“Não desista!”, suplicou Cavaco

«O SOL fora o primeiro jornal a denunciar os factos que haviam dado origem ao processo Face Oculta, como já fora o primeiro a noticiar o caso Freeport.

Nós éramos, portanto, homens a abater.

As tentativas para fechar o jornal tinham-se sucedido de várias maneiras e envolvendo diversos protagonistas.

Vivemos momentos de angústia e desespero.

O Presidente da República, Cavaco Silva – mais de dez anos depois já o poderei revelar –, chamou-me a Belém para se informar sobre o que estava a suceder e à saída disse-me, enquanto me apertava demoradamente a mão: «Não desista!»».

José António Saraiva

O “Assalto ao BCP” é uma teoria da conspiração que inevitavelmente teria de nascer na direita. E a qual contaria sempre com a cumplicidade da esquerda, por ir ao encontro de uma predisposição simétrica (aqui, vinda pela matriz marxista) para caluniar o inimigo em comum. Entretanto, o delírio atingiu o centro e invadiu o próprio PS, graças à pressão do monopólio mediático da direita, ao trauma da Operação Marquês e sua lancinante e dilemática dimensão moral entre os socialistas, e ainda à universalidade de diversos processos cognitivos automáticos que favorecem e promovem narrativas simplistas, parcelares, enviesadas e caricaturais.

O meu propósito (que profetizo antecipadamente inglório) neste texto é expor o grau de irracionalidade que o “Assalto ao BCP” exige aos que acreditam mesmo nele, e também as consequências dessa irracionalidade nos órgãos de soberania, na sociedade e na comunidade. E pretendo fazê-lo com uma economia de caracteres que irá deixar este mundo e o outro banzos de espanto. Para tal, comecemos com um outro assalto, o “Assalto ao Arquitecto”.

Como se pode ler na citação acima, José António Saraiva foi mais um dos que foi buscar os galardões de caçador de socráticos ao ver Joe Berardo a levar o tratamento alexandrino e a encher de gozo os tais procuradores que vão limpar esta merda toda. No artigo jubilosamente intitulado “O 2º julgamento de José Sócrates”, vangloria-se por causa de uma capa do Sol, de 2009, onde tratava o Governo de Sócrates e o PS como um bando de mafiosos. E no trecho que fui buscar está uma lápide comemorativa por igualmente o mesmo semanário ter sido instrumental no lançamento do caso Freeport. São dois factos, os quais oferecem uma base sólida para o primeiro balão de ar quente, isso de o arquitecto Saraiva alegar que os visados pelas peças do seu jornal reagiram tentando “fechar o jornal“. Parece lógico, né? Estamos disponíveis para acreditar que os políticos, em geral, são potenciais ou activos criminosos – especial e fatalmente quando se trata dos políticos de quem não gostamos ou que tememos. E não nos custa nada a engolir que esses tais políticos, uma vez apanhados pela indomável e corajosa imprensa livre, pretendam silenciar os heróicos órgãos de comunicação social para assim escaparem à Justiça e continuarem a roubar o Estado e os contribuintes de mil milhões de maneiras todo o santo dia. Quem chegar ao fim deste trajecto narrativo vai, acto contínuo, ser dominado por uma inércia cognitiva que cristaliza o sentido da história. Mas que história é essa?

Voltemos ao princípio. Eis que um jornal nos diz que um candidato a primeiro-ministro é corrupto (2004), e depois volta a dizer que o mesmo fulano, agora já primeiro-ministro, não só é corrupto como é o maior corrupto de que há memória, e não só em Portugal (2009). Pensemos. O tal jornal está isolado na denúncia? É uma voz a clamar no deserto? Pois não, pelo contrário. A própria Justiça investigou e tomou decisões acerca dos acontecimentos que serviram a esse jornal e restante coro mediático para as acusações. No primeiro caso, a Justiça provou que o Freeport foi uma cabala política lançada por indivíduos ligados ao PSD, CDS e Judiciária, e nada mais. No segundo caso, a Justiça impediu que elementos da própria Justiça conseguissem abrir um processo infundado e ilegítimo contra um primeiro-ministro nas vésperas de eleições legislativas. E como é que nós podemos ter a certeza de que estas são as mais verosímeis versões dos acontecimentos? Pensemos. Se não o fossem, se o Freeport tivesse sido abafado pelo Pinto Monteiro e o Face Oculta pelo Noronha do Nascimento, como a direita decadente continua a martelar, então algo de inaudito teria acontecido, algo de arrebimbomalho teria de acontecer. Que seria isto: o Conselho Superior do Ministério Público, o Conselho Superior da Magistratura, a Assembleia da República e o Presidente da República, cada um destes órgãos por si dentro da sua esfera soberana de autoridade, e em conjunto como representantes primeiros e supremos da República, teriam exposto e anulado o que equivale a um golpe de Estado. É disso que estamos a falar: se tivesse existido um procurador-geral da República e um presidente do Supremo Tribunal de Justiça que, no Verão de 2009, decidissem ilibar um primeiro-ministro mafioso apesar das provas contra ele recolhidas pela própria Justiça, a consequência imediata seria a abertura de investigações aos seus actos e hoje esses cúmplices do diabólico Sócrates já estariam presos há anos e anos. Parem as rotativas: não só os tais magistrados continuaram então em funções, como Noronha veio a ser reeleito Presidente do Supremo e Pinto Monteiro saiu no final do mandato condecorado por Cavaco.

A história que o arquitecto Saraiva nos está a contar, então, é do domínio da fantasia. Precisa de convocar a nossa imaginação e apagar qualquer vestígio de realismo. Leva-nos para um cenário onírico onde existe um super-vilão que, por artes mágicas, consegue dominar aqueles cuja missão é defender o Bem (e os “portugueses de bem”, bem entendido e bem esgalhado) e lutar contra o Mal (leia-se, “PS”). É assim que o monstro consegue escapar das situações mais incríveis. Como essa cena de ser apanhado a planear um “atentado contra o Estado de direito” com o seu comparsa no crime Armando Vara, e depois, apesar de existir na Grei tantos procuradores, juízes, deputados, guardas-florestais, polícias sinaleiros, a que se junta um Presidente da República, que adorariam apanhá-lo, vai-se a ver e nem sequer conseguiram que fosse arguido para animar a malta. O desespero abate-se como se fosse um dilúvio de chumbo sobre tanta gente séria e decentíssima, o sentimento de impotência é vexante e atroz, letal. Mas nisto, qual pomba branca regressando com o ramo de oliveira à nau, eis que surge no horizonte o arquitecto Saraiva radiante e caloroso, um vero Sol, ofertando ao professor Cavaco o sacrifício último pela Pátria. “Não desista!”, soltou num vagido de súplica o tal homem cuja honestidade é tão elevada que obriga a nascer duas vezes para ser igualada. “Não desista!”, repetia essa estátua viva das mais incensadas virtudes do que é um estadista a um arquitecto Saraiva de peito inchado, com uma cativante lágrima a marejar na vista direita, e já a arquitectar o plano de combate contra o anticristo à conta dos seus eméticos textos e de capas com recurso a outros animais para além do polvo.

O “Assalto ao BCP” é um filme que recorre à mesma fórmula de sucesso. Nele encontramos o mesmo Presidente da República, assistindo aos acontecimentos com vigilância aquilina. E encontramos o mesmo arquitecto e o mesmo jornal, só que estes sem terem feito o TPC. Acontece que nem o Presidente nem o arquitecto rasgaram as vestes aquando do assalto ao banco sagrado, num imobilismo que desperta a curiosidade. Sendo tudo evidente, como há dias o caluniador pago pelo Público lembrou, como explicar o silêncio, o atrofio, deles e das autoridades, dos deputados, dos homens-bons? É que se tratava, como a direita decadente repete há anos, de uma operação comandada pelo primeiro-ministro de então para conseguir controlar a banca e, a partir daí, perpetuar-se mil anos no poder. Que levou Cavaco Silva e o arquitecto Saraiva a deixar os socialistas abaterem Jardim Gonçalves e seus anjos? Porquê esta demora de 14 anos em investigar e julgar crimes tão óbvios e tão graves? Depois de, pelo menos, três comissões parlamentares de inquérito dedicadas ao assunto, depois das centenas de horas de depoimentos lá registadas, depois dos milhares de documentos já analisados, depois de Ivo Rosa ter carimbado como ficção a possibilidade de um primeiro-ministro obrigar o conselho de administração da CGD a fazer fosse o que fosse, a curiosidade a respeito do fenómeno só se satisfaz se nos transportarmos de regresso ao cenário onírico onde existe um super-vilão que, por arte mágicas, consegue dominar os desamparados humanos.

Este irracionalismo, como vimos no espaço mediático “de referência” aquando da detenção de Joe Berardo, não encontra oposição. Isso significa que impregna agora livremente a sociedade levando a que, a jusante, as pulsões populistas tenham ainda mais alimento, e que, a montante, o risco de os órgãos de soberania diminuírem a racionalidade das suas decisões é crescente.

7 thoughts on ““Não desista!”, suplicou Cavaco”

  1. gaita , se isto é economia de caracteres nem consigo imaginar como seria se fosse um desperdício de caracteres. fico-me pela promoção leia 10 e imagine os outros. até porque deve ser mais do mesmo.

  2. Ninguém será criminalizado pelas falsas acusações contra o ex-ministro Azeredo Lopes, no caso de “Tancos” ?
    Em tempos existia o crime de “denúncia caluniosa ” , já terão acabado com ele ?

  3. A duplicidade moral de Cavaco casou na perfeição com o epílogo penoso da sua presidência. Mas existe outra gente de índole igual e também digna de nomeação. Com destaque para o querido vieira, professor de boa escola, que numa aula de feliz memória se comparou com as crianças vítimas de bullying.
    Ensinando-nos a arte de ser hipócrita nos princípios e cobarde na prática.

  4. ai jasus , parece que estou na Itália , no meio da operação mãos limpas . uma festa , este verão.

  5. “Não desista!”, é a ordem que o nosso vieira recebeu dos seus donos . Porém, intimidado com a situação do homónimo presidente do Benfica, o cagalhão vieira teima em permanecer no fundo da sanita. Tem medo de que uma nova descarga do autoclismo o mande em definitivo pelo cano abaixo.
    “Não desista”, é também a ordem dada pelos donos de camacho. Que é hoje atormentado por um dilema insanável: se continua a debitar desinformação da RT, desmascara-se como mula-russa, se deixa de fazê-lo, reconhece a derrota.

  6. Este J.A . Saraiva é outro que, juntamente com o Marselfies, devia há muito tempo estar internado numa qualquer instituição de apoio a deficientes mentais.

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