Dr. Strangelove (remake)

Um idiota de um general inglês chamado Adrian Bradshaw, que se dá o triste caso de ser vice-comandante supremo das forças militares da NATO na Europa, disse ontem em Londres que as forças aliadas devem começar a preparar-se para a eventualidade de uma guerra relâmpago desencadeada pela Rússia no Leste da Ucrânia com o fim de apanhar a NATO desprevenida e apoderar-se, depois da Crimeia, de mais território naquelas paragens, incluindo, num possível futuro, “território da NATO“. Este Bradshaw fez-me lembrar a sinistra galeria de militaróides tresloucados da grande comédia negra de Kubrick, Dr. Strangelove or How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (1964). Entre esses alucinados havia um americano de nome sugestivo, o general Jack D. Ripper, e um obsequioso militar inglês chamado capitão Mandrake, além do Dr. Strangelove himself — os dois últimos papéis interpretados pelo genial Peter Sellers.

Não sendo até hoje a Ucrânia um estado-membro da NATO, não consigo imaginar de que é que este novo general Ripper estava a falar quando se referiu à possível conquista pelos russos de “território da NATO”. Olhando para o mapa, só poderia ser território da Polónia, da Eslováquia, da Hungria, da Roménia ou dos três estados bálticos que fizeram parte da URSS. A não ser que o gajo encare seriamente a hipótese de a Rússia vir novamente por aí fora com os seus tanques e aviões até Berlim… Em qualquer dos casos, o fulano deve andar a fumar umas coisas muito estranhas.

O mundo já está, felizmente ou infelizmente, muito acostumado a declarações belicosas deste tipo, proferidas por gente que alega imaginárias ameaças por parte de terceiros para se lançar em escaladas verbais ou até em guerras preventivas. Pense-se na invasão de vários países europeus por Hitler, sempre justificada pela necessidade de defesa da Alemanha perante possíveis ataques por parte da Inglaterra ou das “hordas bolchevistas”. Pense-se, mais recentemente, na invasão do Iraque por Bush Jr, justificada pela necessidade de impedir Saddam Hussein de usar as suas armas de destruição maciça, armas que afinal não possuía.

Verdadeiramente ameaçador, ainda que não tenha sido sustentado, até agora, por fogo real, é o expansionismo da NATO, que desde 1999 já estendeu os seus tentáculos armados a 12 países do Leste europeu, 10 dos quais tinham sido membros do falecido Pacto de Varsóvia. Esses 12 países são agora designados pelo idiota general inglês como “NATO territory”. O cerco à Rússia vai-se apertando cada vez mais, como qualquer cego verá olhando para o mapa da Europa. A Bielorrússia pode ser o próximo objectivo desta ofensiva “pacífica” de conquistas territoriais da NATO. O objectivo final da NATO é o derrube de Putin e a conquista da Rússia. Com a desagregação da URSS, americanos e ingleses convenceram-se que a Rússia estava no papo. Parecia estar ao alcance da mão, sem necessidade de empregar força, a tomada de controlo militar de uma vastíssima zona do planeta até à fronteira da China, assegurando, simultaneamente, o controlo económico ou a rapina da maior reserva de recursos minerais e de água da Terra, que é o grande tesouro da Rússia.

O actual conflito da Ucrânia é fruto não do alegado desejo russo de aumentar o seu território (uma perfeita imbecilidade, dada a vastidão do país), mas sim do expansionismo militar e económico dos países da NATO que, mesmo não havendo comunismo algum, ressuscitaram o espírito e as tácticas da guerra fria, sem qualquer consideração pelos legítimos interesses e preocupações de um grande país chamado Rússia. Com as declarações do general Bradshaw, parece que o maniqueísmo, a paranóia e o delírio estão a começar a atingir um nível muito perigoso nas cabeças de certos Rippers, Mandrakes e Strangeloves actualmente colocados em postos de altíssima responsabilidade.

Portugal, como membro da NATO, não pode alinhar no delírio belicoso destas bestas. Depois da humilhação a que fomos sujeitos com a história da base das Lajes, é preciso um governo que, também nestas matérias (e não só diante da senhora Merkel), mostre que Portugal ainda existe.

 

 

19 thoughts on “Dr. Strangelove (remake)”

  1. a ucrania,não pertence à Nato, mas é sua intençao vir a pertencer.quanto aos russos,tudo é possivel. noticia da tsf : o novo banco (ou velho banco!)retirou do seu site ,a frase que dizia que os clientes do papel comercial tinham direito a receber o seu dinheiro. chegamos à conclusaõ que com este governo tudo é permitido!

  2. Orra beie, quando os ilustres XUXAS forem eleitos desgoberno, bamus terre paze no mundu. fogu, mas a murreirita teie de ficarre em caza a preparar caldus de galinha. oqueie.

  3. fifi, essa história de que a Ucrânia ainda não é, mas pode vir a ser membro da NATO é uma digna herdeira da fábula do lobo e do cordeiro…

  4. Verdadeiramente ameaçador, ainda que não tenha sido sustentado, até agora, por fogo real, é o expansionismo da NATO

    Um espirro ideológico ao estilo démodé do Maio de 68.
    Os países que aderiram à NATO são independentes e livres de o fazer. Não são pertença da Rússia nem estão presos à história infeliz de terem estado sob o jugo da ditadura mais pérfida do séc. XX.

    Com a desagregação da URSS, americanos e ingleses convenceram-se que a Rússia estava no papo

    Se os ingleses e americanos quisessem isso de facto, teriam dado ouvidos ao general Patton. Se o tivessem feito em outubro de 45 estou convencido que no verão estavam em Moscovo. Mas por outro lado não teríamos assistido à implosão da URSS. Essa implosão foi uma mostra, um aviso para alguns delírios políticos que se vinham assistindo, incluindo em Portugal.

  5. Infelizmente não é só o dito general.. Basta ouvir os vários canais TV desta nossa desgraçada Europa para ficarmos absolutamente aterrados com “0 brainstorming ” que é feito subrepticiamente sob o título de notícias!!! É espantoso como o discurso agora é de que a responsabilidade do CAOS que a Ucrânia vive desde há pelo menos 1 ano e só e apenas do ” terrível Putin e sua malvada Rússia”, quando todos vimos os Ministros dos Negócios Estrangeiros da França e da Polônia – entre outros- a incitar e apoiar os revoltosos na praça Maidan em Kiev…e ainda as declarações “elucidativas” da porta-voz da S. E. Da Defesa dos E.U.A. das intenções dos americanos de substituírem o governo existente na altura.

  6. julio,quer entrar na UE e depois o segundo passo é a nato,para ficarem mais protegidos do pais que os obrigou a serem sovieticos depois de milhoes de mortos!já lhes sacaram a crimeia,anida querem mais.

  7. Após a queda do muro de Berlim, a progressão do cerco da NATO aos interesses Russos tem sido proporcional à expansão do fundamentalismo islâmico que ameaça a segurança do Ocidente e as próprias fronteiras do seu território. Não custa adivinhar o resultado de continuar a seguir o mesmo caminho.

  8. “… para ficarem mais protegidos do pais que os obrigou a serem sovieticos…”

    eheheh… se juntares uma carroça e 2 fardos de palha dá uma tese de mestrado em transportes.

  9. “O actual conflito da Ucrânia é fruto não do alegado desejo russo de aumentar o seu território (…) mas sim do expansionismo militar e económico dos países da Nato” na minha terra este tipo de simplificaçâo chama.se ignorancia facciosa. e se isto nao e maniqueismo vou ali e ja venho. a russia esta a ver-se cercada por paises soberanos que pretendem livremente aderir a nato. e o dr. julio acha q a russia tem o direito de os anexar a força. eu entendo esta logica, mas da-me vomitos.

  10. aproveito para acrescentar q o brilhante peter faz ainda um terceiro e nao menos.fantastico papel neste filme, o de presidente dos usa. enorme filme!

  11. Aqui o Júlio vê a Ucrânia como uma mulher que leva nos cornos do marido porque não gosta de lhe fazer broches, conforme é seu dever conjugal…

    Essa estúpida não tem em consideração os “interesses” do marido..depois queixa-se.

    e assim vamos de raciocionio brilhantes.

    Júlio, no teu caso que te costumo ler com prazer…deixa-me deixar aqui escrito que o teu “pensamento” sobre ete tema é uma merda.

    Miguel

  12. “…Se os ingleses e americanos quisessem isso de facto, teriam dado ouvidos ao general Patton. Se o tivessem feito em outubro de 45 estou convencido que no verão estavam em Moscovo” (Pinto).

    Espero que tenhas arrotado no fim, Pinto. É uma posta de pescada séria candidata à bacorada do ano de 2015 na caixa de comentários do Aspirina. Infelizmente, a concorrência é forte, mas estás bem posicionado na grelha de partida. E tu, suspeito, tens muito mais na manga.

    “…o país que os obrigou a serem soviéticos” (Fifi).

    Não deves saber, Fifi, mas antes da União Soviética nunca em tempo algum tinha havido um país chamado Ucrânia. Devias antes dizer, referindo-te à Rússia soviética: “O país que criou essa coisa informe chamada Ucrânia e lhes ofereceu a Crimeia e outras zonas de população dominante russa, sem perguntar porra nenhuma aos russos que lá viviam”. Estou a ver que até a Merkel é menos pro-NATO do que tu.

    Enapa, se vomitares, depois limpa, tá?

    Miguel, a tua visão do problema ucraniano é ligeiramente prejudicada pela linguagem de bordel que utilizas. Para ficar na mesma linha, eu teria de te responder que os 8.500.000 russos da Ucrânia não querem ser enrabados pela chularia nazi de Kiev e que a Rússia de Putin, apoiada por mais de 80 por cento da população, não faz broches aos mísseis com que a NATO a cerca nem quer abrir as pernas ao saque imperialista.

  13. A Europa com a Ucrânia ao rubro, e a Hungria virando a leste, e a ainda bastante recente união das duas alemanhas, vai fazer com que nós a ocidente mais as ilhas do mediterrâneo, gregas e Lampedusa, passemos para 2º plano na importância das potências económicas.

    Muitíssimo perigoso, se a malta não «abrir os olhinhos»

  14. O General falou para dentro : Os cortes anunciados para um futuro próximo tornarão as Forças Armadas Britânicas inoperacionais em qualquer teatro de Guerra e em numero, 80.000 homens para os três ramos, as mais pequenas desde que a memória alcança.
    Ao mesmo tempo gastam-se mil milhões de Libras na modernização dos submarinos nucleares Trident, esses sim que nunca irão ser usados (Deus nos livre !)

  15. Júlio, não é verdade que o general Patton apoiava a continuidade da frente para obrigar os soviéticos a recuar até às suas fronteiras? Não é verdade que essa possibilidade foi tida em conta? Os norte-americanos, ingleses, canadianos e australianos não estavam em condições de o fazer em outubro de 45? Já alguma vez estudou este assunto?
    Seja humilde e responda quando tiver alguma coisa para dizer?

  16. yeah, sóbejogalinhas. esse patão era um ganda cagão, se não tem morrido tão cedo era gajo para conquistar o mundo inteiro e substituir o do bigodinho. quanto a humildades deves ter mestrado em fanfarronice pela universidade blood & guts.

    “Americans love a winner. Americans will not tolerate a loser. Americans despise cowards. Americans play to win all of the time. I wouldn’t give a hoot in hell for a man who lost and laughed. That’s why Americans have never lost nor will ever lose a war; for the very idea of losing is hateful to an American.”

    para o caso de já abrires linques e teres esquecido a missa
    http://www.freerepublic.com/focus/news/866647/posts

  17. Amigo Júlio, lúcida e informada análise a tua, que só agora vi.

    Foi Karl Marx que disse, julgo eu, que a História acontece primeiro como tragédia e se repete depois como farsa. Será verdade por vezes, mas infelizmente a farsa, com o seu cortejo de palhaços, não exclui nova tragédia paralela, simultânea, como acontece agora no Leste da Ucrânia e ameaça incendiar o planeta inteiro, se a “lógica” dos malucos continuar o seu galope infernal.

    As semelhanças entre o funcionamento mental dos palhaços de hoje e o das personagens caricaturadas em “Dr. Strangelove” têm-me ocorrido inúmeras vezes desde que começou a escalada anti-russa a pretexto da Ucrânia, mas um dos palhaços actuais torna o filme de Kubrick quase profético até no título e na personagem principal. Chama-se o maluquinho Philip Breedlove, general americano que é simultaneamente chefe do Comando Europeu dos EUA e Supreme Allied Commander Europe (SACEUR) das Operações de Comando Aliadas da NATO.

    “Breedlove”, repara bem, porra de nome, clone tresmalhado de “Strangelove”, o primeiro tentando ultrapassar o segundo para a medalha de ouro de chalados-dos-cornos-sem-obstáculos.

    Topa-me só a fuça e a maluqueira do anormal:
    http://rt.com/news/230215-nato-breedlove-ukraine-military/
    http://www.thedailybeast.com/articles/2014/04/11/exclusive-key-general-splits-with-obama-over-ukraine.html

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