CARTA AO POETA ANTÓNIO CABRITA A PROPÓSITO DE CERTOS IMPASSES

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Do poeta natural de Cabo Verde José Luís Tavares publicou o «Aspirina» alguns originais e traduções de poemas portugueses para caboverdiano. Hoje, um novo original, com destinatário e mensagem. Decerto não por causa, mas seguramente por arrastamento do «post» de Valupi / RenatoC. «Somos um aterro literário!».

CARTA AO POETA ANTÓNIO CABRITA
A PROPÓSITO DE CERTOS IMPASSES

Sim — sempre o soube —
amas o fogo que assoa as ventas
aos baixios da alma com a afeição
do sabre gangrenando a giba.

Com a confiança do que atravessou,
incólume, o gargarejo de zeus,
desentranhas o manancial que sete
gerações de poeira ocultaram sob
a cauda centrípeta do harmatão.

Irmão antónio, que suspiro não é
decreto que cauciona a orfandade do escriba?
A minha filha já me ronda os versos
com a veterania do felino, inda desconheçam
os molares o salitre oculto em cada naco.

Irmão antónio, a ciência do desengano
não é apanágio do que se extravia
num raso copo de mezcal,
mas daquele que desabalado de si
apalpa o pulso ao furacão.

Pois, tu também te perdeste,
com a loquacidade do naufragado,
à esquerda pantanosa de um tempo
que recicla os mais débeis gorjeios
que nem cócegas fazem às coronárias

— arrancado aos pinhais onde lufam
polígrafos ignorantes da fotossíntese,
nas margens do limpopo despistas agora
o ranço que aleita os ouedes
onde se oculta o manancial.

Sagrasses em pedra-pome o rasto dos delírios,
qual cego que seguisse o engodo duma mansa voz,
mas conturba-se a atonal rebentação
com seu fio preto de insónias — e meia vida
escoa-se pelo cano que rói o sebo aos mistérios;

a outra, confia-la à pestanejada porosidade
dos versos, reles baforada
sem o póstumo luzimento que recobre
a irrestrita inteireza do abismo.

José Luís Tavares

9 thoughts on “CARTA AO POETA ANTÓNIO CABRITA A PROPÓSITO DE CERTOS IMPASSES”

  1. Apenas para saudar um poema que como os melhores poemas sabe que não pode ser só canção nem só reflexão mas sempre mais e mais.

  2. Tininho,

    Eu só não apago este imensamente estúpido comentário porque deixá-lo aqui é a melhor maneira de recordar que há neste mundo inanidades como tu. Felizmente para ti, meu cobarde, não sabemos quem és.

  3. Ó tininho, pá, não te amofines, que estou a ficar clarinho. Já agora, não tens praí uma loçãozinha que ajude ao processo? Porfia, minha besta!

  4. No decorrer da leitura deste poema, deparei-me com estes dois versos, que me suscitaram uma dúvida de portugués, bem sei que o aspirina não é um blog para esclarecer este tipo de questões mas cá vai de todas formas.

    (…) “Pois, tu também te perdeste,
    com a loquacidade do naufragado” (…)

    No segundo verso não deveria ser “com a loquacidade do náufrago” ? Uma vez que falamos de uma pessoa? A liberdade poética permite esta aplicação? Estamos perante uma metáfora de um “barco naufragado”?

    Ou sou eu que estou a perceber mal alguma coisa? Bem sei que não se pode ler poesia através do mesmo processo com que se lê prosa, e que algumas regras podem ser diferentes. De qualquer das formas se alguém puder e quiser elucidar-me agradeço.

  5. Acho os comentários sobre a pretidão ou não pretidão uma tolice.
    Ponto.
    Agora vamos ao que importa: o poema deste autor é medíocre, arrevesado.
    E o ser preto ou branco não ajuda, não ajuda nem prejudica.
    É um mau poeta, apenas.

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