Autocronologia

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Num filme com alguns anos, vemos imagens de uma rua numa cidade qualquer. Como adivinhamos num segundo a década em que tais planos foram colhidos?
Simples: olhamos para os automóveis.
O design automóvel é um datador mais fiável do que qualquer isótopo de Carbono. Patilhas vão e vêm, a moda dá voltas infindas aos mesmos eixos, a Arquitectura é duradoura demais para cronometrar com precisão a passagem de meras décadas.
Surge a questão: será que as linhas dos nossos veículos evoluem apenas pela pressão dos mercados e dos túneis de vento (Marketing e Ciência por fim juntos…) ou existirá mesmo um impalpável “ar do tempo” que os estilistas do automóvel devem prever?
A evolução no reino da Biologia opera segundo vectores comparativamente simples: os organismos que conseguem sobreviver ao seu meio ambiente proliferam e passam genes às gerações seguintes. No automóvel, as recompensas ao sucesso também existem: se um dado pormenor estético cai no goto dos compradores, por certo que vai arranjar forma de surgir até em máquinas de outros construtores.
Mas cada marca deve também, ano após ano, lançar novas versões, “actualizadas” dos seus modelos. E a obsolescência programada é uma bela arte: quem tem um BMW do ano passado deve ser levado a pensar que o seu automóvel já é “velho”. Não por carecer das últimas soluções técnicas ou por estar senescente, mas apenas porque já anda na estrada uma versão do mesmíssimo modelo com um look muito mais “moderno”. E ninguém quer ficar para trás, pois não?
Assim voltamos à cisma inicial: serão as antenas dos designers do ramo sensíveis às ínfimas vibrações do tal “futuro”? Estarão, neste preciso momento, encerrados em mosteiros budistas a antecipar o que vai ser o gosto dos automobilistas de 2012? Ou a coisa é ao contrário e são os seus caprichos sem tino que moldam a aparência das nossas cidades e, por extensão, a nossa ideia de “actualidade”?
Se a tal ciência mística existe mesmo, é de uma precisão arrepiante: basta ver modelos recentes da BMW, Mercedes, Opel ou Renault para lobrigar tendências comuns evidentes. Os planos despidos, quase ascéticos, de anos anteriores, estão a dar lugar a relevos ainda suaves, como se uma lenta cristalização operasse por debaixo das superfícies esculpidas pelos túneis de vento, erguendo sob essa pele metálica a ossatura de uma nova rispidez de ângulos e arestas.


Ou talvez se trate apenas de cambalachos bem montados: já que o Futuro não pode ser uma miríade de ondas desordenadas, incapazes de nos devolver um panorama uno e sedutor, como convém a estas coisas do consumo, há que o coreografar. Assim os tais mosteiros budistas seriam substituídos por salões de bilhar fumarentos onde a máfia do estilismo automóvel trataria de cartelizar o amanhã das nossas estradas e garagens.
Seja como for, a verdade é que os designers conseguem, quando querem, criar máquinas atemporais. Sem a ajuda do Google, talvez não consigam adivinhar a idade do modelo que encima este post. O Stratos que Marcello Gandini desenhou para a Bertone esteve presente numa Documenta de Kassel. E ainda hoje é um tremendo e belíssimo monumento a um futuro que nunca foi.

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