Todos os artigos de Aspirina B

Melhor que o fórum do Dótor Manuel Acácio

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Voto no Eduardinho
Voto em quem conheço de gingeira, o Eduardinho ali para os lados do Rossio, o único consolo para a alma nos tempos que correm. Por falar nisso, não imaginava o Eduardo metido nisto !!!

Na estalagem de Maria Elisa, os portugueses foram entrando, ergueram o arraial e desataram a partir a louça no salão do ponto de vista. Exibem em alvoroço os mais alucinados dotes de interpretação histórica, combinados com alguma lírica caseira (com e sem rima). Amimam-se. Insultam-se. Alinham batalhões contra e em defesa do contabilista que veio de Santa Comba. No meio desta demência, há quem se leve a sério, ou até quem acredite que entre tamanhas almas perturbadas é ainda possível a troca de algumas impressões. Alguns exemplos:

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AAA emigrou para a Twilight Zone?

Inspirado por um artigo que leu há pouco, André Abrantes Amaral resolveu agora que os EUA não têm nada de estar envergonhados pela iminência de abandonar as areias movediças do Iraque entregues à sua sorte. Não: deveriam andar em paradas e foguetório comemorativo. Na realidade, venceram a luta contra o terrorismo!
Juro que isto vem lá escrito: “É certo que o mundo não está mais seguro que em 1998, mas está bastante menos perigoso que o esperado no dia 11 de Setembro de 2001. Os EUA nunca mais foram atacados, várias células terroristas foram destruídas, esquemas de financiamento aniquilados. Hoje é bastante improvável um ataque da mesma envergadura ao ocorrido em Nova Iorque e Washington.”
O ponto de vista é o de um americano radicalmente isolacionista: o resto do mundo nem sequer existe. Os EUA não foram mais atacados mas da mesma sorte não se podem gabar alguns seus aliados. As células foram destruídas e outras tomaram logo o seu lugar, como se vê pela chuva de bombas que cai todos os dias no Iraque; quanto tempo demorará até que aquela malta recém-formada se espalhe pelo mundo? Quantos mais estarão agora mesmo a converter-se ao fanatismo e à violência? E “improvável” já foi o 11 de Setembro; só por uma incrível mistura de sorte e incompetência das autoridades americanas é que um bando de grunhos armados de x-actos conseguiu aquilo. E, mesmo assim, a fazer fé no recente alarme em Londres, não vejo onde está a improbabilidade de uma reprise.
Por fim, como pode um país cantar vitória quando se deixou transformar pelo seu inimigo? Escutas arbitrárias, detidos sem processo, Guantánamo, sadismo no Iraque… cada uma destas tristes constatações soa a toque de finados pelo país justo e livre que os EUA já foram. Amarga vitória, a que o Blasfemo agora celebra.
Ele diz “com confiança que, tanto o terrorismo como a Coreia do Norte são problemas do passado”. O solipsismo tem um novo e fulgurante paladino.

Ração para porcos

“Depois de as coisas acontecerem, é quase irresistível reflectir sobre o que teria sido a vida, se se tem feito diferente. Se soubesse o que o destino lhe reservava nos próximos tempos, talvez Luís Bernardo Valença nunca tivesse apanhado o comboio, naquela chuvosa manhã de Dezembro de 1905, na Estação do Barreiro.

Mas agora, recostado na confortável poltrona de veludo carmim da 1ª classe, Luís Bernardo via desfilar tranquilamente a paisagem através da janela, observando como aos poucos se instalava o terreno plano, semeado de sobreiros e azinheiras, tão característico do Alentejo, e como o céu de chuva que deixara em Lisboa ia timidamente abrindo clareiras pelas quais espreitava já um reconfortante sol de Inverno.”

É desta forma, e não desta, que se inicia o romance Equador, de Miguel Sousa Tavares.

É verdade que o abjecto rapazola que assina lapierre & collins não coloca aspas nos parágrafos que precedem a frase “Assim se iniciam os livros «Equador», de Miguel Sousa Tavares, e «Fredom at Midnight», de Dominique Lapierre e Larry Collins.” Mas também é verdade que a blogosfera já está a ficar apinhada de “citações” dos dois infames resumos como se os mesmos correspondessem, à letra, ao início dos supracitados romances.

Foi, exactamente esse, de resto, o objectivo do pusilânime animal, ao disfarçar de “início de romance” os ditos parágrafos. Tudo para que o Zé, exultando com a suposta desvelada desgraça alheia, cegasse e, à boa maneira portuguesa, tratasse de pôr a circular as ditas frases como se de verdadeiras citações (iguaizinhas, Maria, iguaizinhas!) se tratassem.

Porém, e essa é que é a merda, no antro em que esta espécie de país está feito, é também isso que fica para a posteridade. As duas frases. Os dois abusivos resumos. Iguais. Que não são início de romance nenhum. Por certo que, metade da malta que leu a coisa, parou à primeira frase em inglês, ficando-se pelos fajutos inícios de romance. O desprezível insecto contou com isso – com a sua imbecilidade e com a estupidez natural do populacho.

E o resto? Não há absolutamente mais nada digno de registo. Trata-se, tão só, da simples menção a factos históricos. Semelhantes, claro. E por isso mesmo – porque são factos. Como diz o João Miranda, em referência a Sir Buphinder Sing, “Dizer que ele era rico, tinha um metro e noventa de altura e cento e quarenta quilos de peso é plagiar a realidade. Ele era mesmo rico e provavelmente tinha mesmo um metro e noventa de altura e cento e quarenta quilos de peso.”

Uma última coisa. Passou-vos mesmo pelas cabecitas que o MST se desse ao luxo de plagiar e de aludir, ao mesmo tempo, no livro produto do suposto plágio, ao livro objecto do suposto plágio? Que fita métrica estão a usar? A mesma com que medem as pilinhas?

Acalmai, pois, a vossa sede de sangue, que esta tontaria é menos que nada.

Santana Lopes no seu melhor

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Certamente sem querer, o nosso ex-primeiro-ministro (ainda agora parece impossível que uma tal osga lá tenha chegado, não é?) desmentiu o João Pedro Henriques. Este acusou há dias Sócrates de mentir: “Eu, por acaso, acompanhei a campanha eleitoral que lhe deu maioria absoluta e não me lembro nada de o ouvir dizer que sim, que em determinadas circunstâncias até poderia acabar com umas quantas SCUTs”.
Hoje, Santana veio testemunhar que não foi bem assim: “(Sócrates) disse em várias ocasiões que com ele não haveria portagens nessas mesmas SCUTs a não ser daqui a uns anos, quando o nível de desenvolvimento dessas terras já o permitisse”. (Eu, por acaso, já não me lembrava disto; mas também não “acompanhei a campanha eleitoral” com o empenho do JPH…)
Moral da história: nem a chatear os adversários o Santana é competente.
Depois, na continuação da mesma crónica, ele esforça-se por nos explicar que continua sem entender nada do que lhe aconteceu nas eleições fatais. Afinal, ele perdeu não porque os portugueses estivessem fartos de ver um asno narciso e autista no poder, mas sim porque Sócrates fez “batota política”! A sério. E finaliza em tom poético-ressabiado: “A política não pode continuar a ser feita assim. Como em tudo na vida, só vale a pena se for com decência, com verdade e se for bonito.”
A lata da criatura não tem limites. “Com verdade”? O fulano que conquistou a Câmara de Lisboa montado numa resma infindável de promessas mirabolantes quem nunca ninguém cumpriu tem o descaro de vir agora queixar-se? São irritações destas que ainda me vão rebentar um aneurisma.
Amigo leitor: se quiser um curso instantâneo de demagogia barata, consulte a lista (por certo parcial) de promessas de Santana Lopes, ao candidatar-se contra João Soares. Julgo que só as duas primeiras, em 22, foram parcialmente cumpridas:

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Prontos, pá!

No seu nunca demasiado reconhecido blogue Letratura (sic, sic!), um dos mais ‘úteis’ da blogosfera portuguesa, escreve Helder Guégués sobre a grafia Épa duma publicidade com os Gato Fedorento. A grafia deveria ser «Eh pá», sim senhor. Mas Helder Guégués (o apelido é, posso afiançar, autêntico ouro legítimo) prossegue, afirmando que o uso de «Pá!» se generalizou, ou floresceu, ou exorbitou, com os revolucionários de 74.

Posso testemunhar que não é o caso. Já nos anos 50 o uso era o dos futuros revolucionários ou o de hoje. E faz-me lembrar o que se passou com «Prontos!». A popularidade do Miguel Esteves Cardoso da «Noite da Má Língua» (o grande cronista já então era menos popular) fez atribuir-lhe a paternidade da interjeição. Ná, também «Prontos!» era, na Lisboa dos anos 50 (de mais cedo não sou testemunha), já frequentíssimo.

Curioso, este egocentrismo das nossas convicções linguísticas. Não é fácil ser jovem.

Punhetas a grilos reloaded

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Era uma promessa que lhe tinha feito. Havia de escrever um livro. Chegou a pôr um alarme no telemóvel: 2ª feira, 15 horas, avisar 10 minutos antes (era um nokia): “Escrever”. Assim mesmo. “Escrever”. Como se estas coisas de escrever pudessem ser programadas. Levanta-se pela manhã, toma um duche, engole os cereais e vai à bolina no seu carro que “pelo menos é seguro” e que “já não é a primeira pessoa que me diz, e até já li num livro: tem mais 28 cavalos do que diz o livro – sabes como é que é! Questões fiscais”.
E vai asinha porque não pode chegar atrasado ao seu novo emprego de escritor. O patrão é severo. Tem prazos a cumprir. Agora é um romance. Uma história de tragédia. Dois irmãos que se apaixonam um pelo outro e são obrigados a terminar a relação quando descobrem que, afinal, não são irmãos. Depois chega a hora de almoço e à tarde tem de se embrenhar numa comédia.
Há que arranjar um herói. Pode ser o terceiro irmão dos atrás avindos – e que hão-de deixar de o ser.
Que nome lhe havemos de dar? Passa este escriba pelas mesmas agruras dos pais que lhe escolheram o nome, assim como “uma espécie de pai sem o ser”.
Martim. Pronto. Pelo menos aqui não tenho quem discorde. Martim será e pouco me importa que lhe chamem Martins. Afinal as crianças são cruéis e os adultos são medíocres. Quase todos. Não podem ser todos. O próprio conceito e o simples facto de existir, como tal o impõe. Se o oposto da mediocridade, qualquer que ele seja, como de resto tudo o que é ou não é, não existisse, ou não fosse reconhecido, a própria mediocridade não existiria.

Mas já chega de conversa fiada. Vamos a coisas sérias.

Falava-vos do nosso herói! Lindo! Bela tirada: “o nosso herói”. Livro que o queira ser, deste escritor de empreitada (que não sou eu, atenção, não se esqueçam da promessa), tem de ter um princípio, um meio e um fim e, mais que tudo, tem de ter um narrador – aqui posso ser eu – que possa dizer coisas como: “o nosso herói”.

Martim. Irmão do Fulano e da Beltrana – assumi o “Beltrana”. Irmã borralheira da Fulana, a preferida, e da Sicrana, irmã do meio a quem pouco falta. Não é a sério, não se esqueçam, porque irmãos são mesmo só três – recapitulando, Martim, Fulano e Beltrana. Nesta história, sempre que não se quiser nomear alguém, Beltrana será. E assim no feminino, que fica giro. E o raio do corrector ortográfico automático quer à força mudar-lhe o género. Pois que aguente. Não é Beltrano. Nesta estória não há paneleirices, se o outro é fulano, esta tem de ser Beltrana. Bem bonda o incesto que afinal não era.

O Martim, como não pode deixar de ser, é aprendiz de feiticeiro. Genericamente: bruxo – como se intitula. Num mundo de medíocres ninguém quer ser aprendiz de nada. Vamos todos fazer de conta. Fazer de conta que somos felizes. Fazer de conta que somos experimentados. Fazer de conta que temos dinheiro. Fazer de conta que não são os nossos papás que nos sustentam. Fazer de conta que nos esfalfamos a trabalhar. Sábados, Domingos e feriados. E dizer mal do vizinho que é um calão e não trabalha nos dias de descanso – deve-lhe vir da droga. Mesmo que estejamos conscientes, e alguns não fogem a esse estado, o que só lhes deve aumentar a agrura, mesmo que estejamos conscientes que não fazemos a ponta de um corno, que é só para inglês ver e, pior que tudo, que somos, na maior parte das vezes, o nosso próprio inglês. O que interessa é que o nosso vulto apareça na fotografia, que os movimentos mecânicos do trabalho se possam vislumbrar. Mesmo que o produto de toda essa presença no local da ilusória faina não passe dum enorme flato, dado bem alto e ao vento para que ninguém possa ouvir nem cheirar.
Mesmo assim. Como num enorme auto de fé de bruxas vaidosas. E um bruxo não dorme, um bruxo não come, um bruxo não bebe, um bruxo não fode. Pois bem, este aprendiz de feiticeiro faz isso tudo e mais uma botas que sejam precisas para algum pobre ucraniano que por ai ande de pata ao léu.
E lá vai então o Martim para o escritório. Chegou. As estórias misturam-se, a do criador e da criatura. Está quase a tocar o alarme das 10 para as 10. Ele espera, pacientemente. Escrever. Tá bem, tá. Escreve tu que tens bom vagar. Eu tenho muito com que me entreter – afinal, sou o vosso herói, o protagonista desta história. Embora não me desagrade de todo a ideia de tão tonta corrente literária, não gabo a sorte de quem a quiser aproveitar. Demasiado trabalhoso e, tecnicamente, não passa de uma bela dor de cabeça. Ah, e não vende.

Tocou o alarme, toca a escrever.
“Era uma vez um cabrito montês”

«Traduzir galego»

No suplemento «Actual» do Expresso de ontem saiu este texto cá do Degas. Leia e trema.

Editar em português a literatura galega põe particulares exigências. A tremenda proximidade dos dois idiomas (ou das duas variedades de um só idioma) vem semear, a cada frase, escolhos ao tradutor. Muitos termos, muitas expressões, têm em galego um significado, ou um valor, ou uma carga, que não são os nossos. A própria morfologia cria problemas. O galego desconhece o nosso presente composto (em galego, «tenho lido» significa outra coisa), assim como ignora o mais-que-perfeito composto («tinha lido») e dá ao simples («lera») também sentido de perfeito («li»). Só o assíduo contacto com o galego escrito e falado pode guiar um tradutor.

Como se tal não bastasse, o galego actual, mesmo o literário, encontra-se repassado de castelhano. Tal como, um dia, sucedeu ao português. Mas as descoincidências connosco são inúmeras. Assim, um bom tradutor do galego tem de sê-lo, também, do espanhol. Esquecer isso é expor-se a riscos.

Li, recentemente, Ser ou Não, de Xurxo Borrazás (n. 1963), que a Deriva Editores, grande divulgadora entre nós das letras galegas, publicou. É um livro ousado, imensamente perspicaz, donde o mundo literário, o da escrita, mas também o do «marketing» e dos prémios, sai gostosamente desnudado.

A versão portuguesa é de Dina Almeida, com revisão de Isabel Ramalhete, mas o blogue do editor atribui à segunda a tradução, dizendo-a «rigorosíssima». Decerto, o português dela, ou delas, é nítido, desenvolto, a espaços brilhante. E a tradução do galego é, em si mesma, apurada. Mas labora num equívoco deprimente. Explico. Os galegos têm uma tolerância ao palavrão que nós desconhecemos e nos engana. Assim, e é um exemplo, o frequentíssimo «carallo» equivale, quase sempre, aos nossos «raio», «caraças», «carago», «diacho». Não mais do que isso. São, pois, imensamente inadequadas as passagens do tipo «um retiro do caralho», «A que caralho é que tu cheiras?», «a ti que caralho te interessa?», «Ao caralho! – exclamou o professor», e dezenas, dezenas de outras. O tradutor supor-se-á atrevido. Mas está apenas a ser ridículo.

Depois, há o material espanhol, já não questão de gosto mas de informação. Há centos de termos enganosos, os «falsos amigos», a pedirem cuidado. Que faltou a este livro. Aí damos com «apenas» (por «mal», «quase não»), «traje» (fato), «tópicos» (clichés), «compasso» (bússola), «Venha!» (Vamos a isso!), «noiva» (namorada), «chatear» (fazer um «chat»), «logro» (conseguimento), «colónia» (água-de-colónia), «prata» (dinheiro), «corrida» (ejaculação), «ovos» («tomates»), «por certo» (aliás), «escaparate» (montra), «torpe» (desajeitado), e mais, bastantes mais. Para quem recear um estado de coisas em que o espanhol desestabilizou definitivamente o português, este livro é um pesadelo.

Entenda-se-me bem. É importante conhecer espanhol, falá-lo com segurança, transmitir nele, com garbo, a cultura portuguesa. Mas, também, não ceder um milímetro do nosso idioma.

E quanto ao galego, mais isto. Tente conservar-se, onde for adequado, a coloração lexical ou idiomática do original. Não para que a absorvamos. Mas para que, tal como a brasileira, ela venha tocar-nos, serenamente, os sentidos e o entendimento.

A segurança social no inferno liberal

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O Insurgente André Abrantes Amaral explica-nos, em três penadas, os malefícios da segurança social e o precipício que separa o bruto socialismo do preocupado liberalismo.
Em primeiro lugar, defende uns tais “mais novos” que não desejam que parte do seu salário vá parar a um “bolo comum, que não é rentabilizado”. Depois, AAA retoma a conhecida cantilena “os pobres, esses madraços” com uma tirada eloquente: “Para quê poupar se depois teremos uma reforma ‘digna’?” É que “as pessoas têm direito a reformas não apenas porque trabalharam, mas também porque tiveram certos cuidados. Acreditar que apenas devido ao trabalho já temos direito a tudo, é errado.” Passa-se aqui, sem esforço evidente, do desejo de uma reforma digna a um luxuriante “tudo”. Não me parece que vivamos na Holanda: por cá, muitos pensionistas têm de se contentar com um pecúlio que talvez os impeça de passar fome. Foram por certo preguiçosos, descurando os “certos cuidados” que AAA tem por indispensáveis.
Eu, por mim, até invisto algum dinheiro num esquema complementar; mas isto porque quero mais do que uma reforma “digna”, gostaria mesmo de desfrutar de uma velhice repleta de vícios. Mas estará esta salvaguarda ao alcance da maioria? Duvido.

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O envelope ainda mexe

À viva força, lá continuam a tentar ressuscitar o nado-morto que é o “Caso Envelope 9”. Passado tanto tempo, ainda há quem esteja “sem saber o remetente deste envelope” (!) e estridentemente exija mais uma daquelas úteis e sempre produtivas comissões parlamentares.
Nunca entendi o mistério do famoso sobrescrito: um qualquer técnico menor da PT pega num ficheiro com as chamadas de um grupo de telefones atribuídos a servidores do Estado. Por preguiça ou inocência, limita-se a “filtrar” os números relevantes, sem cuidar de apagar os outros, e envia o documento para o tribunal. Alguém vê ali uma boa ocasião para lançar mais uma nuvem de pó sobre o processo Casa Pia e encomenda aos “jornalistas” do costume o servicinho. Depois, bastou a inépcia da PJ e o inacreditável Souto Moura para compor o ramalhete. Nascia mais um “caso” à medida deste país: sem substância, sem interesse, sem solução à vista. Mas sempre bom pretexto para mais uns gritos esganiçados.

Como se escreve um livro (quase) sem querer?

1. Entre amigos, inventamos um pequeno livro monotemático de BD;
2. escolhemos desenhadores a convidar, começando pelos consagrados óbvios e só acabando com alguns nomes nunca publicados;
3. primeira mina detonada com um pontapé sem tino: ofereço-me para inventariar alguns episódios e situações que possam dar motes úteis aos artistas;
4. erro letal: anuo ao primeiro convite para escrever um argumento completo;
5. meto a cabeça no cepo para escrever mais umas quantas historietas;
6. a páginas tantas, já vejo a coisa como minha e ofereço-me para terminar a empreitada;
7. seguem-se semanas de alterações, de cortes para adaptar o verbo excessivo à parcimónia dos desenhos, de revisões e emendas de última hora;
8. seis meses volvidos, a cria está entregue aos bons ofícios da gráfica e eu posso voltar a fazer de conta que tenho vida própria. Começando pelo descurado Aspirina B.

Futebol: crueldade e ironia

Como se não lhe bastasse ter conduzido o Gil Vicente para os labirínticos meandros jurídicos do tristemente célebre Caso Mateus, o inenarrável presidente Fiúza insistiu, durante semanas, numa estratégia de tudo ou nada, que passava pelo recurso sistemático aos tribunais e por consecutivas faltas de comparência aos jogos da Liga de Honra. Esta semana, um tribunal de Lisboa indeferiu a última esperança legal dos gilistas e o clube lá teve que se deslocar a Vila do Conde, para defrontar o Rio Ave e evitar males maiores. O jogo foi ontem. O resultado: uma derrota por 1-0. E como é que aconteceu essa derrota, após vários meses de inactividade? Com um auto-golo, sempre humilhante e traumático. Um golo na própria baliza, depois de todos os tiros nos pés. Deve ser a isto que se chama justiça poética.

Mana

Um homem tinha dois filhos. Um filho e uma filha, desta vez. Um dia, disse-lhe a filha: Pai. Não, não lhe disse, escreveu: Pai. Era a primeira vez que lhe escrevia em duas dezenas de anos, e estava prestes a fazer os vinte. Pai. Saltou uma linha e entrou na carta. Pai. Não, isso já estava. Tenho outro amante. A letra nem denunciava tremuras. Se alguém dever admirar-se, não serás tu. Tinha havido um ponto de exclamação, já só o ponto se aproveitava. Posso-te imaginar ciumento, estupefacto é que não. Parágrafo. Amantes tive eu logo aos catorze, e ninguém melhor do que tu sabe quem foi. As reticências tinham sido postas – era isto evidente – ao ter-se iniciado já a frase seguinte. Levaste-me para o sótão, na nossa outra casa. Parágrafo.

Nisto, entra na história o filho. Entra é uma maneira de dizer, pois ele já esteve, por detrás do pai, seguindo a leitura. Com que então, senhor meu pai! O pai vira-se, estende-lhe a carta e diz: O resto é para ti. O filho pega na carta, procura onde tinham ficado e lê em voz alta. Terás pensado que o segredo ficaria guardado. E, na realidade, nunca a ninguém falei. Mas o Gustavo cedo descobriu o que nem muito escondido estava. Gustavo levantou os olhos da carta para o pai. O pai disse: Continua. Gustavo prosseguiu: Uma tarde, ainda eu de novo chorava a mágoa de ter nascido filha tua, entra ele no sótão. Estava excitado e nada fazia para encobri-lo. E serviu-se, como tu, minutos antes, te serviras.

Gustavo parou. Continua, disse o pai. É mentira, pai. Continua, repetiu ele. Durante semanas, talvez meses, foi um ir e vir entre vocês. Até eu fugir. Pronto, era isto. Gustavo fixava a carta, onde só a garatuja da assinatura sobrava. Continua. Gustavo olhou o pai. Sabia-se lívido, após ter tido o rosto ao rubro. No pai nada parecera alterar-se. Continua, ou eu esquartejo-te com esta bodega. Nas mãos do pai surgiu um revólver. Continua, velhaco. Porque eu hei-de vingar-me da desonra que na minha própria casa me trouxeram. Um filho meu!

Gustavo tinha uma vaga impressão de que o pai exagerava. Descobriu-se também de pistola em riste. Velho aleivoso. Foi então para isso que quiseste ter uma filha, por força uma filha! Ia disparar, quando acordou. Era realmente uma irmã o que sempre desejara ter tido.

de «Um Selvagem ao Piano»

Perspectiva histórica

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Às vezes, para estimular os meus alunos a alguma maior perspectiva histórica (que, segundo alguns relatórios, e a minha própria experiência, lhes falta aqui e ali), forço neles um jogo mental. Assevero-lhes, por exemplo, que daqui a 30 anos, portanto quando eles tiverem 50, o iPod (ou o tetraneto dele) produzirá não imagens hesitantes de vídeo, mas experiências tridimensionais. Concretamente, poderão ver «Tróia» no exacto meio da cena, que se desenrolará em seu redor até perder de vista. E poderão, à escolha, espadeirar com Aquiles ou com Heitor.

Olham-me, então, entre espantados e fascinados. E eu prossigo, dizendo-lhes que Multatuli (o Camilo Castelo Branco cá do sítio), a terem-lhe contado que um dia se poderia, carregando uns botões, ver imagens móveis e realistas – e até em directo – numa caixinha de 12×6 cm, pagas com uns códigos bancários, teria tido, e com razão, um espanto maior do que eles agora têm com uma Tróia em 3D e sound surrouding.

Não sei se a tecnologia vai levar exactamente a isso. Pode até conduzir a conseguimentos que hoje não me passam – nem poderiam passar-me – pela cabeça. Nós não podemos senão extrapolar o conhecimento hoje disponível, projectá-lo no futuro. Assim, em finais do século XIX, Júlio Verne, que já conhecia o telefone, imaginou salas imensas com milhares de telefonistas lendo aos assinantes, um a um, as notícias do dia. A rádio era-lhe, ainda, inconcebível.

Com desconto para o meu erro factual (só verificável daqui a decénios), os meus alunos terão ganho – assim espero – alguma perspectiva temporal mais. Sempre útil, neste exigente mundo.