Trump, what?

Começando logo pelos comentadores na CNN, e repetindo-se um pouco por todo o lado, ficou a ideia de que Trump iniciou bem o debate, e que terá tido uma meia-hora de superioridade sobre Hillary. É um fenómeno que merece análise, pois liga-se a uma faceta desta corrida presidencial que precisa de mais destaque; o facto de, pela primeira vez, uma mulher poder vir a ocupar a cargo mais poderoso em todo o Mundo.

O que as imagens e as palavras mostram é outra história. Assim que entraram em palco, Hillary já estava a ganhar. Vinha vestida de vermelho e de imediato concentrou em si o protagonismo visual. Ao mesmo tempo, a sua roupa era um estandarte semiótico. Ela vinha para o combate e estava disposta a disparar primeiro e fazer sangue. Foi isso que fez nesses segundos iniciais, tendo invadido o espaço de Trump para o cumprimentar e depois sendo a primeira a cumprimentar o apresentador. Este início teve exacta continuidade quando começou a contenda.

Na sua primeira intervenção, Hillary colocou o debate no quadro mais vasto das políticas que interessam à classe média e aos desfavorecidos. Passados uns instantes, tomou a liderança do encontro ao dirigir-se directamente a Trump, dizendo-lhe que era bom estar ali com ele – algo a que ele não correspondeu, assim reforçando o domínio de Hillary. Seguiu-se uma intervenção de Trump sem qualquer novidade ou especial relevância, consistindo na cassete da globalização e no seu plano de ajudar os empresários cortando impostos. E Hillary respondeu-lhe. Introduziu a expressão “trumped up, tricled down’ economics”, colocou Trump do lado do grande capital e reduzi-o a um menino rico que tinha recebido do pai uma fortuna que lhe permitiu fazer negócios. Estávamos no minuto 7 e Trump já era um saco de encher da candidata Democrata. Foi aqui que ele começou a perder a pouca cabeça que levava, tendo engolido o isco e a cana, e passando ao contra-ataque à sua maneira orgulhosamente arrogante, simplista e mentirosa. Nunca mais recuperou e foi cavando o buraco à volta. Houve alturas em que o seu desnorte era tanto que dava a ideia de estar a escutar Hillary para conseguir descobrir o que dizer sobre as matérias em discussão.

Trump, sem disso ter tido a mínima consciência, foi levado a assumir a convicção que o levou para esta aventura de tão grande sucesso até agora. Ele acredita que pode governar os EUA tal qual como tem feito a gestão das suas empresas. Daí as armadilhas em que mergulhou de cabeça, como as de se ter vangloriado por não pagar impostos ou dar a ideia de que não se importava de ter políticas racistas nos seus negócios empresariais desde que conseguisse escapar à Justiça. Do lado de Hillary, vimos uma prestação exemplar, sempre ao ataque a partir da racionalização das questões e da exposição do seu programa, tendo falado com sucesso para a classe média, para as mulheres, para os afro-americanos e demais minorias e para os jovens que estão a entrar no mercado de trabalho. O cuidado com que dominou a expressão oral, a confiança e liderança que projectou no confronto presencial com Trump, foram muito mais do que um bom espectáculo, foi também uma afirmação que se liga com uma das suas maiores fragilidades nesta campanha: ser mulher.

Colbert faz um bom resumo, logo ao início do vídeo abaixo, do peso acrescido que recai sobre Hillary Clinton por causa do seu género, levando a uma efectiva situação onde há dois pesos e duas medidas:

19 thoughts on “Trump, what?”

  1. Valupi,

    Concordo com a tua análise. Mas não sei se a prestação de Clinton tirou votos a Trump. Se não tirou, para que lhe serve a “vitória” ? Para convencer quem já estava convencido ?

  2. ò rocha, a única hipótese de convencer os grunhos que apoiam trump a votar na hilária era a moçoila prometer mais disparates e maiores asneiras que o trumpetas apregoa.

  3. Muito gostava de entender quem consegue apoiar esta escroque.
    É um fenómeno que supera em estranheza o fenómeno Trump.
    O caso dos e-mails apagados/escondidos e tudo o que o envolve seria mais do que suficiente para afastar essa fulana de qualquer candidatura a cargos públicos, salvo bibliotecária num presídio.
    A adesão total do atual partido democrata às políticas neoliberais seguidas, nomeadamente, pelo clã Bush, e que costumavam repugnar pessoas com dois dedos de testa, é totalmente ignorada por quem denunciava antes e se cala hoje.

    É certo que, por enquanto, Hillary tem ganho largamente a Trump em perversidade, dissimulação e retórica política, e tem o apoio de todos os canais televisivos nos EUA, exceção feita, talvez, à Foxnews.

    Ainda assim e pese embora o tal debate, as sondagens persistem em afirmar que não é possível prever o vencedor.

    Para alguns, este empate significa que metade dos eleitores são mentecaptos e preconceituosos e merecem não menos do que um gulag, para um democrata, representa o fedor de uma candidatura que teria tudo para arrasar Trump não fosse a candidata ser uma necrose política.

  4. canais televisivos e não só… a imprensa escrita relevante é praticamente unânime no apoio à Hillary: uns escrevem editoriais para que não haja dúvidas (NYT), outros nem precisam de o fazer tal é o descaramento (WPost) – aprende como se faz josé gomes ferreira.

  5. O vermelho é um cor extraordinária.

    A taxa de abstenção na América é bastante elevada. Hillary não precisa do eleitorado de Trump, precisa do eleitorado de Bernie com quem já anda em campanha, millenials e anti -sistema e de convencer indecisos.

    Na América existe o saudável habito de os jornais e dos media em geral teren una politica editorial que não escondem de ninguém e de declararem publicamente o apoio aos candidatos. Ocultar este facto quando se critica qualquer tendência dos jornais evocando a suposta imparcialmente de um idiota reacionário dos media portugueses diz bem da argumentação falaciosa q no fundo imita na perfeição o candidato Trump.

  6. sim , porque o caos total que reina do mundo é obra da killary y sus muchachos. que os merdia estejam do lado da kllary não admira , mais de dois terços devem pertercer àqueles que ditam e pagam os disparates que a américa faz no médio oriente.

  7. política editorial não é ideologia política e os jornais são jornais, não são meios de propaganda política, que é isso que a imprensa tem feito nos eua de uma forma inédita.
    nunca vi comunicação social tão politizada, nem mesmo a Foxnews quando lambia o cú a um bush que tu agora certamente adoras e veneras.

  8. à exceção de um feito de duvidoso mérito que consiste em estar várias horas na “situation room” a assistir num portátil à captura de um barbudo enrolado em mantas e a fazer zapping numa caverna do afeganistão, que mais fez a hillary em 30 anos de “ativa” vida política?
    nem na merda do obamacare que é a única coisa de que, ainda que mal, se pode gabar o beija-mão-da-monarquia-saudita, meteu essa gaja o bedelho.

  9. drones, líbia, benghazi, síria, ISIS, conflito com a rússia, 22 triliões de dívida soberana, quantos milhões de mortos no médio oriente?, iraque, afeganistão, são coisas que correram muito bem e que o eleitorado americano associa com muita ternura a Hillary Clinton e ao beija-mão-da-monarquia-saudita. certamente por isso, levam grande vantagem nas sondagens e os cidadãos do resto do mundo democrático devem-lhes estar muito gratos. e a intervenção da fundação clinton no Haiti após o sismo e a escandaleira que aquilo foi? quem pode esquecer…

  10. A maioria dos media de um qualquer país são nacionalistas, no caso americano a tradição de apoiar o militarismo não é nova vem da 1a guerra de Cuba e com o surgimento do Yellow journalism de Hearst/Pullitzer mais tarde criticado por O. Welles. Curiosamente o “incidente” ficcionado” que leva a Guerra de Ciba e igual ao da Guerra do Vietnam, o ataque a uma barcaça americana. Mesmo script.
    A inprensa não paga nenhum dos disparates onde quer que seja, quem os paga são quem os sofre.

    Wtf? Agora como por milagre desapareceu o JGomes Ferreira, assim como não ha comparação não ha falsa equivalência, fica o spin e a milionesima repetição da cantilena. Parece que estou a assistir a SicN.

  11. o eleitorado do trumpetas são enaparvos como este idiota que mal ouve falar em trump liga a k7 dos papéis na cave e desata a grunhir insultos à hilária.

  12. É isso Jpferra, tornar o mundo flat é armadilha dos novos populismos. Tornar tudo igual até que a merda valha ouro.

    Hillary, hilária
    Houve quem achasse grave ela ter-se rido quando lhe perguntaram se tinha passado toda a noite sozinha no bunker. Para além da indesculpável falta de sentido de humor, grave e não perceber o obvio, o nome dela. Como aquelas audiências dos programas de humor a quem é preciso mostrar a placa “Rir”.

  13. a hilária também se riu desbragadamente depois de ter mandado assassinar o kadhaffi, mas é uma grande, enorme, democrata.

    a escroque também mandou apagar 30.000 emails depois, depois, repito depois, de ser formalmente intimada pelo fbi para os apresentar. mas o que realmente conta sao improperios do trump com 20 anos. vejam as sessoes da comissao de inq do congresso, estao no tubo., mas eu sei que gostam mais do big brother servido pelos mainstream com os pecadilhos pessoais do trumps e em q gajos como o krugman adoram rebolar.se. a hillary é uma escroque e provas disso não faltam.

  14. o vermelho também pode ser a a cor do sangue da castração se enveredarmos pela teoria freudiana da feminilidade e inveja do pénis. outra leitura, decorrente desta teoria, cabe perfeitamente na coisa de, à moda da Albright, ser obrigação das mulheres apoiar as mulheres . :-)

    mas agora cá entre nós: só mesmo a fragilidade de uma mulher, entenda-se como ponto fortíssimo, consegue vencer a estupidez e os falos de uma sala oval. :-)

  15. a unica desculpa da hilária é que talvez a falta de empatia psicopática e escroquice lhe advenham da qualidade de vítima do predador sexual que é o crápula do clinton.

  16. pois é valerico, o grande argumento do trump nao pagar impostos é afinal um meio legalissimo e que qualquer bom gestor utiliz nos seus negocios. alias a campanha da escroque admitiu que esta ja utilizou o mesmo meio legal. daí o trump disse ter sido smart, ou seja nao ignora e utiliza meios legais para poupar dinheiro. portanto vai mentir e ser burro para o caralhinho, valerico.

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