As mortes da bezerra

É o que sucede a quem se põe a viajar, dobra-se uma esquina e logo nos dão os olhos numa surpresa nova. Ora este viajante é imaginativo, quando não fantasista, conforme já se viu. Mas a tanto não se atrevia a sua imaginação. Pois o que está agora a ver, depois que passou a ponte da ribeirinha e se despediu de Palhais, é um avião a jacto em carne e osso. Estacionou ali ao cimo da colina, num descampado. E embora mostre um ar afoito e destemido, capaz de engolir o vale inteiro, não parece ter alento para voltar às alturas.

O viajante reconhece-o logo e fica em grande sobressalto. Pára o carro à beira da estrada, sobe uma parede e corre para ele. Se alguém o vir de longe, o senhor Máximo do seu alpendre, vai dizer que este viajante é um tolinho. Porque se põe a andar à roda do avião, a passar-lhe a mão afectuosa pelo nariz, pelo bordo quente da asa, pelo fio dos lemes da cauda, pelos flancos redondos da barriga. Mete a cabeça na boca do motor e no escape da turbina, à procura de imagens e de cheiros antigos, quem o vir de longe não sabe que o viajante tem lágrimas nos olhos, porque lhe acordaram de súbito no peito emoções que viveu, e viu viver, num tempo tão antigo, e tão presente, e tão contraditório, parece mentira que tenha havido um tempo assim.

E no entanto houve. Que o diga este soldado, que se chama Pessoa, e mais lhe valera não o ser, antes um bicho qualquer. Está dentro deste avião, amarrado no minúsculo habitáculo, e já vai à procura dum quartel que está em desespero nos confins do sertão. Veio ao rádio aos gritos, a pedir um apoio de fogo, por ser o fogo tanto à sua volta. Lá vai ele no ar, e já sente na cauda uma explosão violenta, já o motor se lhe apagou, e já o duro pégaso de ferro recusa obedecer aos seus comandos. Este soldado que se chama Pessoa nunca teve na mão uma máquina tão perfeita como este motor. Mas nem ele responde ao arranque de emergência, e são os pântanos da margem do Cacine que se aproximam vertiginosamente. Procura ainda a direcção do quartel, aonde veio como um fogo protector, agora é ele quem vai precisar de protecção. Arranca a duas mãos o manípulo de ejecção, mal se dá conta e já está cá fora, atirado ao vento, nem lhe dão tempo de ver onde cair porque já se vai rasgando numas árvores, a altitude é tão baixa que nem o pára-quedas teve tempo de abrir. Passará esta noite escondido no mato, o corpo sangrado em farrapos, e amanhã há-de encontrá-lo vivo um grupo de caçadores-pára-quedistas. E muita sorte teve, que foi só o primeiro e escapou. Nos próximos quinze dias, cinco aviões vão desaparecer dos sertões deste império, levados por um fogo misterioso. E quando vierem os caçadores-pára-quedistas não acharão lá dentro ninguém vivo.

O viajante senta-se numa pedra, amparada a cabeça em dois punhos. Quem o vir de longe vai dizer que é um tolinho, ali sentado à torreira do sol, amargurado e solitário. Mas o viajante não leva a mal. Há pesadelos que só pode entender quem os viveu, e ele muito suspeita de que este povo é, há séculos, um rebanho tresmalhado. A dona Ermelinda numa padaria de S. Paulo, o senhor Máximo e a mulher numa fábrica de borrachas de Lyon, o soldado Pessoa a despenhar-se num sertão do império, e o senhor Albino a lavrar as suas terras miúdas, no vale da ribeirinha, sem saber o que fazer à vida. Enquanto andar cada um afogado na sua procela pessoal, não haverá para eles tempestades colectivas. E o viajante, que se apercebe disso, não é capaz de afastar os olhos do vulto deste avião, nem de arrancar da memória um milhão de portugueses, que durante um ror de anos deu o tempo melhor da sua vida, ou a melhor parte do seu corpo, como neste caso do soldado Pessoa, para alimentar epopeias de fumo. Dez mil deram o corpo e o tempo inteiros, que era tudo o que tinham, para os sátrapas que mandavam no país terem tempo de fazer as exéquias dum império de brumas. E nenhum tempo lhes foi suficiente.

Tenha embora a questão importância primeira, não pode o viajante ficar aqui a vida toda, a pensar numa bezerra que está morta. Por isso vai regressando ao carro, que a esta hora é um forno. A ribeirinha já fugiu para a direita, conforme ficou dito, e o viajante está parado ao fundo do vale. Ia agora mesmo voltar-se para trás, para a última mirada, de que fala o manual dos viajantes. Mas este não quer fazê-lo, tem medo de que lhe fiquem lá os olhos. E vai precisar deles, que já em frente se alargam as charnecas da quinta do Ferro, a reclamar atenção.

Jorge Carvalheira

3 thoughts on “As mortes da bezerra”

  1. Com calma “o” venho lendo.
    Há uns tempos já.
    O seu humor sempre e requintadamente irónico; céptico; algumas das vezes um tanto sádico; a sua constante insatisfação; dando lembranças dum certo desraizamento socail, fez-me lembrar (imagine!) um distante livro publicado em 2002 entitulado “O Mensário do Corvo”.
    Apesar do seu alegorismo e da falta de maiúsculas (agora usa-se) quero deixar aqui o meu agradecimento pelos momentos divertidos e gratificantes que a curta mas bela escrita proporcionou.

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