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Fado 1972 (Évora)

Eu era um cabo miliciano
Vivia na Rua dos Mercadores
O correio dum amigo veterano
Trazia um relatório de horrores

Passei hoje à porta dessa casa
Vi a janela do primeiro andar
O sol caía como uma brasa
Queria estar de novo nesse lugar

Sob a ameaça duma guerra
Onde o aerograma transmitia
O drama que esse fado encerra
A morte visitada a cada dia

Hoje guerra é apenas memória
Desse aerograma tão semanal
Junto a estas pedras com história
Nasceu uma mudança em Portugal

Nagashima no Príncipe Real

Nunca se cansa de pintar todos os dias
Descobre sempre um ângulo inesperado
Regista nas telas a luz das manhãs frias
Usa com as tintas algum sangue pisado

Quando chegou para ver uma Exposição
Era em noventa e oito, o século passado
Lisboa passou a ser o lugar duma paixão
Dum homem que viajou por todo o lado

Nunca se cansa de pintar todas as cores
A cada dia ele descobre novos olhares
Não lhe chegam ao ouvido os motores
Nem estas discussões mais particulares

Nos seus olhos que não param de olhar
Há um brilho tão fugidio e emocionado
No fundo de cada quadro está o lugar
Para um neto que ainda não foi beijado

Vinte Linhas 531

Os bons, os maus e os vilões – tudo no mesmo dia

Parece de propósito mas tudo aconteceu depois de publicado no «aspirinab» um texto de memórias sobre o actor Lee Van Cleef. De manhã apanhei na Rua da Escola Politécnica um casalinho que fingia não ouvir a senhora da padaria a dizer «Venham pagar a garrafa de água!». Foram esconder-se atrás do caixote do lixo na Rua do Salitre e quando lhes falei fugiram pela rua acima. Aparentemente são pessoas normais mas na verdade não são nada normais. Quem rouba uma garrafa de água numa padaria é uma cavalgadura. A única boa pessoa é a senhora da padaria. Horas depois soube que, no prédio ao lado do meu, um indivíduo estrangeiro que exerce a profissão de professor em Portugal juntou um monte de cartas e só o entregou á dona da casa onde viveu estes meses no dia em que se foi embora. O grande palhaço não quis perceber que em Portugal as pessoas recebem cartas e não estamos no deserto do Norte de África. Aqui as notícias não vão de camelo; camelo é ele, o brutamontes chauvinista. Ao fim da tarde assisti a uma cena incrível: um gajo miserável dizia com um ar bastante empertigado ao recepcionista de um Hotel o seguinte – «Você garante-me que nos últimos dois anos não ficou nenhum gato neste quarto?». O rapaz respondeu o mais correctamente possível: «O nosso Hotel tem excelentes padrões de limpeza e desinfestação!». Mas o parvalhão não desistia: «Está provado que os pêlos dos gatinhos ficam dois anos e podem incomodar o cão…».

Cambada de trambolhos: o casalinho da manhã pareceu-me português, o estranho professor que amontoou correio é francês e o burro que incomodou o recepcionista do Hotel é espanhol. A CE está a enlouquecer aos poucos, é o que parece.

Fado Feira da Cebola

Na Feira da Cebola em Setembro
Em Rio Maior, férias da Escola
O avô compra o sal de Dezembro
Os cegos cantam por uma esmola

Cabos de cebola de Alvorninha
Atraem o olhar de toda a gente
Às vezes vem a chuva miudinha
Sob o carro de bois é diferente

Eu durmo na manta aconchegado
A chuva só molha os animais
Havia roubos na feira de gado
Batiam nos ladrões com os varais

Fechada a estrada a fardos de palha
Passam os ciclistas num pelotão
A gente parecia uma muralha
Empurrava homens com o coração

Fado do girassol

Havia um girassol na nossa rua
Que cedo começou a dar nas vistas
À noite recebia a luz da lua
De dia era o encanto dos turistas

Que passavam a caminho do castelo
Guiados por mapas dos seus países
A pé ou num eléctrico amarelo
Olhando o girassol eram felizes

Mas de noite chegou uma brigada
Com fardas da Câmara Municipal
A coberto do escuro da madrugada
Vieram junto do bem, fazer o mal

Cortaram o girassol pela raiz
Destruíram um motivo de alegria
Muito mal vai a capital de um país
Quando o crime vem da autarquia

Fado Erasmus

Num certo bar da Rua do Teixeira
Estudantes europeus embriagados
Fazem luxo da sua bebedeira
Vandalizam carros estacionados

Escrevem o seu nome na parede
Telemóvel e o país de origem
Não há limites para a sua sede
Nem para o barulho em vertigem

Do sacrifício dos pais pelos filhos
Nada resta quando a noite termina
A não ser as marcas nos tejadilhos
No desenho dum corpo de menina

Em nome do processo de Bolonha
Surgem as intenções verdadeiras
A falta de respeito e de vergonha
É a base do curso e das cadeiras

Vinte Linhas 530

Lee Van Cleef – um actor misterioso e obstinado

Pouco ou quase nada sei do actor que nasceu em 1925 como Clarence Leroy Van Cleef Jr. e morreu em 1989 de ataque de coração. Mas a personagem, as personagens melhor dizendo, entraram na minha gramática do mundo. Comecei a ver cinema em 1966 e entrei logo nos cineclubes – Católico, Universitário, ABC. Passei pelas sessões da velha Cinemateca. Trabalhador no departamento internacional de um Banco das nove às seis, servi-me dos jornais e do cinema como escola e escala do Mundo. Misterioso e obstinado, todos os papéis deste actor foram marcantes: desde «Por mais alguns dólares» a «O bom, o mau e o vilão» sem esquecer outro clássico que ou era «Aguenta-te canalha» ou «Ajuste de contas». Ao mesmo tempo vi no Monumental, nas sessões do fim da tarde, três clássicos com Lee Van Cleef: «High Noon» de Fred Zinnemann, «How the West was won» de Henry Hathaway e «The Man who shot Liberty Valance» de John Ford. Passados este anos todos fica uma memória: um actor taciturno e vagaroso, misterioso e obstinado, capaz de desenhar uma cartografia de códigos de conduta num mundo hostil onde a lei não era a lei mas sim, e sempre, a lei do mais forte. Na confusão do Oeste, entre apitos de comboio e pianos de «saloon», entre xerifes com estrelas e bandidos com retrato na parede, Lee Van Cleef organiza nas suas personagens, quer como herói quer como anti-herói, uma moral capaz de perceber o mundo. Hoje lembrei-me de repente desta saudade para 1966 quando os bilhetes amarelos de eléctrico em Lisboa custavam sete tostões e todos os cinemas se chamavam «Paraíso» mesmo quando o nome era outro.

Vinte Linhas 529

«Ora, Ora! Isto é coisa de Robertos!»

Nasci em 1951. No meu tempo de menino, as estradas eram de macadame, havia pó no Verão e lama branca no Inverno. Às vezes lá apareciam na minha terra (Santa Catarina – Caldas da Rainha) uns «Robertos» que armavam a sua tenda branca umas vezes triangular, outras vezes quadrada. As suas histórias metiam muita traulitada com frases do género «Rais ta parta!» ou «Lá vai a cachaporra!». A minha avó via mas não gostava de «Robertos» e dizia baixinho: «Isto é uma miséria…». Esta história nacional (sim, nacional…) do guarda-redes do Benfica que se chama Roberto fez-me lembrar a história do meu tempo de criança quando os saltimbancos apareciam não se sabe de onde. Para ir à minha terra há três estradas (Alcobaça, Rio Maior, Caldas) mas eles apareciam tão sem avisar que nunca se percebia de onde vinham. Eram pobres, invariavelmente pobres, magros e tristes. Não tinham o porte altivo dos ciganos, eram humildes, quase pediam desculpa por aparecerem ali. Muitas vezes se dizia, entre a nossa gente, quando uma coisa parecia absurda: «Ora, Ora! Isso é coisa de Robertos!».Pois este pobre Roberto, desajeitado, confuso, atónito, tem feito desesperar quem no Benfica pagou por ele quase nove milhões de euros mas ao mesmo tempo tem povoado os cafés portugueses de piadas sem fim. Com o Benfica é sempre assim. Não basta a data falsa da fundação trocando 1908 por 1904, não basta a anedota das «Ligas» entre 1934 e 1938 que, de repente, já eram campeonatos como se o Campeonato de Portugal tivesse sido «escondido» entre 1934 e 1938, temos aí o guardião Roberto. Afinal já todos nós sabemos que, tal como no livro, os guarda-redes morrem ao domingo.

Vasco em Elvas – 1946

Faltavam poucos minutos; a perder por um a zero
Percebi ser preciso tomar uma atitude de imediato
Ser campeão nacional hoje é aquilo que eu quero
Mas só ganhando o jogo ganharei o campeonato

Havia à volta do campo uma onda de tristeza
No rosto dos adeptos que chegaram de Lisboa
Quando fazia lançamento sentia uma certeza
Não os podia decepcionar a jogar a bola à toa

Foi por isso que peguei na bola junto à lateral
E avancei pelo meio campo do meu adversário
Ninguém esperava este meu arranque triunfal
Porque dos defesas só esperamos o contrário

Do livre a castigar o meu derrube perto da área
Veio o golo do empate; renasceram as ilusões
O Rafael fez depois uma jogada extraordinária
E saímos de Elvas com o título de campeões

Canção no Quiosque do Sr. Oliveira

Quando fechou livraria
Numa tarde de tristeza
E Fernanda nada dizia
Sobre o café desta mesa

Foi a triste despedida
Dum mundo a acabar
Mais de metade da vida
Com os livros num lugar

Lá as manhãs eram frias
E as tardes eram quentes
No balcão de tantos dias
Não iguais mas diferentes

E a caminho da estação
Do Rossio, suas escadas
Leva no olhar a canção
De lágrimas recuperadas

Balada do mapa de Alfama

Na Rua Augusto Rosa
Vinte e sete, rés-do-chão
Uma ideia generosa
Teve a sua conclusão
Design de Sara Gama
Gravura Telmo Alcobia
O Bairro e quem o ama
Na porta da Livraria
Na janela da cidade
Entre guitarra e piano
O mapa diz a verdade
Todos os dias do ano

Nas suas cartografias
Inclui o Bairro inteiro
Chafarizes, Livrarias
O Castelo, o Mosteiro
Revelando os tesouros
Do Bairro medieval
Farmácias, Miradouros
Os Museus e a Catedral
Para quem quer ser feliz
Em Eléctrico e Autocarro
Segue as linhas dos carris
E o fumo dum cigarro

Levado na força da brisa
Entre Esquadras e Igrejas
Onde quem escreve precisa
Dos Marcos cor de cerejas
Parques de estacionamento
Multibanco, seus cartões
Completa-se o documento
No Metro com as estações
Da Feira da Ladra ao Tejo
Do Terreiro do Paço à Graça
Este mapa traz um beijo
Ao olhar de quem passa

Vinte Linhas 528

Memórias da Terra Nova na Manteigaria da rua D. Antão de Almada

Por uma conversa de acaso com Fausto Bordalo Dias («Por este rio acima») descobri o local onde o autor-intérprete se abastece de bacalhau e fiz uma aquisição de experiência. Gostei e repeti pois este bacalhau recorda-me o sabor antigo do bacalhau da minha infância. Vinha ele em fardos de Alcobaça numa camioneta do armazenista Sebastião dos Santos Vazão. A estrada era de macadame: pó no Verão, lama branca no Inverno. Não digo que seja melhor do que os outros (Noruega, Suécia) mas os bacalhau da Islândia é «diferente» e nisto de sabores o reencontro com a infância é uma coisa especial, um valor acrescentado. Naquele tempo (anos 50) os homens da camioneta contavam histórias espantosas de quem na Terra Nova o pescava para nós. A campanha do bacalhau durava vinte meses e as jovens mulheres desses homens dormiam no chão por promessa ao São Paio dos Pescadores e vestiam de luto fechado com brincos de pano negro nas orelhas. Na Terra Nova os homens aguentavam, sem saber como, sete dias e sete noites no seu pequeno barco. Quando regressavam ao barco-armazém para pesar o peixe, abrir e salgar, dormiam dois dias e duas noites. Acordados, comiam mas não falavam durante horas. Era preciso que os outros lhe tirassem as botas e os despissem. Pouco depois voltavam para o nevoeiro e para a imensidão do mar.

Quando vinham de férias não tinham descanso porque iam trabalhar para o moliço, sempre a pensar no pão dos filhos e na vida triste da mulher a quem pouca atenção davam. Hoje nada é assim mas nos anos 50 eram estas as histórias que os homens da camioneta traziam pela estrada de Alcobaça entre pó e lama.

(foto David de Abreu)

Vinte Linhas 527

De como um menino de quatro anos «lê» José Escada

O «Círculo de Poesia» foi uma colecção da Moraes Editores cujo arranque em 1958 teve livros de Jorge de Sena, Pedro Támen, José Terra, Murillo Mendes, Cristovam Pavia, Vitorino Nemésio, João Maia, António Ramos Rosa, João Rui de Sousa e José Blanc de Portugal.

A capa dos livros era uma reprodução de um desenho de José Escada; variava de cor de livro para livro. Esta que se publica corresponde ao volume nº 111 da colecção e foi impresso sob plano gráfico de Edviges Espada em Maio de 1983. Teve um prefácio do malogrado poeta J. O. Travanca-Rego. Este «Universário» foi a azul mas o primeiro foi a verde. Chama-se «Iniciais».

O desenho que se publica ao lado é de uma criança de quatro anos e corresponde a uma interpretação (bem livre…) do sol de José Escada. O Thomas está a descobrir o fascínio das cores. Ofereci-lhe uma caixa de lápis de cor da «Viarco». Agradeceu mas prefere as canetas de feltro.

O Thomas chegou tarde a tudo. Começou a andar tarde mas em segurança. Já tinha dois anos mas foi radical na mudança; nunca mais gatinhou. Agora com a descoberta do prazer do desenho aí o temos a fazer em Londres interpretações de um desenho clássico em Portugal. Vê-se que não gosta de coisas abstractas e por isso assina sempre os seus desenhos. Responde pelas suas «obras» e desenha com um ar muito sério. Só as crianças levam as brincadeiras a sério porque brincar é a coisa mais importante da vida quando se tem quatro anos de idade. Para ele, «imitar» José Escada não é atrevimento.

«Da cidade, do campo, dos sorrisos» de Margarida Gama de Oliveira

«A poesia não tem presente; ou é esperança ou saudade». Estas palavras de Camilo Castelo Branco, que também foi poeta embora mais conhecido como polemista irascível e novelista apaixonado, aplicam-se ao livro de poemas que hoje nos cabe apresentar. Margarida Gama de Oliveira sabe que todo o poema digno desse nome aspira a ser a grande ponte entre dois mundos separados pelo tempo, pela distância e pela morte.

O poema, tal como a oração, liga de novo o que a erosão da vida se encarregou de separar. O poeta é o sacerdote desta estranha liturgia celebrada numa folha branca de papel (qual altar) com uma caneta, qual hissope com lágrimas no lugar da água benta.
Continuar a ler«Da cidade, do campo, dos sorrisos» de Margarida Gama de Oliveira

Fernanda em 22-8-1992

A luz do teu olhar ficou aqui suspensa
No preto e branco em frente à estante
Linha serena a desligar a indiferença
E a projectar o esplendor do instante

Que tu agitas no mundo do teu ofício
Com o rumor das mãos em movimento
Construindo em cada pausa um edifício
Projectando a cada frase um sentimento

O ouro nos teus brincos é uma riqueza
Não está lá o sorriso em esboço ainda
Que o momento só prevê a tua beleza
E não regista a frescura que não finda

Tal como na fonte ou no rio pequeno
Se projecta o teu olhar que continua
Anos depois do retrato o olhar sereno
Enche de luz este lado da minha rua

Um livro por semana 197

«Histórias de poucas palavras» de Maria Eulália de Macedo

A autora deste livro publicou também «As moradas terrestres» e inscreve-se numa certa linhagem literária (Raul Brandão, Irene Lisboa, Agustina, Ondina Braga) cujas referências são o contrário da cidade: «AMARANTE Uma terra de poucos turistas, sem notícias nos jornais, sem ranchos de folclore, sem arte regional. Não há Casa do Povo e muitas vezes o povo não tem casa». A propósito do quadro de Amadeo O homem da guerra de 14 a autora adverte («Tinham-se perdido os que morreram. E os que não morreram tinham perdido abrigos e certezas») para concluir: «Quem não acreditar na perenidade do efémero e nas flores de água no pensamento, não venha nunca a Amarante nem venha ver os quadros de Amadeo». Em Amarante era possível um «graxa» dizer a um juiz: «Eu pertenço à família de Pascoaes». Havia de um lado as mulheres: «Nós, mulheres é que tudo sabemos da vida e da morte. Uma imensa, uma invencível força sustenta os nossos ombros onde a cabeça de cada homem descansa e adormece». Do outro lado os homens: «As mulheres só gostam de conversar e ver dinheiro na mão». No meio a solução: «O único remédio é amar. Amar as coisas e amara as pessoas, amar as cores, as mutações da hora, o ciclo das estações, amar o tempo de ser, de lembrar, de colher.»

Depois das viagens na Europa (Milão, Madrid, Roma, Granada, Galiza) e no país (Porto, Praia da Torreira, Viana do Castelo) o livro volta à origem, à terra e à poesia: «Para mim a Poesia é estar atento e aberto ao que somos e nos ultrapassa. É uma espécie de fugidio sacramento, a exigente voz das coisas que são verdade – para além da verdade das coisas.»

(Editora: Ática, Apresentação: Jacinto do Prado Coelho)

Um livro por semana 196

«Memórias vivas do Jornalismo» de Fernando Correia e Carla Baptista

As 17 entrevistas com gente dos jornais dão-nos, neste livro de 423 páginas, uma aproximação ao um tempo que acabou. Homero Serpa recorda a passagem do chumbo para o offset: «Foi um salto muito grande, os operários deixaram de engolir diariamente aqueles quilos de chumbo que matou muitos.» Tempo de alguns jornalistas se sentirem marginalizados: «O jornalismo desportivo não era considerado bem jornalismo, nós não éramos do Sindicato dos Jornalistas.» Problemas também para os fotógrafos, como Eduardo Gageiro: «Você não acha que dá uma má imagem de Portugal? Há paisagens tão bonitas, porque é que você não fotografa paisagens?».

Tempo de mudanças, também. As técnicas: «O offset praticamente acabou com os tipógrafos. Houve uma oposição muito forte.» As políticas: «O chefe de redacção no dia 25 de Abril nunca deixou de enviar os textos do Diário Popular à Censura até que o estafeta disse: «Ó Sr. Dr. já não está lá ninguém!». As humanas: «No caso de A Capital havia uma certa desconfiança, alguns olhavam de esguelha para os mais jovens: «Estes miúdos das universidades com a mania de que sabem tudo…».

Duas memórias curiosas: os sinaleiros («O trânsito parava para deixar passar o carro do Popular») e a Volta a Portugal: «Ainda há pouco tempo, nas voltas a Portugal, e eu fiz dezasseis, nós encontrávamos bandeiras do Benfica, do Sporting e do Porto e a verdade é que nenhum deles tinha equipas a correr».

(Editora: Caminho, Fotos: Alexandra Silva excepto Acácio Barradas, Capa: Rui Garrido)

Vinte Linhas 526

Que turismo entre cães e moscas?

A urina dos cães queima a borracha dos pneus e os latidos em escala alteram a paz da aldeia. As moscas saltitam do pão para o queijo e do queijo para os copos na mesa. Aos cães respondem os galos e as cabras nos respectivos currais das casas das terras da Beira Baixa. Ao lado há uma aldeia do circuito das chamadas «aldeias de xisto» mas a sua loja, simpática embora, vende «T-Shirts» a quinze euros. Claro que não vende porque toda a gente sabe o preço real de uma «T-Shirt» e quinze euros é uma barbaridade porque nada tem a ver com o preço real do produto.

Numa das casas mais bonitas desta aldeia, oferecem-me café e um cálice de medronho (fabrico particular) mas, de repente, surge o focinho de um cão vadio a centímetros dos bolos secos feitos do belíssimo mel daqui. Os donos dos cães não os controlam nos seus próprios espaços, suas casas, seus quintais e adegas. Qualquer porta aberta é um convite a entrar e a levar para sua casa um sapato, uma luva de jardinagem, uma peça de roupa.

Esta noite desapareceu a malinha de um emigrante português (Paris) em férias anuais. Essas malas de trazer junto ao cinto no Verão são ideais para quem não gosta de usar casaco à caçador mas uma distracção fê-lo ficar sem nada (dinheiro, livro de cheques, cartões de crédito, carta de condução) e já a pensar em telefonemas para França.

Não se pode esperar turismo num espaço onde os cães circulam como reis e senhores, entram na casa de qualquer um e levam na boca tudo o que calha. E onde as moscas fazem exercícios de aviação nas mesas da cozinha. Por acaso a bolsa apareceu. Alguém se lembrou de seguir o rasto do cão e chegou ao lugar onde brinca com outro cão.

Vinte Linhas 525

Os campinos não usavam telemóvel

A fotografia sem autor sugere a data de 1961. Ou talvez 1962, quando o Tóino vinha de quinze em quinze dias da Lezíria receber o avio da mãe e deixar a roupa para lavar no poço da casa no Bairro do Bom Retiro. A água desse poço era salobra como a da fonte do bairro do Mártir Santo e os irmãos (Manel e Marcolina) iam com os vizinhos buscar água para beber nas bilhas de barro à fonte de Santa Sofia.

Nesse ano Salazar tinha gritado «Para Angola rapidamente e em força!» depois de antes ter agradecido «Obrigado portugueses, temos o Santa Maria connosco!», isto em pleno esforço repressivo com o quadrado da infâmia: Aljube, Caxias, Peniche, Tarrafal.

No Bairro os homens faziam horas frente à televisão no café do senhor Jorge a ver o Benfica e o Sporting nas vitórias europeias – Berna, Amesterdão, Antuérpia. Outros jogavam à malha no terreno anexo, havia sempre espectadores no primeiro balcão. As mulheres, por sua vez, já pensavam na chamada guerra do Ultramar, começada em 1961. Mostravam o exemplo dos campinos e dos rapazes do Parque de Alverca, o outro nome das OGMA. Quem tivesse um sargento conhecido podia aspirar a uma cunha para um filho entrar no Parque. Podia ser um cabo desde que tivesse influência. Diziam entre si, as mulheres do Bairro: «Quem não tem padrinhos morre moiro!». Hoje os campinos usam telemóvel para avisarem da descoberta de um toiro tresmalhado nos confins da Lezíria. Se em 1961 nos viessem dizer, ao Tóino e aos miúdos do Bom Retiro que uma caixinha de plástico nos punha a falar com o Mundo, todos nós teríamos dito: «Pode lá ser!». Mas afinal podia ser. Em 1961 os campinos não usavam telemóvel.

Vinte Linhas 524

TURISMO – A antiguidade e a relativa importância das coisas

Este mapa do concelho de Caldas da Rainha tem uma particularidade: ainda está em distribuição. Há um simpático espaço da Associação de Artesãos no antigo posto da Polícia de Viação e Trânsito à saída das Caldas para Lisboa pela estrada velha (Sancheira, Cercal, Alenquer) onde outro dia me ofereceram um exemplar.

A curiosidade está na comparação que fiz de imediato com o conteúdo de um CD (ou DVD?) editado pela Câmara Municipal sob o mesmo tema: locais a visitar fora da cidade. O copy wright do CD (ou DVD?) é de 2007 e presume-se que o outro documento é anterior. Pois nos locais a visitar fora da cidade só aparece a Ermida de São Jacinto no Coto e as igrejas Paroquial e da Misericórdia de Alvorninha. Digo só aparece porque no anterior documento do Turismo caldense surgem as Dunas e as Ruínas da Alfândega de Salir do Porto, o moinho de madeira do Zambujal, o Paúl de Tornada, a igreja e o cemitério dos ingleses na Serra do Bouro, Almofala (Alvorninha), o castro do Cabeço Castelo e a igreja paroquial de Santa Catarina.

Ora se o castro e a igreja paroquial de Santa Catarina figuravam no folheto só pode ser pela sua antiguidade. Basta saber que a igreja foi construída pelos fregueses em 1428 em litígio com o abade de Cister e com apoio do arcebispo de Lisboa D. Miguel de Castro que foi arcebispo entre 1586-1625 e chegou a ser vice-rei de Portugal.

Se do folheto para o CD (ou DVD?) passaram anos e tecnologias não percebo como é que a antiguidade que recomendava uma coisa relativamente importante passou de repente e determinar a sua eliminação. Isto é tudo relativo, claro. Mas custa.