Chichi, cocó, pipi, pilinhas… É só rir no Governo Sombra, ó malta

O Governo Sombra do último sábado não fez qualquer referência a Fernando Lima, Cavaco e demais tópicos associados. Se calhar, não sabiam que o livro Na sombra da Presidência tinha sido lançado durante a semana, e que já na semana anterior os jornais publicaram declarações de Lima a respeito e anteciparam os conteúdos da obra. Estavam distraídos. Pode acontecer a qualquer um, inclusive a um bando de quatro. É uma hipótese.

Se calhar, sabiam disso tudo mas não acharam que tivesse mérito, quiçá dignidade, para aparecer no programa. Nenhum dos participantes valorizou a temática, preferindo dar atenção a questões de outra monta, como a dos cigarros electrónicos e a da rentrée do CDS. É uma segunda hipótese.

Se calharam, sabiam disso tudo, e até acharam muito importante dado que estão em causa nas declarações de Lima suspeitas de violações constitucionais e legais gravíssimas por envolverem um Presidente da República e sua Casa Civil, e também magistrados, só que, por grande azar, essa problemática não cabia no tempo de duração do programa dado que havia outros assuntos que se impunham pela sua relevância e urgência. Um deles consistindo num elogio ao Champalimaud e à geração de grandes empresários espoliados pelo 25 de Abril. Um outro alusivo a um insulto desmiolado que o desmiolado presidente das Filipinas dirigiu a Obama. É uma terceira hipótese.

Não nos serviram Fernando Lima nem Cavaco nesta edição mas tivemos direito a vários momentos de excitação colectiva que se vão constituindo como marca d’água do formato. De água ou de outros líquidos mais espessos, para entrar dentro do espírito da reinação que nos oferecem felizes os foliões nos intervalos de garantirem em directo que Sócrates é um bandido haja ou não acusação, haja ou não julgamento, haja ou não sentença transitada em julgado. Nesta edição, Carlos Vaz Marques aproveitou o mote “dedos” para iniciar o exercício, o qual consiste em produzir trocadilhos e alusões de carácter sexual que qualquer espectador com a 4ª classe, ou equivalente, não só os consiga perceber cognitivamente como, e especialmente, não resista a soltar incontroladas gargalhadas de lascívia e luxúria (ou luxúria e lascívia, a sequência é opcional) quando eles chegam às orelhas. O público em estúdio é prova do sucesso da fórmula, desmanchando-se em risota com as sugestões de dedos a entrar aqui e ali, coisas cilíndricas na boca, o que é que cada um dos artistas já fez ou lhe apetece fazer com o seu pirilau, e variegado material desse fino recorte literário e interesse biográfico. Assinale-se como o Ricardo não perde essas ocasiões para descansar os espectadores quanto à sua capitosa energia erótica, o que se agradece dado o cuidado que essa sua dimensão desperta na populaça. O moderador, irónica ou fatalmente, surge como o mais imoderado, todo ele tremendo na cadeira num frenesim báquico nascido da libertinagem oral televisionada, e exibindo uma curiosa preferência pelo Mexia no que toca a aproveitar as deixas para lançar estes transgressores interlúdios. Honi soit qui mal y pense, pois talvez o Mexia, para o Carlitos, seja dos três brilhantes críticos da actualidade ali presentes o de aparência mais casta, daí a tentação de provocá-lo numa pulsão titilante.

Eu não posso, porque não tenho tempo, mas contribuo com 10 euros para um maluco qualquer gastar uma parte preciosa da sua vida a colar estes segmentos rotineiros e fazer um vídeo com eles. Deve dar para duas horas, pelo menos, de regressão à puberdade. Aposto que seria um estrondoso sucesso em feiras com chouriços pendurados e salsichas de molho. E ainda em escolas EB 2, 3 onde a história dos bastidores e implicações da “Inventona das Escutas” tivesse sido censurada pelo Ministério da Educação.

11 thoughts on “Chichi, cocó, pipi, pilinhas… É só rir no Governo Sombra, ó malta”

  1. Vale tanto a pena ver o Governo Sombra como ler o Correio da Manhã. São dois bons exemplos do nosso nível intelectual e cultural.

  2. o vaz marques é um seboso do caralho, o tavares é um azeiteito de merda, o mexia é toucinho presidencial e o pereira é entremeada de esquerda, resumindo: um bando de gordurosos ao serviço do ranço nacional.

  3. Depois de ver gravação do Eixo do Mal onde a inteligência e sentido de humor brilharam em toda a linha, mesmo para o inimigo público de José Sócrates, fui até ao governo sombra os humoristas da mãnha.
    Um susto de mediocridade .

    Melhor análise à indigência e tendenciolite do conteúdo desta encomenda da direita rançosa é impossível.
    VALUPI no seu melhor.

    Palavras sábias e claras de ignatz.
    Subscrevo.

  4. Acabaram-se as trapalhadas dos professores e seus sindicatos.
    Até que enfim que o Costa os domou a todos.
    Ao fim de mais de 40 anos…é obra ver todos os meninos e seus professores de acordo em tudo.
    Porra!

  5. O engraçadista não faz humor que é uma coisa durável e fica na memória, não, o engraçadista apenas quer provocar a risada imediata, instantânea, impensada e repetitivamente em moto contínuo, precisamente, para evitar que o pensamento funcione. O engraçadismo aposta no instinto e joga contra o racional, ultrapassa o limite do ridículo pela ordinarice e gozo do sucesso fácil. Contudo, o engraçadismo não passa de um espantalho que apenas afasta o espírito, da inevitável existência e racionalidade necessária, um breve tempo de enganos para depois regressar à sua realidade de inútil enfeite sem função.
    A escola e a montra mais visível do engraçadismo está centrada no canal “Q”. Aqui tudo é dito e se produz sob a ideia e culto do estilo engraçadista e nada se vê ou ouve que não seja envolvido de risadas altas como sendo aplausos às próprias trocas de piadas sem piada. O piadismo e risadismo crítico em moto-contínuo a propósito ou despropósito, sobre todos os temas, tenta fazer criar a ideia que estão tratando de fazer a desmontagem da eventual demagogia, erro ou mentira do tema tratado e que, desse modo, são pessoas altamente inteligentes, sérias e empenhadas em prol da verdade dos ofendidos sem voz.
    Contudo, o que verdadeiramente o engraçadismo faz é lançar demagogia sobre o tema ou acumular mais demagogia sobre a eventual demagogia existente no tema criando, deste modo, uma confusão que contamina e baralha qualquer visão e raciocínio lógico sobre o assunto.
    Enquanto o humor tenta esclarecer ou dar uma visão que explique fundadamente desmontando ou subvertendo a mentira ou demagogia implícita no tema tornando-o absurdo e risível, ao contrário, o engraçadismo atira lesto um anátema preconceituoso dogmático catalogando o tema imediata e fixadamente para depois parodiar o tema “fotografado” com variações de bordel e cores de alcova de modo a provocar, por automatismo instintivo, a risada alarve.
    O engraçadismo não educa nem esclarece, confunde para dividir e baralhar e, deste modo, promover a manutençao do reino dos poderosos. E, por interesse e condescendência destes, manter vivo, igualmente, o próprio miserável pequenino reino destes parodiantes contratados para levar o povo ao pagode da distração permanente.
    De facto, o dito engraçadismo, toma-se a si próprio com grande seriedade e considera o seu trabalho como de pesquisa inventivo mas, paradoxalmente, depois trata todos os assuntos sérios com a maior das leviandades do piadismo feito a martelo para o divertimento fácil e forçado e, sobretudo, inócuo e paralizante. E que tende ser mais uma falácia da banalidade segundo uma postura de falsa irreverência que uma actitude racional nascida do pensamento e provinda do saber.
    Um exemplo paradigmático do engraçadismo foram os “homens da luta” que perseguiam insolentemente o poder político da altura, onde quer que este aparecesse na figura dos seus máximos representante, no intuito político deliberado de, sob a aparência da irreverência artística engraçadista, trabalharem para derrubar esse governo. Se eram contratados ou a soldo, talvez um dia se saiba, sabe-se todavia que eram fortemente apoiados pelos media e poderosos e que, caído esse governo e empossado o novo, os “homens da luta” desapareceram da rua e dos ecrãs. E a propósito, onde param os “inesperados” organizadores da célebre manif da “geração à rasca”
    Sob a capa do engraçadismo o engraçadista nacional trabalha ao serviço dos poderosos internos que, por sua vez, são agentes menores dos plutocratas do mundo. Também o “jornalismo”, mesmo o de referência, se está transformando rapidamente numa espécie de “jornalismo engraçadista” na medida em que, tal como o engraçadismo mesmo, se toma e disfarça de sério para fazer passar a mensagem conveniente à plutocracia.
    Sinal dos tempos pró-unidimensionais que vivemos actualmente são, precisamente, o aparecimento inesperado de modernaços grupos activos organizados que se dissimulam sob as vestes mais diversas para esconderem a verdadeita bandeira pela qual labutam. Quer se apresentem sob a capa de “engraçadistas”, de “homens da luta”, de “jornalismo de referência”, de “observadores”, de “deolindos”, de “fedorentos” ou “geração à rasca” todos, deste género que se fingem sem pecado original, fazem parte da pulhice universal desde Adão e Eva.
    Politicamente, o engraçadista é sempre uma personagem dissimulada mesmo quando enfeita às camadas a sua prosa de palavreado progressista para disfarçar-se. O engraçadista, embora sendo já uma figura pública, nunca é cidadão militante activo. Ele resguarda-se socialmente em fazer passar-se por uma personagem neutra, puro de contaminação politico-ideológica mas destaca-se, mal abre a boa, conspurcado de profundo moralismo político-puritano e o seu visceral criticismo contra os políticos revela um ser empenhadamente anti-partidos e, consequentemente, anti-política que se deita para sonhar com um país de um partido democrático e único, o dos amigos.
    O humorista é determinado pela dimensão cómica da existência e usa-a não poupando ninguém, nem a si próprio, quando trata de fazer humor recorrendo ao trabalho da inteligência.
    O engraçadista é o oposto daquele, também conhece essa humana dimensão cómica mas, ao contrário, abusa dela pelo excesso e cai no exibicionismo ridículo, poupa-se sempre a si próprio ou se auto-elogia por contraponto, prescinde do trabalho da inteligência a favor da esperteza e termina, quase invariavelmente, na piada de sentido insultuoso ou mesmo no insulto puro provocatório.
    É que alguns engraçadistas, como é sabido, usam o seu talento parasitário para fazer da provocação ignóbil o meio prático de subirem ao topo da Babel mediática e, paralelamente, descerem ao fundo da subserviência.
    O engraçadista é o novo bobo da corte agora com a missão de divertir e distrair o povo e, por tal motivo e bom comportamento, atingem tão elevada reputação e são bem pagos junto dos detentores de poder.

  6. ai que riso! que falta faz a abordagem sociológica das emoções no estereotipo de genialidade! faz falta, a esses sombreiros, a sabedoria do Alberoni. será que o “viajar com saúde vital” se resume, para eles, ao cocó, chichi, pipi e pilinhas? :-)

  7. Muito bem, Valupi, viva a musa!

    «[…] O moderador, irónica ou fatalmente, surge como o mais imoderado, todo ele tremendo na cadeira num frenesim báquico nascido da libertinagem oral televisionada, e exibindo uma curiosa preferência pelo Mexia no que toca a aproveitar as deixas para lançar estes transgressores interlúdios. Honi soit qui mal y pense, pois talvez o Mexia, para o Carlitos, seja dos três brilhantes críticos da actualidade ali presentes o de aparência mais casta, daí a tentação de provocá-lo numa pulsão titilante.»

  8. Primo: por acaso, há umas semanas atrás (três, quatro? não sei precisar, mas antes de se saber que vinha aí o livrito do Lima), o Pedro Mexia falou na inventona de Belém como o momento mais negro da presidência de Cavaco. Ninguém puxo pelo tema, nem ninguém o agarrou de seguida. Mas o Pedro Mexia foi bem categórico.

  9. Nada mais longe. A ser com dedos, tinha de ser muito grande e delgadinho, ó Valupi.
    O brilhantismode quem criticas é tanto que até te citam com cordialidade. De resto, se dá dores de cabeca ao ponto de ser necessario esta mediatizacao, é questao de tomares aspirina… daquelas mais a sério, com efeito!
    No mais, concordo com o Joao Neves, aqui em cima de mim:
    “É que alguns engraçadistas, como é sabido, usam o seu talento parasitário para fazer da provocação ignóbil o meio prático de subirem ao topo da Babel mediática e, paralelamente, descerem ao fundo da subserviência.”
    Talvez ele se tenha esquecido que isto é mediatizacao, feita pelo próprio governo sombra (se nao, nao vinha cá). Uma provocacao em forma de Aspirina B, enfiada la bem no fundo da subserviencia.
    [Tenho certeza que nao ha tomates para publicar isto, engano-me ó Vitaminas?]

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