A segurança social no inferno liberal

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O Insurgente André Abrantes Amaral explica-nos, em três penadas, os malefícios da segurança social e o precipício que separa o bruto socialismo do preocupado liberalismo.
Em primeiro lugar, defende uns tais “mais novos” que não desejam que parte do seu salário vá parar a um “bolo comum, que não é rentabilizado”. Depois, AAA retoma a conhecida cantilena “os pobres, esses madraços” com uma tirada eloquente: “Para quê poupar se depois teremos uma reforma ‘digna’?” É que “as pessoas têm direito a reformas não apenas porque trabalharam, mas também porque tiveram certos cuidados. Acreditar que apenas devido ao trabalho já temos direito a tudo, é errado.” Passa-se aqui, sem esforço evidente, do desejo de uma reforma digna a um luxuriante “tudo”. Não me parece que vivamos na Holanda: por cá, muitos pensionistas têm de se contentar com um pecúlio que talvez os impeça de passar fome. Foram por certo preguiçosos, descurando os “certos cuidados” que AAA tem por indispensáveis.
Eu, por mim, até invisto algum dinheiro num esquema complementar; mas isto porque quero mais do que uma reforma “digna”, gostaria mesmo de desfrutar de uma velhice repleta de vícios. Mas estará esta salvaguarda ao alcance da maioria? Duvido.


E para o fim fica guardado o melhor pedaço. AAA acusa quem não se importe de continuar a viver num país que cuida dos seus cidadãos mais frágeis de ter inclinações socialistas, despóticas e tirânicas. É que não há direito de exigir que alguém entregue o seu dinheiro para estes fins sociais. A “solidariedade não nasce à força”, proclama, justiceiro, o nosso Insurgente preferido. Engraçado; que dizer dos impostos? Não anda também por aí a mão rapace do Estado a obrigar-nos a ser solidários com malta que nem queremos conhecer? Eu posso bem proclamar que não desejo pagar hospitais em Trás-os-Montes, creches no Alentejo ou negociatas mil para a clique do soba da Madeira. Não será isto também pisar os “direitos mais elementares da pessoa humana”?
Claro que não. Ao aceitarmos viver em sociedade, aceitamos que esta só se pode manter de pé graças a contributos dos seus membros. Será tirania, mas faz parte do jogo a que chamamos civilização. Se AAA prefere a filosofia do “cada um por si”, pode sempre emular o Robinson Crusoe. Numa ilha deserta, não vai ter o Estado à perna a obrigá-lo a financiar pobres, desempregados e outra escória imprevidente e calaceira.

2 thoughts on “A segurança social no inferno liberal”

  1. Não é bem a filosofia do cada um por si. É mais a filosofia do cada trabalhador por si, que estas uniões de trabalhadores só dão problemas. Já o capital não é cada um por si. Quanto muito será cada um para si. Porque isto, segundo eles, devia ser como a irlanda e não taxar o pobre do capital.

  2. O sr. AAA e outros como ele acham que os trabalhadores cujo salário não dá para comer decentemente ainda têm capacidade de poupança. Como? comendo ervas? É
    fácil falar de barriga cheia.

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