Todos os artigos de Aspirina B

Casa grande

– O que é que o senhor procura?
A interpelação acorda-o, e vem duma mulher vestida de preto, de vassoura na mão, no gesto de quem varre o pátio de cimento. O viajante já se tinha esquecido do que um dia leu nuns livros, mas aqui se lembrou novamente de que as palavras são mais que simples pedras atiradas ao vento. São como um cristal as palavras, disse-o quem sabia. Há que tomá-las na sua circunstância, atentar na moldura que as envolve, e observar com muito entendimento a ramagem que as enfeita. Não fora o tom cantado da voz, o sorriso aberto na cara desta miúda silhueta escura, e assim tão de surpresa interpelado, com tais palavras e uma lança nas mãos, lá ia o viajante, castelhano não sendo, pôr-se a imaginar uma padeira nova de Aljubarrota. Muita injustiça há neste mundo!
– Queria ver a sua igreja, por fora é bem bonita! Sabe quem tem a chave?
– Pois tem a porta aberta, aí ao lado! E o cemitério antigo, lá atrás, veja à sua vontade!

Jorge Carvalheira

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A Casa do Pai

Seja a casa com portas só de abrir,
Sem grades nas janelas e sem aço.
E que nos aconchegue em cada abraço
Sem nunca ser abraço de ter de ir.

Seja a casa de estar, não de partir.
Que nos aceite, mortos de cansaço,
Com um beijo de amor por cada passo
Dado em muitos regressos, sem sair.

Uma casa que nunca nos pergunte
Que outras casas buscámos e que telhas.
Que toda a gente à porta se nos junte

(Quando algum dia a vida nos demore)
Com um ramo nas mãos – rosas vermelhas.
Mate o bezerro gordo, mas não chore.

DANIEL DE SÁ

Por desacerto mental – não por abuso ou vontade de apropriação – este poema esteve horas aqui sem a assinatura do autor. Parecendo, pois, meu. Não é. Lamentemo-lo.

«O preço de um ‘Scolari’»

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Lendo – já tarde – o «Público» de hoje, dou com esta Carta ao Director.
O autor é da casa. Por isso, esta discreta divulgação.

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Todos condenamos facilmente atitudes como a de Scolari depois do jogo com a Sérvia. Ainda que a muitos apetecesse o soco que ele não chegou a dar. A violência não é a finalidade do desporto, tanto mais que idealmente o imaginamos como escola e prática de virtudes.
Pelo Natal de 2005, tive a grata surpresa de uma amiga comum me ter posto em conversa telefónica com o “Felipão”, porque ela sabia que eu o admiro e, por um acaso vindo da infância, torço pelo seu verde Palmeiras. Uma das coisas que lhe disse foi que o futebol era uma escola exemplar de disciplina. Sem tempo então para lhe explicar a ideia, faço-o agora, caso ele leia esta carta.
O gesto irreflectido de Scolari pode custar-lhe muito caro. Muito mais caro do que o mesmo gesto em outras circunstâncias da vida. Sá Pinto pagou um preço altíssimo pelo seu impulso vingador da honra que julgou ferida. O equivalente a muitos milhares de contos e a quase um décimo da sua carreira. Duas faltas leves durante um jogo de futebol podem equivaler a um cartão vermelho, com a respectiva expulsão e o consequente prejuízo de milhares de euros, além de uma multa de centenas. E vale o mesmo uma simples palavra de desabafo em calão.
Não sei que castigo será julgado justo para Scolari. Mas, por mais leve que seja, será sem dúvida muito mais grave do que se ele tivesse perdido a calma num gabinete de trabalho ou num bar de esquina.
Talvez não possa nem deva ser de outra maneira. Mas que há uma enorme desproporção entre a justiça desportiva e a comum, disso não restam dúvidas.

Daniel de Sá
Maia, São Miguel

A fome e o pão bento

O velho carregava uma montanha de anos pelo outeiro acima. Curvado sobre uma cana a servir de bordão. Ia muitas vezes ao mato buscar uns gravetos para a lareira ou o forno. Nesse tempo, não havia subsídio de invalidez nem de velhice. Só invalidez e velhice.

Por isso procurava passar sempre à hora certa, mas fingindo que o fazia por acaso, pela cafua onde pai e filhos comiam ao meio-dia. A pergunta do convite era invariável, a resposta também. E lá vinha a bendita fatia de pão de milho, com um chicharro ou um bocado de cavala.

Aquele pão, assim partido e repartido, assemelhava-se à bênção da Última Ceia.

DANIEL DE SÁ

Diálogo ingénuo

– Mamã, há monstros debaixo da cama?
– Não digas disparates. Há lá nada!
– Mas se houvesse?
– Fazias de conta que não sabias, e pronto. Come a sopa.
– E eles deixavam de meter medo?
– Pois deixavam. Mas vá, come a sopa, que há muitos meninos que querem comer e não têm.
– É verdade?…
– Sim, é verdade.
– Mamã, como é que se faz de conta que não se sabe?

DANIEL DE SÁ

Poema das sete viúvas de Moura

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Na rua das sete viúvas
Travessa do Fala Só
À noite tiram as luvas
E vão jogar dominó
Depois de lavar a loiça
Fica um pano a tapar
Um barulho que se oiça
O encontro é o lugar
Das sete viúvas na rua
Sete viúvas no espaço
A luz é dada pela Lua
O encontro é o abraço
Na rua de sombras tortas
À noite pára o trabalho
Depois fecham as portas
E dividem um baralho
São sete falta um parceiro
Para formar duas mesas
Ninguém joga a dinheiro
Nem espera por surpresas
Na rua de sombras tortas
Por causa da geometria
As memórias quase mortas
Procuram a luz do dia
Rua das sete mulheres
Onde me deixo ficar
Num arquivo de saberes
Na vertical do lugar
Rua dos sete sentidos
Em busca da direcção
Tantos amores perdidos
No espaço do coração
Rua das sete virtudes
Dentro de cada casa
Água fria em almudes
Calor de fogo na brasa
Rua das sete canções
Cantadas muito baixinho
Por quem faz dos serões
Maneira de ser vizinho
Rua das sete senhoras
Nesta rua de um só lado
O relógio não tem horas
Todo o tempo é passado
Rua dos sete caminhos
Onde nasce uma moral
Todos dormimos sozinhos
Mesmo em cama de casal

José do Carmo Francisco

Moda campaniça

Nas terras do Alentejo
É tudo tão asseado
As casa e os corações
Sempre tudo anda lavado

Popular – Baixo Alentejo

Nesta tarde de nevoeiro
Onde o olhar se espreguiça
Vem do lado do Barreiro
O som de uma campaniça
Vem do lado do Barreiro
Passa por cima do Tejo
Mas o som chega inteiro
Como no Baixo Alentejo
Oiço o coro já se arrasta
No fundo da minha rua
Mas o coro não me basta
Quero ouvir a voz que é tua
Eu faço de cada poema
As cordas de uma viola
E escondo-me no cinema
Sempre que falto à escola
Julgo ver o teu olhar
Na linha do horizonte
Silhueta a atravessar
A estrada para o monte
São casa, são corações
Onde quero ser habitante
Procuro nestas canções
Chegar ainda mais adiante
Quero ouvir-te em directo
Sem recurso ao diferido
Quero um poema concreto
O título está estabelecido
O título está no teu nome
Os versos são os teus dedos
Os meus olhos têm fome
Do doce dos teus segredos

José do Carmo Francisco

Os olhos de Rosário

É nos olhos de Rosário que se principia
Todo o ritmo dos momentos desta casa
Há neles o verde do pinhal, a ventania
E a chama da lareira, sempre em brasa

Nunca desiste do seu olhar, preocupada
Para que tudo seja para todos harmonia
Acorda sempre com a luz da madrugada
E só descansa quando chega o fim do dia

E mesmo a voz é no olhar que se desenha
E até as mãos partem do olhar à procura
Trazendo nas palavras um calor de lenha
E nos seus gestos um bálsamo de ternura

São faróis que durante uma tempestade
Ajudam os outros a encontrar a bonança
Os olhos de Rosário são a luz e a verdade
Que nasce todos os dias – e não se cansa

José do Carmo Francisco

Laurent Filipe

Se pudesse escrevia os poemas em surdina
Tal como este som que me chega devagar
De uma fonte que o ouvido não determina
Mas capaz de alterar o espírito deste lugar

O som da trompete leva-me numa viagem
E estou de novo no coreto de uma aldeia
Numa festa de Verão mas uma paisagem
Tão diferente desta outra, mais fria e feia

Se pudesse escrevia os poemas em surdina
Com as sílabas dispostas numas camadas
Numa vagarosa construção que dissemina
Uma luz capaz de abrir as salas fechadas

Não me vou cansar de ouvir estas canções
Onde a música é um calor de fogo e brasa
O fraseado acumula os motivos e as razões
Uma trompete veio modificar a luz da casa

Se pudesse escrevia os poemas em surdina
Foi comprada no Custódio Cardoso Pereira
A música continua quando o resto é a ruína
Aquece a minha vida no Inverno sem lareira

José do Carmo Francisco

Ramón vermelho

À beira da estrada, num pequeno café, encontra o viajante refrigério. Que além de professora reformada e boa conversadora, a dona Mariazinha é a gentileza em pessoa. Os clientes são escassos, para não dizer nenhuns, salvo este velhote que tem bócio e veio encher a garrafa do tinto. E ela está entretida no croché, enquanto a irmã lá dentro traquina na cozinha. Logo quer saber a que anda o viajante, assim exposto ao calor, e o que faz ele na vida, e donde vem. Mas depressa aparece a cozinheira, a dar fé do que se passa. E acabam, ambas as duas, a contar ao viajante a história de Ramón.
O homem dormia na casa da escola, num quarto que ficava por trás do quadro preto. A dona Mariazinha e a irmã eram crianças na altura, e nunca mais se esqueceram do mistério. A professora encostava todos os dias o quadro àquela porta, e proibia alguém de lá entrar. Um dia em que a apanharam distraída houve quem a fosse abrir, e todos viram Ramón, que estava a dormir lá dentro. Logo nesse dia soube a aldeia inteira que havia um homem na casa das professoras.
Elas eram três irmãs. Uma trabalhava na costura, outra ocupava-se da casa, e a terceira dava aulas aos garotos. O homem era galego, dos vermelhos, andou na guerra de Espanha. E quando caíram as portelas da serra de Guadarrama, e a Casa de Campo sucumbiu às investidas, perderam-se também as esperanças de Ramón. Com o batalhão destroçado, em vez de recolher à ratoeira de Madrid, enterrou a escopeta por trás duma ruína e pôs-se a andar na direcção contrária. Mais de noite que de dia, mais por carreiros de bichos que por caminhos de gente, viu ao longe a serra de Ávila, depois os montes de Francia, passou dias escondido em casebres de pastores, um era de Alba de Tormes, outro era de Santo Estêvão, três vezes morreu de fome, e já lá iam dois meses quando uma noite saltou o rio Águeda e chegou a Portugal. Alguém lhe deu inculcas em Almendra, e só assim ficará explicado que o homem tenha vindo bater à porta do padre Júlio, aqui nos confins do mundo.
Durante muito tempo não saiu Ramón de casa, que o padre Júlio não era tolo nenhum. Até que um dia calhou ele morrer, e o Ramón foi ao enterro. Desde então deu em sair à rua, que já não aguentava a solidão. Juntou-se às fainas do campo, pôs-se a trabalhar à jorna, fez amigos aí no povo. No final já se mostrava pelas festas, não faltava a um bailarico, era mais um entre a gente. Sabia a guarda do caso há muito tempo, e as ordens eram severas. Mas sempre que ela aparecia, alguém havia a passar a palavra. E sumia-se o Ramón, no quarto por trás do quadro.
Um dia apareceu no povo um amola-tesouras que ninguém conhecia. Ficou dias por aí, rua abaixo, rua acima, a soprar numa flauta esganiçada. Foi ao Zabro, às Moreirinhas, aos Moinhos das Cebolas, a meter-se no coração a toda a gente e a dar fé das passadas de Ramón. Já não havia mais facas para aguçar, nem mais tesouras da poda, nem navalhas da enxertia, quando a guarda cá voltou. E o amolador, que afinal era espião, delatou-lhe o segredo de Ramón.
O padre já cá não estava, que era duro de roer. O Ramón foi parar ao calabouço, antes de o devolverem ao Vale dos Caídos, onde acabaram com ele. E a dona Mariazinha e a irmã ficaram sem escola, que as professoras desapareceram daí.
À saída, depois das alongadas despedidas, passa o viajante por uma escola abandonada. Mas não era a desta história. E pensando um pouco mais, conclui o viajante que o rei que Moreira teve não foi o pobre Dom Sancho.

Jorge Carvalheira

CÔRTE? CÓRTE? UM ESPANTO.

Eu já tinha lá passado, no blogue Intermitências da Corte. Lá. Aqui. Mas agora foi para ficar.

A história curta, e mais ainda a supercurta, pode ser um espectáculo. Alguns dos seus cultores habitam o meu Olimpo privado. Como este. E este (comentado aqui). E este.

Os melhores momentos da arte de Confúcio Costa é em tudo comparável aos melhores momentos da arte desses outros. Com uma diferença: a do seu lado cru, com dedos a voarem, com ossos a estilhaçarem-se. É para aficionados – que sempre, incompreensivelmente, os há. Mas é arte, da mais pura, da que mais nos aquece a alma por vê-la feita no nosso idioma.

Fez-se aqui uma homenagem ‘provisória’ a Confúcio Costa. Esta, agora, é definitiva.

Tipo assim

Sou um viciado em linguagem da plebe. Da plebe culta, esclareço, aquela onde mais acontece roçar-me. Assim tipo… Atenção, isto não anuncia nada. «Assim tipo» é já linguagem da plebe que se cultiva.

É assim. Um gajo senta-se incógnito, à escuta, junto a uma mesa com umas… Como? Eu escrevi «É assim»? Não posso crer, isto nunca me aconteceu. Como? Escrevi também «Não posso crer»? Bom, senhores. Esqueçam. Eu não disse nada. Tchauzinho e até mais.

Tá vendo?

Tratam-se todos por você…

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Em 1908, Raul Brandão escreveu um capítulo muito curioso das suas Memórias (publicadas em 1919) que terá algum interesse recordar aqui. Quando nos queixamos de que a malta nova hoje não se preocupa em falar ou escrever utilizando o português escorreito e limpo, faz sorrir esta nota sobre aquilo que alguém definiu ao tempo como gente «smart». Vejamos.

«Distingue-se das outras por várias coisas; por exemplo: desprezo absoluto pela prudente instituição do chaperon (esses entretêm-se com o bluff) – desprezo absoluto pelas boas maneiras, pela cortesia corrente (só se cumprimentam as pessoas que passam de perto e essas mesmas com marcada indiferença) – ignorância completas das regras da gramática (isso seria falar difícil) e da ortografia. Cultivam só o corpo diplomático e a religião; vestem bem, jogam muito, dançam muito e bem e flirtam na perfeição. Votaram ao ostracismo algumas palavras que nós dizemos e que são possidónias como: chávena, trem, farmácia, Carnaval, etc. Tratam-se todos por você, alguns têm muita piada e usam todos um ar muito chateado. É da praxe, o calão.»

E para completar, aquilo a que hoje chamamos comunicação social:

«Esta sociedade que anda todos os dias nos jornais, vem do alto até baixo, da aristocracia ao povo, forma uma lista infindável, tem um cronista célebre, o senhor Luiz Trigueiros e pode ser vista às tardes no Dia e de manhã no Diário Nacional…»

José do Carmo Francisco

Um largo atordoado

As ruas de Moreira têm calçada antiga, do bom tempo, não ficaram à espera que os fundos europeus viessem cuidar delas. E depressa chega o viajante ao largo do pelourinho, vistoso exemplar manuelino com cinco degraus. Cercado de fraguedos e hortas secas, o povoado é pequeno. Filho de estratégias muito antigas, nasceu à sombra do castelo que além está, no alto dum penhasco. Ganhou em esplendores e amplidão de vistas o que perdeu em espaço vital. Afora as casas, algumas modernizadas, tudo o que se pode ver neste adro minúsculo são antiguidades de outro tempo. A primitiva igreja de Santa Marinha, há muito sem usos litúrgicos, ainda hoje tem à porta o padrão das medidas correntes, entalhado nas colunas. Bastando a qualquer um dois côvados de burel para cobrir os ombros, estava aqui a justa medição. E se estes primores de pedra do pelourinho impressionam o viajante, mais o comove a secular gravidade do negrilho ali ao lado. Já sustentou uma frondosa copa, já a perdeu, e agora ganhou outra renovada. Só a frescura da sombra, que o viajante aproveita, é que se mantém igual.
Mais antigas do que o largo, e o castelo, e o negrilho, são estas sepulturas cavadas a picão, na fraga dura. A igreja de Santa Marinha foi-lhes construída em cima, e muitas outras ficaram por aí, disseminadas no largo. Há sepulturas debaixo das casas e dos canteiros de flores, algumas estão cobertas pela base do pelourinho, outras foram ocupadas pelas raízes do negrilho. A julgar pela dimensão e a fundura, dormiram nelas o sono derradeiro adultos e crianças, infantes e anciãos. Fossem eles justos, fossem pecadores, adormeceram todos a contemplar o sol, que todas elas foram escavadas na direcção exacta do nascente. Estão aqui, ombro com ombro, na grande igualação da morte. Mas porque o nascer do sol varia de lugar no horizonte, nem todas são paralelas. Este aqui morreu dos frios do inverno, aquele além sucumbiu às estiagens do verão, põe-se a imaginar o viajante. Se as contas baterem certas, logo aqui se pode ver a falta que faz ao mundo a sombra refrescante dum negrilho, e o fogo dos ramos dele.
Para chegar ao penhasco do castelo tem este viajante que subir uma empinada ladeira. Já passou à porta duma mulher de preto, que tem os figos a secar num tabuleiro, enquanto malha o feijão à sombra dum alpendre. Mas vinha tão afoito e decidido, à procura da cadeira do rei Sancho, que o viajante mal lhe deu a salvação. Muito a custo subiu à cidadela, ao pouco que dela resta, com este sol desapiedado a morder-lhe nos costados. Não viu cadeira nenhuma, e as bagas de suor que já lhe escorrem da fronte põem-no descorçoado. Manuel não está aqui para o ajudar. E apesar do panorama deslumbrante, decide bater em retirada, para escapar à canícula.
Bom refúgio era a sombra do negrilho, se não estivesse ocupada por duas famílias buliçosas, à volta dum farnel improvisado. Vêm dos lados de Aveiro, e andam à procura de alguma casita velha que possam reconstruir, cativas deste silêncio e do sossego da aldeia. Mas fazem tal barulheira que logo veio um vizinho, a explicar as qualidades dum queijo que lá tem para lhes vender. As mulheres falam tão alto que deixam o adro inteiro atordoado, era uma vez o sossego dum largo. E o viajante despede-se do negrilho, algum lugar há-de haver onde matar a sede.

Jorge Carvalheira

Dança comigo

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sobre um óleo de António Carmo

Não sei dançar. Nunca senti no meu corpo o motor do ritmo, a locomotiva que prolonga e amplia, nos salões ou nos jardins, a alegria de uma música vivida a dois.

Não sei dançar. Nem sei se alguma vez entrarei na difícil empresa de celebrar uma festa situada entre os pés ligeiros, soltos, e o olhar que os comanda, firme.

Não sei dançar. Nunca dancei, mas, ao ver o teu olhar dentro da luz do óleo de um quadro, entre a casa à direita e a árvore à esquerda, com a viola campaniça ao centro, então, só então, sabendo que és mesmo tu, serei capaz de, tímido e receoso, te pedir em voz muito baixa: «Dança comigo!»

Não, como é lógico, para dançar, mas, apenas e só, para juntar as minhas mãos às tuas e, em silêncio, esperar que a música da viola campaniça atravesse toda a linha do horizonte da planície e venha depositar a teus pés todo o perfume das searas e da terra.

José do Carmo Francisco

A cadeira do rei Sancho

A Moreira de Rei já chamaram ninho de águias, sobre um montão de rochas. E o viajante concorda. Se das águias não encontra sinal, que o tempo as levou para outros ares, já o ninho cá ficou e rochedos não faltam. Só a história, e a teimosia dos homens no que é seu, explicam um lugar assim. A igreja, logo à entrada, é de antiga fábrica românica, com bárbaros cachorros zoomórficos. O viajante encontrou a chave na porta lateral e foi cumprimentar a padroeira, que é Santa Maria. Já viu os caixotões do tecto, pintados com cenas devotas, e os painéis com figuras de santos, que são uns regalões. No mais ignoto lugar sempre lhes cabe a moradia mais aprimorada, e nunca lhes faltam esmeros e frescuras, como agora podemos ver. As talhas reluzentes de castanho genuíno trazem ao viajante lembranças do padre Júlio, que antes de tomar aqui os paramentos descarregava as pistolas na mão do sacristão.
Do padre já se não lembra Manuel, nem a mulher, que atravessam o largo atrás duma carroça. São velhos, mas não tanto. Só lhes constam as boas famas que ficaram no povo, e ainda se lembram bem da Carlotinha e do irmão, que eram filhos. Ela há muito que se ficou num parto, ele morreu há poucos anos. Mas agora já não têm padre residente, que os não há. Chegou a haver esperanças num rapazola aí do povo, que andava no seminário. Mas um dia tomou-se de amores e resolveu desistir, Deus é quem sabe.
Saberá ou não, isso é outra conversa. O burrico é que parece não ter dúvidas, já lá vai adiante com três sacos de milho e uns molhos de feijão para secar. Os donos seguem atrás e o viajante vai com eles. Manuel andou uns anos na emigração, como toda a gente. Foi onde ganhou dinheiro para comprar esta casa e arranjá-la, aqui à vista do castelo. Mas era uma vida desgraçada, aquela, uns escravos do trabalho. Os filhos lá cresceram, lá casaram, ainda hoje lá vivem. Ele, quando pôde, escapuliu-se, que não há como viver na nossa terra.
– Tivemos cá rei e tudo! Se passar no castelo, há-de lá ver a cadeira!
Manuel esvazia a carroça e recolhe o jumento, que o afligem o calor e a mosca. E a mulher fica a espalhar ao sol as maçarocas, na laja que se estende logo ao traço da porta. A canzoada que ladra ali ao lado é do pároco da vila, que vem rezar os ofícios quando calha. E está tão belicosa a cainçada, que nem deixa conversar. Com batedores assim, o padre há-de ser bom caçador. Mas o viajante fica a pensar que o padre Júlio caçava muito melhor.

Jorge Carvalheira

Um simples apito salvou a vida do Acácio Paulino

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A vida é a arte do encontro – já dizia o Vinícius de Moraes, o branco mais negro do Brasil. Outro dia encontrei por acaso o Acácio Paulino que já não via há uns anos. Fomos colegas no BPA e já desse tempo eu sabia da sua paixão pelo mergulho. Mas não sabia que ele tinha estado, em Dezembro passado, mais de oito horas arrastado pelo mar no pequeno conjunto de ilhotas dos Farilhões, ali perto de Peniche. Mergulhando no Rabo de Asno, foi levado pelas correntes na direcção oposta a Peniche e lá conseguiu voltar para trás até ao Farilhão do Nordeste.

Entretanto a mulher insistia, mas as autoridades do Maritime Rescue Coordinatiom Centre diziam que a utilização do helicóptero está «sob consideração». Quando souberam que ele estava vivo e que tinha sido localizado por uns biólogos que ouviram o seu apito, ficaram surpreendidos. Julgavam-no morto, como mortos ficaram, dias mais tarde, os tripulantes do «Luz do Sameiro» perto da Nazaré. Depois de saberem do alerta dos biólogos, lá mandaram um barco dos Socorros a Náufragos, mas sem cobertores nem oxigénio. Enfim.

Dias depois li que uma senhora, lá para cima para Lamego, comunicou que estava perdida e tinha tido um acidente, e levantou logo um helicóptero a procurá-la. Depois soube-se que estava em casa de uma amiga sem qualquer beliscadura. Para essa senhora, praticante do desporto líquido, não houve hesitações. Para o Acácio Paulino ainda estavam a ponderar, ainda estava sob consideração… Um simples apito que lhe custou apenas cinco dólares nos EUA salvou-lhe a vida. Esta vida. Que não tem outra.

Este nosso pequeno país tem mesmo duas velocidades. É conforme…

José do Carmo Francisco