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A Operação Marquês vai a banhos

O Expresso inaugurou a silly season, na edição passada, com a oferta de uma leitura a preceito, ideal para folhear debaixo do toldo, ou ainda melhor dentro da barraca, antes ou depois de atacar sandes de queijo e bolas de Berlim (não necessariamente ao mesmo tempo). Para a promover, deu trabalho a um ilustrador que criou imagens impressivas e impressionantes, talvez mesmo impressionistas, uma delas a ocupar uns 25 a 30% das colunas disponíveis na capa do jornal:

A capa da revista, onde está a peça, é um tour de force muito bem conseguido, a que é impossível ficar indiferente. Tomai e tremei:

Mas se pela estética estamos num filme de gangsters, assim que entramos no texto descobrimos que o enredo, afinal, é de terror:

«Episódio um

“É preciso é partir a espinha ao Ministério Público, para alguma coisa isto deve dar gozo…”, desabafou José Sócrates, já perto da escadaria da residência oficial de São Bento, quando conduzia a delegação do PSD à porta do palacete, segundo a memória de Paula Teixeira da Cruz, então vice-presidente do PSD. A futura ministra da Justiça diz ao Expresso ter-lhe respondido: “Isso não é propriamente adequado para um primeiro-ministro.” Estaríamos em abril de 2006. Luís Marques Mendes, líder do PSD presente naqueles encontros, confirma ao Expresso que Sócrates usou essa expressão e outras semelhantes quando, nessa época, ainda negociavam discretamente o pacto para a Justiça em bloco central. Alberto Costa, ministro da Justiça que participou em todas aquelas reuniões, não se recorda desta em particular, por isso também não se lembra de uma frase assim. Já veremos como Sócrates nega tê-la dito nas respostas que deu ao Expresso. Mas estas palavras apareceriam em público mais tarde...»

Paula Teixeira da Cruz, Marques Mendes e respectivas memórias de bocas ditas aqui e ali, inclusive perto de escadarias. Quem pode duvidar? Quem se atreverá a pôr em causa a honestidade intelectual, o espírito democrático, o respeito republicano, a decência cívica e o sentido de Estado da autora do “Fim da impunidade” e do autor do “Acabou José Sócrates, agora temos Rui Rio”? É gente do melhor, de uma seriedade que aterroriza a malandragem socialista à espera de ser encarcerada pela dupla Rosário-Carlos.

Nos episódios seguintes aparecem estrelas dos linchamentos e autos-de-fé de socráticos como Luís Campos e Cunha, José António Saraiva, Cavaco Silva, outra vez Marques Mendes, Nuno Garoupa, Teófilo Santiago, António Cluny, João Palma, Manuela Moura Guedes, Joana Marques Vidal, Helena Garrido, Álvaro Beleza, José Eduardo Moniz e Marcelo Rebelo de Sousa. A carne toda no grelhador. Vítor Matos, um direitola fanático que o mano Costa foi buscar ao Observador, reúne todas as difamações e calúnias de que se conseguiu lembrar e gasta mais de 50 mil caracteres a insultar os socialistas do costume. Não há uma única informação nova, não há o mínimo simulacro de cumprimento do código deontológico do jornalista, não há vestígios de jornalismo.

A Operação Marquês e o filme do monstro que tinha um plano para “controlar tudo” parece, assim, ter encontrado o seu destino final. Ser matéria de leituras na praia, quando só há cabeça para fantasias e diversão.

Being “Being Pacheco Pereira”

Por não ter lido o Notas sobre a ofensiva da direita radical (conclusão para já) no Público, tal deu origem a uma valiosa experiência cognitiva em que sou o protagonista, pois na leitura displicente e enviesada que fiz do texto atribuí ao Pacheco o que era uma citação de Carlos Blanco de Morais (e que percebi como um destaque da fala do PP). Muito obrigado a quem me avisou do erro na caixa de comentários.

Eis as ilações que retiro:

– Vir a este pardieiro ler o que escrevo deve ser sempre assumido como uma perda de tempo da exclusiva responsabilidade dos próprios.
– O melhor é pagar para ler nos jornais o que os jornais publicam, calhando não se sentir uma alergia tal por eles que torne preferível passar por otário como aqui me acontece na ocasião (jamais darei um tostão a um órgão de comunicação social que remunera e promove caluniadores).
– Constatar a facilidade com que o meu cérebro me enganou corresponde a uma preciosa lição. Relendo o texto, o “Ponto 2.” critica negativamente a citação e, mesmo assim, apaguei essa informação e só me concentrei no conteúdo do que estava citado.
– É um gosto malhar no Pacheco mesmo sob pena de fazer figura de urso.
– O que Carlos Blanco de Morais disse, então, não passa de uma cópia do que o Pacheco tem dito e escrito ao longo dos anos – especialmente na sua fase “frente da calúnia” que fazia pandã com a “asfixia democrática”. Não é um acaso. É um padrão, uma consequência, a sua evolução ou mera repetição.

Being Pacheco Pereira

No bate-boca (não se pode falar de polémica quando do outro lado estão dois palhaços) com Nuno Palma e João Miguel Tavares, o bibliotecário da Marmeleira chegou a levantar a assistência para o aclamar com o musculado A indústria de falsificações do Estado Novo e o galhardo Estudem, que vos faz falta. Depois, acrescentou-lhe uma relevante série de Notas sobre a ofensiva da direita radical (1) (2) (3), onde no último artigo se pode ler o seguinte:

«Uma intolerância sulfurosa ganhou o espaço público através de uma rede inorgânica de pivots televisivos, jornalistas de causas, humoristas militantes, comentadores encartados e redes sociais substitutivas da “Câmara Corporativa” de Sócrates. Políticos, magistrados, académicos e figuras públicas que desafiem os novos padrões de correção, assentes na nova filosofia pública, são heréticos e merecem as ‘chuvas ácidas’ que lhes oxidam a reputação, com a colagem de rótulos, simplistas, mas eficazes.»

Estamos perante uma escrita rápida, de memória, a repetição de bordões com anos de gasto. E é por ser essa a origem das duas frases que aparecem Sócrates e o Câmara Corporativa numa problemática onde é suposto estar a reflectir sobre a extrema-direita e as ameaças ao regime democrático e à cultura humanista e liberal. Na economia do texto que assim deixou publicado, o autor dá-se a ver como um maluquinho que chegou a meados de 2021 ainda com a obsessão por um blogue que, durante alguns anos da sua vida, visitou várias vezes ao dia, todos os dias da semana, todas as semanas no mês, de Janeiro a Dezembro, na procura narcisicamente febril dos “rótulos, simplistas, mas eficazes” com que ele e os da sua tribo eram lá brindados in illo tempore. O tal blogue que concebe como sendo “de Sócrates”, o que lhe garantia a experiência subjectiva de sentir uma relação directa com a sua paixão até nas vírgulas do que lia no CC. Ou seja, o Pacheco realmente acreditava – e para todo o sempre acreditará – que no CC conseguia ouvir a voz de Sócrates a dirigir-lhe a palavra e a desafiá-lo numa justa blogosférica.

O blogue que consegue a proeza de ficar associado a uma exposição de saudosistas da Mocidade Portuguesa graças à pancada pachequiana não teve qualquer influência fosse qual fosse nos resultados eleitorais de 2009, 2011 e 2015. Pura e simplesmente, não tinha expressividade sociológica para tal, era apenas um blogue entre outros blogues congéneres, e blogue de nicho. O nicho dos que já tinham a decisão de voto formada e o nicho dos pulhas que, na ausência de algum (um que fosse!) órgão de comunicação social cuja linha editorial fosse de explícito ou implícito apoio ao PS tiveram de fazer do CC um tigre de papel para – eles sim – levarem para jornais, rádios e televisões as campanhas negras a que se resumia a estratégia da direita desde 2004.

Dizer-se que “uma intolerância sulfurosa ganhou o espaço público” como se tal tivesse aparecido só com o Observador (criado em 2014) ou com o triunfo dos actuais caluniadores profissionais é gozar com o pagode, é demente. Tanto na SIC, como na TVI, como na RTP, para só focar estações de televisão, e isto a partir de 2008 (o ano em que Ferreira Leite ganha o PSD e Cavaco inicia um ataque a outrance contra o Governo socialista), que a paisagem mediática era de dilúvio ácido sobre os alvos socialistas. Foi quando Manuela Moura Guedes ocupou o horário nobre com o simulacro de um espaço informativo cujo único objectivo era caluniar como nunca antes se tinha visto na terrinha. Num registo paralelo, Mário Crespo utilizava o seu espaço de informação para fazer terrorismo político. Na RTP, sabia-se bem quais eram os jornalistas que detestavam e perseguiam o Governo e o PS, não se sabia de nenhum que revelasse ser seu activo simpatizante. Apesar disso, nesse tempo o Pacheco andava de cronómetro na mão a contar os segundos das peças que apareciam no telejornal da hora de almoço não fosse algum infiltrado dar dois segundos a mais à cobertura de um comício do PS do que se deu ao do PSD. As linhas editoriais do ecossistema mediático, logo a partir de 2007 com o Público, ficaram militante e furiosamente contra o Governo e o PS. A retórica populista antipolíticos idem aspas. O Chega inventado por Passos Coelho é já a terceira ou quarta geração do mesmo animal.

É fácil compreender o Pacheco. Ele foi um operacional graúdo do Cavaquistão. Terá visto merda da grossa, daquela que não sai das mãos nem com esfregão de arame, feita pelos craques do laranjal. Daí ter fugido para o comentariado, vida santa e regalada. Podia ter escrito as memórias dessa fase da sua vida mas preferiu calar-se. Preferiu ser cúmplice para poder manter as prebendas e sinecuras de que foi desfrutando na indústria da calúnia. Logicamente, ter conseguido apanhar um papel no Parlamento rasurado por Sócrates ou ter ouvido as suas conversas privadas com Vara surgiu-lhe como a salvação. Enquanto o Pacheco puder agarrar-se ao Sócrates conseguirá evitar ter de se olhar ao espelho.

O ódio alimenta-se de cobardes

No dia 13 de Julho do corrente, Armando Vara foi condenado a dois anos de prisão por crime de branqueamento de capitais. Esta sentença tem importância nacional pelas seguintes razões:

– Trata-se da primeira condenação nascida da Operação Marquês.
– A condenação pressupõe um crime de corrupção que não se provou.
– A condenação é muito superior ao que é comum em casos semelhantes.
– O colectivo de juízes justificou o peso cruel da pena (prisão efectiva para o que costuma ser pena suspensa) recorrendo a um argumentário moralista.
– O condenado encontra-se preso.
– O condenado é uma das mais notáveis figuras mediáticas em Portugal, fruto de uma imparável e crescente campanha de assassinato de carácter, perseguição política e instigação ao ódio que começou no ano 2000.
– O condenado foi utilizado no Face Oculta como desculpa para se conseguir espiar um primeiro-ministro em funções.
– Vara foi condenado no Face Oculta só com provas indirectas, com deturpação da Lei, sem dano conhecido ao Estado, sem ganhos materiais encontrados, e com uma violência judicial inaudita; também então, como agora, se tendo dito que os juízes estavam a usá-lo para dar um exemplo à sociedade.
– Vara voltou a ser alvo de caçada mediática e política por causa da detenção de Joe Berardo há 3 semanas.
– Vara é amigo de Sócrates e Sócrates é amigo de Vara.

Por todas estas razões, ou que fosse tão-só por qualquer uma delas, a notícia justificava presença nos espaços de comentário político. Inevitável e obrigatoriamente. Para continuar a linchar o homem ou para deixar no ar qualquer coisa remotamente relacionada com a Justiça, tanto fazia. Porém, que tivesse apanhado, só o caluniador profissional pago pelo Público é que pegou no assunto para o misturar com outras duas figuras e nada opinar a respeito da sentença. Em todos os outros espaços de comentário da fina-flor da nossa comunicação social, incluindo o de Marques Mendes que em 2019 tinha feito uma festa com a 1ª condenação, não se tocou no assunto. Repare-se na dimensão cósmica do fenómeno: o mano Costa e o Carvalho da Sonae não escreveram uma linha sobre Vara.

Dizer que este silêncio é absurdamente anormal é nada dizer. Melhor será ir na direcção contrária. O granítico ostracismo revela uma comunidade cúmplice da utilização da Justiça como tortura moral ou arma política, satisfeita ou indiferente com nova violação do Estado de direito democrático. Basta que o alvo seja considerado desprezível e não exista ninguém a pedir que se lhe faça justiça para além do seu advogado.

É para este desfecho que a direita decadente financia a indústria da calúnia. Para que o ódio derrube a Constituição, transforme juízes em justiceiros e faça da cobardia uma prática quotidiana e uma identidade colectiva.

Revolution through evolution

Two-thirds of Romantic Couples Start Out as Friends, Study Finds
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What does the sleeping brain think about?
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Handwriting beats typing and watching videos for learning to read
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After 14,000 years of domestication, dogs have some of the same cognitive abilities as human babies
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Rats prefer to help their own kind; humans may be similarly wired
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A fermented-food diet increases microbiome diversity and lowers inflammation, study finds
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Money talks: Wealthy ‘hijack’ agenda to gain policy influence
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Nas muralhas da cidade

«Os tempos são assim: parece culpado, é culpado. Assim, se está detido para ser interrogado, que apodreça por ali uns dias. Este horror é justamente a negação da presunção de inocência. É por ser ponto assente que recusamos isto que há julgamento e produção de prova. Não aceitamos, num regime democrático, condenar sem julgar, pelo que devíamos castigar nas urnas quem criminaliza a política, quem usa a Justiça como arma, e devíamos castigar como cidadãos os órgãos de comunicação social que fazem dos direitos das pessoas um ringue de boxe sangrento, um massacre pornográfico; sim, devíamos escolher a decência.

É difícil, mas vale a pena. A Justiça não pode ser um espetáculo ao qual nos rendemos com medo de perdermos o nosso eleitorado. A Justiça não pode ser um espaço sonoro de alívio de frustrações. A Justiça não pode ser arma de quem quer rasgar o regime e desatar o nó que demos em abril. A Justiça é templo de silêncio e de eficácia sem dependência do horário nobre.»

Isabel Moreira

«Há aqui um problema evidente: a presunção de inocência deixa de vigorar sem que nenhum juiz tenha lavrado sentença ou sequer o arguido tenha possibilidade de se defender.

Dir-me-ão que o MP só promove estas medidas porque tem uma fortíssima convicção da prática de condutas criminosas e que não devemos partir da possibilidade de os procuradores terem enlouquecido ou pertencerem a uma conspiração.

Lamento, mas isso pouco importa. A presunção de inocência é um pilar do Estado de direito; a nossa convicção de que não ficou tudo louco no MP ou de que não é possível uma conspiração não é princípio fundamental nenhum.»

Pedro Marques Lopes

«Não pode haver impunidade para ninguém, em democracia. Mas é tão fácil hoje destruir alguém publicamente e, como gostam de dizer os tribunais, por "motivos fúteis", que creio que só há dois motivos para se aceitar certas funções: ou vaidade, irremediável e humana; ou fé, inexplicável pela razão, em que se será mesmo capaz de fazer melhor. Não é seguramente pelos 4 mil euros mensais que ganha um ministro, não é seguramente pelo quotidiano de trabalho miserável e pelos riscos reputacionais inerentes. Isto é ainda mais verdade para os ministros que são cabeças transitórias (e, ainda pior, para os que pensam pela sua cabeça e que queiram fazer alguma coisa de diferente e assíncrono do interesse pessoal dos profissionais de um setor) de corporações fortes, porque diretamente interessadas e numerosas (forças armadas, professores, profissionais da saúde, profissionais da justiça, polícias e bombeiros...).

Não sou eu que vou condenar nem a vaidade nem a fé. Mas que a democracia ganharia com algo de intermédio, entre a censura obediente do Estado Novo e esta selvajaria consentida dos nossos dias, parece-me óbvio. Noticiar o existente e factual é um dever; sodomizar mediaticamente quem exerce funções públicas, só porque se pode no imediato e porque vende, é já um outro extremo, que alimenta também o populismo, a simplificação e a raiva inconsequente, bons alicerces das ditaduras.»

Miguel Romão

O sonho lindo do João Miguel Tavares

João Miguel Tavares não me interessa como publicista nem como entidade psicológica, seria apenas mais um direitolas folclórico se o seu estatuto decadente se resumisse a ser pago pela Cofina, pelo Observador e pelo Balsemão, por exemplo. Acontece que também é pago pela Sonae e já foi politicamente utilizado por um primeiro-ministro e por um Presidente da República – neste último caso à custa da instrumentalização e desonra da celebração do 10 de Junho – o que lhe deu proveitos materiais indirectos elevadíssimos e lhe dá uma importância mediática que nos permite desvelarmos forças subterrâneas em acção no actual jogo de poderes.

Leia-se o que escreveu há dias:

«sim, há um problema gravíssimo de regime em Portugal; sim, há uma cultura de corrupção que chegou às esferas mais elevadas dos poderes executivo, legislativo e judicial; sim, há um desejo evidente do poder político em considerar tais factos como emanações de comportamentos individuais, e não como o resultado de falhas institucionais, de profundos desequilíbrios do sistema e de um capitalismo de compadrio que continua a olear as relações entre a política e a economia, e que, em última análise, sustenta o poder.»

Uma primeira pergunta a fazer é: onde é que o João Miguel estava quando descobriu esta superorganização de criminosos? Foi ainda em Portalegre ou só quando veio morar para junto das elites? Foi quando começou a escrever crítica cinéfila (luminosa, inesquecível, diga-se) ou só depois de 3 de Março de 2009? Nunca obteremos resposta. Ele não tem tempo para futilidades dado estar ocupado a salvar o regime com o fogo do seu verbo, a derrotar os diabólicos socráticos com o aço valiriano da probidade e fé que transporta no peito.

Passemos para a segunda pergunta: como é que um gajo se sente após ter metido Marcelo, Costa, deputados às pazadas e magistrados em barda na saca da “cultura de corrupção”? Fantasio que muito bem. Deve dar um gozo sublime despachar a pontapé e à escarreta os representantes da democracia, os responsáveis institucionais da República, os pilares e o topo do Estado. É coisa para abrir o apetite, dançar sozinho na sala, agarrar-se à esposa com o entusiasmo da lua de mel. Resposta é que também não obteremos nesta pergunta, ala para a próxima.

Terceira pergunta: se as empresas de comunicação social que lhe pagam pertencem, por maioria de razão, aos capitalistas de compadrio que oleiam as relações entre a política e a economia, e que, em última análise, sustentam o poder, esse dinheiro que lhe chega ao bolso tem cheiro? Aqui, finalmente, podemos adivinhar a resposta. Porque se trata de problemática há muito resolvida nas latrinas da Roma antiga. Donde, o fabuloso escriba pode recolher a maquia nascida, como explicou, dos profundos desequilíbrios do sistema sem ofender a pituitária de terceiros.

Apesar de escrever, no mínimo, três vezes por semana há anos e anos e se dar amiúde com o Ricardo Araújo Pereira (visita da casa, atente-se), ainda não existem textos onde o valente denunciador dos podres do regime apresente soluções, medidas tangíveis e exequíveis, um programa político. Ausência que indicia não ter cabeça para tanto? Nada disso, pá. Aconteceu-lhe foi uma coisa extraordinária na vida, o encontro com Passos Coelho e o êxtase que se seguiu. Um ser que fez o seguinte, palavras suas:

«A coragem que Passos Coelho teve em deixar cair Salgado em 2014 é um gesto pelo qual o país lhe estará eternamente grato, mas a recaptura do poder por António Costa em 2015 permitiu que a tragédia do BES (e de Sócrates) permanecesse como um grande impensado.»

Esta é uma das mais cristalinas frases do jornalismo contemporâneo, mesmo da ciência política vanguardista, e só socialistas e gente sem princípios (passe a tautologia) é que se recusarão a reconhecer tamanho rigor no diagnóstico. Como se pode ler, o gesto de Passos Coelho é o de um predestinado a agir sob o comando da divina graça que sempre assiste ao soberano que comanda a História. Daí a merecida eternidade no agradecimento a que esse tal país (não sabemos qual, pois o vocábulo foi prudentemente grafado com caixa baixa para evitar curiosidades malsãs) fica obrigado. Alguém imagina o horror de não termos a resolução do BES e a respectiva hecatombe de falências e imparáveis prejuízos para o Estado aonde se veio parar? Seria mesmo muito mau. A própria Justiça talvez tivesse de fechar portas por falta de matéria-prima e motivação no pessoal. Mas felizmente, um rapaz chamado Pedro, nado e criado na cultura da corrupção por capitalistas do compadrio e compadres capitalistas, fez o que mais ninguém teria feito: podendo escolher o mal menor, avançou implacável na direcção do mal maior.

Eis, então, que nas catacumbas do regime se digladiam forças que tentam manter a tragédia do BES (e de Sócrates, ainda mais, arrisco declarar) como um grande impensado, umas, e forças que querem transformar a tragédia do BES (e do Sócrates, há que o repetir sem medos) num grande pensado, ou, calhando tal não ser ainda possível por falta de maturidade e literacia na população, num pequenino impensado, outras. Tal conflito chegará ao fim quando Passos Coelho recapturar (nunca se usou um verbo com tanta acutilância, senhores ouvintes!) o poder ao malvado António Costa.

É para este sonho lindo que o João Miguel Tavares trabalha todo o santo dia, até altas horas da noite, por vezes chegando mesmo uma beca atrasado aos encontros com o Araújo das piadolas.

Injustiça sem segredo

O comunicado do DCIAP sobre a investigação a Luís Filipe Vieira termina assim: “O inquérito encontra-se em segredo de justiça.” A data é de 7 de Julho. Passaram 8 dias. Quantos crimes de violação do segredo de justiça os magistrados responsáveis pelo processo já cometeram, entretanto? É ir ver as capas do esgoto a céu aberto, e só para começo da contagem.

A ida de Magalhães e Silva à TVI, apresentando uma versão factual das suspeitas que pesam sobre Vieira, foi como desatar à vassourada num vespeiro. Porque de imediato, no dia seguinte, as escutas cortadas à maneira já estavam à solta e o arguido via a sua sentença condenatória a ser despachada em vulgado. Igualmente, os sindicatos dos procuradores e dos juízes soltaram os cães e iniciaram a caçada. Este Magalhães está feito, não se toca no santo Rosário. É que o advogado não se limitou a dizer que os reizinhos da nossa Justiça vão nus, igualmente aludiu à emporcalhada realidade de exalarem um odor fétido por não saberem o que é um banho de decência há anos e anos.

O Ministério Público vive em guerra civil contra a Constituição. A facção do sindicato é cúmplice dos crimes cometidos por agentes da Justiça, já chegou ao ponto de caluniar um tal de Sócrates, e está em guerra aberta com Lucília Gago, querem ser eles a mandar na casa. Acima e antes de tudo, a prática de crimes com este à-vontade, esta siderante impunidade, por parte de quem detém superpoderes num Estado de direito democrático para precisamente combater todo e qualquer crime, configura a mais grave ameaça à segurança interna e ao regular funcionamento das instituições que temos neste momento na República.

Para os papalvos, há sucateiros, soalhos de uma casa em Paris e ministros da Defesa socialistas amigos da bandidagem com fartura. Há detenções em horário nobre e cobertura completa, prisões para os alvos contarem as horas até poderem prestar declarações, a certeza de as vítimas terem a sua privacidade devassada e nunca mais conseguirem reparar os danos à reputação e à integridade da imagem pública.

A indústria da calúnia e seus caluniadores profissionais não se limitam a encher os bolsos, andam também cheios de adrenalina a alinhar nas cruzadas e nos linchamentos por se imaginarem com as costas quentes. Estão fascinados pelo espectáculo da violência sobre os mais fracos, salivam caudalosamente enquanto mostram as favolas na televisão. E riem-se soberbos porque o seu futuro está garantido com tanto gatuno por apanhar e castigar.

Operação Joe com 1º sucesso retumbante

Armando Vara voltou a ser condenado a prisão efectiva por um crime inexistente. E em cima desse vazio os juízes colocaram um pelourinho moralista para justificar o injustificável. Isto acontece com a cumplicidade de toda a gente – nuns casos, rejubilando calada; noutros, quase nenhuns, apercebendo-se do monstro, o monstro da utilização da Justiça para as vinganças políticas, para as chantagens, para as perseguições, para espalhar o medo de ser apanhado por quem é capaz disto: “Juízes quiseram fazer do caso de Armando Vara um exemplo para a sociedade

O exemplo para a sociedade, então, foi escolhido porque 25 mil euros + 535 mil euros. No primeiro caso, tráfico de influência sem provas, sem dinheiro encontrado nem dano, apenas na forma tentada. No segundo caso, branqueamento de capitais sem crime de corrupção conhecido, o que implica não haver branqueamento. Compare-se o valor material que está aqui em causa, e a tipologia das decisões judiciais e inauditas penas, com uma qualquer grande história do tráfico de influência e do crime económico em Portugal dos últimos 20 anos, do BPN ao BES, passando pelos submarinos e pelo testemunho de Helena Roseta sobre Miguel Relvas. Vara é exemplo do quê? A ser de alguma coisa, é de inépcia e modéstia criminal. Não parece ter aprendido a encher-se à moda de Puerto Rico nem a obter o favor de ter magistrados preocupados com o Direito a julgarem os seus processos.

A Operação Joe foi lançada há duas semanas precisamente para garantir este desfecho, tendo contado com a algazarra do editorialismo e do comentariado que juntaram lenha para o auto-de-fé. Não é só o gozo do linchamento de Vara que está em causa, o tabuleiro estratégico é muito maior e remete sempre para o troféu supremo: Sócrates. Importa conseguir condenações como esta em tudo o que tenha relação com a Operação Marquês no pressuposto de que a coragem de Ivo Rosa é a excepção e não a regra. Começando com esta sentença, e independentemente do que venha a acontecer nos recursos em avaliação na Relação de Lisboa, a bitola fica estabelecida e começa a produzir efeitos nos restantes juízes. Há aqui um fenómeno de ancoragem penal, e também de intertextualidade penal, onde a candeia que vai à frente alumia duas vezes o argumentário usado para a continuação dos arbítrios e da violência.

Quando a Justiça se concebe como instituição da moral em vez do Direito (questão diferente de se reconhecer uma moral ao Direito), entramos num estado de excepção. Só nesse estado se aceita que os juízes façam de algum cidadão um exemplo pois a Constituição deixou de estar em vigor – ou seja, esse cidadão deixou de ter todos os direitos constitucionais, passa a ser possível dispor do seu nome, da sua liberdade, até da sua vida, para dar exemplos. Os exemplos que apeteçam aos que concretamente exercem um poder despótico, absoluto. Foi contra isto, essencialmente, que se fizeram as revoluções liberais – nascidas do sonho, e do sangue, dos melhores de nós.

Sabes caluniar? Vem trabalhar para o Balsemão

«Para ser um peão no assalto ao BCP, Joe Berardo “pediu” dinheiro emprestado à banca e deu as ações do próprio BCP como garantia.»

«Do assalto ao BCP, em 2007, à renegociação do novo acordo em torno da Coleção Berardo, em 2016, passando por decisões de comissários socratistas na banca, há incompetências, cumplicidades e crimes de agentes políticos que acabarão por ser julgados.»

«A política, como o dinheiro, ergue e destrói coisas boas e más. E se foi ela que ajudou Berardo a safar-se, foi ela que o ajudou a tramar-se. Dos que o safaram ouviremos falar nos próximos tempos e alguns serão de peso.»

«Mais do que o descaramento, que não tem faltado naquela comissão, foi a boçalidade de Berardo no Parlamento que tornou o assalto intolerável e a estadia na prisão mais provável. As detenções ou prisões preventivas podem ser necessárias para que se faça justiça, mas não é a justiça a ser feita. Até podem criar expectativas que serão frustradas. Espero, por isso, que a justiça não padeça do mesmo pecado que tramou Berardo: o da vaidade. Ando cansado de foguetório sem festa.»

Daniel Oliveira

Este senhor tem a certeza de ter existido um “assalto ao BCP”, que nesse assalto Berardo recebeu dinheiro oferecido pela CGD para tal, que quem na CGD assim decidiu foram os “comissários socratistas”, que quem os comandou foi o Governo de então, que esses políticos mentores e executores do “assalto ao BCP” serão julgados em tribunal, e em breve. Chega (pun intended)?

Há ainda mais, e se calhar até melhor, na sua caluniosa cachimónia: (i) que o Governo do PS em 2016 também alinhou nas falcatruas para “safar” Berardo – o que então, seguindo o argumento, faz de Costa mais um “comissário socratista”; (ii) que o tal “assalto ao BCP” continuaria a ser tolerado pela Justiça não fora a ida de Berardo a uma comissão parlamentar de inquérito exibir a sua “boçalidade” – é outra vez a demente e burlesca tese das gargalhadas que se tornou viral no comentariado do Expresso e da SIC; (iii) que, por causa das gargalhadas, ter passado umas noites no chilindró não só se entende como até se aplaude – fazendo do escriba mais um a tratar a prisão de um arguido para interrogatório como uma punição que se aceita em certos alvos.

Isto é escrito num espaço de opinião. Não foi o resultado de uma investigação jornalística onde o valente Daniel tenha arriscado o corpinho a apanhar com a sua máquina fotográfica secreta e com a sua sherlockiana inteligência bandidagem tão grande, tão perigosa. O mais provável é o ramalhete das delirantes suspeições ter chegado ao seu teclado porque ouviu algures essas ideias, achou-lhes graça, depois olhou à volta e viu os seus colegas pagos pelo Balsemão a repetir muitas vezes o mesmo. Vai daí, achou-se confiante para se juntar ao coro do “assalto ao BCP”. Entusiasmado, em perfeita sintonia com os que de imediato apontaram para Sócrates quando Berardo foi detido, pede o espectáculo de se condenarem banqueiros, bancários e políticos graúdos à conta da história que Jardim Gonçalves lançou, e cuja inerente vingança tem sido executada com formidável sucesso. A “festa” vem a caminho, assevera o ex-bloquista.

Talvez alguém conheça, e daqui penhorado rogo que mo indique existindo, mas eu não sei de algum artigo, ou exposição televisiva, ou declaração radiofónica, onde o Daniel Oliveira tenha apresentado as evidências, os factos, sequer meros indícios, que mostrem ter pensado mais de 30 segundos no que é isso do “assalto ao BCP”. Aposto os 10 euros que tenho no bolso como, calhando ser apanhado desprevenido, nem conseguiria listar a cronologia dos episódios no BCP, desde a escolha de Paulo Teixeira Pinto como sucessor de Jardim Gonçalves, passando pelas peripécias do seu conflito intestino posterior, até à assembleia geral que elegeu a lista de Santos Ferreira para gerir o banco no momento mais difícil desde a sua fundação por causa da crise directiva e das ilegalidades descobertas. Aposto mais 5 euros, pedidos emprestados à minha vizinha do 4º andar, em como não analisou o que foi dito nas comissões parlamentares de inquérito à CGD, onde se deixaram horas e horas (e horas) de informação e testemunhos sobre o que aconteceu, como aconteceu e porque aconteceu o que aconteceu na banca nos idos de 2006, 2007 e 2008. E há uma excelente razão para tal: o filme do “assalto ao BCP” tem como protagonistas, para além do super-vilão Sócrates e a arraia-miúda dos “comissários socratistas”, também Teixeira dos Santos, Celeste Cardona, Paulo Macedo, António Mexia e Vítor Constâncio, mais os 97,7% dos votos presentes na assembleia geral de 15 de Janeiro de 2008, a que se têm de juntar os ministros e secretários de Estado do Governo de então e os do Governo seguinte, mais um mar de figuras e figurinhas que não cabe na prosa. Toda esta gente, portanto, terá alinhado com o plano nascido na mente diabólica de Sócrates, defende o Sr. Oliveira sem, naturalmente, ter tempo para nos explicar por que é que Cavaco e a restante direita ficou então de braços cruzados a ver o crime do século desenrolar-se à sua frente. Sono profundo de que apenas acordaram graças às gargalhadas do Joe, em 2019 com efeitos em 2021, tem a lata de deixar escrito.

Tenho dado atenção a este publicista pelo mérito que lhe reconhecia para o bem comum. Infelizmente, considerando a influência social de que desfruta, a sua ambivalência deontológica e a pindérica soberba de confundir percepções com conhecimento não o recomenda para outros voos. Parece feliz da vida a cumprir-se como um serventuário do Balsemão. Que se foda e tenha muita saúde.

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No Expresso não se perde tempo com o jornalismo

Ângela Silva tem carteira de jornalista e ela serve-lhe, quase que exclusivamente, para ser um pé de microfone de Belém (calhando o inquilino ser de direita, Balsemão não se desfiliou do PSD). Talvez para lhe dar um aliviozinho dessa canga, foi a escolhida para entrevistar Augusto Santos Silva, conteúdo complementar de um artigo-perfil também da sua autoria: Yes, prime minister

Este ministro socialista, pelo currículo e personalidade, é um dos mais interessantes, estimulantes e importantes políticos portugueses. Sendo o ensejo do jornal transmitir que ele está de saída do Governo, quiçá em fim de ciclo activo no PS, surpreende que a entrevista publicada tenha só 12 perguntas. Dessas, 5 são sobre Sócrates (mais de 40%, portanto). Ora, a surpresa inicial evolui imparável para o espanto quando deparamos com o festival de subtextos manhosos e acinte canalha a que a Ângela se entregou no páreo com o Augusto. Para além de ter aproveitado uma descuidada deixa numa resposta para o carimbar “cão de guarda de Sócrates”, para além de ter reagido a um remoque irrelevante, o mais extraordinário (correcção: o mais ordinário) é o modo calunioso como pretende envolver Santos Silva na culpabilidade pública que se abate sobre Sócrates:

Sendo um cientista profissional, Sócrates foi para si uma surpresa?
O que é que foi uma surpresa?

Ver José Sócrates apanhado.
O que é que quer dizer apanhado?

Acusado judicialmente de corrupção.
Foi uma surpresa total haver um homónimo meu que era amigo dele e que lhe emprestava dinheiro. Nunca tinha ouvido falar do Carlos Santos Silva. Não o conheci, nunca estive com ele, foi uma surpresa absoluta.

Já havia o Freeport, a Cova da Beira...
Nunca nos seis anos e meio que trabalhei com ele, aliás de forma muito estreita, tive qualquer indício. Quanto ao resto, haverá um julgamento. Vamos ver.

Sentiu-se enganado?
Senti estupefação.

Repare-se como Santos Silva de imediato descodifica a pulhice e não se deixa apanhar. Repare-se ainda como mantém intocável a integridade da presunção de inocência de Sócrates. Porque ele sabe, para além de qualquer dúvida, que Sócrates está inocente da acusação de corrupção, ou porque ele não tem qualquer censura moral a fazer mesmo que só se provem os empréstimos? Nada disso, ele está é a defender a sua honra. E declara, sob implícita palavra de honra, que não foi testemunha de qualquer indício de comportamentos ilícitos por parte de Sócrates.

A nossa Ângela, o seu director Vieira, o super-director Costa e o proprietário do Expresso cagam d’alto na honra de Augusto Santos Silva. Por isso, tratam-no como o traste que acham que ele é. Alguém que “sabia de tudo” do que eles mais desejam que fique inscrito na História, claro. Daí só estas 12 perguntas. Sonsas, pirosas, calhordas. Mesmo que o plano fosse o de pressionar, entalar por associação, tão importante parceiro de Sócrates na governação, a estratégia mais inteligente era mesmo a de tratar o entrevistado como cúmplice do que então terá de ser considerado o maior criminoso português do século XXI e parte do século XX? É isto jornalismo?

A decadência da direita política não ocorre num vácuo. Os seus instrumentos mediáticos estão ao mesmo nível de indigência intelectual e miséria moral.

Sangue, circo e pão

Nas detenções, e prisão, de Joe Berardo e Luís Filipe Vieira assistimos a um fenómeno de revanchismo por parte das vedetas moralistas que opinam na comunicação social “de referência”. José Gomes Ferreira, figura altamente prestigiada no Grupo Impresa, disse o seguinte:

Joe Berardo cometeu um erro do ponto de vista pessoal e empresarial: ir ao Parlamento ironizar com todos os portugueses. E o Parlamento sentiu-se ofendido e as instituições finalmente acordaram, nomeadamente alguns protagonistas da área da Justiça. E fizeram alguma coisa. Deviam tê-lo feito com todos os outros devedores da banca que são muitos e que continuam impunes a passear-se pelas lojas de luxo da Avenida da Liberdade e nas lojas de luxo de Paris e Nova Iorque.

Fazendo fé nesta inteligência marciana, a Justiça não teria avançado contra Berardo sem a cena da gargalhada do Joe na comissão de inquérito. Faz isto sentido? Para ele, sim. E eu acredito que ele acredita no nexo entre as gargalhadas em 2019 e a detenção em 2021. Dois anos parece-lhe até rápido para que esses “alguns protagonistas da área da Justiça” conseguissem meter o homem num calaboiço.

Será a bronquite crónica deste patético caluniador um caso singular? Nada disso. Eis o que o fabuloso Pedro Santos Guerreiro, o qual tecla no Expresso e bota faladura na SIC e na TVI (pelo menos), tem a dizer sobre a mesma matéria:

«Só é possível se os indícios forem fortes e só é possível porque é a Caixa que está nisto, é o Estado o lesado e é o Ministério Público que lhe responde à humilhação que todos sofremos quando no Parlamento nos gargalhou na cara.» + “Depois das detenções de Berardo e Vieira, uma das coisas que fica claro é que mais ninguém vai às CPI brincar com os deputados e rir-se na cara do povo. Isso já acabou.

O enfoque na humilhação nacional, humilhação gravíssima pois nasce de gargalhadas “na cara do povo”, serve a este craque do bota-abaixo barroco para se fantasiar de carrasco da bandidagem e assim celebrar o tratamento a pontapé dado a quem ainda nem sequer está acusado. O fedor a populismo de taberna nesta retórica é insuportável.

Outros exemplos podiam ser dados mas chegam estes para registarmos como o abuso de poder que consiste em deter cidadãos para serem interrogados, e depois deixarem-nos presos vários dias no que então só pode ser entendido como castigo e espectáculo, não preocupa estes passarões. O deus que adoram não se chama “Estado de direito democrático” nem “compaixão”, confirma-se pela enésima vez. Sentados no balcão aveludado donde disparam sentenças, eles só querem é ver o sangue a correr na arena. A hiperactividade da dupla MP-Calex não é apenas um circo que lhes faz disparar a testosterona, a coisa igualmente contribui para o seu pão (e caviar) mensal.

Aprender a ser humilde com o “Bloco Central”

Imaginemos que os cientistas que estudam o corpo humano – portanto, que estudam as doenças e de cujas investigações se forma o conhecimento da medicina – estavam sujeitos a serem criticados, atacados e caluniados por outros cientistas apenas por trabalharem em universidades ou centros de investigação diferentes. Ilustrando com um exemplo, seria como se um investigador do CINTESIS publicasse um artigo sobre a sua pesquisa em imunologia e recebesse opiniões violentamente negativas de cientistas da Fundação Champalimaud apenas e só porque o cientista em causa pertencia a outra instituição, e vice-versa. O carácter absurdo e demente deste exemplo não precisa de ser explicado a ninguém, grupo onde incluo os organismos unicelulares. É suposto os cientistas criticarem os trabalhos dos seus colegas recorrendo às práticas inerentes ao método científico e aos conhecimentos especializados na área em causa que possuírem. Dessa forma, o conhecimento científico melhora, seja por se descobrirem erros, seja por se validarem resultados, seja por se fazerem descobertas. Para além disso, a tradição científica, nascida da tradição filosófica, funda-se no pensamento crítico, o qual tem como essência a curiosidade, a lógica e a honestidade intelectual. Donde, quando vamos à farmácia comprar o xarope estamos a usufruir de décadas, séculos e até milénios de construção do edifício científico onde se inventam soluções para os nossos problemas. Se isto se faz assim na medicina, por que caralho não se faz o mesmo na política? Acaso a governação dos Estados, onde se inclui não só a dimensão da saúde mas todas as restantes que compõem a experiência humana, é menos importante do que a investigação científica?

Este paleio a respeito da edição do “Bloco Central” de 2 de Julho. Nela, o filme do “Assalto ao BCP” é dado como factual pelo Pedro Marques Lopes, com a anuência e apoio do Pedro Adão e Silva. O meu desgosto não nasce de eles terem essa convicção. Há muitas e boas razões pelas quais tal percepção se pode formar e cristalizar. Ele vem, o desgosto, mesmo a repugnância, do modo como expõem essa convicção. No que dizem, não é possível identificar um singular átomo de informação que justifique ser essa versão dos acontecimentos preferível à versão dos visados na calúnia. Porque é de uma calúnia que se trata, em Julho de 2021 (poderá deixar de o ser no futuro, calhando tal se provar), quando se diz que Armando Vara decidiu, a mando de Sócrates, dar dinheiro a Berardo para este ser um factor decisivo na luta de poder no BCP. É uma calúnia dizer que Santos Ferreira foi escolhido pelos accionistas do BCP para ser presidente por ter emprestado dinheiro a não sei quem. E são calúnias que causam vergonha alheia quando comparadas com a realidade pública desses episódios.

Aceitamos como fatal que ser oposição a qualquer Governo consista em estar sistematicamente contra esse Governo, contra os seus membros, contra o partido ou partidos que o apoiam. Fatalmente aceitamos que o palco parlamentar, a esfera mediática e o espaço público estejam saturados de discursos políticos sectários, enviesados, maniqueístas. Por isso sou fã destes dois Pedros, pois admiro a capacidade de ambos para acolherem a complexidade do mundo e respeitarem os limites humanos. É desta filiação ao espanto de existir que lhes brota um cuidado com a decência que corresponde a uma substantiva nobreza de carácter. Significa que podemos discordar deles sem que tal macule a estima que lhes tenhamos ou diminua o valor que lhes reconhecemos como membros da nossa comunidade. Se essas características de magnanimidade (em sentido aristotélico) fossem comuns entre aqueles que fazem e comentam a política, acaso não estaríamos a viver muito melhor dado o contributo de todos, ou de muitos mais, na descoberta e realização de soluções para os principais problemas sociais e económicos? Daí ser dilacerante, para mim, vê-los a deixarem-se afundar nas teorias da conspiração, nas calúnias, no irracionalismo. E pouco me importa o quadro psicológico que os leva para tal, essa socratopatia, pura e simplesmente exijo que sejam superiores à pulsão que os arrasta para a antinomia nos princípios.

Mas têm eles de corresponder a qualquer expectativa minha? Mais depressa o Inferno gelaria, óbvio. Então, aceito como lição de humildade ver dois dos meus ídolos no comentariado a mostrarem-se cofinados.

O super-juiz a chapinhar no super-lodaçal

«A conduta de Azeredo Lopes é extremamente grave, uma vez que o mesmo violou a fidelidade reclamada pela sua qualidade de ministro da Defesa Nacional.»

«Foi o aval de Azeredo Lopes, que tudo podia ter denunciado e impedido, que transmitiu confiança a todos os demais arguidos que, também em seu nome, atuaram. A participação de Azeredo Lopes foi essencial a toda a engrenagem.»

«A PJM desenvolveu uma atividade investigatória paralela, clandestina, à margem do processo-crime ocultando a atuação ao MP. Luís Vieira deu instruções para que essa investigação ficasse na esfera da PJM e que não fosse dado conhecimento ao MP. E de tudo isto Azeredo Lopes tinha conhecimento, tendo escutado o desagrado de Luís Vieira e os seus desabafos pela retirada de competência de investigação à Polícia Judiciária Militar e recebido documentos de Luís Vieira com esse desagrado.»

«A atuação extraprocessual que a PJM desenvolveu contou com a cobertura política, o apoio e a concordância do ministro numa investigação paralela e clandestina que implicou a celebração de um acordo de impunidade com os assaltantes para que as armas fossem devolvidas.»

«Não havia outra peça, neste tabuleiro de Tancos, melhor colocada que Azeredo Lopes para denunciar ao MP que Luís Vieira estava a extravasar as suas competências e que a sua conduta estava a afrontar e a desrespeitar uma decisão da PGR. Entre ambos havia uma relação de confiança, o ex-ministro era uma espécie de confidente, um muro de lamentações de Luís Vieira.»

«Bizarro é fazer-se de coitadinho e de irresponsável e escudar-se na confiança institucional ou na ausência de menção a Tancos para branquear aquela que foi a sua atuação e que consistiu em honrar elementos da PJM e da NIC/GNR de Loulé por feitos que Azeredo Lopes sabia que não eram verdadeiros.»

«Todo este lodaçal tem de ser julgado.»

Carlos Alexandre – Despacho de Pronúncia do caso de Tancos

Depois de uma imparável campanha de ódio contra Azeredo Lopes logo a partir do conhecimento do furto, Junho de 2017, campanha essa que contou com a anuência de Marcelo até ao momento em que descobriu que estava em vias de se queimar, o Ministério Público lançou a acusação do caso de Tancos em cima das eleições legislativas de 2019. Nela, os procuradores garantiam que Azeredo Lopes sabia do plano para ilibar os ladrões desde a primeira hora, e que alinhou nele para obter vantagens para a imagem do Governo. Ou seja, a acusação atribuía a motivações estritamente políticas os alegados actos ilegais de Azeredo Lopes, assim envolvendo directa e profundamente na acusação o Governo socialista. Este episódio, pelo conteúdo e calendário, fica como (mais) um monumento à judicialização da política em Portugal.

Rui Rio, em campanha eleitoral, de imediato explorou a oferta do Ministério Público e apontou directamente a Costa, dando como provado o teor da acusação. Costa seria culpado caso soubesse o mesmo que Azeredo, ficando como cúmplice, ou não o sabendo, ficando como incompetente para chefiar Governos, afirmou Rio. Na sua miserável postura, chegou a atacar uma comissão parlamentar de inquérito, colando PCP e BE às calúnias que lançava. Sim, este é o mesmo Rui Rio que tinha jurado jamais vir a fazer tal pulhice, o tal do “banho de ética”.

Azeredo Lopes, na instrução do processo, defendeu não existirem provas jurídicas que sustentassem a acusação. Carlos Alexandre, como se pode ler nos excertos acima, não só considerou o contrário, não só aceitou toda a acusação do MP como válida, foi mais longe. Foi muito mais longe. A linguagem usada destina-se a provocar um espectáculo de humilhação política, cívica e moral de quem exerceu as funções de ministro da Defesa. Mandando Azeredo para julgamento, com acusações de teor político maximalista, e linchando o seu bom-nome num tribunal graças à prepotência com que exerce a soberania que lhe foi confiada pela República, o super-juiz consumava aquele que foi um processo político desde o início, tendo gerado crimes de violação do segredo de justiça em barda e servido como obscena munição eleitoral à descarada.

Agora, porque seria uma bomba institucional estar a condenar a prisão efectiva os militares da PJM, os quais agiram com excesso de espírito de corpo mas cheios de boas intenções castrenses, não se poderia continuar o linchamento de Azeredo. Se a ideia era a de resolver o berbicacho com penas suspensas para os militares que perderam a cabeça, nessa equação penal não dava para uma solução “à Vara” e inventar provas indirectas para prolongar o calvário de mais um alvo socialista. Eis que o procurador do julgamento reconheceu ter Azeredo Lopes razão quando afirmou ser inocente – só que deixando uma gargalhada dirigida lateralmente ao ex-ministro ao justificar o pedido de penas suspensas declarando que a vinda dos militares a julgamento já era castigo suficiente.

Rescaldo: o caso de Tancos produziu provas, confirma-se, mas contra parte do Ministério Público e contra o juiz Carlos Alexandre – useiros e vezeiros na captura de poderes constitucionais exclusivos com que se permitem violar o Estado de direito sem que alguém os consiga punir, sequer controlar. Abria-se, portanto, uma janela para analisar e questionar todo o processo à luz do seu desfecho. Porque, tal como com Ivo Rosa na Operação Marquês, Carlos Alexandre vê decisões suas que são retintas perseguições políticas a serem revertidas por outros decisores judiciais. Só que não vai acontecer. E por duas razões: (i) porque não existe imprensa em Portugal (leia-se o quase nada que os impérios mediáticos da direita disseram, e só para continuar a disparar sobre Azeredo, apagando tudo o resto); (ii) porque existe uma parte do Ministério Público fora-da-lei que tem um calendário de acção pleno de oportunismo, tendo avançado ontem com um trunfo farfalhudo a que tiveram de recorrer para soterrarem Tancos na lixeira da cidade. É o dois em um, está esgotada a sua utilidade e abafa-se a imundície.

“Não desista!”, suplicou Cavaco

«O SOL fora o primeiro jornal a denunciar os factos que haviam dado origem ao processo Face Oculta, como já fora o primeiro a noticiar o caso Freeport.

Nós éramos, portanto, homens a abater.

As tentativas para fechar o jornal tinham-se sucedido de várias maneiras e envolvendo diversos protagonistas.

Vivemos momentos de angústia e desespero.

O Presidente da República, Cavaco Silva – mais de dez anos depois já o poderei revelar –, chamou-me a Belém para se informar sobre o que estava a suceder e à saída disse-me, enquanto me apertava demoradamente a mão: «Não desista!»».

José António Saraiva

O “Assalto ao BCP” é uma teoria da conspiração que inevitavelmente teria de nascer na direita. E a qual contaria sempre com a cumplicidade da esquerda, por ir ao encontro de uma predisposição simétrica (aqui, vinda pela matriz marxista) para caluniar o inimigo em comum. Entretanto, o delírio atingiu o centro e invadiu o próprio PS, graças à pressão do monopólio mediático da direita, ao trauma da Operação Marquês e sua lancinante e dilemática dimensão moral entre os socialistas, e ainda à universalidade de diversos processos cognitivos automáticos que favorecem e promovem narrativas simplistas, parcelares, enviesadas e caricaturais.

O meu propósito (que profetizo antecipadamente inglório) neste texto é expor o grau de irracionalidade que o “Assalto ao BCP” exige aos que acreditam mesmo nele, e também as consequências dessa irracionalidade nos órgãos de soberania, na sociedade e na comunidade. E pretendo fazê-lo com uma economia de caracteres que irá deixar este mundo e o outro banzos de espanto. Para tal, comecemos com um outro assalto, o “Assalto ao Arquitecto”.

Como se pode ler na citação acima, José António Saraiva foi mais um dos que foi buscar os galardões de caçador de socráticos ao ver Joe Berardo a levar o tratamento alexandrino e a encher de gozo os tais procuradores que vão limpar esta merda toda. No artigo jubilosamente intitulado “O 2º julgamento de José Sócrates”, vangloria-se por causa de uma capa do Sol, de 2009, onde tratava o Governo de Sócrates e o PS como um bando de mafiosos. E no trecho que fui buscar está uma lápide comemorativa por igualmente o mesmo semanário ter sido instrumental no lançamento do caso Freeport. São dois factos, os quais oferecem uma base sólida para o primeiro balão de ar quente, isso de o arquitecto Saraiva alegar que os visados pelas peças do seu jornal reagiram tentando “fechar o jornal“. Parece lógico, né? Estamos disponíveis para acreditar que os políticos, em geral, são potenciais ou activos criminosos – especial e fatalmente quando se trata dos políticos de quem não gostamos ou que tememos. E não nos custa nada a engolir que esses tais políticos, uma vez apanhados pela indomável e corajosa imprensa livre, pretendam silenciar os heróicos órgãos de comunicação social para assim escaparem à Justiça e continuarem a roubar o Estado e os contribuintes de mil milhões de maneiras todo o santo dia. Quem chegar ao fim deste trajecto narrativo vai, acto contínuo, ser dominado por uma inércia cognitiva que cristaliza o sentido da história. Mas que história é essa?

Voltemos ao princípio. Eis que um jornal nos diz que um candidato a primeiro-ministro é corrupto (2004), e depois volta a dizer que o mesmo fulano, agora já primeiro-ministro, não só é corrupto como é o maior corrupto de que há memória, e não só em Portugal (2009). Pensemos. O tal jornal está isolado na denúncia? É uma voz a clamar no deserto? Pois não, pelo contrário. A própria Justiça investigou e tomou decisões acerca dos acontecimentos que serviram a esse jornal e restante coro mediático para as acusações. No primeiro caso, a Justiça provou que o Freeport foi uma cabala política lançada por indivíduos ligados ao PSD, CDS e Judiciária, e nada mais. No segundo caso, a Justiça impediu que elementos da própria Justiça conseguissem abrir um processo infundado e ilegítimo contra um primeiro-ministro nas vésperas de eleições legislativas. E como é que nós podemos ter a certeza de que estas são as mais verosímeis versões dos acontecimentos? Pensemos. Se não o fossem, se o Freeport tivesse sido abafado pelo Pinto Monteiro e o Face Oculta pelo Noronha do Nascimento, como a direita decadente continua a martelar, então algo de inaudito teria acontecido, algo de arrebimbomalho teria de acontecer. Que seria isto: o Conselho Superior do Ministério Público, o Conselho Superior da Magistratura, a Assembleia da República e o Presidente da República, cada um destes órgãos por si dentro da sua esfera soberana de autoridade, e em conjunto como representantes primeiros e supremos da República, teriam exposto e anulado o que equivale a um golpe de Estado. É disso que estamos a falar: se tivesse existido um procurador-geral da República e um presidente do Supremo Tribunal de Justiça que, no Verão de 2009, decidissem ilibar um primeiro-ministro mafioso apesar das provas contra ele recolhidas pela própria Justiça, a consequência imediata seria a abertura de investigações aos seus actos e hoje esses cúmplices do diabólico Sócrates já estariam presos há anos e anos. Parem as rotativas: não só os tais magistrados continuaram então em funções, como Noronha veio a ser reeleito Presidente do Supremo e Pinto Monteiro saiu no final do mandato condecorado por Cavaco.

A história que o arquitecto Saraiva nos está a contar, então, é do domínio da fantasia. Precisa de convocar a nossa imaginação e apagar qualquer vestígio de realismo. Leva-nos para um cenário onírico onde existe um super-vilão que, por artes mágicas, consegue dominar aqueles cuja missão é defender o Bem (e os “portugueses de bem”, bem entendido e bem esgalhado) e lutar contra o Mal (leia-se, “PS”). É assim que o monstro consegue escapar das situações mais incríveis. Como essa cena de ser apanhado a planear um “atentado contra o Estado de direito” com o seu comparsa no crime Armando Vara, e depois, apesar de existir na Grei tantos procuradores, juízes, deputados, guardas-florestais, polícias sinaleiros, a que se junta um Presidente da República, que adorariam apanhá-lo, vai-se a ver e nem sequer conseguiram que fosse arguido para animar a malta. O desespero abate-se como se fosse um dilúvio de chumbo sobre tanta gente séria e decentíssima, o sentimento de impotência é vexante e atroz, letal. Mas nisto, qual pomba branca regressando com o ramo de oliveira à nau, eis que surge no horizonte o arquitecto Saraiva radiante e caloroso, um vero Sol, ofertando ao professor Cavaco o sacrifício último pela Pátria. “Não desista!”, soltou num vagido de súplica o tal homem cuja honestidade é tão elevada que obriga a nascer duas vezes para ser igualada. “Não desista!”, repetia essa estátua viva das mais incensadas virtudes do que é um estadista a um arquitecto Saraiva de peito inchado, com uma cativante lágrima a marejar na vista direita, e já a arquitectar o plano de combate contra o anticristo à conta dos seus eméticos textos e de capas com recurso a outros animais para além do polvo.

O “Assalto ao BCP” é um filme que recorre à mesma fórmula de sucesso. Nele encontramos o mesmo Presidente da República, assistindo aos acontecimentos com vigilância aquilina. E encontramos o mesmo arquitecto e o mesmo jornal, só que estes sem terem feito o TPC. Acontece que nem o Presidente nem o arquitecto rasgaram as vestes aquando do assalto ao banco sagrado, num imobilismo que desperta a curiosidade. Sendo tudo evidente, como há dias o caluniador pago pelo Público lembrou, como explicar o silêncio, o atrofio, deles e das autoridades, dos deputados, dos homens-bons? É que se tratava, como a direita decadente repete há anos, de uma operação comandada pelo primeiro-ministro de então para conseguir controlar a banca e, a partir daí, perpetuar-se mil anos no poder. Que levou Cavaco Silva e o arquitecto Saraiva a deixar os socialistas abaterem Jardim Gonçalves e seus anjos? Porquê esta demora de 14 anos em investigar e julgar crimes tão óbvios e tão graves? Depois de, pelo menos, três comissões parlamentares de inquérito dedicadas ao assunto, depois das centenas de horas de depoimentos lá registadas, depois dos milhares de documentos já analisados, depois de Ivo Rosa ter carimbado como ficção a possibilidade de um primeiro-ministro obrigar o conselho de administração da CGD a fazer fosse o que fosse, a curiosidade a respeito do fenómeno só se satisfaz se nos transportarmos de regresso ao cenário onírico onde existe um super-vilão que, por arte mágicas, consegue dominar os desamparados humanos.

Este irracionalismo, como vimos no espaço mediático “de referência” aquando da detenção de Joe Berardo, não encontra oposição. Isso significa que impregna agora livremente a sociedade levando a que, a jusante, as pulsões populistas tenham ainda mais alimento, e que, a montante, o risco de os órgãos de soberania diminuírem a racionalidade das suas decisões é crescente.