O novo sábio de Sião e os seus protocolos

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Por fim, descobrimos de onde brota a visão que Vasco Graça Moura tem da esquerda. Trata-se de um simples fenómeno de projecção: se imagina todos os esquerdalhos como fanáticos que só vislumbram o “seu” lado dos factos, como malta que não tem pejo em ostentar publicamente o preconceito mais cavernícola… é apenas porque ele, VGM, é precisamente assim.
Na sua crónica de hoje, refulge um fascinante exercício de propaganda negacionista. Enumerando os ataques que os judeus têm sofrido na Palestina, de 1920 até hoje, e branqueando por omissão a violência exercida sobre os palestinianos. Os crimes do Stern Gang e do Irgun ficam sem uma palavra. Massacres como o de Deir Yassin, perpetrado antes da independência e num local fora da zona destinada a Israel, talvez nunca tenham ocorrido. A fuga em massa a que ainda hoje os palestinianos chamam Al-Naqba, a Catástrofe, é resumida ao inacreditável “por várias razões, entre elas o medo, 656 mil árabes fugiram do território de Israel depois de 1947-48”. As tais “várias razões” talvez se entendam melhor à luz destas palavras de Menachem Begin, então um dos comandantes do Irgun: “a lenda de Deir Yassin ajudou-nos, especialmente a salvar Tiberia e na conquista de Haifa (…) Os árabes começaram a fugir em pânico, gritando ‘Deir Yassin!’…. Árabes em todo o país caíram num pânico sem limites e começaram a fugir para salvar as suas vidas.” Só na higiénica propaganda de VGM é que este medo surge como coisa injustificada, sem causa à vista. Vergonhoso.
Nada resiste ao esforço revisionista (ou à ignorância) do poeta/historiador. Mesmo a Guerra dos Seis Dias sofre uma metamorfose: ter-se-á tratado afinal de uma “reacção de Israel” à invasão do Sinai pelos egípcios. Note-se que no mundo real, não o das alucinações de VGM, foi Israel quem disparou os primeiros tiros nesta guerra.
Mas a ignomínia absoluta instala-se quando ele cita Paul Johnson para constatar que “para os árabes não há qualquer seriedade numa negociação. Esta, para a sua mentalidade, implica uma cedência a interesses contrários e é considerada traição. Quando muito aceitam tréguas para recuperarem o fôlego e pegarem de novo em armas.”
Que diriam de alguém que citasse prosa similar, para, por exemplo, “provar” o carácter ganancioso dos judeus, que, como todos “sabem”, vendem a dentadura da avó se o preço for vantajoso? Pois é: só uma besta quadrada e inimputável se lembraria de tal.
Como bem escreveu o António Figueira, “tendo em conta a natureza semita dos árabes, esta citação é talvez a maior manifestação de anti-semitismo recentemente publicada na imprensa portuguesa.”
A crónica intitula-se “As lembranças de Sião”. Mas “Os novos protocolos do sábio de Sião” seria título mais acertado para encimar este exercício de propaganda que apenas encontra malfeitorias (e até defeitos genéticos provavelmente incuráveis) num dos lados, esquecendo os monstros que se acoitam no outro.

14 thoughts on “O novo sábio de Sião e os seus protocolos”

  1. Fanaticos cristãos da administração Bush.

    Fanaticos muçulmanos do Partido de Deus do Libano

    Fanáticos judaicos do governo de Olmert.

    Equivalem-se….

    A luta a ser travada é contra o obscurantismo de todos os fanáticos religiosos.

    O tempo das cruzadas contra os infieis já passou.

    A luta é contra TODOS os senhores da guerra que em nome de deuses tão falsos como eles, pretendem que seculos de luta pelo primado da RAZÃO e DA LUZ, sejam destruidos pelo mais abjecto obscurantismo.

    Que Vasco Graça Moura e outros membros da direita portuguesa tenham embarcado nessas posições medievais, revela o estado de oportunismo e degradação intelectual a que chegaram….

  2. Graça Moura está louco, é o mínimo que se pode dizer. Ainda assim o texto da semana passada era, na minha opinião, pior, era, mais que de um louco, completamente desvairado.

    Já agora é engraçado ver o que aparece na Wikipedia sobre Paul Johnson . Tudo escrito sem juízos de valor, apenas enunciando factos. Depois de o fazer, apetece perguntar que se poderia esperar de um fanático cristão como ele? E de outro como Graça Moura?

    Nada, é mesmo aquilo que temos. A direita que parece que vamos tendo. Em que o name dropping é usado como se valesse por si mesmo…

  3. Vocês já foram avisados que não toleramos insultos ao Profeta. O Aspirina insiste e vai sofrer as consequências. Têm 12 horas para apagar este post!

  4. “Metempsicose”? Obrigaste-me a ir à procura da palavra para saber do que falavas. Imagina que até pensei que se tratasse de algum typo ou assim.

    Em relação a aparência física tens razão (acho que o Spielberg perdeu aqui uma oportunidade de ter alguém mais baratinho para o filme), em termos de retórica não sei, que nunca li nada da Golda Meir (e agora não tenho tempo de ir à procura, talvez mais á noitinha), mas do que tenho visto da Ann Coulter (citações, confesso, falta-me paciência para lhe ler textos inteiros) eles andarão perto de ser almas gémeas. Se bem que o VGM acaba por tratar melhor o português que a AC o inglês.

  5. Fazer um link da expressão “mundo real” à Wikipedia foi a melhor piada visual que vi na net nos últimos tempos.

  6. João André,

    Referia-me essencialmente à parecença física. A Golda Meir, apesar de tiradas célebres do estilo de “não é como se já existisse um Povo Palestiniano na Palestina, que se considerasse Palestiniano, tendo nós chegado depois e tratado de os expulsar e roubar o seu país. Eles não existiam”, pareceria espírito aberto e tolerante se comparada com este VGM…

  7. Para a piada ser geral, apenas duas notas:

    – VGM diz-se de esquerda

    – Paul Johnson escreveu que “a URSS esteve desde o início contra o Estado de Israel”.

    Tudo isto é verdade. E é de rir.

  8. A grande imprensa internacional comandada por estadunidenses dita cultura e opinião mundial.A sociedade americana no bojo da sua cultura reza pelo velho testamento que anda de mãos dadas com o fundamentos do judaísmo em grande maioria protestante, cerne de toda cultura americana.Soma-se ao fato
    de o congresso americano ser influenciado por décadas pela bancada judaica, bem como os grandes banqueiros e donos da mídia serem de origen judaica. Temos ai condições para um estudo sem paixões sobre “conspiração mundial”.

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