir-se abrir um processo judicial com base na invasão da privacidade de Sócrates e de quem fosse visto como seu próximo. O negócio da PT e da TVI, que nunca existiu, e que a existir poderia gerar algo perfeitamente legítimo a todos os níveis ou até inúmeros problemas ao PS, serviu como combustível inesgotável das estratégias de difamação e calúnia começadas logo em 2008 pelo próprio Cavaco em tandem com a subida de Ferreira Leite à presidência do PSD. A moral oligárquica desta história é a seguinte: os déspotas são déspotas porque não se impõem limites para destruir os adversários políticos.
Hoje, com o relato patético do Lima a respeito de homens com óculos escuros oficiais e jornais brasileiros no sovaco para disfarçar que o estariam a espiar, já sabemos a que “técnicas dos serviços secretos” o Pacheco se referia na sua fase alucinada. Fase onde conseguiu usar o seu estatuto de deputado para se meter numa saleta da Assembleia da República e enfiar os cornos até aos calcanhares na privacidade de Sócrates e Vara. Saiu de lá a gritar que tinha encontrado provas de manigâncias “avassaladoras” sem ter nomeado alguma ou feito qualquer coisa a respeito nos dias, meses e anos que se seguiram. Ao seu lado, João Oliveira, deputado comunista que não tinha qualquer razão para poupar Sócrates ou o PS fosse do mínimo que fosse, declarou que esses mesmos documentos enviados de Aveiro que o Pacheco tinha enchido de baba e ranho não tinham nada de politicamente relevante. Esta radical antinomia é que foi o único dado avassalador do episódio.
Por acaso, dado que este blogue foi visado nos escritos caluniosos do Pacheco, estou em condições de medir com exactidão o grau e amplitude das suas mentiras. Ironicamente, em 2013 um tal de Fernando Moreira de Sá viria contar os segredos das campanhas negras na Internet organizadas pelo PSD de Passos e Relvas. Tão orgulhoso dos seus méritos e confiante no seu talento se mostrou que fez dessa sua experiência uma tese de mestrado. Ou seja, a malta que via assessores de Sócrates, espiões de Sócrates e arregimentados de Sócrates em tudo o que mexesse numa direcção contrária aos seus interesses limitava-se, portanto, a projectar nos outros, os de fora, o que via entre os seus ou o que praticava. Eis uma das mais velhas profissões do mundo.
No Verão de 2009, a 5 semanas de eleições legislativas, o Presidente da República lança, ou aprova que se lance, uma golpada mediática contra o Governo em exercício e o partido que o representa. Ao ser exposto esse plano e essa inaudita, gravíssima e grotesca violação constitucional, a poucos dias de se ir a votos, tanto o autor da golpada como o Pacheco continuavam a disparar publicamente contra Sócrates, contra o Governo e contra o PS. Nunca nenhum pediu desculpa do que fez, antes se agarraram ao ódio e continuaram a tentar usufruir ao máximo das benesses que a República e a indústria da calúnia lhes conferia e confere. O mais provável é que, até ao fim das suas vidas, se mantenham vilmente cobardes e irresponsáveis.
Desta sombra não te escapas, Pacheco.