Aprender a ser humilde com o “Bloco Central”

Imaginemos que os cientistas que estudam o corpo humano – portanto, que estudam as doenças e de cujas investigações se forma o conhecimento da medicina – estavam sujeitos a serem criticados, atacados e caluniados por outros cientistas apenas por trabalharem em universidades ou centros de investigação diferentes. Ilustrando com um exemplo, seria como se um investigador do CINTESIS publicasse um artigo sobre a sua pesquisa em imunologia e recebesse opiniões violentamente negativas de cientistas da Fundação Champalimaud apenas e só porque o cientista em causa pertencia a outra instituição, e vice-versa. O carácter absurdo e demente deste exemplo não precisa de ser explicado a ninguém, grupo onde incluo os organismos unicelulares. É suposto os cientistas criticarem os trabalhos dos seus colegas recorrendo às práticas inerentes ao método científico e aos conhecimentos especializados na área em causa que possuírem. Dessa forma, o conhecimento científico melhora, seja por se descobrirem erros, seja por se validarem resultados, seja por se fazerem descobertas. Para além disso, a tradição científica, nascida da tradição filosófica, funda-se no pensamento crítico, o qual tem como essência a curiosidade, a lógica e a honestidade intelectual. Donde, quando vamos à farmácia comprar o xarope estamos a usufruir de décadas, séculos e até milénios de construção do edifício científico onde se inventam soluções para os nossos problemas. Se isto se faz assim na medicina, por que caralho não se faz o mesmo na política? Acaso a governação dos Estados, onde se inclui não só a dimensão da saúde mas todas as restantes que compõem a experiência humana, é menos importante do que a investigação científica?

Este paleio a respeito da edição do “Bloco Central” de 2 de Julho. Nela, o filme do “Assalto ao BCP” é dado como factual pelo Pedro Marques Lopes, com a anuência e apoio do Pedro Adão e Silva. O meu desgosto não nasce de eles terem essa convicção. Há muitas e boas razões pelas quais tal percepção se pode formar e cristalizar. Ele vem, o desgosto, mesmo a repugnância, do modo como expõem essa convicção. No que dizem, não é possível identificar um singular átomo de informação que justifique ser essa versão dos acontecimentos preferível à versão dos visados na calúnia. Porque é de uma calúnia que se trata, em Julho de 2021 (poderá deixar de o ser no futuro, calhando tal se provar), quando se diz que Armando Vara decidiu, a mando de Sócrates, dar dinheiro a Berardo para este ser um factor decisivo na luta de poder no BCP. É uma calúnia dizer que Santos Ferreira foi escolhido pelos accionistas do BCP para ser presidente por ter emprestado dinheiro a não sei quem. E são calúnias que causam vergonha alheia quando comparadas com a realidade pública desses episódios.

Aceitamos como fatal que ser oposição a qualquer Governo consista em estar sistematicamente contra esse Governo, contra os seus membros, contra o partido ou partidos que o apoiam. Fatalmente aceitamos que o palco parlamentar, a esfera mediática e o espaço público estejam saturados de discursos políticos sectários, enviesados, maniqueístas. Por isso sou fã destes dois Pedros, pois admiro a capacidade de ambos para acolherem a complexidade do mundo e respeitarem os limites humanos. É desta filiação ao espanto de existir que lhes brota um cuidado com a decência que corresponde a uma substantiva nobreza de carácter. Significa que podemos discordar deles sem que tal macule a estima que lhes tenhamos ou diminua o valor que lhes reconhecemos como membros da nossa comunidade. Se essas características de magnanimidade (em sentido aristotélico) fossem comuns entre aqueles que fazem e comentam a política, acaso não estaríamos a viver muito melhor dado o contributo de todos, ou de muitos mais, na descoberta e realização de soluções para os principais problemas sociais e económicos? Daí ser dilacerante, para mim, vê-los a deixarem-se afundar nas teorias da conspiração, nas calúnias, no irracionalismo. E pouco me importa o quadro psicológico que os leva para tal, essa socratopatia, pura e simplesmente exijo que sejam superiores à pulsão que os arrasta para a antinomia nos princípios.

Mas têm eles de corresponder a qualquer expectativa minha? Mais depressa o Inferno gelaria, óbvio. Então, aceito como lição de humildade ver dois dos meus ídolos no comentariado a mostrarem-se cofinados.

16 thoughts on “Aprender a ser humilde com o “Bloco Central””

  1. não estou a ver como poderão os politólogos autopsiar a sociedade para investigar a fundo…as experiências com humanos não são iguais às com partes de humanos. além disso , como ignorar a natureza humana e as demonstráveis degenerações de todos os sistemas políticos?
    podem é usar a História e mentes como a de Maquiavel. ou Schumpeter. os dois apelam à contenção da ganancia , que é sempre a culpada de não encontrarmos um ponto de equilíbrio e andarmos há séculos entre a Ordem e o Caos.
    proponho o rendimento máximo permitido à escala global como inicio de um ciclo “ordenado” e pacifico.

  2. O Valupi ainda acredita em putas virgens. Esses gajos só repetem os mitos pop e a “verdade” mediática, o resto é uma construção tua. Tens que “matar” alguns dos teus heróis, faz parte do crescimento e da evolução na análise.

  3. Meu caro

    A primeira parte está perfeita, apenas acrescentaria eu, talvez desnecessariamente por se poder subentender em “curiosidade”, a palavra investigação .
    O ser humano é produto da evolução e mais não posso dizer aqui quanto a matérias que considero não ser este o local mais apropriado para o efeito .

    Na segunda parte, parece-me que você se condena a si mesmo, digamos assim, ao fatalismo de que, só sei que nada sei .
    E, não se esqueça, que, por muita imperfeita que seja a lei feita pelo homem ( e assim é em muitos casos, por ser cientificamente impossível demonstrar o conceito de “justo” ) as piores leis, melhor dizendo, as normas – ou regras de vida – são aquelas que fazemos para nós próprios.
    E seguindo essas mesmas normas, não nos desviando sequer um milímetro que seja delas, já nos punimos . Pobres de nós, nada fizemos, e já nos punimos .

  4. fiscal reformado das finanças/burro como o carvalho, faço minhas as tuas palavras. A primeira parte do teu comentário está perfeitamente clara, mas na segunda não percebo do que falas.

    Como estou certo de que o problema é meu, rogo-te a fineza de me ajudares a entender.

  5. consiste em os seres humanos terem pontos de vista diferentes, caso contrário seríamos todos exactamente idênticos.
    Assim, os visados, têm sobre o assunto, opinião de que tudo aponta num certo sentido, você, manifesta um grau de exigência tal, que quase torna impossível, melhor dito e de outro modo, exige uma demonstração em sentido contário que quase impossibilita ou inviabiliza o apuramento do que quer que seja, porque, nestas matérias, as coisas são feitas com um grau de sofisticação tal ( um exemplo de involução humana, porque o crime vai-se sofisticando e o praticante vai-se degradando e involuindo ) que, dado os factos 100 % exactos serem apenas do conhecimento intimo e pleno dos envolvidos, teria que passar fatalmente pelo levantamento do veu da realidade . Uma impossibilidade .
    Não se esqueça nunca, de que o espírito ( prefiro dizer a parte imaterial do ser humano ) só pode dar manifesto daquilo de que se alimenta : assim, o espírito da verdade, alimenta-se da verdade, o espirito da falsidade, alimenta-se da falsidade .
    Sem dúvida, que para o cristianismo, o não-julgamento e o perdão, são pedras de toque . O castigo, é uma não-essencialidade .
    E, nesse sentido, e como alguém bem afirmou, o verdugo não tem o poder de comutar a sentença e o condenado ( condenado justamente, por ser culpado, ou não, por ser inocente ) pode, mesmo culpado, não perdoar . A partir disto, já se pode ver a complexidade da matéria .
    Mas nós vivemos em sociedade e temos que ter normas jurídicas minimas de decência que permitam a vida em comum . Se não vivemos numa selva de imoralidade, no mínimo.

    Se não entendeu mais algo do resto do que escreví, peço desculpa mas há coisas que é preferivel e melhor serem transmitidas verbalmente, do que por escrito, por poderem perder parte da sua clareza e impacto .

    Ao dispôr .

  6. Fiscal das finanças reformado, desta vez entendi tudo, muito obrigado.

    Fica assim claro que o conceito de Estado de direito democrático não te desperta grande paixão, quiçá nem leve interesse.

  7. “Se não entendeu mais algo do resto do que escreví, peço desculpa mas há coisas que é preferivel e melhor serem transmitidas verbalmente, do que por escrito, por poderem perder parte da sua clareza e impacto .

    Ao dispôr .”

    tradução: eu gostava mesmo era de encontrar com valupi para saber quem é, ando nesta angústia há 15 anos e não sei o que fazer, ainda morro na ignorância.

  8. Mas olhe, pese embora o risco de vir aqui a ser achincalhado e escarnecido, até lhe vou dar aqui um exemplo daquilo que pede que esclareça .

    Transcrevo :

    “ E, não se esqueça, que, por muita imperfeita que seja a lei feita pelo homem ( e assim é em muitos casos, por ser cientificamente impossível demonstrar o conceito de “justo” ) as piores leis, melhor dizendo, as normas – ou regras de vida – são aquelas que fazemos para nós próprios.
    E seguindo essas mesmas normas, não nos desviando sequer um milímetro que seja delas, já nos punimos . Pobres de nós, nada fizemos, e já nos punimos . “

    Assim, um ser humano, perverso e desonesto, estabelece para ele mesmo, esta “lei” – regra ou norma de vida –

    Serei desonesto, torpe, marginal, malfeitor, e transgressor toda a minha vida . A todos procurarei enganar, disso tirando o máximo proveito, e no fim escaparei impune e de todos rir-me-ei .

    Essa “regra, que cumprirá fielmente” dela não se desviando um milimetro, conduzirá a que seja punido por ele mesmo ( porque não há como escapar à consciência e ele sabe exactamente aquilo que é ) e a consciência é o verdadeiro juiz dele mesmo, e porque a consciência o constrange fatalmente a ser confrontado com os seus actos, sendo punido pela sua desonestidade . Não há como escapar a isto .
    E nada tendo feito para levar uma vida decente e honesta, é também punido, adicionalmente, pela regra/opção que fez, que o pune, negando-lhe a possibilidade de desfrutar de uma existência tranquila, livre e feliz, que lhe possibilitaria paz de espírito e uma consciência sem peso algum .
    É isto .

  9. fui incauto e o ajavardamento já começou :

    não meta o estado de direito democrático ao barulho ( enquanto eu redigia o comentário ) porque o estado de direito democrático, depende das várias visões/interpretações que sobre ele têm todos os intervenientes da coisa jurídica, nem faça oráculos sobre as minhas convicções, porque todos sabemos que a alegada obssessão pelo estado de direito, pode servir para esconder a obssessão pela desculpabilização e pela não aplicação do mesmo .
    Do tribunal da consciência, ninguém escapa . Fiquemos por aqui .

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