Todos os artigos de Aspirina B

DEBATE?

Penso que o debate de ontem entre José Sócrates (PS) e Maria Avilez (PSD) foi claramente vencido pelo primeiro.
Curiosamente nunca vi na jornalista(?) Avilez tanta Aviltamento e Dureza a entrevistar um Durão.
Ou um Santana. Mas estes, com Marcelo, são os seus ‘meninos de oiro’ (sic. expresso). É verdade, Santana incluído!

Porra!

Ontem, numa das minhas voltinhas frequentes pelo dicionário de português, desta vez procurando um sinónimo mais ou menos paronímico da palavra “catamite” — definidora em dicionários ingleses do “rapazito mantido (fresco e saudável) para práticas sexuais”, etimologia latina pela via do etrusco, dizem-me eles — fui completamente distraído pela languidez ou preguiça do meu dedo que decidiu repousar em “catano!” e logo tomar uma bebida fresca, para apreciar com vagar a sua definição, de acordo com o evangelho dos dicionaristas portugueses.

Ficou o Tio Tadeu a saber que “catano!” é uma interjeição vulgar “usada como eufemismo para indicar admiração ou contrariedade”. Mas eufemismo de quê? Em princípio, de “catana”, palavra muito em voga nos anos sessenta nos manuais arsenalísticos dos movimentos de libertação africanos, antes das intervenções e contribuições do dólar e do rublo para animarem as festas balisticamente.

E andei eu um tempão do vergalho a pensar que “catano!” tinha mais a ver com o intuito de poupar certas senhoras e cavalheiros à ignomínia de terem de ouvir outras rimas mais mal sonantes. Por mera curiosidade, então a querer estender-se por influência do refresco, procurei debalde o eufemístico “poussa”, “poussas” ou “pouça”, de “pénis” ou “porra!”, também interjeição. E pagarei um copo de bom grado a quem descobrir no meu dicionário a palavra “caraças”, por vezes também explosão interjectiva na boca do palavroso e pobre vulgo. Se a encontrarem, tenho a certeza que ao lado dela lá estarão um par de carantonhas ou máscaras a provarem as origens e o poder dos eufemismos.

Mas, voltando ao “catamite”, talvez seja interessante notar aqui, a modos de fecho, o peso que as palavras, ou a eliminação total ou parcial dos seus significados, têm na preparação mental das pessoas para a moral política gizada pelas elites do beiço educado. Num dicionário “Oxford” de há dez anos, a palavra “catamite”, além da definição que acima dei dela para benefício do menino e vergonha do seu amo, também tinha uma segunda definição, que se escorria assim, para toda a gente ver: “a pessoa (partner) passiva em sodomia”. Num dicionário mais moderno desse mesmíssimo ilustre estabelecimento de ensino influenciador de governos e governação, tal definição foi pura e simplesmente excluída for good, quem sabe se por decreto ou se em reacção a um simples telefonema dum malandro qualquer. Ponha-se isso em termos de Narração Histórica das Coisas Mais Importantes e imagine-se o que a maltinha não anda por ai no dia-a-dia a engolir como verdadeiro, completo e bem contado. Os mais “progressistas” dirão que a exclusão dessa definição se justifica, para não se abusar da passividade de certa gente. São os que não têm voz activa nem passiva sobre nada, mas vivem na ilusão de que a têm.

TT

Portugal profundo – 3

Na estrada, a tabuleta anuncia o Solar dos Brasis, na aldeia chamam-lhe a Casa das Fidalgas. Não sei quem tem razão. Eu fui lá muitas vezes, atraído pela gala das talhas, pela febre das cores a gritar nas madeiras, e a simetria misteriosa das janelas, a fingir horizontes pintados nas paredes. E acabei feito pagão, perdido de amores por uma pujante madona de terracota, que escondia promessas carnais num manto azul a esvoaçar. Cheguei a congeminar o plano caviloso de raptar a madona numa noite de inverno.
Nesse tempo era vivo o Gastão, um caseiro que habitava os anexos e olhava pelo conjunto. Fazia bonecos de madeira a canivete, e flautas de cana que vendia aos passantes. Era naquilo tudo a única coisa viva, e queixava-se do IPPAR, e das águas no telhado, dos roubos das imagens e da segurança escassa. Levava-me às palmeiras do passal, à mãe-de-água de pedra à beira do ribeiro, numas terras que o fidalgo arrematou, à vinda do Brasil. Tinham sido confiscadas a um marrano qualquer, pela Santa Inquisição. Subíamos depois ao belvedere e mostrava-me o salão de honra, nos altos do torreão. Pendiam do tecto caixotões de santos, a ameaçar ruína, alguns a desabar por causa das humidades. Finalmente levava-me à capela, onde a santa, à minha frente, se desfraldava num pedestal.
Depois contava-me a história. Que D. Luís se foi ao Brasil, ao ouro, no tempo dele. Que era capitão da Armada Real, e provedor dos quintos de el-rei, em Vila Rica de Ouro Preto, nas minas de Sabará.
– O muito e o pouco passava-lhe pela mão! Era de el-rei, mas quem parte e reparte… – sugeria o Gastão, sem avançar.
D. Luís tinha em casa uma escrava da Mina, por quem se apaixonou. E trazia, no regresso a Lisboa, a mulatinha Angélica, que vemos nestes quadros. “Mercê que fez Nossa Senhora, no Instituidor, vendo-se em perigo de morte no sertão do Brasil, em jornada de 900 léguas às Minas do Ouro.” E lá estava um dragão pintalgado, a soprar fogo ao fidalgo em terror. “Milagre que fez Nosso Senhor … no mar da Bahia…”. E era um barco a adornar, a vela já perdida, o fidalgo no convés a amparar a mulatinha.
D. Luís era de Santa Marta de Penaguião. E, ao ver-se em aflição, prometeu erguer à Senhora da Penha esta capela. Ao lado do solar, e dum convento franciscano que não chegou a existir. “Onde o meu cavalo parar, aí o santuário hei-de levantar.” O cavalo é que escolheu este lugar, concluía o Gastão. E mostrava-me, num livro dum letrado, que o fidalgo tomara ordens sacras ao fazer sessenta anos, que a mulatinha morreu sem descendência no ano em que assaltaram a Bastilha, e que o Solar dos Brasis é um testemunho da boa aplicação em Portugal do ouro de Sabará. Eu sempre vi neste solar um túmulo, entre muitos, onde embalsamaram Portugal. Mas nunca cheguei a dizê-lo ao Gastão.
Não sei se os caixotões acabaram por cair, nem se a madona continua lá, a esvoaçar no pedestal. Quando há dias voltei ao Solar dos Brasis, o Gastão tinha acabado de morrer. E o IPPAR pôs um telhado novo ao torreão, e trancou as portas e as janelas com grades de ferro chumbadas na ombreira. Fica-me a pena de não ter assaltado a madona, numa noite de inverno. Mas ainda bem que o Gastão foi embora, sem saber a verdade.

Jorge Carvalheira

Não levem a mal

Espero que não me ponham a ferros por dizer isto, mas eu estou convencido de que a maior parte da rapaziada dos dois sexos que aqui vem matar o tempo ou irritar-se, ler mexerico fresco e novidades do para-socialismo socrático, dar ou levar porrada de criar bicho, fazendo uso de pulmão ou megafone, a primeira coisa que faz é dar um relancear ao nome de quem assina o post. Quando o nome agrada ou convém, algo que tem pouco ou nada a ver com o apreço ou admiração que se tem pelo escriba despejador, já todos têm uma ideia do número de palavras envolvidas. A seguir, computa-se tudo isso em dois segundos e meio e consulta-se a lista de autorizações e prioridades penduradas no interior das próprias cabeças de acordo com as preferências políticas ou outras e perde-se mais um segundito ou dois a coçar queixos, ponderando se realmente merecerá a pena perder o tempo precioso. Se ainda indeciso, apesar do arsenal racionalista que utilizou, o leitor, ou leitora, calmamente dando volta à manivela da rotina defensiva, pode passar à fase seguinte que envolve o sacrifício de ler as primeiras linhas do post, não vá perder algo interessante. Umas vezes, meio-prendido pela curiosidade embriagada lá se vai deixando levar à espera que tudo resulte no orgasmito final que bem precisa, outras não. Sem vergonha, também me confesso vítima ocasional desse vício.

Fiquem com esta mensagem dum senhor cansado. Quando eu aqui voltar novamente, sugiro sem entusiasmo ou interesse de qualquer espécie que continuem a ler-me. Ou, alternativamente, façam o que lhes der na real gana e viva a liberdade saloia e colorida. Não liguem à redundância pleonástica dessa sugestão e desta explicação, pois fazem parte do discurso. O que eu realmente vos queria dizer é que não me leiam por mercê ou obrigação. O obséquio e graça reivindico-os como meus, porque sou eu que tenho de dar volta ao miolo a escrever coisas fastiosas, esforçando-me para excitar sem ofender demasiado, provocar sem cair voluntariamente em subterfúgios linguísticos que frequentemente convidam ou encorajam os menos dispostos ou desmotivados, tipo senhora bigornas, a não lerem. Concluo assim, sem ter encontrado espinhas nenhumas pelo meio. Mas não prometo nada para o futuro na área da franqueza escandalizante, nem posso garantir que as novidades irão ser só gozo, desfile de cabeçudos pela avenida portuguesa abaixo. No entanto, esperança é sempre bom tê-la, pode ser que lhes venha a falar dalguma coisa útil, pelo menos superficialmente lembradora do fundamental, do importante, que vocês depois burilarão, aperfeiçoarão e polirão com a ajuda dos vossos instrumentos de gente mais educada do que eu. Todos sabemos que a “importância” que se dá a certas coisas é sempre, simplifiquemos, relativa, influenciável, corrompível e dependente, sobretudo dependente da maneira como se observa, como se pesa o que se lê e se compara, muitas vezes seguindo fielmente opiniões dos nossos amigos e tutores que não nos conhecem, ou conhecem bem demais, parte deles consumadas varinas da tradição que fomos ensinados a admirar e imitar. Mas não subestimem nem esqueçam, e isso é que é realmente soberano, os perigos, as consequências irremediáveis de não nos importarmos de sermos mais uma das muitas vidas que andam por aí rés ao chão, a debicarem migalhas caídas de papo-secos tradicionais fabricados com farinhas magras e refinadas, roubadas do farelo nutritivo e dos minerais preciosos.

TT

Ida e volta — as opções

Pega comigo e vai comigo num barco qualquer, a remos ou à vela, tanto faz, e vamos procurar a terra dos francos que nos espera no outro lado do mar. Para ganhar e aprender ou para levar no toutiço do juízo, como nos velhos tempos de Paris. Não temas vagas alterosas, nem ligues ao sal frio e liquefeito que inevitavelmente nos refrescará as caras e os corpos na viagem de quase-aventura. Não tenhas medo que não estás sozinha. Irei contigo duma margem à outra, haja o que houver. Os nossos corpos unidos em calor-paixão de procura de lazer-prazer (desnecessariamente caro, necessariamente defendido pelo poder fictício do cartão de crédito que o Big Brother nos pôs na mão) apertar-se-ão ainda mais se os perigos de navegação se apresentarem com caras sujas de ventos contrários à nossa intenção firme e jurada de vermos e compreendermos mais — intenção que força, como tu e eu muito bem sabemos, à limpeza de coisa antigas em caves e arquivos mentais onde se passeiam ratas velhas sob ruínas de teias de aranha dos tempos do Aprendizado.

Era assim que eu gostaria de ter atravessado o Canal da Mancha, com uma companheira presa ao meu destino, num bote ou lancha. Em vez disso, meti-me no ventre duma enorme toupeira sobre carris, que já ameaça desastre financeiro pelas bocas de alarmados e hipócritas Cityistas londrinos, em Folkestone e saí no outro lado, lá para as bandas de Calais, terra de muita cebola e gritos de cebolório!

Mas nada se passa, nem nas idas nem nas voltas, como a gente gosta, isto é, de como gostamos de ver narrado em poemas leves mas ricos em oxigénio e rabanadas de vento. Jubilante e comovedor e realmente gratificante seria eu chegar aqui todo ufano e a suar para contar aos rapazes e raparigas os resultados da Conferência de patriotas americanos em LA sobre a característica indesmentível e inegável de inside job que tresandou do churrasco humano em Nova Iorque há cinco anos. Do meu discurso, se lá tivesse ido a convite, se me tivessem dado importância, se soubessem que existo, sacaria seguramente as passagens mais relevadoras e reveladoras — as do tipo de entrar sem oposição de nenhuma espécie pelas cabeças dentro de qualquer nhurro português com preocupações verdadeiramente democráticas, e tenho a certeza que pasmaria alguns deles. Mas não, em vez disso, volto, como muitos outros voltam doutros lados onde vão esquecer dívidas e frustrações e dizer mal de patrões, cansado de duas semanas de férias self-catering numa manoir, num chateau, como o seu dono gosta de chamar-lhe para acentuar o seigneurismo que escorre dalguns cantos teimosamente escuros e impermeáveis aos olhares de estranhos.

TT

“Raptados pelas emoções”

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Os jornais israelitas e de todo o mundo continuam a encher-se com os passos frenéticos da última corrida para o abismo no Médio Oriente: agora, é a Síria a visada, com caças israelitas a sobrevoar o presidente Assad. Em Gaza já não há electricidade e várias pontes foram bombardeadas pelos aviões israelitas. Até onde irá chegar mais esta escalada insana, ninguém pode calcular.
Mas ainda se fazem ouvir por ali ouvir mais do que gritos de guerra e pedidos de sangue. E talvez ainda haja tempo para que alguém repare na justeza deste texto do colunista Akiva Eldar; ali são relembradas palavras de um antigo vice-primeiro ministro de Israel, há pouco mais de um ano: “estamos cansados de lutar, estamos cansados de ganhar, estamos cansados de derrotar os nossos inimigos. Queremos ser capazes de viver com relações totalmente diferentes com os nossos inimigos. Queremos que eles sejam nossos amigos, nossos parceiros, nossos vizinhos”.
Agora, esse antigo “vice” já é primeiro ministro e tratou de esquecer a promessa de bom senso e o cansaço do sangue: “todos na Autoridade Palestiniana estão entre os responsáveis e nós não lhes daremos qualquer imunidade”; “o mundo está farto dos palestinianos. Até agora, as nossas respostas têm sido comedidas. Isso acabou.”
O que acabou mesmo foi a promessa de acalmia na zona. Emboscada por extremistas, executada pelos mísseis de outros extremistas. E claro que não é por acaso que o ataque aos soldados israelitas que serviu de pretexto para a presente crise aconteceu justamente quando se discutia o “Documento dos Prisioneiros” (que aliás já fora recusado pelos mais radicais).
Como bem pergunta Eldar: “será possível que um estadista sábio mude a sua doutrina por causa de um bando de lançadores de foguetes? Será imaginável que um líder esqueça a sua visão por causa de um falhanço militar que custou as preciosas vidas de dois soldados e a captura do seu colega? Ainda não aprendemos que, na relação entre nós e os nossos vizinhos, a força é o problema, não a solução?”
A resposta, infelizmente, é uma só: quando os violentos se sentem com poder para esmagar os seus vizinhos, tratarão de o fazer à mínima oportunidade. Quer sejam loucos a enviar os filhos dos outros para o martírio ou estadistas que já souberam anunciar sonhos de paz quando tal lhes convinha. Todos se deixam raptar pela febre da guerra com gosto. E ai de quem seja apanhado no meio.

Crítica, tomates e outros inchaços

Desta vez, Augusto Manuel Seabra colocou o dedo na ferida. E ousou ofender, imaginem, a vaca sagrada EPC. Sei que o “Público” está offline para não-pagantes, mas o Google dá uma ajuda (não digam a ninguém como, por favor).
E ainda há uma pungente nota de rodapé neste drama em que a expressão “débil mental” aparentemente chegou mesmo às impressoras: a mini-polémica com a “Bomba Inteligente”. Se querem uma actualização da história da rã que inchou sem mesura porque se achava fadada a boi, não percam estas pérolas: «o parágrafo de Augusto M. Seabra nada mais é do que um exemplo de cobardia (…) O que Seabra não percebe é a qualidade de leitura nos blogues, nomeadamente de alguns, como é o caso deste», «Quanto ao comentário de desconhecer se sou Bomba, poupe-me a essa conversa pobre de blogue anónimo com três visitas diárias». Como exemplo de solipsimo blogosférico incapaz de sonhar que existe alguém sem um blogroll sempre à mão, é difícil imaginar melhor.
Polémicas menores à parte, foi para mim agradável constatar que o bom Augusto M. Seabra os tem bem no sítio. E nós temos homem.

Mares da China

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Encerrou-se, em Roterdão, o festival da Poetry International deste ano. Um dos grandes momentos foi, para mim, a actuação do poeta chinês Han Dong, representante – assim foi dito – de certa nova corrente, que preza a linguagem comum. Aqui fica um poema seu, traduzido graças à versão neerlandesa, comparando-a com a inglesa.

Com que então viste o mar

com que então viste o mar
tinhas uma ideia dele
do mar
primeiro tinhas uma ideia dele
e depois viste-o
pois é
então viste mesmo o mar
e até tinhas também uma ideia dele
mas não és
marinheiro
pois é
portanto tinhas uma ideia do mar
e viste o mar
se calhar até gostas a sério do mar
pois é tal e qual
então viste o mar
e tinhas uma ideia dele
não estás a querer
afogar-te na água do mar
pois é
isso vale para muita gente

Ana Paula Tavares

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Estou em Roterdão, onde esta semana decorre a edição 37 do festival da Poetry International. Em anos anteriores, sobretudo nos anos 80, muitos poetas portugueses, ou de língua portuguesa, por aqui passaram. Lembro-me sempre de Fernando Assis Pacheco, de Egito Gonçalves, de Sophia.

Este ano, o nosso idioma está representado por Ana Paula Tavares, angolana, a residir neste momento em Portugal. Alguma informação sobre ela e os seus livros está no site da Editorial Caminho.

Aqui fica um pequenino poema que – no workshop de tradução que, este ano, aqui dirijo – foi, como outros poemas seus, traduzido para inglês, francês, castelhano, neerlandês, frísio, dinamarquês, africânder e croata.

O Viajante

Parou para traçar as sandálias
E olhar a terra arrepiada
A dar à luz
Luas de prata.

As mortes da bezerra

É o que sucede a quem se põe a viajar, dobra-se uma esquina e logo nos dão os olhos numa surpresa nova. Ora este viajante é imaginativo, quando não fantasista, conforme já se viu. Mas a tanto não se atrevia a sua imaginação. Pois o que está agora a ver, depois que passou a ponte da ribeirinha e se despediu de Palhais, é um avião a jacto em carne e osso. Estacionou ali ao cimo da colina, num descampado. E embora mostre um ar afoito e destemido, capaz de engolir o vale inteiro, não parece ter alento para voltar às alturas.

O viajante reconhece-o logo e fica em grande sobressalto. Pára o carro à beira da estrada, sobe uma parede e corre para ele. Se alguém o vir de longe, o senhor Máximo do seu alpendre, vai dizer que este viajante é um tolinho. Porque se põe a andar à roda do avião, a passar-lhe a mão afectuosa pelo nariz, pelo bordo quente da asa, pelo fio dos lemes da cauda, pelos flancos redondos da barriga. Mete a cabeça na boca do motor e no escape da turbina, à procura de imagens e de cheiros antigos, quem o vir de longe não sabe que o viajante tem lágrimas nos olhos, porque lhe acordaram de súbito no peito emoções que viveu, e viu viver, num tempo tão antigo, e tão presente, e tão contraditório, parece mentira que tenha havido um tempo assim.

E no entanto houve. Que o diga este soldado, que se chama Pessoa, e mais lhe valera não o ser, antes um bicho qualquer. Está dentro deste avião, amarrado no minúsculo habitáculo, e já vai à procura dum quartel que está em desespero nos confins do sertão. Veio ao rádio aos gritos, a pedir um apoio de fogo, por ser o fogo tanto à sua volta. Lá vai ele no ar, e já sente na cauda uma explosão violenta, já o motor se lhe apagou, e já o duro pégaso de ferro recusa obedecer aos seus comandos. Este soldado que se chama Pessoa nunca teve na mão uma máquina tão perfeita como este motor. Mas nem ele responde ao arranque de emergência, e são os pântanos da margem do Cacine que se aproximam vertiginosamente. Procura ainda a direcção do quartel, aonde veio como um fogo protector, agora é ele quem vai precisar de protecção. Arranca a duas mãos o manípulo de ejecção, mal se dá conta e já está cá fora, atirado ao vento, nem lhe dão tempo de ver onde cair porque já se vai rasgando numas árvores, a altitude é tão baixa que nem o pára-quedas teve tempo de abrir. Passará esta noite escondido no mato, o corpo sangrado em farrapos, e amanhã há-de encontrá-lo vivo um grupo de caçadores-pára-quedistas. E muita sorte teve, que foi só o primeiro e escapou. Nos próximos quinze dias, cinco aviões vão desaparecer dos sertões deste império, levados por um fogo misterioso. E quando vierem os caçadores-pára-quedistas não acharão lá dentro ninguém vivo.

O viajante senta-se numa pedra, amparada a cabeça em dois punhos. Quem o vir de longe vai dizer que é um tolinho, ali sentado à torreira do sol, amargurado e solitário. Mas o viajante não leva a mal. Há pesadelos que só pode entender quem os viveu, e ele muito suspeita de que este povo é, há séculos, um rebanho tresmalhado. A dona Ermelinda numa padaria de S. Paulo, o senhor Máximo e a mulher numa fábrica de borrachas de Lyon, o soldado Pessoa a despenhar-se num sertão do império, e o senhor Albino a lavrar as suas terras miúdas, no vale da ribeirinha, sem saber o que fazer à vida. Enquanto andar cada um afogado na sua procela pessoal, não haverá para eles tempestades colectivas. E o viajante, que se apercebe disso, não é capaz de afastar os olhos do vulto deste avião, nem de arrancar da memória um milhão de portugueses, que durante um ror de anos deu o tempo melhor da sua vida, ou a melhor parte do seu corpo, como neste caso do soldado Pessoa, para alimentar epopeias de fumo. Dez mil deram o corpo e o tempo inteiros, que era tudo o que tinham, para os sátrapas que mandavam no país terem tempo de fazer as exéquias dum império de brumas. E nenhum tempo lhes foi suficiente.

Tenha embora a questão importância primeira, não pode o viajante ficar aqui a vida toda, a pensar numa bezerra que está morta. Por isso vai regressando ao carro, que a esta hora é um forno. A ribeirinha já fugiu para a direita, conforme ficou dito, e o viajante está parado ao fundo do vale. Ia agora mesmo voltar-se para trás, para a última mirada, de que fala o manual dos viajantes. Mas este não quer fazê-lo, tem medo de que lhe fiquem lá os olhos. E vai precisar deles, que já em frente se alargam as charnecas da quinta do Ferro, a reclamar atenção.

Jorge Carvalheira

Você

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Há o «você» tímido. Julgávamos poder usar «tu», mas receamos ferir. «Você podia baixar o som?»

Há o «você» jogando pelo seguro. Usar «o senhor» parece-nos exagerado respeito, mas falta-nos descaramento para o «tu». Costuma durar pouco.

Há o «você» prepotente. É o do patrão com o trabalhador. O do mandão das berças com o empregado de mesa na cidade.

Há o «você» desdenhoso. Quando substitui um «tu» já instalado, é assassino.

Há o «você» carinhoso. O que usamos com as crianças. Evita-se o pronome, mas usam-se as formas verbais. «Ande, coma a papinha».

Há o «você» filial. É comum no Norte, mas raríssimo no Sul.

Há o «você» anti-autoritário. Usam-no os pais para os filhos. Mesmo quando os filhos os tratam por… «tu».

Há o «você» telenovela. Ninguém se lembraria de usá-lo, não soasse ele tão brasileiro. Sente-se a gente um pretendente duma sinha moça, ou ela própria.

Há o «você» publicitário. «Existimos para você».

Há o «você» snob. Usam-no em boas, mas muito boas famílias, o homem para a mulher, a mulher para o homem. O irmão para a irmã, a irmã para o irmão. «Maninha, traga-me o jornal, seja simpática».

Há o «você» de escritório. Dez, vinte, trinta anos, dia após dia ao lado daquele tipo. Mas nunca lhe hei-de dar confiança. Mesmo quando sairmos daqui velhinhos.

Há o «você» quem-quer-que-você-seja. Um mapa, uma setinha e a informação «Você está aqui»

Conhece você outros «vocês»? Diga quais.

Vender saúde

Os bons frades fabricam e vendem o milagreiro tónico: uma mistura de aloé vera com mel e sabe lá Deus mais o quê. Eles não são avaros na promessa: a tal planta — que hoje em dia já infestou detergentes para a roupa, cosméticos, iogurtes, sabonetes, etc. — parece ter “poderes curativos” capazes de erradicar o cancro, pelo menos numa “grande percentagem de casos”.
Passei por lá em plena hora de ponta. Casais, velhos sozinhos, jovens de olhar furtivo; um corrupio de gente a sair dali com as preciosas garrafas. Quase todos corriam, sabe-se lá contra que adversários temíveis. Todos agarravam os seus sacos de plástico com ambas as mãos. Estão agora, mais do que nunca, lembrados de como a esperança é frágil.

SOBRE AS IDENTIFICAÇÕES – BdIs e BdEs.

Como ontem não vi absolutamente nadinha no Diário de Notícias nem no Público que a mim me parecesse digno das atenções das cabeças desvairadas que aqui vêm largar curas temporárias para males políticos permanentes, ou mobilizante do espírito de combate das infantarias maledicentes, aproveito para visitar a secção da loiça de barro estalado que acaba os seus dias como vaso improvisado, berço de salsa ou salva, num canto de quintal duma senhora pobre e viúva.

Segue-se que aos mais curiosos foi ontem oferecida, sobre a bandeja introdutória do Valupi ao meu escrito sobre os vários cinzentos-osga que dominam os palcos políticos a leste e oeste de todas as ideologias, uma oportunidade única e não repetível para descobrirem, com um pouco de paciência, no BdE, as origens blogosféricas da minha personalidade, as minhas idiossincrasias, princípios da minha identidade a partir do ovo social e grupo sanguíneo… Felizardos, felizardos, seus leonardos, que não sabeis para onde voltar-vos. Tratava-se, para o Valupi, julgo eu, dum dever, duma homenagem, espécie de esclarecimento de roda-pé-não-se-esqueçam com a intenção prima de preparar alguns para a refeição estranha que ele lhes punha no prato.

Mas não era preciso. Assinar o que escrevo sob o pseudónimo de Germano Filipe ou o meu verdadeiro nome de Bomba Madalena II, generala da beira-rio, não influi nem agrava, altera ou beneficia o conteúdo ou significado das declarações nem a verdade das suposições nem o objectivo dos ensinamentos nem a moralidade ou imoralidade das confusões. A verdade independe do preço das maçarocas e das camisas que as vestem. Lembrem-se que o Álvaro Cunhal não assinava tudo o que escrevia. E no fim levou um dos maiores funerais de sempre, se calhar uma estátua inderrubável a eternizá-lo algures numa terra proletária como eu. Uma pessoa tem que pensar na posteridade a que tem direito.

Um dito de anónimo, quando não encerra ofensa de fazer sangue nas honras, virgindades reais, relativas ou perversas, de políticos, banqueiros e padres da melhor estirpe rabo-jesuítica, que não deixe entrever a selvajaria dum cérebro demente, na acepção física, espiritual e aritmética do termo, tem tanto valor, ou tem menos, ou mais, se calhar os dois, como valor tem a frase pomposa e pingante de rodeios e madeixas onduladas do catedrático reconhecido e respeitado. Sem desprimor para os lentes de primeira e segunda que adornam estas páginas. Valha-nos isso, senão este mundo já tinha acabado com os pios de gente como eu.

Queria acabar isto com uma frase de latim, mas não encontrei nada no frigorífico. Raios partam a sorte.

TT (forever)

Crítica Nocticolor

Começa, com o texto abaixo, a participação no Aspirina de uma personalidade de vários nomes e muitos mais enigmas. Temos o gosto da sua companhia desde o BdE, quando o Fernando, eu e ele nos descobrimos numa inverosímil e bombástica afinidade (a que outros se juntaram, como o Luís Oliveira e o Filipe Moura, por exemplo). Coisas desta coisa — palavras escritas, anonimatos, imaginações à solta. Enjoy.

A noite passada, aí por volta das duas, abri os olhos e tive de imediato a certeza de que não iria tornar a fechá-los antes das três, ou mesmo mais tarde, quem sabe até se lá pelas horas dos galispos. Virei-me, portanto, a “trabalhar”. A lucubração na posição horizontal é, como se sabe, um hábito facilitado pelos negrumes de quartos das traseiras. E não custa nada nem dói, é tudo trabalho de cabeça, contas de somar, ejaculações heróicas do estro que duram uma eternidade. Em resumo: produções no vazio com consumos baixos de energia. Daí que até encoraje com gosto estes devaneios nocturnos, em tempos de crise, especialmente, ou quando me envolvo com parvos do meu tamanho na discussão das ideias políticas inventadas para nos distraírem e nos conservarem frios — frio, frio, como as pedras do rio das infâncias de mistério e procura. Ideias que, permitam-me que deixe isto claro não vá cair no ressono novamente, nos empurram constantemente para becos circulares mal iluminados e de arquitecturas bizarras, maldosas na intenção primeira e longínqua, inverificáveis e improváveis sem ajuda de microscópios negros ou de leituras recomendadas pelos santos-ofícios dos partidos.

“Trabalho” é como eu — Homem Bom e de Nobres Sentimentos, algemado a vaidades inexplicáveis, a vícios de apreciação de perfumes de rosas e ervilhas-de-cheiro que a minha mulher transplanta e semeia e trata constantemente com enlevo e a outros bons costumes que diluem em parte as raivas enlatadas que me dormem no peito há um ror de tempo — prefiro classificar os meus discursos imaginários de descontentamento, discursos de apontar o dedo, por vezes o do meio, grosseiro, de reparar com deslouvor, de permanecer convictamente zangado e cansado com a Política. Na malvada vigília de ontem à noite, deu-me para aspergir acusações aciduladas sobre um congresso de indivíduos vestidos de cinzentos corrompidos, contudo crentes (admirai esta inocência!) de que estão a fazer o melhor que podem para o bem do aglomerado-nação que tende cada vez mais a bater menos palmas à excelência musical demonstrada por esses senhores pela via de pandeiretas e outros instrumentos percussão. O teor do meu vigilante raspanete foi simples e quase inofensivo, mas a respeitável amplitude que lhe imprimi encarregou-se do resto pela serra abaixo, atravessou muros e galgou valados e espalhou-se por terrenos com delimitações políticas cada vez mais duvidosas e propositadamente complicantes. De facto, não poupou nada nem ninguém na torrente do derrame quente, mas não excedeu — importa reparar nisto porque é a prova suprema da bondade que vive dentro de mim — a violência da mera arranhadela às peles bronzeadas dos desvergonhados, à mandriice e aos interesses calculistas subordinados ao rolamento de esferas que mantêm a Promessa Politica em eterno movimento igual. Infelizmente, sobrou um único mas importantíssimo problema. Nenhum desses gatos da restrita e exclusiva comunidade palreira, objectos do meu furor à distância, me viu ou ouviu. Tiveram sorte, os malandros.

Há no entanto uma reduzidíssima possibilidade de que os homens de cinzento tenham sentido ou pressentido, detectado com os seus narizes, o gás revelador da presença e da intenção que telepaticamente transferi para os espaços vitais e necessários à expansão dos seus vácuos decretórios. Se isso não passa de suspeita infundada de quem não gosta de passar uma noite a trabalhar para o boneco, também não vou chorar, sequer amuar, ou morder a fronha asseada onde assento a cabeça de menino a quem nunca foi dado o chupa-chupa da absolvição, do reconhecimento, o doce da consolação merecida. Porque ainda tenho forças para levantar-me novamente e teimar, cambaleando, encostando-me aqui e ali, evitando sujar as mãos ou gatinhar como eles com as barrigas a lamberem as lamas da explicação fácil. Daqui, meus senhores cinzentos, pardas almas, ainda consigo manter funcional a capacidade para fixar os olhos num ponto móvel iluminado, esperando o lock perfeito no centro do esplendor, possível e ao alcance de qualquer um numa singela noite de vigília. E por aqui me vou indo, imaginando, medindo e considerando com cuidado, se isso for absolutamente necessário para manter respeito por realismos, a irrelevância ou pouco interesse que esta exposição encerra para aqueles que dormem com as consciências limpas a pensarem na bola redonda e no amor-livre masturbativo. E estendo este braço esquerdo e esta mão direita. Estendo-os sem ideias preconcebidas baseadas em percentagens. E sacrifícios, pois bem, se os há ou houver nesta procura, são de amor puro e dedicação à Nação-querida-da-minha-alma-lusitana, mãe de dez milhões de cidadãos de todas as idades e proprietária orgulhosa dum par de belíssimas e curvilíneas auto-estradas.

TT