Perspectiva histórica

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Às vezes, para estimular os meus alunos a alguma maior perspectiva histórica (que, segundo alguns relatórios, e a minha própria experiência, lhes falta aqui e ali), forço neles um jogo mental. Assevero-lhes, por exemplo, que daqui a 30 anos, portanto quando eles tiverem 50, o iPod (ou o tetraneto dele) produzirá não imagens hesitantes de vídeo, mas experiências tridimensionais. Concretamente, poderão ver «Tróia» no exacto meio da cena, que se desenrolará em seu redor até perder de vista. E poderão, à escolha, espadeirar com Aquiles ou com Heitor.

Olham-me, então, entre espantados e fascinados. E eu prossigo, dizendo-lhes que Multatuli (o Camilo Castelo Branco cá do sítio), a terem-lhe contado que um dia se poderia, carregando uns botões, ver imagens móveis e realistas – e até em directo – numa caixinha de 12×6 cm, pagas com uns códigos bancários, teria tido, e com razão, um espanto maior do que eles agora têm com uma Tróia em 3D e sound surrouding.

Não sei se a tecnologia vai levar exactamente a isso. Pode até conduzir a conseguimentos que hoje não me passam – nem poderiam passar-me – pela cabeça. Nós não podemos senão extrapolar o conhecimento hoje disponível, projectá-lo no futuro. Assim, em finais do século XIX, Júlio Verne, que já conhecia o telefone, imaginou salas imensas com milhares de telefonistas lendo aos assinantes, um a um, as notícias do dia. A rádio era-lhe, ainda, inconcebível.

Com desconto para o meu erro factual (só verificável daqui a decénios), os meus alunos terão ganho – assim espero – alguma perspectiva temporal mais. Sempre útil, neste exigente mundo.

40 thoughts on “Perspectiva histórica”

  1. Mas… o que é isto!.. Meu Deus, isto é mau demais! E, este senhor é…é crítico… literário, e… e professor(sic!)

    o mundo está louco!

  2. Ó Fernando, o e-mail do aspirina não funciona? Já mandei duas mensagens, e voltam sempre para trás. Como preciso de (sim, em português de portugal, usa-se a forma proposicionada)falar contigo, cá vai o meu:
    jlpoeta@hotmail.com

    José luiz tavares

  3. A sério? As criancinhas desorbitam mesmo os olhinhos? Fascinante. Nunca terão lido, ou sequer visto, uma única obra de ficção científica, suponho? A(s) turma(s) inteira(s)?

    Isso, só por si, mereceria uma investigação antropológica.

  4. Contou-me um amigo que o Jacinto Lucas Pires está muito indignado do que leu aqui, e que vai pedir responsabilidades aos meninos do blog…

  5. Realmente este post, não “encaixa” com a fórmula habitual, que muitos estarão acostumados a encontrar neste blog, no entanto e para quem aparentemente se surpreendeu com o facto de Fernando Venâncio ser crítico literário e escrever um texto assim, aqui fica uma dica: a Literatura também faz parte da História e alguma (?) História faz parte da literatura. Para se criticar seja o que for há que saber (ou tentar) um pouco de tudo. Talvez com a perspectiva de um producto hi-tech no futuro os seus alunos possam aprender a fazer literatura e quiçá com o entusiasmo, pelo caminho aprendam a fazer história.

  6. WWF (fica-te bem a sigla),

    À bout de souffle, repito-me: eu às vezes gostaria de ter a alegre inconsciência de alguns comentadores aqui – e a consciência disso.

  7. A escumalha portuga no seu melhor, em romaria ao aspirina!
    É um rebanho de iletrados primários, a quem o estado paga o acesso à rede, para os manter distraídos.
    Quando encontram pela frente um gajo sério, que se enganou nas contas e os trata como gente, logo se transformam em matilha, a ver se lhe esfrangalham o casaco. Com a máscara do nick no focinho, que é bem mais conveniente.

  8. Ó Jorge, vai escrever “contos” para a Floribela!..

    E tomara vocês terem a criatividade e a análise critica acutilante e certeira destes “vossos” húmildes comentadores!

  9. Jorge Carvalheira,

    Já há quem diga (a fórmula inspira logo uma vasta confiança…) que há por aí gente estudando a fauna das caixas de comentários (e você saberá quem cunhou o gentil dito), e que espera um dia apresentar eruditas e sorumbáticas teses sobre um mundo fascinante.

    De resto, o José Pedro Castanheira já deu, há tempos, um ar desta imensa graça, num livro com material do Expresso. Não serão só, portanto, rumores. E, se fossem, mais perdiam.

    Mas shhhhht, não espantemos a caça.

  10. Ó senhores dos pedestrais, venha a nós o vosso reino! Vós, a luz, vós o exemplo, vós a verdade deste pobre país!

  11. Caro Fernando,

    Apesar de respeitar a CAUSA EM MARCHA, não é por isso, que deixo de o respeitar a si, e ao seu trabalho. Contudo, estranhamente, deparo com este estranho e inconsequente post. Terá o Fernando reflectido bem na inanidade que produziu. Não leve isto como uma provocação.

  12. Anónimo das 04:45 PM,

    Não posso esconder-lhe que o trato com um anónimo me provoca um, deverei dizer, vago incómodo. Até um patusco «nick» cria logo outra relação humana. Mas você consegue um, digamos, nível de apelo que mesmo identificadíssimos comentadores não atingem. E eu sou, compreenderá, sensível a isso.

    Ora bem. Apela você ao meu discernimento, esse que me teria abandonado – momentaneamente, é um supor – quando produzi o texto acima. Vamos aceitar. Eu terei tido, aí, um instante de obnubilação mental.

    Como esse – tenho de inferir – não foi o seu caso, não há-de também ser-lhe difícil explicar o que de «estranho» haverá (e, claro, há) no meu lastimável produto. Mas sobretudo ser-lhe-á fazível lançar alguma luz sobre quanto possa nele haver de «inconsequente».

    Fico aguardando.

    P.S. E por Zeus! Longe de mim, preclaríssimo Anónimo, provar no que escreveu o mais leve sabor de provocação.

  13. Caro Fernando (com amizade)

    Acho incosequente a comparação, é como dizer que daqui a cem anos podemos ter uma casa de férias em Marte… ok, e depois!?..

  14. EXTRA!

    NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA!

    A Pide cultural acaba de capturar o líder da REVOLUÇÃO EM MARCHA…

    Aguardam-se desenvolvimentos.

  15. Anónimo (com amizade),

    Só aqui entre nós. O símile com que confronto os alunos (que, de facto, mostram pouca percepção histórica, o que já vem dos liceus, a gente sabe, etc.), o símile, pois, parte da assumpção de que aquilo que hoje lhes/nos é trivial (imagens live numa caixinha de nada, embora cara) era inconcebível para um oitocentista, mesmo final. Dada a aceleração da tecnologia (que, espero, será da sua experiência), podemos colocar daqui a uns 30 anos uma situação igualmente inconcebível, agora para nós. Mesmo assim, e como o discernimento dos meus alunos me é caro, confronto-os, em seguida, com a curiosa, e esclarecedora (há-de concordar) extrapolação de Verne. Assim, ao mesmo tempo que lhes forneço um exemplo de percepcionamento histórico, de ordem quase táctil, lembro-lhes que a História é feita, igualmente, de rupturas, da ordem do – agora constitutivamente – inconcebível.

    Tudo isto será, a seus olhos, tremendamente irresponsável, porque «estranho» e porque «inconsequente». Não, facundíssimo Anónimo, os meus alunos não são de invejar, pobres moços!

  16. COMUNICADO extraordinário da Assembleia dos Redactores:

    O Sr. Fernando Venâncio apesar de ter “gostos” dúbios, (mas cada um faz o que pode para ganhar o seu ganha-pão), o “Não li nem quero ler” está estupefacto com a explosão gerada no seu blog, Aspirina B.
    Uma bola de neve quando desce uma montanha tem tendência a aumentar de tamanho. E os redactores apoiam muitos destes comentários: que VENHA ESSA “REVOLUÇÃO” ou esse MANIFESTO ANTI-PSEUDO INTELECTUALIDADE!!! (pois já parece ser uma classe instituída na arte, particularmente na literatura).
    Os redactores estarão na fila da frente…

  17. Redactores,

    No primeiro parágrafo do vosso curioso texto (legível também no vosso prezado blogue), há um «non sequitur» delicioso. Um, vá lá, um artístico anacoluto. A vírgula a mais ainda é o menos.

    Depois, dá-se na vossa escrita uma profusão de aspas, “aspas”, digamos, ao nível dos melhores boletins paroquiais, tipo “já” “repararam” “como” “sou” “engraçado” “?”

    Não convém, ao vosso nível.

    P.S. Obrigado pela tocante correcção (ver abaixo).

  18. Ainda bem que já corrigiu, Sr. Fernando. Ficava mal num professor do seu calibre e ainda para mais num texto acusatório (melodramático) da pontuação.
    Pois é… assim vão os “professorinhos”… (olha, outra vez as aspas!)

  19. Caro Fernando, gabo-lhe a paciência; aturar – chamemos-lhes assim para não ferir susceptibilidades – gente assim não é fácil.

    Saiba que sou um admirador dos seus escritos – e também, repito, da sua enorme paciência para lidar com, entre outros, quem se auto-intitula redactor sem saber, sequer, que o ofício de redigir implica – imagine-se! – saber escrever.

    Abraço, Fernando.

  20. Esses anónimos que se intitulam redactores são uma cambada de ignorantes, na pré-adolescência, que encontraram um palco para se exibirem. São primas-donas com mau feitio, invejosas, medíocres, imaturas e inconsistentes.

  21. Sra. Maria, os redactores estão apenas descontentes com a mancha que, hoje em dia, se denomina de literária. Não temos o prazer de criticar quem quer que seja. Tomara que não fosse preciso tal medida. E se reparar não somos os únicos.
    Se pensar bem há qualquer coisa de errado no nosso panorama literário. Ou não, se calhar é daquelas senhoras que gosta de livros de cordel! Então, Sra. Maria, está no paraíso.

  22. “Apenas descontentes”. Não! pelo que tenho lido é muito mais do que descontentamento.

    “Cada homem vai até ao interior da terra e até ao âmago do céu. A parte de cima foi cortada, mas o que resta da alma é um poço sem fundo. Uma obscuridade… Intrometem-se coisas obscuras a que não sei o nome. Agora é a vez do impulso – agora é a vez do interesse. A mania também tem os seus direitos… Desço mais fundo no poço e encontro restos sórdidos de candura…”

    in Húmus de Raul Brandão

  23. Sem dúvida, Sra. Maria! É mais do que descontentamento.

    “…Mas vós afrouxai as trelas aos cães
    silenciosos. Que as correias segurem
    os impetuosos molossos e os aguerridos
    cretenses estiquem as fortes trelas no pescoço desgastado.
    Mas prende cautelosamente os espartanos
    com um laço ainda mais estreito. Chegará o tempo
    em que os rochedos circundantes ressoarão com o seu latido.”

    In Fedra de Séneca

  24. “Perdoai-lhes Senhor que não sabem o que dizem nem o que fazem…”.

    in Processo Apedrejamento de JC, advogado de defesa Adolfo Dias, invocando circunstâncias alegadamente atenuantes para os “redactores”.

    Até já.

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