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Grécia na roleta

Como português, eu talvez preferisse a vitória do Não na Grécia. Mas os gregos é que votam a doer no referendo de domingo e o mais certo é que votem a pensar na segunda-feira, que vai amanhecer angustiante. Para já, os bancos estão fechados, os turistas estão a bazar e não há crédito para importar géneros de primeira necessidade. É o resultado da chantagem e do terrorismo ‒ dizem governantes gregos. Pois será, mas quem inventou o referendo foi esse mesmo governo.

Uma clarificação seria urgentemente necessária nesta guerra entre, por um lado, o governo de um país europeu e, por outro, as instituições europeias e a matilha dos credores. Mas será este referendo capaz de produzir a necessária clarificação? Duvido muito.

A pergunta inscrita no boletim de voto incide sobre uma proposta que já foi retirada pelas entidades que a propuseram. O que parece que manhosamente se quer decidir é se o governo eleito há meses deve ou não continuar a governar, embora não seja essa a pergunta inscrita no boletim. E se o governo é legítimo e está a cumprir a orientação que há meses anunciou ao eleitorado, para que é necessário um tal referendo?

A Europa e os credores, que não queriam o referendo, esperam agora que um Sim salvador enfraqueça ou derrube o governo grego ‒ um governo que à margem das negociações lhes tem chamado criminosos e terroristas. O governo de Tsipras, que inventou o referendo, julga que um Não o fortaleceria. Logo, se a maioria responder Sim, o referendo revelar-se-á um harakiri do governo; se a maioria responder Não, o governo sairá talvez provisoriamente fortalecido no plano interno, mas externamente ficará exactamente no ponto em que está e a situação financeira da Grécia não terá avançado um milímetro.

O governo grego diz que quer a todo o custo manter a Grécia no Euro e na União Europeia. Perguntaram ao menos isso aos gregos? Não. O governo grego gostaria que fosse perdoada parte da dívida do país e que a restante fosse paga mais suavemente. Perguntaram aos gregos se querem essa solução? Também não. Outras perguntas pertinentes, tempestivas e claras poderiam ser postas aos cidadãos gregos, mas o governo não as pôs. Terá medo das respostas? O que no domingo se vai perguntar ao povo grego é se a Grécia deve ou não aceitar uma proposta que o seu governo já rejeitou e que entretanto foi retirada por quem a fez. Além de extemporânea, é uma pergunta de combate: o governo apela ao Não sem submeter ao voto popular uma proposta alternativa. Por receio de não recolher apoio?

Ninguém pode assegurar o que se vai passar a seguir ao referendo, quer vença o sim quer vença o não. Há apenas especulações políticas, financeiras e bolsísticas sobre o que vai suceder a partir de segunda-feira. São demasiados os factores envolvidos e demasiado incertos para que alguém possa garantir o que  vai acontecer. Apenas se sabe que Varufakis se vai embora se o Sim vencer. O referendo apresenta-se, pois, como uma aposta desesperada na roleta.

Por tudo isto estou convencido que Tsipras vai perder. Porque a sua vitória não resolveria nenhum problema da Grécia e mergulharia o país em maior incerteza. Porque ninguém perguntou aos gregos o que é que eles realmente querem e apoiariam. Porque a pergunta é redutiva, manhosa e extemporânea. Porque o referendo apenas busca o reforço interno do governo e uma subida de votos em relação às legislativas. Porque o referendo é inútil e o Sim penaliza quem o inventou. Porque, enfim, a vitória do Sim nem sequer vincularia a Grécia a uma proposta que já não está em cima da mesa.

A troika e a quadrilha

Embora nos tenham habituado a dizerem uma coisa de manhã, outra à tarde e outra à noite, os que nos governam costumam também dividir esse trabalho entre si, para não dar tanto nas vistas. Alimentam assim, com desfaçatez, um discurso contraditório e desarticulado, com o Cavaco a mandar umas bocas visando determinado objectivo, o Coelho outro, o Portas outro, a Albuquerque outro. Parecem estar cada um por sua conta. No fim, a quadrilha divide os lucros.

Poderia citar muitos casos, a começar pelas pensões, salários e respectivos cortes. Mas tomemos a questão exemplar da troika, que vai figurar até à saturação na propaganda da cambada que actualmente governa. Cavaco condecorou Teixeira dos Santos porque mandou patrioticamente vir a troika, um “mal necessário” que Sócrates, contra a posição da direita, se tinha esforçado até ao limite das suas forças por evitar. Passos Coelho, por seu turno, regozijou-se porque o seu governo foi “muito além do memorando da troika”. Para o Coelho, o memorando de entendimento com a troika foi um bem, mas não um bem suficiente, houve que esticar as suas imposições, porque o governo PS foi demasiado acanhado a negociá-las. Portas, por seu lado, vem dizer que o PS certamente não ganhará as eleições, porque o povo das feiras “sabe quem é que mandou vir a troika” (o PS) e “quem é que protege a recuperação económica” (o governo PSD-CDS). Como se a troika fosse um bando de salteadores apostados na ruína do país e o governo PSD-CDS a entidade que heroicamente lhe resistiu, conseguindo recuperar a economia (!!??) contra as pérfidas intenções do bando “mandado vir” pelos socialistas. Como se o ponto único da oposição de direita não tivesse sido mandar vir a troika e, chegada ao poder, ir “muito além” do memorando de entendimento. Pelo meio, a Albuquerque dispara em todas as direcções, consoante as perguntas que lhe fazem, a distância a que se encontra do Portas e a evolução dos juros no mercado da dívida.

Primitivismo demagógico, publicidade enganosa, duplicidade, descarada hipocrisia. É assim que esta cambada de troca-tintas vai tentar armadilhar a campanha eleitoral.

Entretanto, a troika – que o palhaço Portas fingiu expulsar do país com foguetório e relógio de contagem decrescente – apenas mudou de residência permanente. Agora o trio já não dá pelo nome de troika, chama-se simplesmente FMI, Comissão Europeia e BCE. Nunca deixaram de visitar o país e de formular as suas imposições e directivas. Ontem, como todas as semanas, o FMI voltou a exigir cortes nas pensões e nos salários da função pública e voltou a alertar contra descidas no IRS. Claro que a quadrilha no poder fica chateada, por ver assim revelado o seu programa secreto de governo para os próximos anos.

Burrices em cascata

O procurador Rosário Teixeira veio agora dizer que a “substituição da prisão preventiva ficou inviabilizada” com a recusa de José Sócrates em usar uma pulseira electrónica. Para o padrinho da Operação Marquês, se Sócrates ficar em casa sem pulseira, existe “perigo de perturbação de inquérito”, bem como, “de forma mais diminuta”, perigo de fuga. O Teixeira acha isto apesar de o Tribunal da Relação já ter posto de lado o perigo de fuga, avaliação que tem agora obrigatoriamente de ser tomada em consideração.

Temos portanto que, para o Teixeira:

‒ em casa, com pulseira, não há perigo de perturbação de inquérito;

‒ em casa, sem pulseira, há perigo de perturbação de inquérito.

O que o homem está a querer insinuar é que, sem pulseira, Sócrates vai certamente esgueirar-se de casa, logo vai perturbar o inquérito. Ora independentemente do que ele pensa da honestidade e da inteligência de Sócrates, a burrice máxima que ressalta dos raciocínios em cascata do procurador é presumir que alguém no mundo precisa de sair de sua casa para perturbar um inquérito, se porventura o quiser fazer. Como o Teixeira não parece estúpido, só se pode encarar isto como a simples expressão do desejo de manter Sócrates na prisão, por motivos inconfessáveis.

Post scriptum: mais três meses de prisão, como era óbvio depois de o Teixeira ter falado. Óbvio também é que haverá recurso, dada a justificação previamente apresentada pelo Teixeira… para a decisão do juiz.

Quem Quer Ser Matracado?

A Barca do Inferno

A mulher que se tornou no símbolo nacional da má-criação e da regateirice televisivas abandonou ontem o programa Barca do Inferno da RTP Informação, momentos depois de o pacato pivô Nilton a ter intimado a comportar-se. Como isso é precisamente o que a Manuela não sabe fazer, anunciou solenemente que ia bazar ‒ e bazou.

A diva já avisou que não volta ao programa, pelo que é de esperar que Passos Coelho, incansável produtor de mitos urbanos, lhe arranje novamente um emprego e um palco para continuar a exibir as suas qualidades. Ocorre-me um talk-show com almas penadas como convidados. Alguém sugeriu já um nome: Boca do Inferno. Acho que também não seria má opção A Matraca, dado o estilo suave e dialogante da comentadora. Recordando a passagem recente da Manuela por outro show, eu proporia: Quem Quer Ser Matracado?

Passos Coelho aceita mais sugestões dos leitores do Aspirina, tanto para o nome como para o conteúdo do novo programa.

NATO quer organizar o Mundial de futebol

A nova guerra fria já está instalada no futebol. O FBI, uma polícia federal americana com pretensões a planetária, declarou há dias ter alargado o âmbito de uma sua curiosa investigação à corrupção na FIFA, centrando-se agora em possíveis casos de corrupção nas candidaturas vitoriosas da Rússia e do Qatar aos mundiais de futebol de 2018 e 2022, respectivamente.

Como se, desde o princípio, os americanos não tivessem tido apenas um objectivo: tirar à Rússia a realização da fase final da Taça do Mundo em 2018.

A alternativa que estava a ser estudada já em 2014 era os países da NATO, liderados pela Inglaterra, boicotarem o evento, mas o resultado dessa iniciativa era demasiado incerto e duvidoso. Treze senadores americanos apostaram então noutro tabuleiro e pediram em Abril deste ano à FIFA que tirasse o Mundial à Rússia a pretexto das “violações territoriais” russas na Ucrânia. A tentativa de “secar” os patrocínios comerciais do Mundial também foi encarada. Vale tudo, a bem do combate à “corrupção”. Existe “corrupção” sempre que os interesses expansionistas dos EUA/NATO são contrariados. Não existe “corrupção” quando as coisas correm a preceito para os EUA/NATO.

O Planetary Bureau of Investigation – PBI conseguiu fazer dizer hoje a um italiano dirigente da FIFA que “a Rússia e o Qatar ainda podem perder os seus Mundiais” (Público). O Qatar nesta história é só para disfarçar.

A Inglaterra, cuja candidatura foi derrotada pela da Rússia, já se está a perfilar para a substituir em 2018. Os EUA, que se candidataram ao Mundial de 2022 e foram derrotados pelo Qatar (parece que os americanos pagavam menos luvas), também não se importavam de substituir os árabes, mas é claro que já se contentam com a retirada do Mundial de 2018 aos russos.

A Taça do Mundo da FIFA, que durante muitos anos se chamou Taça Jules Rimet, pode voltar a mudar de nome, desta vez para NATO World Cup. Não era má ideia mudar também o troféu propriamente dito. Proponho uma taça em forma de ogiva nuclear invertida e com as asas da águia americana.

Teodora Cardoso respondeu à maioria

O Conselho das Finanças Públicas recusou-se a avaliar programas de partidos.

De facto, só a imbecilidade reinante no PSD e a presunção imbecil de que a política do governo é a única salvação possível podem explicar a proposta imbecilóide de submeter os programas da oposição ao parecer de um conselho técnico “independente”. As aspas nesta última palavra têm a ver com o facto de a “independência” do Conselho das Finanças Públicas ser assegurada… pelo Orçamento de Estado e a nomeação dos seus membros ser feita… pelo governo. Isto está muito candidamente declarado na respectiva lei e é assumido muito a sério pelos dirigentes do CFP e, claro, pelo governo.

Estatutariamente, o CFP não recebe ordens do governo ou da Assembleia da República. Está muito certo. Di-lo a lei e é o mínimo que se pode esperar de um organismo que se ufana de ser “independente” – embora talvez seja sobretudo inútil – e que além do mais é pago com o dinheiro de todos nós.

Mas querer atirar para um organismo desses, útil ou inútil, tarefas que são da primordial competência da política (dos partidos, da Assembleia da República, dos governantes, etc.) é o mesmo que pretender violar a lei, é querer travestir os técnicos de políticos e querer, no fundo, acabar com qualquer laivo de independência, com ou sem aspas, do CFP. É tentar iludir as pessoas com argumentos sofísticos de autoridade (argumentum ad verecundiam ou magister dixit), é fazer troça da democracia, é não perceber um corno do que é a política – é, enfim, ser-se imbecil, trapaceiro, incompetente e demagogo, coisa que só lembrava a esta maioria.

Veja as diferenças

Compare-se o modo como o Wall Street Journal e o pasquim Público relatam hoje a Parada da Vitória realizada em Moscovo.

O primeiro, pertencente ao império do magnata Rupert Murdoch, é o jornal de maior circulação nos EUA e o órgão emblemático do capitalismo e do imperialismo americanos.

O segundo é um jornaleco de mercearia que se lê em algumas vielas de Lisboa e onde ganham o pão meia dúzia de pseudo-jornalistas ignorantes e lambe-botas, formados na madraça ideológica do imã Zé Manel Fernandes.

A notícia do WSJ é agarrada aos factos, que avalia à sua muito subtil maneira, certamente, mas sem pretender dar-nos lições de história nem impingir-nos pastilhas de guerra fria. Isso fica para os comentadores online, que ninguém lê, a não ser os próprios.

Na “notícia” do Público, da Clara Barata, não se topa um miligrama de jornalismo. Seria certamente chumbada na redacção da Fox News, para não ir mais longe. A fulaninha, que nem o português da escola primária aprendeu ainda, sustenta a dado passo, desafiando a opinião de Churchill, que a vitória sobre o nazismo não assentou principalmente no sacrifício do povo russo. Isso, na opinião dela, não passaria de um “mito estalinista”.

A ignorância é sempre muito atrevida, mas o que mais choca na comparação da notícia do Público com a do WSJ, além da total falta de profissionalismo do jornaleco português, é a subserviência parola, bacoca e mais papista que o papa destes tristes aprendizes nacionais de americanofilia.

Uma amiga na Autoridade Tributária

Uma funcionária do fisco, interrogada por ter consultado à socapa os dados do primeiro-ministro, justificou-se dizendo que o acesso foi pedido pelo próprio Passos Coelho, de quem é amiga. O gabinete do primeiro-ministro garante que não houve qualquer tentativa de obter tratamento de favor. O gabinete jura que o Coelho também não solicitou à amiga qualquer informação privilegiada ou sigilosa acerca da sua situação fiscal. O tipo apenas quis “perceber uma questão relacionada com a sua declaração de IRS”.

Como toda a gente sabe, ele é incapaz de facilitar ou de pedir que lhe facilitem seja o que for. Nem que fosse uma benemérita ONG a pedir-lhe. Porém, como é muito burro, nunca aprendeu a preencher a declaração do IRS. Sempre que faz a declaração sozinho, sai merda. E sempre a favor do Estado, claro. Ele é muito honesto e cumpridor, lembram-se?

Está, pois, tudo explicado. Podemos agora concluir:

1) dos 27 funcionários do fisco que estão a ser investigados, quem conseguir provar que é amigo do Coelho, está safo;
2) quem não conseguir provar que é amigo do Coelho nem tiver cartão do PSD, leva processo e será castigado;
3) quem nunca tiver visto o Coelho mais gordo, pode sempre dizer que é amigo dele (o gajo que prove que não é);
4) o primeiro-ministro confia tanto nos seus colaboradores que, quando quer saber qualquer coisa sobre impostos, telefona a uma amiga que tem na Autoridade Tributária;
5) a amiga do primeiro-ministro é tão honesta que, se ele lhe tivesse pedido para facilitar qualquer coisa ou para obter alguma informação sigilosa, denunciava-o logo à PJ;
6) a amiga do primeiro-ministro é tão cumpridora que nunca espiou à socapa a situação fiscal de mais ninguém, só a do Coelho e a pedido dele, por ser seu amigo de peito.

Descoberto o programa secreto do Coelho

Para os próximos anos o FMI quer “mais cortes nos salários e pensões” em Portugal para melhorar a competitividade. É que a chamada “racionalização” que houve desde 2011 não chega. É “demasiado modesta para levar o produto e o emprego para os níveis anteriores à crise“, disse o FMI hoje.

Ou seja: a recuperação só pode começar quando tivermos descido ao nível de vida do Bangla Desh.

Na campanha eleitoral que já começou o Coelho vai falar de tudo, menos disto. A ver se engana parvos outra vez.

Nasceu uma estrela no firmamento laranja

Os débeis da carola gostam de se promover uns aos outros, porque se acham brilhantes, geniais e até engraçados. É só natural, quando a fasquia é tão rasteira.

Vai daí, o inconcebível Duarte Marques citou umas patacoadas do blogue do Cosme, um “professor universitário”, com aspas dos dedos dos pés do Bruno Nogueira. Com isso o Cosme conquistou celebridade imediata, graças também ao Louçã, que exibiu o animal na praça pública. O nome do pintas veio na capa do jornal i (A história do professor universitário mais odiado de Portugal) e até já passa na rádio. Ele está radiante! Ninguém o cala lá na Rua da Bainharia.

No post citado pelo Marques – que este depois pretendeu não ter lido, apesar de o ter citado – o Cosme expunha as suas “hipóteses” nazis para acabar com os seropositivos e com a pretalhada que atravessa o Mediterrâneo. Mediante abate sanitário, no primeiro caso, e a tiro, no segundo (três vezes sic).

Acusado de racista, fascista, nazi, imbecil, etc., este inacreditável ornamento da Faculdade de Economia do Porto respondeu com outro post, intitulado “Eu sou racista“, para que não restem dúvidas. Podia pensar-se que o Cosme tinha estado só a fazer graçolas indecorosas. Mas não. Ele defende e justifica mesmo o racismo com argumentos históricos e sociológicos, que certamente aprendeu quando se formou em Engenharia de Minas. E ainda declara que somos todos racistas como ele, só que não confessamos.

Explicou razoavelmente por que é racista, embora não tenha explicado a razão por que é imbecil. Mas isso seria impossível, dado que ele é mesmo imbecil.

Irá longe, este Cosme. E quanto mais longe da Faculdade de Economia do Porto, melhor. Como é engenheiro de Minas, talvez vingue na economia subterrânea.

Numa universidade americana, ele teria sido despedido no mesmo dia em que publicou os seus dejectos abomináveis. Aqui, a FEP “demarca-se do professor racista” e espera que a PGR talvez se lembre de fazer qualquer coisa, em consequência dos insultos racistas do Cosme.

Convite ao crime

Raramente estarei tão de acordo com o Daniel Oliveira como desta vez. Não li “A lista do linchamento” na íntegra, porque o Expresso online apenas disponibiliza os dois primeiros parágrafos. Mas o que ele aí diz está perfeito (sublinhados meus):

Ao autorizar a divulgação aos vizinhos dos nomes de pedófilos que tenham cumprido as suas penas, de forma tão vaga que qualquer comandante de esquadra dará a informação sempre que o quiser fazer, o Estado convida os cidadãos a fazerem justiça pelas próprias mãos. Se esta inaudita irresponsabilidade, que pouco fará contra um crime maioritariamente cometido em ambiente familiar, vier a resultar em violência ou pior, espero que a senhora ministra da Justiça se sente no banco dos réus. A destruição do Estado de Direito começa sempre na forma como lidamos os crimes mais desprezíveis. Mas nunca acaba aí.

Já existem dados criminais sobre os cidadãos. Não é segredo, para as autoridades, quem foram os condenados por crimes contra a autodeterminação sexual e a liberdade sexual de menores. Não foi isso que ontem o Parlamento aprovou. O que o Parlamento ontem aprovou foi a possibilidade das autoridades locais, o polícia da esquadra do bairro ou da vila, informarem a quem lhes perguntar, se o vizinho, o colega de trabalho, seja quem for, foi alguma vez condenado por pedofilia. E, claro, essa pessoa espalhar por toda a gente.

CORRECÇÂO: Ao contrário do que Daniel Oliveira escreveu, a proposta de lei foi aprovada em conselho de ministros e não no parlamento.

Privatização da Caixa, lembram-se?

O Novo Banco perdeu 9300 milhões em depósitos em 2014 e a Caixa Geral de Depósitos foi quem mais ganhou.

Por volta de 2008, ainda Passos Coelho estava longe de chegar ao poder e já tinha duas ideias. O que, para um gajo com três neurónios, rondava perigosamente o limiar do esgotamento cerebral.

Uma dessas ideias era a privatização da RTP, para acabar de pôr o resto da comunicação social em mãos exclusivamente de direita. Cenário alternativo era a extinção pura e simples da empresa de televisão e radiodifusão do Estado, dado que as empresas privadas do ramo, gente amiga, não deitariam foguetes por ficarem com mais concorrência, se a RTP fosse vendida.

A outra ideia coelhina era a privatização da Caixa Geral de Depósitos, porque lhe fazia impressão que na administração do banco do Estado houvesse ainda uns pelintras sem cartão laranja. O mangas, muito excitado, imaginava já a quem entregar a joia da coroa. Futuramente, quem sabe, talvez lhe calhasse na administração uma cadeira para adoçar a reforma, como calhara já a outros.

Entretanto o mundo deu umas voltas e o Coelho evacuou as duas ideias solitárias que acalentava em 2008. Desde então, a banca privada portuguesa mergulhou até aos olhos nas mais sórdidas histórias de delinquência financeira – ou, pelo menos, a crise tornou visível a bandalheira que já vinha de trás. Uns tantos bancos foram virtualmente à falência, incluindo o BPN, o BPP e o BES. Os outros andam por aí de mão estendida, à espera do BCE ou da Isabel dos Santos. A Caixa, entretanto, foi obrigada a ajudar o Estado em várias operações de salvamento da banca privada falida. Ao que chegámos!

Os jornalistas lacaios que pululam por todo o lado como baratas tontas ainda não perguntaram ao Coelho porque é que ele já não propõe a privatização da Caixa.  E, já agora, da RTP.

O país em que vivemos

O órgão de referência Propagandista Social relata hoje umas merdas patéticas que aconteceram num bordel qualquer chamado Secret Story (deve ser aquele programa de chulé ao vivo por onde eu tenho de passar quando faço zapping do Passos Coelho):

José Castelo Branco sofreu ontem no programa “Luta pelo Poder” uma agressão de Zezé Camarinha. Zezé puxou os cabelos a Castelo Branco em directo na gala [sic] conduzida por Teresa Guilherme. Tudo aconteceu poucos minutos após a entrada do algarvio na casa mais famosa do país [sic]. Os convidados da Voz [sic] têm já um passado que proporcionou a discussão e as acusações de Zezé. O recém-entrado concorrente puxou os cabelos a Castelo Branco e foi automaticamente expulso do programa. Foi ao magazine Flash Vidas que o conde [sic] prestou as primeiras declarações sobre o sucedido: “Quando a Teresa me pergunta, e portanto, naquele momento, uma pessoa mais quente, eu disse: ‘Eu peço desculpa mas eu não falo com gentuça’. Não falo, recuso-me, com pessoas que não têm educação rigorosamente nenhuma, como tal noblesse oblige [sic] e quando eu acabo de dizer isto eu só me recordo de ele levantar-se de repente”. Castelo Branco refere ainda que no estado em que tinha o pé era incapaz de se defender daquela situação: “Eu estou com o pé no estado em que estou, que mal posso andar, tenho de andar com canadianas, não posso dar um passo. Portanto, era inclusivamente transportado na casa ao colo em determinadas situações, e de repente eu dou por mim com um homem a agredir-me por trás, portanto, eu, inválido, e ele agrediu-me por trás a rebentar com o meu cabelo”. O conde refere ainda que Zezé lhe puxou os cabelos como se fossem extensões [sic] e que lhe puxou um casaco de pelo que tinha: “Como se fossem extensões, quando o meu cabelo, graças a Deus, é natural e a puxar-me o pelo todo que eu tinha porque eu levava uma manga da Marnie e a rebentar-me propositadamente o pelo. Eu depois vi nas imagens que a Vera mais tarde estava a limpar, a apanhar os pelos todos que ele tinha destruído”.

O Propagandista Social informa ainda que o confronto e a agressão de Zezé Camarinha a José Castelo Branco deram à TVI a liderança no horário e ainda um recorde de rating.

 

Ao Coelho o que é do Coelho

Certas pessoas andam agora escandalizadas com uma frase pouco clara de Passos Coelho, velha já de dois anos e meio. Proferida em Outubro de 2012, rezava mais ou menos assim: “Pertenço a uma raça de homens que paga o que deve“.

Soubemos recentemente que Passos Coelho já então fora informado da sua dívida passada à Segurança Social e que só em Fevereiro de 2015 decidiu pagá-la, após o caso ter sido ventilado pela imprensa. Daí certas pessoas chamarem-lhe agora incumpridor e mentiroso, dada a aparente contradição entre o que diz e o que faz.

Há aqui um mal-entendido. Para sermos justos, é preciso ver o contexto em que aquela frase, algo dúbia, foi proferida. Ela foi dita por Passos Coelho no parlamento em resposta a Louçã, que defendera a chamada restruturação da dívida portuguesa e um plausível perdão de parte dela. Ora, nesse preciso contexto, Passos Coelho não disse que era de uma raça de homens que pagava sempre as suas dívidas, longe dele tal insinuação. Disse, sim, que era de uma raça de homens que honrava os “compromissos do país” mesmo que não tivessem sido assumidos pelo seu governo. Como é sabido, as dívidas do Estado são pagas com o dinheiro dos contribuintes. É diferente.

Assim, para não dar azo aos remoques da populaça, Passos Coelho deveria ter dito: “Pertenço a uma raça de homens que paga as dívidas, desde que seja com o dinheiro dos outros“.

Aqui, porém, põe-se novo problema, dado que a dívida pública portuguesa tem vindo a crescer desde que Passos Coelho chegou ao poder. Além disso, alegando conseguir juros mais baixos, o governo está a tentar passar a dívida ao FMI para dívida contraída no mercado e com prazos mais dilatados.

Para ser inteiramente claro, Passos Coelho deveria, pois, ter dito: “Pertenço a uma raça de homens que finge que vai pagando as dívidas, mas que realmente as vai passando em herança, e aumentadas, para os que vierem depois“.

Assim não havia mais remoques nem mal-entendidos.

Um perfeito canalha

Passos Coelho exibiu hoje a sua natureza de canalha. Perante renovadas acusações de incumprimento que já não ousa negar, porque é impossível negá-las, tentou esconder-se sob a capa do cidadão comum que se “esquece” de pagar multas – ou que foge ao fisco e defrauda a segurança social. “Não sou perfeito” – disse, apelando à culpabilidade de quem o ouve. O laranjal presente ribombou em aplauso. Pudera…

Passos Coelho não é perfeito. Longe disso, é um perfeito canalha .

Como mostrou logo a seguir, tentando dourar os seus repetidos incumprimentos e sonegamentos como pecadilhos de cidadão vulgar, comparando-os com os crimes que são imputados a um suspeito sem culpa formada, seu adversário político, e que estão muito longe de ser provados. Nomeadamente o suposto crime de “viver acima das suas possibilidades”.

Se ainda fosse necessária prova gritante de que Sócrates está preso para servir de alibi e de escudo perante a opinião pública a este governo acanalhado, aí a teríamos agora.

O esterco do diabo

O papa Francisco atirou-se no sábado às falsas cooperativas, condenando, por tabela, o capitalismo, os baixos salários, a exploração do trabalho, as manipulações do mercado e o desemprego .

Perante milhares de sócios da confederação italiana de cooperativas católicas, Francisco declarou que “quando o dinheiro se torna um ídolo, comanda as escolhas do homem”, o que “arruína e condena o homem”.

Citou, a propósito, Basílio de Cesareia e Francisco de Assis, segundo os quais “o dinheiro é o esterco do diabo”.

Há dias Francisco tinha-se encontrado durante 40 minutos com a cristã-democrata Angela Merkel no Vaticano. Imagino que se tenham debruçado demoradamente sobre o “esterco do diabo”.

A fina flor do entulho

O dueto Rosário/Alexandre, que engavetou Sócrates por motivos políticos, tem um clube de fans de estalo. É constituído pelo nojento Correio da Manhã, o asqueroso O Sol, a infelícia Cabrita, o comentador pidesco Magques Mendes (o homem das cunhas a quem a justiça perdoou), o delinquente fascista Mário Machado e o movimento fascizante Revolução Branca (já aceite como assistente no processo). Para não dar bandeira, Marcelo Rebelo de Sousa faz só uns ganchos em prol do clube, mas já sugeriu que Sócrates só morto é que se cala. João Miguel Tavagues, com tudo o que tem apguendido com o bloquista Guicagdo Agaújo Pegueiga, dá assistência como palhaço pobgue.

Consequentemente, o dueto Rosário/Alexandre, que se tivesse mais dois elementos era uma quadrilha, é apoiado e secundado pela fina flor do entulho da sociedade portuguesa. Para honra e glória de Sócrates!

 

Dr. Strangelove (remake)

Um idiota de um general inglês chamado Adrian Bradshaw, que se dá o triste caso de ser vice-comandante supremo das forças militares da NATO na Europa, disse ontem em Londres que as forças aliadas devem começar a preparar-se para a eventualidade de uma guerra relâmpago desencadeada pela Rússia no Leste da Ucrânia com o fim de apanhar a NATO desprevenida e apoderar-se, depois da Crimeia, de mais território naquelas paragens, incluindo, num possível futuro, “território da NATO“. Este Bradshaw fez-me lembrar a sinistra galeria de militaróides tresloucados da grande comédia negra de Kubrick, Dr. Strangelove or How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (1964). Entre esses alucinados havia um americano de nome sugestivo, o general Jack D. Ripper, e um obsequioso militar inglês chamado capitão Mandrake, além do Dr. Strangelove himself — os dois últimos papéis interpretados pelo genial Peter Sellers.

Não sendo até hoje a Ucrânia um estado-membro da NATO, não consigo imaginar de que é que este novo general Ripper estava a falar quando se referiu à possível conquista pelos russos de “território da NATO”. Olhando para o mapa, só poderia ser território da Polónia, da Eslováquia, da Hungria, da Roménia ou dos três estados bálticos que fizeram parte da URSS. A não ser que o gajo encare seriamente a hipótese de a Rússia vir novamente por aí fora com os seus tanques e aviões até Berlim… Em qualquer dos casos, o fulano deve andar a fumar umas coisas muito estranhas.

O mundo já está, felizmente ou infelizmente, muito acostumado a declarações belicosas deste tipo, proferidas por gente que alega imaginárias ameaças por parte de terceiros para se lançar em escaladas verbais ou até em guerras preventivas. Pense-se na invasão de vários países europeus por Hitler, sempre justificada pela necessidade de defesa da Alemanha perante possíveis ataques por parte da Inglaterra ou das “hordas bolchevistas”. Pense-se, mais recentemente, na invasão do Iraque por Bush Jr, justificada pela necessidade de impedir Saddam Hussein de usar as suas armas de destruição maciça, armas que afinal não possuía.

Verdadeiramente ameaçador, ainda que não tenha sido sustentado, até agora, por fogo real, é o expansionismo da NATO, que desde 1999 já estendeu os seus tentáculos armados a 12 países do Leste europeu, 10 dos quais tinham sido membros do falecido Pacto de Varsóvia. Esses 12 países são agora designados pelo idiota general inglês como “NATO territory”. O cerco à Rússia vai-se apertando cada vez mais, como qualquer cego verá olhando para o mapa da Europa. A Bielorrússia pode ser o próximo objectivo desta ofensiva “pacífica” de conquistas territoriais da NATO. O objectivo final da NATO é o derrube de Putin e a conquista da Rússia. Com a desagregação da URSS, americanos e ingleses convenceram-se que a Rússia estava no papo. Parecia estar ao alcance da mão, sem necessidade de empregar força, a tomada de controlo militar de uma vastíssima zona do planeta até à fronteira da China, assegurando, simultaneamente, o controlo económico ou a rapina da maior reserva de recursos minerais e de água da Terra, que é o grande tesouro da Rússia.

O actual conflito da Ucrânia é fruto não do alegado desejo russo de aumentar o seu território (uma perfeita imbecilidade, dada a vastidão do país), mas sim do expansionismo militar e económico dos países da NATO que, mesmo não havendo comunismo algum, ressuscitaram o espírito e as tácticas da guerra fria, sem qualquer consideração pelos legítimos interesses e preocupações de um grande país chamado Rússia. Com as declarações do general Bradshaw, parece que o maniqueísmo, a paranóia e o delírio estão a começar a atingir um nível muito perigoso nas cabeças de certos Rippers, Mandrakes e Strangeloves actualmente colocados em postos de altíssima responsabilidade.

Portugal, como membro da NATO, não pode alinhar no delírio belicoso destas bestas. Depois da humilhação a que fomos sujeitos com a história da base das Lajes, é preciso um governo que, também nestas matérias (e não só diante da senhora Merkel), mostre que Portugal ainda existe.