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«O código perdido»

1 de Setembro de 2006. Enquanto aguardo o comboio, ando pelas mesas duma livraria no hall da estação. E ali está ele, ainda, De Broncode (O código-fonte), saído em 2004, já em oitava edição. Lembro-me do meu artigo na «Única» do Expresso de 27 de Novembro daquele ano. Era – é ainda – uma história apaixonante. Aqui vai ela, novamente. Os informados informáticos que nos digam das possibilidades do invento. Nós, os leigos, continuamos subjugados.

O CÓDIGO PERDIDO

Um holandês morreu (foi assassinado?) antes de patentear a sua invenção capaz de revolucionar o mundo digital. Agora, um livro relata, em detalhe, esse misterioso invento

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Sede da Philips, em Amesterdão. Foi aí que Jan Sloot demonstrou pela primeira vez as virtudes do seu invento

Tinha todos os ingredientes de um «thriller», mas foi um caso real. Havia uma invenção digital misteriosa, quase mágica, que iria reduzir multinacionais gigantescas a escombros, fazendo incalculavelmente ricos meia-dúzia de investidores, entre eles o «número dois» da Philips. A morte, talvez o assassinato, do inventor veio em socorro da ordem mundial.

O mundo seria hoje diferente, muito diferente, se, no Verão de 1999, o holandês Jan Sloot, pacato reparador de televisões, não tivesse inesperadamente morrido. Preparava-se para depositar num notário o código-fonte de um programa fora do comum: permitia comprimir dois milhões de vezes qualquer ficheiro digital. Graças a isso, dez, mesmo vinte, filmes caberiam, inteiros, nos 126 «kapas» do «chip» dum cartão multibanco, reproduzíveis sem a mínima perda de qualidade. Assim se exprimiria a publicidade. Mas não era tamanha compressão uma impossiblidade matemática? Claro. Só que não era uma «compressão».

Sloot perdia a cabeça quando assim se falava do seu invento. Não era comprimir o que ele fazia, era codificar. Ao longo de vinte anos, sozinho no sótão, desenvolvera um sistema de cinco algoritmos (instruções para a solução de um dado problema) que funcionavam articuladamente. Num acervo de dados básicos (comparáveis a «samples» musicais numa placa de som), esses algoritmos, guiados por um código-chave, reconstituíam qualquer livro, qualquer sinfonia, qualquer filme (uma explanação técnica encontra-se em www.endlesscompression.com). Eram esses códigos-chave, de pouco mais que um kilobite cada um, que o utente descarregaria para um simples cartão. No aparelho reprodutor, uma memória de 270 «megas» (um terço de um CD virgem) mantinha em armazém tudo com que refazer, impecavelmente, O Crime do Padre Amaro, o Clair de Lune de Debussy ou o genial papel de Tom Cruise em Magnólia. Exemplos, evidentemente.

A história da invenção é relatada, com impressionante detalhe, num livro aparecido em Setembro passado, De Broncode (O Código-fonte), do jornalista holandês Eric Smit, director-adjunto da «Quote», revista mensal de negócios. O essencial era já conhecido de dois artigos seus de 2001, que haviam inspirado uma reconstituição radiofónica. O livro mereceu dezenas de recensões (cépticas, bastantes delas) na imprensa tradicional e electrónica e exaltou os ânimos em «blogues» e «sites» de discussão. Na televisão pública, dois documentários foram dedicados ao assunto (no fundo musical, alguns instrumentais dos Madredeus, banda de culto na Holanda).

A misteriosa invenção foi revelada, em 1998, a quatro ou cinco investidores. Tinham muito dinheiro, muita fé no futuro e poucos conhecimentos de computação. Eram, para Jan Sloot, os interlocutores ideais. Ele acreditava, como toda a gente, que as patentes do automóvel a água acabavam sempre na gaveta das companhias petrolíferas. Mas até a proximidade de um informático ele temia. Os princípios básicos do seu produto, asseverava, eram tão «simples» que já uma amostragem superficial constituía risco.

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Pieper assina, em 20 de Maio de 1999, no Hotel Okura, na capital holandesa, o contrato para a empresa Fifth Force, que vai impor a tecnologia de Sloot ao mundo

Dois problemas de monta tinham, ainda assim, de ser resolvidos. A invenção necessitava de uma patente. Ora, por mais que se esforçasse, Sloot, que nem terminara a escola técnica, reconhecia-se incapaz da tarefa. Qualquer ajuda alheia estava, todavia, fora de questão, e assim se arrastavam os meses. Depois, e por analfabetos que fossem em informática, os amigos investidores sabiam que só uma empresa de grande porte podia comercializar tão avançada tecnologia. E aqui, sim, impunha-se enfrentar riscos.

O único contacto sério de que dispunham era logo, também, o melhor de todos. Tratava-se de ninguém menos do que Roel Pieper, que a Philips acabara de ir buscar aos Estados Unidos, tencionando fazer dele, em breve, seu patrão máximo. Com 40 anos de idade, o «wonderboy» da electrónica fizera furor na América, ao vender uma firma, a Tandem, por três mil milhões de dólares à Compaq.

Uma primeira demonstração, feita em Amesterdão, na nova sede da Philips (cujo topo abandonou, nos anos 90, Eindhoven), deixou Roel Pieper boquiaberto. Dezasseis filmes, numa definição perfeita, revezavam-se de um instante ao outro num monitor, passando instantaneamente do meio para o princípio ou o fim. Tudo isso comandado duma pequena caixa sem partes móveis, sobretudo sem disco rígido. Pieper declarara-se imediatamente interessado e uma demonstração nos laboratórios de Eindhoven ficava aprazada.

O exacto papel de Roel Pieper no caso nunca será, talvez, totalmente esclarecido. O desinteresse dos técnicos de Eindhoven pelo invento, diz-se, foi manobra sua. O americanizado Pieper estava desiludido com a cultura burocrática da Philips, e ia em breve despedir-se. Nesse preciso momento, o destino lança-lhe no regaço a invenção do século. Dias depois de deixar a multinacional, Pieper já é patrão da Fifth Force, a empresa que vai impor a tecnologia SDCS (Sloot Digital Coding System) ao mundo inteiro. Dentro de um ano, à entrada na Bolsa, serão feitos cem milhões de dólares (78 milhões de euros). Em 2004, a empresa irá valer trezentos mil milhões. Não demora, e Bill Gates há-de felicitar-se por tratá-lo, a ele, por «Roel». De caminho, a californiana Silicon Valley ficará às moscas.

Com tal perspectiva, a desconfiança de Jan Sloot, a sua quase paranóia, conhece um apaziguamento. Pieper sabe avaliar, como nenhum outro, o génio do reparador de televisões. E só ele, Pieper, garante ao modesto inventor o que merece: tornar-se, com 50% das acções da companhia, o homem mais rico do planeta.

Sloot, Pieper e dois outros accionistas percorrem, em inícios de 1999, os Estados Unidos, deixando, de costa a costa, os gurus da Nova Economia embasbacados diante dum monitor onde se passa o impossível. E são eles, os grandes investidores, a darem cartões, a fazerem-se lembrados. Faltam ainda os bancos. Mas também os bancos irão telefonar, asseverando que alinham. Agora, e cada vez mais, Pieper pressiona Sloot. A patente tem de ser pedida rapidamente. A entrada na Bolsa está marcada. Dia e noite, Jan trabalha na patente. No momento em que a entregar no notário, mesmo em envelope fechado, receberá do banco ABN-Amro os primeiros milhões.

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Em finais de 1999, Roel Pieper (o mais alto, à esquerda) torna-se membro-consultor dos investimentos Gilde

Faltam dois dias para a ida ao notariado, quando tudo se desmorona. Na manhã de domingo, 11 de Julho de 1999, Jan Sloot é encontrado sem vida no quintal traseiro da casa. Alarmados, os amigos acharão arrumado um sótão onde sempre reinara a desordem. Da milagrosa caixa nem sombra. Os apontamentos e as disquetes nada contêm de importante. E, sobretudo, não há rasto do código-fonte. Durante semanas, as melhores agências especializadas passam tudo a pente fino. Interrogam pessoas, investigam cofres em bancos, escavam o quintal, desmantelam o carro. Mas nada encontram. Alguém terá chegado, julgam, a tempo de apoderar-se do código.

Depois, aquela morte é demasiado oportuna para os que com ela lucram, e que não serão poucos. Custa a crer que fosse natural. Mas já é tarde quando alguém se lembra de pedir uma autópsia.

Amargurados, os accionistas, com Pieper à cabeça, põem a empresa em «hibernação», aguardando que o código-fonte, que consideram propriedade do colectivo, acabe por aparecer. Roel Pieper, que não quis colaborar no livro de Eric Smit, aceita um lugar de catedrático, continuando administrador de meia-dúzia de grandes firmas. Dos outros, tentando esquecer os biliões, foi cada um à sua vida, que é, em todo o caso, folgada.

E o mundo… O mundo tem, a cada ano que passa, capacidades de armazenamento digital mais vertiginosas. E, se for verdade (como parece que é) que as grandes invenções são feitas em simultâneo por mais de um indivíduo, haveremos, mais ano menos ano, de armazenar música e filmes à escala que Sloot prometeu. É disso que andamos mesmo precisados? Talvez não. Mas, quando isso chegar, diremos como sempre: «O que eles inventam!» E corremos às lojas a comprar.

Texto de Fernando Venâncio

O QUE ESTA MALTA ANDA A PRECISAR É DE SER METIDA NA PRISÃO…

Depois duma pesquisa aturada na Internet, aflito com males de intestinos preguiçosos e uma pressão arterial bastante elevada, deparei com este conselho dum homem oriental na Wonder-Cures.com, que aqui transcrevo, com uma certa liberalidade no tom e no respeito ao texto.

“A excessiva participação em actividades sexuais causa prisão de ventre (“constipação” como se dizia no tempo da Dona Carlota Joaquina e ainda se diz por essa Europa fora) e outros problemas relacionados em homens. Inversamente, quanto mais um homem se abstiver dessas (deliciosas e naturais) actividades, maior será a sua tendência para sofrer ataques de diarreia. Evitar sexo durante periodos longos, causando a retenção de grandes quantidades de sémen em homens sexualmente normais, poderá conduzir a caganeira persistente, desidratação, perda de peso, baixa pressão arterial, insónia e fadiga crónica em muitos deles”.

Malta nova, quarentona ou ainda capaz der bater meias-solas como eu, fará bem em atentar na sabedoria que exsuda, ou ejacula, desse conselho. No aspecto prático, se conhecerem algum tio com problemas diarreicos, ou hipotenso, já sabem que palavras ressabidas devem juntar à palmada nas costas. As raparigas também podem contar aos seus maridos e namorados, ou a um de cada vez, conforme as circunstâncias. Mas cuidado com os exageros e não se esqueçam de pedir a opinião ao vosso médico muito respeitado. Eu, como sempre, digo: I love you lots, darling Internet.

TT

A nova ordem solar

Se os cientistas acham que o Sistema Solar deve ser assim, eles lá sabem. Mas em meu entender a nova classificação levanta pelo menos dois problemas. Um tem a ver com os pobres alunos do ensino básico. “Ó setora, vamos ter de decorar os nomes de 12 planetas e planetas-anões, em vez de nove? ‘Tá mal.” E têm razão: o aumento de nomes a decorar ascende a 33,33%. O outro problema tem a ver com a elegância vocabular aplicada aos limites físicos deste nosso canto do universo. Dizer “para lá de Plutão” até soa bem, mas quem é que vai arriscar um “para lá de 2003 UB313”?

DO QUE FORAM AS ASPIRAÇÕES DO ASPIRINA

Este apontamento do TT é – e assim deverá ser lido – anterior à morna chuva de Verão que o Zé Mário fez cair aí em baixo.

Passem a vista (estou a dirigir-me àqueles que têm participado destas leituras desde o princípio do mundo) por essa relação de nomes de Enfermeiros aí à vossa direita e depois digam-me com franqueza se ficaram desiludidos com as contribuições que alguns deles deram ao longo destes quase dois anos de vida deste blogue. Dos cinco fundadores que ainda por cá andam a escrever com uma certa assiduidade, salva-se o Luís Rainha, cabeça do movimento, vaso de guerra que aqui vem dar bordadas de seis postas a fio quando as coisas aquecem lá pelas províncias da jornalada paga sobre determinados temas ou sustos que galvanizam e polarizam as opiniões; e o Fernando Venâncio, o único que neste preciso momento ainda se nega a calar-se por mais de quatro dias consecutivos. Dos restantes três do grupo permanente, o Valupi foi o último a entrar no Clube das Ausências Prolongadas, o que prenuncia afastamento total ou planos sebastianistas sem nevoeiros. Os outros dois andam a rezar mantras noutras tabernas, provavelmente pesarosos porque ninguém os compreendeu ou simplesmente porque não há nada neste mundo que mereça a pena ser compreendido. Dos convidados, o Carvalheira também me parece já não ter tantos contos para nos contar e eu, estranha alma incompreendida e de casca grossa, estou quase a ir pelo mesmo caminho se não me salvarem.

Ninguém pode acusar o fundador / os fundadores deste blogue de não terem feito um esforço razoável para apresentarem um prato diverso e bem decorado, representativo dos (e atento aos) gostos queridos do público ledor que anda por aí convencido de que sabe e que o sabe muito bem. Aqui, deste o princípio, havia de tudo para agradar, convencer e excitar, desde o marxista, denunciador cauteloso das violências de totalitarismos sovietistas, a homens da direita civilizada, uns a descartarem-se de revoluções permanentes ou ditaduras proletárias sem abandonarem o filosoficamente inviolável marxismo, e outros críticos do salazarismo para garantirem a permanência e sobrevivência da direita conveniente. E não nos faltava nem arte nem artistas, críticos literários, jornalistas consumados e escritores reconhecidos. Arquitectos, caricaturistas, publicitários, gente metida na indústria do livro, homens de reinterpretar Deus para consumos modernos e para nos ler a nova Mensagem. Enfim, de tudo como na loja dos linimentos para as comichões.

Mas que ninguém faça um drama de tintas consumidas destes dias sem postas, sem sinal de vida, sem peito a arfar com mais uma posta de tiro aos papas. Tudo isto é normal, democrático, previsto e já visto. Não é a primeira vez que as brigadas internacionais da informação, cultura e opinião política alternativa andam às cabeçadas surdas umas com as outras. Por favor, aprendam, senhores, treinem-se a captar os ultra-sons. A Intriga sabe disso melhor que ninguém. Ademais, há tanta coisa a considerar quando se desiste ou se perde o calor para continuar a escrever balancetes opiniáticos – vaidade, orgulho ferido, alergia, ou pouca capacidade de resistência, a críticas merecidas ou não, escassez de encómio, altaneirices não justificadas, partidarismos reais ou com efeito retroactivo, e um sempre à mão, quando não nos ligam nenhum porque a culpa é nossa, “já estou farto desta merda”. Abençoados recursos que não nos faltam.

Mas eu continuo na minha sobre em quem também deve recair a responsabilidade destas deserções ou mudanças de ares profiláticas dos nossos blogadores. A maior parte da malta que aqui vem ler é uma cambada de ursos ainda maior que a enfermeirada que foi tocar castanholas ou ganhar carcanhóis para outras paragens. E não percebem nada de política, são uns ranhosos de primeira que não têm a mínima ideia do que é o Imperialismo nu e cru, não sabem que a BP é a petrolífera que mais dinheiro faz em petróleo nos USA, entre as duzentas que por lá andam, e continuam a dar vivas à Europa chiraca que meteu os segredos atómicos nas mãos de Israel e agora anda armada em boa e civilizada a fingir que não tem nada a ver com o americano malvado. Who says I am not diplomatic?

TT

Um new look para o empresário português?

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O último número da revista “Nova Gente” inclui, entre muitas outras pepitas preciosas, um artigo sobre o “rei da noite de Albufeira”, Anthony Pereira. Este empresário é sobretudo conhecido, ao que parece, por ser amigo de alguns futebolistas, a quem chama com desvelo “os meus meninos”. E não julguem que é vida fácil “promover e muito não só Albufeira mas também todo o Algarve”. Afinal, como ele deixa claro no final da entrevista, “tenho os meus meninos Deco, Couto, Maniche e Conceição que me levam muito tempo. Estamos a falar de pesos-pesados”. Trata-se de um verdadeiro dínamo humano, portanto.
Mas é mesmo a “face mais fashion” deste colunável que o destaca. Analisemos pois com algum detalhe os pormenores que compõem a imagem de um metrossexual de sucesso.

1- A engenharia capilar é um must. Reparem como umas poucas farripas de cabelo desafiam a gravidade para impedir que a testa ganhe mais alguns centímetros. Não tentem isto em casa, por favor.
2- Um adereço indispensável: o crucifixo reluzente a querer saltar para fora do generoso decote. Noutra foto, que aqui não reproduzo por absoluta falta de espaço, a peça de joalharia em apreço surge sobre uma T-shirt branca. O efeito é ravissant.
3- O botão apertado criteriosamente escolhido, de modo a revelar os peitorais e limitar os danos que a exposição do abdómen poderia causar.
4- Arranjar e desenhar com esmero as sobrancelhas; eis outra actividade que o executivo de sucesso já não pode esquecer. Mas atenção: peçam à vossa esteticista que evite o design já popularizado pelo Marco Paulo.
5- Todas as pilosidades têm um papel importante a desempenhar. Seja a patilha afilada, o cacho de cabelos rebeldes na nuca, os irreprimíveis pêlos do peito ou a barba cerrada a transmitir rusticidade e energia.
6- A moda, sempre. Haverá melhor forma de anunciar de chofre a nossa presença do que usar uma fulgurante camisa multicolor com motivos étnicos e colarinho aerodinâmico?
7- Não esquecer nunca a importância crucial dos adereços: do arranjo de frutas ao relógio dourado, passando pela flute de Cordon Bleu. God is in the details, como se sabe.

É com uma gestão criteriosa e equilibrada de todos estes elementos que se cria uma imagem de grande impacte, sóbria elegância e, acima de tudo, muuuuuuito fashion. A ver vamos se cinzentões como o Belmiro aprendem alguma coisa com esta lição de estilo e savoir faire.

O novo sábio de Sião e os seus protocolos

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Por fim, descobrimos de onde brota a visão que Vasco Graça Moura tem da esquerda. Trata-se de um simples fenómeno de projecção: se imagina todos os esquerdalhos como fanáticos que só vislumbram o “seu” lado dos factos, como malta que não tem pejo em ostentar publicamente o preconceito mais cavernícola… é apenas porque ele, VGM, é precisamente assim.
Na sua crónica de hoje, refulge um fascinante exercício de propaganda negacionista. Enumerando os ataques que os judeus têm sofrido na Palestina, de 1920 até hoje, e branqueando por omissão a violência exercida sobre os palestinianos. Os crimes do Stern Gang e do Irgun ficam sem uma palavra. Massacres como o de Deir Yassin, perpetrado antes da independência e num local fora da zona destinada a Israel, talvez nunca tenham ocorrido. A fuga em massa a que ainda hoje os palestinianos chamam Al-Naqba, a Catástrofe, é resumida ao inacreditável “por várias razões, entre elas o medo, 656 mil árabes fugiram do território de Israel depois de 1947-48”. As tais “várias razões” talvez se entendam melhor à luz destas palavras de Menachem Begin, então um dos comandantes do Irgun: “a lenda de Deir Yassin ajudou-nos, especialmente a salvar Tiberia e na conquista de Haifa (…) Os árabes começaram a fugir em pânico, gritando ‘Deir Yassin!’…. Árabes em todo o país caíram num pânico sem limites e começaram a fugir para salvar as suas vidas.” Só na higiénica propaganda de VGM é que este medo surge como coisa injustificada, sem causa à vista. Vergonhoso.
Nada resiste ao esforço revisionista (ou à ignorância) do poeta/historiador. Mesmo a Guerra dos Seis Dias sofre uma metamorfose: ter-se-á tratado afinal de uma “reacção de Israel” à invasão do Sinai pelos egípcios. Note-se que no mundo real, não o das alucinações de VGM, foi Israel quem disparou os primeiros tiros nesta guerra.
Mas a ignomínia absoluta instala-se quando ele cita Paul Johnson para constatar que “para os árabes não há qualquer seriedade numa negociação. Esta, para a sua mentalidade, implica uma cedência a interesses contrários e é considerada traição. Quando muito aceitam tréguas para recuperarem o fôlego e pegarem de novo em armas.”
Que diriam de alguém que citasse prosa similar, para, por exemplo, “provar” o carácter ganancioso dos judeus, que, como todos “sabem”, vendem a dentadura da avó se o preço for vantajoso? Pois é: só uma besta quadrada e inimputável se lembraria de tal.
Como bem escreveu o António Figueira, “tendo em conta a natureza semita dos árabes, esta citação é talvez a maior manifestação de anti-semitismo recentemente publicada na imprensa portuguesa.”
A crónica intitula-se “As lembranças de Sião”. Mas “Os novos protocolos do sábio de Sião” seria título mais acertado para encimar este exercício de propaganda que apenas encontra malfeitorias (e até defeitos genéticos provavelmente incuráveis) num dos lados, esquecendo os monstros que se acoitam no outro.

“Xi quê?”

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E se a administração dos EUA, a começar pelo seu presidente, fosse mesmo ignara q.b. para se decidir pela invasão do Iraque sem saber nada daquele país, começando pelo “pormenor” das divisões entre sunitas e xiitas? E se aquela malta fosse mesmo suficientemente arrogante para julgar que bastava desembarcar em Bagdade com uns caixotes de Apple Pie, bolas de baseball, posters da Marilyn e Happy Meals para ali operar o milagre da democratização instantânea?
Impossível, certo?
Hmmm. Por indicação do amigo Gibel, deparei com esta entrevista ao ex-embaixador americano Peter Galbraith (sim; filho de JKG), a propósito do lançamento do seu livro The End of Iraq: How American Incompetence Created A War Without End. Pelo que ali se lê, um ano depois do célebre discurso do “Eixo do Mal”, Bush teve uma reunião com três emigrantes do Iraque nos EUA, que tiveram a amabilidade de lhe explicar o que era ao certo o seu país de origem. No final deste encontro, o homem mais poderoso do mundo exclamou, ainda em profunda surpresa: “eu pensava que os iraquianos eram muçulmanos!”
Nas palavras de Galbraith, “do presidente e do vice-presidente até aos neoconservadores no Pentágono, havia uma crença segundo a qual o Iraque era uma página em branco onde os Estado Unidos podiam impor a sua visão de uma sociedade pluralista democrática. A arrogância surgiu quando se acreditou que isto podia ser alcançado com um mínimo de esforço e planeamento dos Estados Unidos e que não era importante saber algo acerca do Iraque.”
As conclusões são demolidoras para o futuro imediato daquele país: “não se pode ter um governo de unidade nacional quando não há nação, unidade nem governo” ; “graças a George W. Bush, o Irão não tem hoje um aliado mais próximo em todo o mundo do que o Iraque dos Ayatollahs.”
Leiam o artigo que vale a pena. Depois, podem comprar o livro e oferecer-mo, que fiz anos no outro dia.

Lavores femininos

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Meninas desta nação católica: desejais ter uma éfigie da veneranda Irmã Lúcia a emanar santidade sobre o vosso boudoir? E vós, impenitentes incréus, quereis ter o penetrante olhar da Vidente a velar pelos vossos desvarios, quiçá inscrito num belo tapete de WC?
Rejubilai, pois tendes sorte. O último número da revista “Linhas & Pontos” inclui um prático esquema para criar uma toalha/quadrinho/tapete com um belo retrato da alucinada de Fátima em ponto de cruz. Reparai como até a tecnologia envolvida foi bem seleccionada; se se tratasse de Maomé (longe vá o agouro, que o Jacques Rodrigues não quer manifs à porta), teria de ser ponto de crescente. Ou coisa que o valha.

Terroristas pela Democracia

Alguns exilados cubanos de Miami, através da sua mais activa organização, a Fundación Nacional Cubana Americana, já andam a ver se se poupam ao incómodo de uma nova Baía dos Porcos, exortando as Forças Armadas de Cuba a aproveitar a maleita do ditador da ilha.
«Os militares têm a oportunidade de prestar um grande serviço à pátria estabelecendo um governo transitório cívico-militar que ponha fim à ditadura dos irmãos Castro»; «Os homens e mulheres cubanos podem aproveitar esta oportunidade para fazer alguma coisa por Cuba e podem contar com o apoio da Fundação Nacional Cuboamericana». Assim falou Jorge Mas Santos, presidente da FNCA.
Para os mais distraídos, impõe-se uma pequena explicação. Esta agrupamento é o mesmo a que pertencia Luis Posada Carriles, ex-agente da CIA e um dos autores do atentado bombista ao voo 455 da Cubana de Aviación, em 1976. Neste acto de terrorismo, morreram 73 pessoas. Isto sem esquecer as bombas que, em 1997, rebentaram em vários hotéis de Havana; outra obra de associados da FNCA. Apesar de comprovadamente saberem disto, as autoridades americanas continuaram por muitos anos a subsidiar a FNCA, através do National Endowment for Democracy.
Pelo que se vê, nem todo o terrorismo é coisa oriunda dos eixos do mal que por aí pululam. E alguns terroristas, como Orlando Bosch, até podem ser boas pessoas, merecedoras de acolhimento caloroso

Uma morte, duas vidas

Ontem, ao ler de relance a capa do “24 Horas”, descobri que morrera, vitimada por um “cancro galopante”, uma “estrela dos Malucos do Riso”. Horas depois, no “Público”, descubro que falecera uma grande actriz e fundadora da Cornucópia, Raquel Maria. “Azar dos diabos”, reflecti, “perdemos duas actrizes num só dia”.
Só ao cair da noite é que percebi que se tratava, afinal, da mesmíssima pessoa.
Quantas biografias caberão no espaço de uma vida? Muitas, de prestarmos atenção aos dias de Lorenzo da Ponte; eu, para mim, já me contentava com uma. Mas está difícil.

Mais vale sozinho que mal acompanhado

Vive como se fosses morrer amanhã. Aprende com se fosses viver para sempre.

Gandhi

Durante a minha infância de bicho social interessado na politica, esse espaço da airada existência que se estendeu dos dezoito aos trinta e seis e do qual acordei de repente, todo excitado com o cheiro de cravos de viveiro, acreditava em quase tudo o que me contavam, quando o que me contavam não perturbava os ensinamentos básicos que tinha adquirido com a leitura de vários panfletos revolucionários e doutras obras avulsas da propaganda politica literária “aconselhável”, dita de descrição dos sofrimentos da humanidade lusa e internacional e das grandes lutas de resposta revolucionária para acabar com tais sofrimentos. Quem, por ignorância ou sabedoria, tivesse a impertinente ousadia de levantar um dedinho de direita para me contrariar já sabia que não seria convidado para o meu casamento, e o facto de nunca ter convidado ninguém para essa importante cerimónia (realizada com intenção ideológica num registo civil de paróquia salazarista) pode ter sido, vejo agora, o primeiro sinal de que um dia não iria perder tempo na fase madura da minha vida a ouvir gloriosos e recauchutáveis sermões, nem dum lado nem do outro.

Quem teve a pachorra de me ler até aqui é capaz de começar a pensar que me deixei de políticas e me entreguei de corpo e alma à cultura das tais malvas com virtudes balsâmicas. Nada disso. Ainda leio jornais (cada vez menos, é verdade, para fugir à mentira organizada e ao esforço sobre-humano de ter que pesquisar no vácuo das entrelinhas jornalísticas) e vibro a bandeiras despregadas com a suposta seriedade da política de esquerda e de direita. O Capitalismo, com a ganância sem fim que gera nos corações financeiros dos seus mais fiéis seguidores, continua a ser um dos alvos favoritos das minhas raivas matinais inexplicáveis e fonte inesgotável de oportunidades para a utilização do dicionário de ferroadas rancorosas que expressamente criei para o efeito. No entanto, há muito que desisti de ver nele a etapa histórica “natural” que fui ensinado a criticar e a combater (abaixo o comodismo do determinismo económico!) a partir de visões baseadas na força dum proletariado de calo e ganga que se tem deixado diluir no molho branco social que o vai empurrando para a robotização geral e completa, transformando-o na máquina anónima de produção que aos poucos o fará esquecer a foice e martelo. Esperem pela pancada, senhores veteranos: andam por ai a esquissar os novos símbolos das bandeiras proletárias.

Reconheço que o pessimismo político, como o que aqui demonstro com saciedade e sem vergonha, pode engendrar atitudes pessoais completamente desafectas ao espírito dos frequentadores de bares em festas partidárias anuais, ou ao dos períodos quentes de eleições da esperança. Não vou chorar por isso e até bebo um copo de reforço à saúde da convicção que tenho de que nada nessa atitude afectará a minha capacidade para continuar a fazer perguntas e a aprender como se “fosse viver para sempre”. E, meus senhores e minhas senhoras, sobre o tema geral do progresso, evolução, consciencialização política e de classe etc., uma das perguntas que apetece fazer, já agora, é a seguinte: mas afinal, que merda é esta de pensarmos que precisamos de situar-nos politicamente à esquerda ou direita de qualquer coisa para darmos uma opinião justa e serena, cheia de bom senso e abalizada sobre as soluções mais adequadas e necessárias a este planeta — planeta que não pertence a ninguém e que ninguém sabe donde veio, muito embora abundem por ai explicações divinas e outras acerca de implosões de matéria e irrealidades palpáveis? E quem são estes importantes Oito, que agora sentaram as suas anatomias com excessos de gordura exactamente iguais às nossas à volta duma mesa enorme, para se porem a combinar, sem mandatos directos de ninguém, sobre a direcção mais apropriada para esta Terra envolta em fogos muito reles que eles, ou aqueles que os precederam nos tronos da Intriga mandona, foram os primeiros a atear de mil e uma formas?

Não me puxem pela língua, por favor!

TT