Vinte Linhas 530

Lee Van Cleef – um actor misterioso e obstinado

Pouco ou quase nada sei do actor que nasceu em 1925 como Clarence Leroy Van Cleef Jr. e morreu em 1989 de ataque de coração. Mas a personagem, as personagens melhor dizendo, entraram na minha gramática do mundo. Comecei a ver cinema em 1966 e entrei logo nos cineclubes – Católico, Universitário, ABC. Passei pelas sessões da velha Cinemateca. Trabalhador no departamento internacional de um Banco das nove às seis, servi-me dos jornais e do cinema como escola e escala do Mundo. Misterioso e obstinado, todos os papéis deste actor foram marcantes: desde «Por mais alguns dólares» a «O bom, o mau e o vilão» sem esquecer outro clássico que ou era «Aguenta-te canalha» ou «Ajuste de contas». Ao mesmo tempo vi no Monumental, nas sessões do fim da tarde, três clássicos com Lee Van Cleef: «High Noon» de Fred Zinnemann, «How the West was won» de Henry Hathaway e «The Man who shot Liberty Valance» de John Ford. Passados este anos todos fica uma memória: um actor taciturno e vagaroso, misterioso e obstinado, capaz de desenhar uma cartografia de códigos de conduta num mundo hostil onde a lei não era a lei mas sim, e sempre, a lei do mais forte. Na confusão do Oeste, entre apitos de comboio e pianos de «saloon», entre xerifes com estrelas e bandidos com retrato na parede, Lee Van Cleef organiza nas suas personagens, quer como herói quer como anti-herói, uma moral capaz de perceber o mundo. Hoje lembrei-me de repente desta saudade para 1966 quando os bilhetes amarelos de eléctrico em Lisboa custavam sete tostões e todos os cinemas se chamavam «Paraíso» mesmo quando o nome era outro.

8 thoughts on “Vinte Linhas 530”

  1. E gostaste do papel do Van Cleef nesse filme do cinema mudo, High Noon, eu preferi o Gary Cooper, de longe. E da mexicana ainda mais. Como é que ela se chamava, ó porra que me falta a memória!

  2. Neste momento é tudo muito nebuloso – fica apenas uma memória que nem sempre é uma recordação.Como diz o poeta Carlos Garcia de Castro no poet ado pátio do Liceu – «Todos se lembram mas ninguém recorda».

  3. Correcção: Lee Van Cleef não consta do elenco de “Aguenta-te, Canalha” de Sergio Leone.
    A sua participação em “How the West was won” é absolutamente marginal. Van Cleef surgiu em mais western-spaghetti para além do fabuloso “O Bom, O Mau e o Vilão” e “Por mais alguns dólares” também de Leone. Cito aqui “O Dia da Ira” de Tonino Valerii e “The Big Gundown” de Sergio Sollima, spaghettis onde o actor deixou uma imagem de marca.

  4. …teve fama tardia por mero acaso: o Sergio Leone tinha na mente aquele actor secundário (cuja morte no primeiro tiroteio era ditado pelas regras do studio system..) com um olhar penetrante. Foi precisamente por isso (e também porque o Henry Fonda recusou..) que participou no For a few dollar more e depois n’ “o bom, o mau e o vilão”. Depois, o resto é história e sucesso (europeu, sobretudo) merecido.

    Grande abraço

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