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Luís Delgado e a força G

«É preciso acabar com esta farsa: a que velocidade ia o carro, e quem mandou, ou não se importou que fosse excessiva? Não há ninguém, em carro nenhum, que não se aperceba quando circula a alta velocidade. Não há como. A força G sente-se no corpo. O ministro não pode fingir que não viu, e o motorista não poderia carregar no acelerador, de livre iniciativa, sem que o seu passageiro não desse conta. O motorista sabe tudo, e vai apanhar com tudo. Mesmo que diga que recebeu instruções, para chegar a Lisboa em 5 minutos. Onde está o motorista?»

Luís Delgado

Luís Delgado, moldado no cavaquismo, e sem ter ainda atinado com a correcta colocação das vírgulas, foi um dos mais activos jornalistas ao serviço do laranjal até à chegada de Passos. Para além deste currículo de sectarismo e chicana, é actualmente dono da Visão. Ora, como comecei a dar-lhe dinheiro, fui ler o que tinha para dizer aos cidadãos. E deparei com a javardice acima citada.

O senhor usa o meio de comunicação de que é proprietário para apelar à condenação moral (pelo menos) de Eduardo Cabrita apostando que a investigação vai provar que a viatura ia a “alta velocidade”. Sem tempo para esperar pelos resultados oficiais, sem definir o que entende por “alta velocidade”, salta já para a calúnia assassina: o ministro disse ao motorista para “chegar a Lisboa em 5 minutos”, primeiro, e depois esse facínora do PS foi o tempo todo a desfrutar ávida e perfidamente da tal “força G” que lhe percorria o corpo com atrevida lubricidade. Melífluo prazer subitamente interrompido pela maçada que amolgou o potente BMW (não por acaso, comprado por um traficante de droga).

Portanto, o caso está resolvido. O ministro é o responsável pela velocidade que o seu motorista decida atingir, sempre e a qualquer momento. O ministro é que levou o motorista a atingir a “alta velocidade” na origem do acidente, pelo motorista teriam vindo para Lisboa a 60 km à hora apreciando a paisagem. O ministro não tem defesa porque a força G não mente nem o deixa mentir, trata-se de uma cena que se sente no corpo. Fica-se à espera que as autoridades aproveitem o contributo desta decentíssima cabeça cuja vocação, como se pode ler, é a física da pulhice: usar a trágica morte de uma pessoa como carne para canhão de um ataque político canalha.

Aqui chegados, colhe dizer que há normais, naturais, frequentes, bondosas, até excelentes razões, para se conduzir na faixa da esquerda sem ser para ultrapassar. Sempre que há algo a ocupar a berma da estrada (sinalização, viaturas, pessoas, especialmente viaturas com pessoas) qualquer condutor responsável tem o automatismo de se deslocar para a faixa da esquerda (ou, pelo menos, para a faixa central, havendo três) precisamente para evitar o risco de passar junto dessas presenças que acarretam perigo para si e terceiros só por estarem na berma e/ou a ocupar parte da via. Igualmente, havendo sinalização ou trabalhos de manutenção com trabalhadores e eventualmente viaturas e/ou maquinaria na berma, a atenção dos condutores foca-se na faixa da direita, assim criando uma cegueira momentânea para qualquer coisa imprevista no lado esquerdo da via.

Terá o acidente resultado da fatal associação desses dois factores a conjugar-se com as decisões e movimentos do trabalhador, sendo a velocidade do carro um elemento secundário para a tipologia da ocorrência? Será escusado perguntar ao Luís Delgado pois está sob o efeito de uma outra força G – a força da sua grunhice.

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Evidence against physically punishing kids is clear, researchers say
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Love: How the feeling of power determines happy relationships
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Starting the day off with chocolate could have unexpected benefits
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Keep your friends close, cortisol levels low for life
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Conspiracy theories are a mental health crisis
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Semiótica da pulhice

Berardo tem 439 milhões em dívida à Caixa Geral de Depósitos, mais cerca de 330 milhões ao Novo Banco e ainda cerca de 230 milhões ao BCP. Sendo esta totalidade que está em causa no processo onde é arguido, dou 10 euros para a melhor explicação a respeito da seguinte passagem do comunicado do DCIAP:

«No inquérito investigam-se matérias relacionadas com financiamentos concedidos pela CGD e outros factos conexos, suscetíveis de configurar, no seu conjunto e entre outros, a prática de crimes de administração danosa, burla qualificada, fraude fiscal qualificada, branqueamento e, eventualmente, crimes cometidos no exercício de funções públicas.»

Sim, exactamente, acertaste. A curiosidade diz respeito a apenas se fazer referência à CGD – o que tem vindo a ser replicado e martelado pelos impérios mediáticos da direita com furor de caçada. Venha daí essa hermenêutica especializada em judicialização da política.

Os informadores do Ministério Público

Alguns dos nossos melhores jornalistas (o seu currículo, o seu trajecto, os seus salários, a sua farronca assim o prova e comprova) já só querem é ser informadores do Ministério Público. Não para todos os casos, calma! Nem eles teriam tempo para tanto, embora não lhes falte a gana. Só para aqueles em que, mistérios da profissão, calha terem informação preciosa para entregar ao Ministério Público e assim conseguir-se meter em Évora uma certa bandidagem do pior. Um desses casos é o famoso “assalto ao BCP”, em que um primeiro-ministro mandou o conselho de administração da CGD dar dinheiro a Joe Berardo para ir fazer maldades à gente séria e depois, não satisfeito, ainda obrigou o Banco de Portugal a deixar que Santos Ferreira e Vara fossem conspurcar as sacras alcatifas do BCP. Donde, a ânsia destes jornalistas em ajudar a Justiça em ordem a que se faça justiça não pode ser maior.

Um deles é o extraordinário Pedro Santos Guerreiro. Um crânio superior e uma pena diamantina. Eis como o homem se oferece aos procuradores interessados:

«Na semana em que Joe Berardo foi ao Parlamento, na CPI da Caixa, rir-se na nossa cara e dos nossos impostos, escrevi aqui no Expresso que já não interessava chorar das bestialidades: “O Ministério Público tem de analisar as suspeitas criminais de que os bancos possam ter sido burlados. E se sim, então a associação que interessa analisar é a de Joe Berardo & André Luiz Gomes, porque ninguém acredita que Joe saiba fazer contratos complexos.” Nesse texto, explicava como a renegociação do contrato da coleção Berardo tinha incompreensivelmente prejudicado o Estado, e perguntava: “Houve burla? Burla dá cadeia”. O texto é de maio de 2019. Hoje, junho de 2021, Joe Berado e André Luiz Gomes foram detidos por suspeitas de burla qualificada, de administração danosa, fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais.

[...]

A associação Berardo & Gomes segue agora para um juiz, mas por prender duas andorinhas não acaba a primavera. É preciso mais, é preciso continuar a investigar e a inquirir. Se não, apenas continuaremos nos ai olé, ai olé, foi na loja do Mestre André.»

Percebido? Em 2019, já estava tudo explicadinho numa página do Expresso graças ao brilhantismo deste Guerreiro. Contudo, o Ministério Público demorou dois anos a decifrar a caligrafia, daí o atraso em mandar a ramona. Se o cooptarem, promete, o bando completo das andorinhas será apanhado e depenado em menos tempo do que ele demora a teclar os seus relatórios semanais. Ai olé, ai olé.

Outro bravíssimo jornalista disposto a sacrificar a sua carteira profissional pela honra e prazer de perseguir uns certos malfeitores que ele conhece de ginjeira é o João Vieira Pereira, actual director do PSG. Com vista a ajudar a boa gente do MP a entender o que lhes está a oferecer, escreveu um artigo intitulado A quadrilha, onde se pode ler o seguinte:

«Esta semana recordaram-me um texto que escrevi no Expresso em outubro de 2011 onde acusava Berardo de se ter especializado em investimentos de guerrilha, pois entrava em empresas de forma hostil, atacando a gestão e outros acionistas até estes pagarem para ele se ir embora. No mesmo texto defendia que não precisávamos de “empresários” como ele. Naquela altura, há dez anos, Berardo era notícia por existirem dúvidas sobre o valor da sua coleção, que tinha sido dada como garantia aos bancos depois de um negócio duvidoso com o Estado que levou à criação da atual exposição.

[...]

Falta o capítulo final. Qual será o próximo passo de Berardo, que hoje com 76 anos enfrenta a possibilidade de passar até 12 anos na prisão? Não acredito que o faça, mas ia adorar que ele não ficasse calado.»

Este Vieira ganha ao Santos por 8 anos. Ao ir buscar um texto seu de 2011, com a supina beleza de já nem se lembrar dele não fora uma alma atenta e devota que lho recordou, mostra os seus incandescentes predicados para tratar do Joe. O Joe sabe coisas, sabe nomes, recorda-se das datas e dos locais, e só precisa da motivação certa para abrir a boca e começar a cantar. O João valentão gostaria de ajudar o velhote nesse processo, só precisa de ficar a sós com ele um bocadinho, de preferência com um rottweiler ao lado e uma moca de Rio Maior nas mãos.

O Expresso e a SIC têm outros jornalistas doidinhos para colaborarem com o Ministério Público em certos casos literalmente fantásticos, como este do filme “O Assalto ao BCP”. Seria muito bom que tal acontecesse, nem que fosse para acabar com as doridas lamentações de falta de recursos em que tropeçamos sempre que uma parte do Ministério Público se entretém a mandar-nos areia para os olhinhos.

Delenda Cabrita

Podia-se montar uma equipa multidisciplinar para descobrir quem é a figura da democracia portuguesa mais odiada desde o 25 de Abril. Essa equipa reuniria e trataria os megadados disponíveis e chegaria inevitavelmente a este nome: José Sócrates. Sabemos empiricamente que tal seria a conclusão pelo que escusamos de cansar os imaginados investigadores. O que não sabemos é porquê. Não por faltarem explicações, antes por serem tantas quantas as opiniões. Será por causa do TGV que nunca se construiu? Do aeroporto que nunca passou dos planos? Da avaliação dos professores que se manteve a farsa que sempre foi? Da aposta na ciência, nas tecnologias da informação, na educação de adultos, nas energias verdes, na dignidade e segurança dos mais pobres, nos direitos das mulheres e das minorias? Será que foi Sócrates quem causou a Grande Recessão de 2008, e depois a crise das dívidas soberanas, e por fim deu ordens ao PS para chumbar o PEC IV pois queria afundar o País para brincar à reengenharia social e vender empresas públicas com o respaldo da Troika? Ou será por causa de um certo dinheiro que lhe emprestaram (ou deram) e que não saiu do bolso de nenhum de nós nem existe quem consiga relacioná-lo com algum dano ao Estado?

Não. O ódio a Sócrates é uma construção mediática para efeitos de exploração sensacionalista e luta política. Alimenta-se disso e, num plano mais decisivo, da real força política de Sócrates. É por ser um adversário formidável que, especialmente na direita, a resposta é de pavor, depois de secreto fascínio, e por fim de ódio, como única resposta que mantém a solidez da identidade. Esse ódio não precisou das revelações da Operação Marquês para existir, pelo contrário. Ver o terrível inimigo ferido de morte (política) e humilhado deu real consolo às patologias que corriam soltas muitos anos antes da sua prisão. Só que Sócrates continua biologicamente vivo (portanto, nunca se sabe, né?), teve uma estrondosa vitória na Justiça (abafada e deturpada pelos impérios mediáticos), e isso desperta mecanismos automáticos de protecção que alimentam o fogaréu do ódio. Nesta arena, Cabrita tornou-se um alvo prioritário dessa energia contagiante, como se vê pela exploração odiosa (no sentido em que se procura intencionalmente provocar respostas de ódio nas audiências e na sociedade) do acidente de automóvel em que está envolvido. Recomendo que se use a gravação do que Clara Ferreira Alves disse no último “Eixo do Mal” sobre Cabrita – onde deixou a tese de que esse ministro deve ser castigado por ser odiado – como material de estudo em várias universidades (e não só portuguesas) onde haja departamentos dedicados ao estudo do fenómeno.

O desejo de falar do Rui Rio é quase irresistível mas malhar em quem acaba de ir de cornos contra um bloco de granito não seria decente. Pelo que vou recorrer a um outro fulano muito mais significativo para dar conta da extensão do ódio como cultura ubíqua na ecologia mediática. Eis o que se lembrou de escrever o Daniel Oliveira:

«Outra questão é mais simbólica, mas conta muito: se for verdade que nem condutor nem ministro saíram do carro, é humanamente miserável.»
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«Há uma discordância quanto à sinalização dos trabalhos na estrada, com um comunicado da Brisa que desmente o que foi dito pelo MAI. Isso terá de ser esclarecido. Não sabemos se essa sinalização tinha alguma ligação com o lugar onde o trabalhador foi colhido. Mas, se ela existia, sabemos que o comunicado mentiu, o que num caso destes é inaceitável e politicamente incontornável.»
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«A minha opinião sobre Eduardo Cabrita é clara e há muito tempo que acho que devia ser demitido. É um monumento à incompetência política e, todos os sinais o indicam, falho de sensibilidade e empatia.»

O Daniel é um dos mais importantes comentadores nacionais, tanto pela qualidade como pela quantidade do seu trabalho. Escreve todos os dias úteis e desmultiplica-se em vários canais e actividades neste universo do jornalismo de opinião. Acima de tudo, esforça-se por aparecer intelectualmente honesto. Esse esforço tem mérito e por si só chega para o separar da pulharia. Porém, é igualmente recorrente a cena de o vermos a escorregar para o chinelo da hostilidade cega quando entra em cena Costa, o seu alvo de estimação nesta legislatura. No caso, Cabrita aparece-lhe com o rosto de Costa e o resultado é um exercício de apelo ao ódio.

Nos exemplos que cito acima, vemos o prestigiado comentador, no prestigiado Expresso, a revelar que, tratando-se de Cabrita, a atitude mais inteligente quando se tem um acidente numa auto-estrada é sair do carro. E sair do carro para quê? Isso, infelizmente, o Daniel não chega a dizer. Será que ele queria o ministro a correr em direcção à vítima para a tentar salvar com os seus conhecimentos clínicos ou ficar a dar-lhe palavras de consolo enquanto não chegasse a ambulância? Para quem não esteve lá e nada sabe das condições no local nem das circunstâncias do atropelamento, o que parece “humanamente miserável” é a calúnia preemptiva que deixa estúpida e sonsamente. O mesmo mecanismo trambiqueiro em relação à problemática da sinalização, situação em que ambas as partes poderão ter razão calhando a sinalização existente não ser a adequada para as reais condições do acidente. É precisamente isso que o inquérito irá apurar, estar já a festejar a culpa do ministro é só reles, soez. Finalmente, repare-se como a pulsão do assassinato de carácter é libertada em toda a sua fétida violência ao se permitir descrever a pessoa na berlinda como sendo falha de “sensibilidade e empatia”. Quem és tu, Daniel, para validares a sensibilidade e empatia daqueles com quem não privas?

A empáfia do “a minha opinião é clara e há muito tempo que acho” não sei quê é marca d’água desta actividade de livre crítica dos poderes que podia ser preciosa para a cidade. Só que, como vemos, a nódoa do ódio chega a quase todos. E quando ele chega, defender a cidade implica denunciá-lo e combatê-lo. O ódio merece o nosso ódio – não os ministros, os governantes, os políticos, os cidadãos, as pessoas, pois eles somos nós.

Operação Joe por causa do 13 de Julho

Por que razão Sócrates foi detido a 22 de Novembro de 2014, e não meses antes ou meses depois? Quem souber responder à pergunta, seguramente saberá responder também a esta: por que razão os procuradores responsáveis pela Operação Marquês decidiram cometer o crime de publicar o essencial da sua investigação e respectivo alguidar de invenções em Julho, 4 meses antes do espectáculo de shock and awe preparado com a comunicação social? Para além de todos os poderes despóticos a que podem recorrer, os procuradores do Ministério Público possuem completa liberdade – consagrada na sua autonomia – para escolherem os calendários das buscas e detenções que melhor favoreçam as suas agendas, sejam elas quais forem. Visto de fora, nunca nada se explicando, parece completamente arbitrário. Mas mesmo que haja algum dever de justificação interno, como igualmente me parece lógico por todas as razões e mais algumas, continua a valer a imagem da “Rainha de Inglaterra” lançada por Pinto Monteiro como retrato de uma instituição dominada pelo sindicato e pelo negócio dos crimes de violação de justiça. Um vero Oeste selvagem pejado de xerifes que, não disparando mais depressa do que a sombra, só disparam pela sombra.

Neste caso do Joe Berardo, a investigação começou em 2016. Porquê, então, só agora as buscas e as detenções? Sabendo o que a casa gasta, a explicação mais provável, dentro das minhas duvidosas capacidades adivinhadeiras, remete para o dia 13 do corrente. É a data em que vai ser lido o acórdão do julgamento de Armando Vara. Depois do que Ivo Rosa fez à Operação Marquês, demonstrando à prova de estúpidos a fraude política que a engendrou, caso Vara seja absolvido, ou mesmo que leve uma pena suspensa, tal seria mais um grossíssimo prego no caixão de Rosário Teixeira, Carlos Alexandre, Joana Marques Vidal, todos os mandantes da vingança em curso e a direita decadente no seu conjunto. Donde, aquela parte fora-da-lei do Ministério Público quer dar aos juízes que estão neste momento em processo de decisão a munição suficiente para que saia mais uma pena “exemplar” em ordem a salvarem a face e continuarem o abuso iniciado com o Face Oculta e seu desfecho penal. Uma pena à medida do Vara, um dos maiores facínoras da História, o primeiro e único condenado a pena de prisão efectiva na Justiça portuguesa por causa de um crime de tráfico de influência (e mesmo assim teve de se torcer a lei para lá caber e despachar penas violentamente absurdas para os restantes condenados), um génio do crime capaz de ficar com 25 mil euros de um sucateiro (que nunca se encontraram, e para um fim que nunca se realizou) e que teve a ousadia de pôr uns trocos na estranja sem passar pela casa do fisco. O solo que pisa tem de ser salgado como aviso à navegação do que pode acontecer a quem é odiado pela oligarquia que nos deu o BPN e o BCP do Jardim, entre outras jóias do laranjal. A mesma oligarquia que tem milhares de milhões alhures sem pagar tostão ao Estado. Um bode expiatório perfeito, diabolizado obsessiva e sistematicamente nos esgotos a céu aberto. Não há ninguém que o defenda, sequer que mostre compaixão ou peça mínimos de justiça, para além do seu advogado.

O DCIAP publicou um comunicado a respeito das diligências onde se queixa da falta disto e daquilo, assim dando uma aparente explicação para o atraso com que foram vasculhar os computadores e telefones da bandidagem. Mais uma vez, actuam como se a audiência fosse constituída por borregos. Do texto só se aproveita a última frase, que reza assim: “O inquérito encontra-se em segredo de justiça.” Ou seja, e de acordo com a prática corrente, podemos ter a certeza certezinha que daqui até 13 de Julho vamos ter fascículos diários sobre a teoria da conspiração que mais delírio provoca na pulharia, o filme em que Sócrates telefona a dar ordens para que o Conselho de Administração da CGD encha as mãos ao Joe para este ir fazer maldades aos anjinhos do BCP. Muita desta gente, mesmo que viva 300 anos, irá morrer com uma expressão de felicidade a imaginar o Vara abraçado ao Santos Ferreira a fumarem charutos e a rirem à gargalhada enquanto o Joe sai da CGD ao volante de um camião cheio de notas. Não é defeito, são mesmo assim.

Alguém que meta uma cunha em Fátima, faxavor

Há partidas de futebol que valem muito mais do que títulos. Como é o caso do França-Suíça neste Euro. O êxtase provocado nos adeptos suíços ultrapassa em 21 ordens de grandeza a satisfação obtida pelos adeptos portugueses com a vitória no Euro 2016 e a dos adeptos gregos com a vitória no Euro 2004 – exemplos siameses de equipas que mostraram um futebol horrível ao longo desses torneios e ganharam aquilo sem saber ler nem escrever para indigestão de quem gosta de ver bola.

Quando Pogba marcou o terceiro da França, por si só um dos melhores golos deste Euro, e quando ficavam a faltar 15 minutos para o final, até Deus e o Diabo apostaram 10 euros em como seria impossível alterar o destino: a Suíça ia para casa. O mais certo era até acontecer uma goleada de arrebimbomalho por superioridade evidente dos gauleses e afundanço anímico dos helvéticos. As flutuações quânticas saíram-se com outras ideias e não podiam ter sido melhores do ponto de vista do gozo dos suíços: 6 minutos depois, redução da diferença; mais 4 minutos e um golo do empate anulado; épico golo do empate em cima dos 90 minutos; e o craque maior do adversário a ser enganado pelo guarda-redes e a permitir uma defesa do tamanho dos Alpes.

Ligo esse jogo aos de Portugal porque odeio a herança salazarista que o Scolari avivou e cristalizou na terrinha, a miséria do ideal de se ambicionar ganhar “por meio a zero”. Essa converseta parece muito profissional e competitiva mas só gera cinismo, medo, atrofio da criatividade e exílio da paixão. Joga-se à bola, ou pratica-se qualquer desporto, não porque seja necessário ganhar, antes porque é maravilhoso tentar ganhar. É só isto que faz falta para se cumprir plenamente a experiência de nos fundirmos com o magma ctónico da identidade.

Fernando Santos atribuiu ao deus dos católicos e à “sua mãe” [fonte] o comando técnico-espiritual que levou Portugal à conquista do Euro 2016. A ser verdade (confesso a minha incapacidade para ter certezas a respeito), daqui peço à malta que passar por Fátima o favor de dizer a quem de direito que o senhor está a precisar de ordens superiores para ir fazer milagres noutras paragens. No reino da Selecção já não consegue.

Pedro Marques Lopes ao poder

Por causa do Pedro Marques Lopes assinei a Visão. Para ler coisas como esta:

«Podemos pensar que a corrupção em Portugal é um fenómeno recente ou que é agora pior do que já foi? Nos anos 80, 90 e já neste século, tudo corria muito melhor? Claro, não havia processos e não se se conheciam suspeitas. Vivíamos no paraíso.

Só quem não viveu nesses tempos, só quem nunca tentou abrir um negócio, marcar uma escritura ou sequer ir a uma consulta médica, pode de boa-fé pensar que a situação é pior. Tudo isto num País em que o Estado estava muito mais presente na economia. E se falarmos em fundos europeus, só mesmo alguém completamente ignorante ou de muita má-fé pode afirmar que os critérios e procedimentos dos princípios dos anos 90 eram sequer comparáveis na sua transparência e controlo aos de agora.

É preciso viver muito longe da realidade portuguesa, não a ter vivido ou viver de falar sobre corrupção para ignorar isto.»

A outra indústria da corrupção

Todo o artigo se recomenda mas aproveito o balanço das palmadinhas nas costas ao autor (de quem sou o maior fã a seguir à família e amigos) para também lhe dar uma biqueirada nas canelas. É que o estimado Pedro fica-se pela rama. Fala de uma indústria sem, acto contínuo, falar corajosamente nos seus industriais e respectivas ligações, conivências, parcerias. Fala de uma indústria sórdida e nefanda como se o principal foco de atenção devesse limitar-se aos profissionais da calúnia e ao negócio respectivo, o dos próprios e o de que quem lhes paga.

Não, senhor Lopes. A calúnia como carreira não começou com o João Miguel Tavares, ele é apenas um oportunista que se aproveitou do mercado já existente. E quem criou o mercado foi a direita portuguesa logo a partir de um outro Lopes e da sua invenção do Freeport e da homossexualidade de Sócrates. Estávamos em 2004, íamos para as eleições de 2005 com a inaudita chegada a Portugal das campanhas negras à americana. Testado o conceito, visto o seu potencial, ele voltou em 2007 pela mão da Sonae e do Zé Manel e nunca mais deixou de empestar o espaço público e fomentar os assassinatos de carácter e o ódio como armas políticas.

O cúmulo deste fenómeno de decadência moral e degradação institucional da República é referido no texto do Pedro, e remete para a chegada dos magistrados com agendas políticas e gula corporativa – os quais se sentiram blindados pelo que viam os jornalistas e políticos fazerem para também eles aproveitarem o seu formidável arsenal de poderes judiciais e passarem a perseguir e destruir alvos impunemente. E assim nasceu o Face Oculta, o qual deixou os seus mentores furibundos por ter sido apenas um sucesso parcial. Os mesmos iriam voltar, num contexto de pleno domínio político em toda a hierarquia do Estado, para lançarem a Operação Marquês e consumarem o plano original. A Cofina, ao pé destes meninos e da sua capacidade de destruição, parece uma associação de colecionadores de borboletas. A judicialização da política e a politização da Justiça, enfunadas pelo zeitgeist mundial e que nos deu as estrelas Carlos Alexandre e Joana Marques Vidal (entre muitos outros justiceiros), transformaram-se na suprema obsessão da direita nacional por não ter esta qualquer projecto político capaz de vencer eleições.

Ferreira Leite, Cavaco Silva e Passos Coelho representam dezenas e centenas de outros quadros políticos de topo que os acompanharam no desempenho das suas funções. Ferreira Leite, Cavaco Silva e Passos Coelho são concomitantemente líderes históricos da direita portuguesa que não só conviveram pacificamente com a indústria da calúnia como a usaram para benefício político próprio. Querer aparecer decente a tratar deste assunto e não chamar os bois pelos nomes é pífio, na melhor das hipóteses, e colaboracionista, na pior.

O Pedro Marques Lopes terá as suas razões, que não precisa de revelar e que serão absolutamente legítimas, para não concorrer a presidente do PSD com os seus valores e a sua visão para a comunidade que somos. Apenas lhe digo que é trágico termos um PSD sem uma liderança capaz de derrotar – ou que fosse só afrontar – os decadentes do poder pelo poder.

Começa a semana com isto

2021, para além da continuação da anormalidade pandémica, deu-nos uma anormalidade leonina: um ano onde o Sporting alcançou a glória, sendo rei no futebol e no seu lendário ecletismo – com títulos europeus, um campeão do mundo e até triunfos em modalidades historicamente muito amadas em Alvalade, casos do hóquei (Livramento!) e do basquetebol (um crime de lesa-sportinguismo terem acabado com a equipa há trinta e muitos anos).

Tudo isto embrulhado e servido por um presidente sem carisma nem discurso que sucede ao taralhouco-mor. Eis o Sporting.

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Sports: Men and women react differently to a missing audience
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It’s true: Stress does turn hair gray (and it’s reversible)
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Toxic Workplaces Increase Risk of Depression by 300 per cent
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What Bird is Singing? Ask the Merlin Bird ID App for an Instant Answer
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Comet strike may have sparked key shift in human civilization
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Ancient chickens lived significantly longer than modern fowl because they were seen as sacred, not food
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Powerful people are less likely to be understanding when mistakes are made
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O que faz o ódio

«E por falar em Passos Coelho, que vai acontecer a Rui Rio depois das autárquicas? Adivinha-se uma derrota. Para a direita, se Rio cair, só existe uma solução, convencer Passos a regressar, mas não para Belém. O enigmático Passos parece não apreciar o poder como os antecessores. Se fosse o político que a direita acha que ele é, e precisa que seja, teria uma oportunidade de ouro para fazer Costa pagar e para tomar a fortaleza. Deixar que comecem os julgamentos de Salgado e Sócrates e atacar. Eu sou o único político português que continua pobre e sem emprego. Eu sou diferente. Esta carta seria de trunfo no empestado ambiente político português. Claro que nunca mais poderia aparecer no palco com o joker ao lado, Relvas. E teria de fazer esquecer os pronunciamentos da troika. Esse tempo acabou.»


Clara Ferreira Alves, candidata a Maria Vieira do Passos

Vamos lá a saber

Se nos dermos ao exercício de escolher os mais importantes jornalistas portugueses – importantes no sentido em que o seu trabalho jornalístico corresponde à consistente produção de um bem com valor para a qualidade da democracia e para a defesa dos direitos e das liberdades – que nomes registaríamos numa lista de 10, ou de 5, ou 3?

Abismo chama o abismo

Há um abismo entre a governação e a oposição.

Há um abismo entre a representação política e a comunicação social.

Há um abismo entre o jornalismo e a opinião.

Há um abismo entre o conhecimento e a ignorância.

Há um abismo entre a responsabilidade e a ganância.

Nesses abismos, que é só um, estamos sempre à beirinha de perder a inteligência, a coragem e a liberdade.

Todos os dias. De hora em hora.

Começa a semana com isto

Fyodor Urnov consegue o milagre de falar de biologia molecular de forma a que um completo leigo na matéria se convença que está a apanhar tudo o que se faz de mais vanguardista nessa disciplina. Não só isso, ele tem também muita graça.

Acho que essas duas qualidades estão geneticamente correlacionadas.

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A quarter of adults don’t want children – and they’re still happy
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Hollywood stereotypes of female journalists feed a ‘vicious cycle’ of sexism
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How gender norms and job loss affect relationship status
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Lack of math education negatively affects adolescent brain and cognitive development
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Case study shows patient on ketogenic diet living fully with IDH1-mutant glioblastoma
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Emotional Acknowledgment: How Verbalizing Others’ Emotions Fosters Interpersonal Trust
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Communication Technology, Study of Collective Behavior Must Be ‘Crisis Discipline,’ Researchers Argue
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