O novo videoclipe de Cat Power, «Where Is My Love?», realizado por Josh & Xander. Já vi muita coisa bela filmada com câmaras de alta velocidade (que chegam a gravar 16000 frames por segundo), mas nada como isto. Podem (e devem) ver esta maravilha com maior resolução (Quick Time) aqui.
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Conta-me o teu sonho
Não sei se há blogues de sonhos. Daqueles assim em que o mantenedor, ou a mantenedora, logo pela manhã (e, Planeta afora, a todo o instante é manhã) nos conta em que andou metida, ou metido, nas horas anteriores.
Não sei, repito, de nenhum blogue destes. Mas hão-de existir, estatisticamente – isto é, com base no que sabemos desta humanidade e desta bloguítica.
Confessar os sonhos havidos pode ser tentador (quem nunca interferiu na tranquilidade matinal de alguém com um «Tive esta noite um sonho maluco»…), mas não consigo conceber que, mesmo numa relação íntima (e sobretudo numa relação íntima), se contem os sonhos como quem responde a um «Que tal hoje o trabalho?». E assim é que está bem. Dentro da maior intimidade partilhada, é preciso que exista um espaço onde se esteja, e se fique, garantidamente sozinho.
Isto quanto aos sonhos «desta noite».
Mas há os sonhos recorrentes – os que se contam encetando por «Eu costumo sonhar com…» – e esses são bem mais inócuos, e participáveis. Vou contar um meu.
Um razoável número de sonhos, situo-os em bairros periféricos de Lisboa. Bairros que, estou perfeitamente convencido, não existem. Mas ando por lá horas perdidas, entretido em actividades de toda a ordem, que não vêm aqui ao conto.
Olho para a planta da cidade – que conheço como à palma da mão – e não sei sequer onde colocar tais subúrbios, quase sempre de um urbanismo irresponsável, mas essa é a parte menos original. Este, um sonho recorrente, nem bom nem mau, e às vezes divertido.
Mas, certa noite, aconteceu-me o reverso disto tudo. Sonhei-me num local da cidade, que efectivamente não conhecia, algures ao Alvalade. E que sucedeu? Tempos depois, em visita real, ele revelou ser, muito pormenorizadamente, como eu o sonhara. Ruas, casas, passeios, pequenos parques, e até um arco.
E pronto, paro aqui. Isto, sonhos, é mesmo tentação.
Bunny Antoinette
tempo alterno
Olha que giro: «Tags (separate multiple tags with commas: cats, pet food, dogs)»

A melhor coisa do mundo é, obviamente, a Roísin Murphy. Sempre me pareceu que a vocalista dos Moloko tinha um superavit de carisma e talento que não era compatível com o facto de se apresentar ao mundo sob o nome de uma dupla. Por isso, foi com grande alegria que, dois anos após o excelente Ruby Blue, acabo de ouvir finalmente o não menos admirável Overpowered. O novo vídeo da menina foi realizado pelo grande Daniel Wolfe e é um digno sucessor desta pequena obra-prima. Tanto a música como o vídeo constituem uma reencarnação de uma das duplas mais geniais da década de 80: Michael Jackson e Quincy Jones. Ou não houvesse hoje em dia mais ninguém no mundo capaz de encher de forma tão sublime um videoclipe com dois passinhos de dança trajada com uma roupa tão catita (esta última frase é particularmente gay, eu sei, às vezes dá-me para isto, mas reparem agora como vou tentar disfarçar com a última frase deste post). Aquelas pernas bem que poderiam frequentar alguns cafés da cidade do Porto.
viewmaster
arrumar o tempo
Aspirina Box
Coisas novas na box. Em primeiro lugar, temos Emily Haines (uma das grandes surpresas do ano) com o hipnótico «Crow Surf On A Cliff», seguido da Robert Wyattíssima versão de «Hasta Siempre Comandante» (absolutamente inacreditável o que ele faz com este clássico), Radiohead com «Reckoner» (um dos grandes momentos do novo álbum, muito DJ Shadow), Animal Collective com «Reverend Green» (sem dúvida a melhor canção que ouvi este ano), Of Montreal com uma canção cheia de grrove que ouvi há algumas a fechar um episódio do Weeds, Jens Leckman com o genialmente retropiroso «Postacard To Nina» e Familjen com o muito dançante «Det Snurrar I Min Skalle» (lembram-se do vídeo?). Depois há duas viagens ao passado distante: Serge Gainsbourg & BB em «Bonnie & Clyde» e a mais bela canção que Bob Dylan escreveu na década de 80: «Blind Willie McTell». Termino à bruta com «Staturate» dos Chemical Brothers.
deixa lá ver se sei pôr um slide-show
Retrato breve de Filipa em Vila Franca
Flor da Lezíria, menina
Em Vila Franca, cidade
Descobre a cada esquina
O mapa de uma saudade
Passam alunos da Escola
Que ficam na fotografia
Todos usam camisola
A manhã está muito fria
Fecharam as tronqueiras
Já se sente uma emoção
As paixões verdadeiras
Não precisam explicação
Entre gaibéus e avieiros
Passa a memória sentida
Do Tejo a encher esteiros
Com água que traz a vida
Os barcos cheios de areia
Chegam de manhã ao cais
Hoje o Gil Conde passeia
Nas águas do nunca mais
E no comboio que passa
Tão veloz para o Oriente
Continuar a lerRetrato breve de Filipa em Vila Franca
Panda Bear: «Comfy in Nautica»

É oficial: nunca ouvi tanta música boa como em 2007. Para além dos novos discos de Robert Wyatt, Radiohead, Studio, Animal Collective, Of Montreal, LCD Soundsystem, The Field, Phay Grand (prometo falar desse génio do rap angolano em breve), Emily Haines, Blonde Redhead, Bat For Lashes, Deerhof, Jens Lekman, The National, The Bees e Wilco, há um disco que tem estado permanente a bombar no meu ipod: o inqualificável Person Pitch de Panda Pear, um dos vocalistas e percussionista dos já citados Animal Collective e que, pelos vistos, vive há já alguns anos em Lisboa. Tive a oportunidade de ouvir o rapaz tocar o disco ao vivo em Serralves e a experiência foi absolutamente magnífica e hilariante (Noah Lennox conseguiu despachar metade da assistência ao fim de poucos minutos de uma imparável sequência non-stop digna de fazer corar de vergonha qualquer soundsystem). Faltava, no entanto, um videoclipe que fosse capaz de transpor em imagens o universo musical do mais digno herdeiro do espírito de Syd Barrett e Brian Wilson. Após o psicadelismo descontrolado (e meio decepcionante) que foi o vídeo de «Bros», Patrick O’Dell conseguiu finalmente fazer justiça ao disco, via «Comfy in Nautica». A sério, ouçam e vejam esta maravilha de som e luz solar nas calmas e com o coração aberto. É, de longe, o mais belo e inspirado videoclipe que vi este ano.
Isto há-de me passar
1 + 1 = 3
Um mashup consiste, por antonomásia htmélica, na junção de duas canções aparentemente oriundas de universos musicais distintos numa só. Embora seja possível fazer remontar as raízes deste género bastardo da música pop à década de 50 (e ao conceito híbrido de «autor» da música folk), a verdade é que o formato atingiu o auge da sua popularidade com a consolidação da Internet entre os melómanos. Essa prática tem, nos últimos anos, dado origem não apenas a alguns memoráveis MP3 e bootlegs, caso do mítico Grey Album de Danger Mouse, mas também a algumas edições oficiais de grande sucesso como a de Collision Course dos Linkin’ Park com Jay Z. Apesar desta génese musical (em tudo comparável a alguns exercícios literários do Oulipo e aos famosos cut-ups de William Burroughs), a verdade é que o conceito se alargou para outro tipo de exercícios verdadeiramente fascinantes. Reza a lenda que, em 2004, o DJ inglês Mark Vidler, responsável por mais de uma centena de mashups através da sua Go Home Production, lembrou-se de cantar no chuveiro a letra de «Riders Of The Storm» dos Doors, enquanto ouvia na rádio «Rapture» dos Blondie (uma canção absolutamente revolucionária que ficou na história por ter sido, em 1981, o primeiro tema rap a chegar ao primeiro lugar da Billboard, cinco anos antes dos Run DMC terem reinventado Walk This Way dos Aerosmiths). Surpreso pela forma como as duas canções se encaixavam, Mark Vidler concretizou no mesmo dia «Rapture Riders» no PC e disponibilizou-o na Internet, obtendo de imediato um enorme sucesso. Quase dois anos depois, o genial «Rapture Riders» não somente foi editado oficialmente pela GHP, como a EMI o incluiu em Sound + Vision, a mais recente compilação de êxitos da Blondie. A feitura do vídeo foi entregue ao colectivo Addictive TV que pretendia executar um mashup visual dos dois telediscos originais. A maior dificuldade residiu no facto de os Doors nunca terem chegado a gravar qualquer vídeo para «Riders Of The Storm». O problema acabou por ser ultrapassado com a descoberta de imagens inéditas de Jim Morrison , o que, para além de constituir um atractivo extra para essa cambada de doentes que são os fãs dos Doors, possibilitou a abertura de um novo capítulo na história dos vídeos musicais: o do mashup music video.
Cobaias de teorias
Em sintaxe clubista: sou bem mais do Rui Tavares (e por isso um tanto isolado, nesta casa) que da Helena Matos.
Mas ontem a senhora – no debate dos dois sobre a inteligência dos desfavorecidos e sobre a escola pública, que hoje prossegue no Público – escrevia o que segue, e que é muito, e muito, acertado:
Os filhos dos pobres não são nem mais nem menos inteligentes que os filhos dos ricos. Tiveram sim foi o azar de os seus pais não ganharem o suficiente para os poupar a esse papel de cobaias de teorias que tanto vêem na ignorância o estado supremo da perfeição igualitária, como entendem que aprender tem de ser divertido e fácil.
Lembram-se do eduquês? Lembram-se dos destravados que, no ministério da educação, comandam à distância as salas de aula, os seus sujos laboratórios para relatórios tão limpos?
Pois é. Era disto que se falava.
Musiquinhas deprimentes
Quando acabam as «Conversas» com Marcelo Rebelo de Sousa, corro para o aparelho e baixo o som. Para fixar algum pensamento mais útil, mais esclarecedor? Para trocar impressões com a companhia ouvinte? Não e não. Simplesmente para apagar o tune que ali vem. Deprimente a mais não poder.
Quem será o marau (virá no genérico?) que, numa manhã de puro azar, compôs, talvez – quase certamente – por bom dinheiro, aquela aflitiva melopeia?
Não é, sequer, caso único na minha lida semanal. A bizarria sonora que precede e segue o «Eixo do Mal» é, se possível, ainda mais psicótica. Outra corrida sala afora, se bem me entendem.
Sei do que falo. Também compus coisas. Não, não estou a sugerir nada. Nunca ligaria a minha arte a tais programas. Era mau para mim e para eles. Mas, como está, sofro eu sozinho.
Parece justo?
Pára-quedistas, matulões e matulonas em Vila Franca
A inauguração do Museu do Neo-realismo em Vila Franca de Xira teve a precedê-lo um conjunto de «eventos» mais ou menos pós-modernos que pelo seu teor insólito me surpreenderam. Não estava nada à espera de ouvir os nomes dos escritores e artistas plásticos do movimento neo-realista gritados por umas meninas que, num primeiro andar, assim distraíam as pessoas que aguentavam ao sol a possibilidade de entrarem no Museu.
Tudo bem: na EXPO 98 era assim para entreter o pagode com palmas enquanto os eventos não começavam. Atiraram bonecos de plástico com pára-quedas e a seguir desceram dois homens em cordas na frontaria do edifício. Depois não percebi a guarda de honra feita por dois jovens atletas de esgrima que devem ter sofrido muito debaixo daqueles quentes fatos. Ao meu lado desmaiou uma menina que estava fardada tipo Hospedeira de Portugal a dar as boas vindas aos convidados. Com boa vontade lá apareceu um copo de água e um pacote de arroz. Pobre pequena que não vai ter saudades de tamanha multidão.
Lá dentro foi o ainda mais inesperado. Dois matulões faziam pesos e halteres ao lado dos quadros famosos do movimento neo-realista. Ao mesmo tempo diversas matulonas passeavam os seus fatos de lycra e as suas botas pretas numa espécie de tentativa de produzir torcicolos aos convidados. Uma delas usava um minúsculo chapéu-de-chuva. Lembrei-me logo de Catherine Deneuve e de Françoise Dorelac dançando em «Os chapéus-de-chuva de Cherburg».
Não percebi nada, mas deve ser da idade. Não vou ter tempo de perceber. Já tenho 56 anos, por isso estou na segunda parte da vida. E sei que não vai haver prolongamento.
Xavier
Gostaria que ficasse registado nos anais que hoje, entre as 14 e as 17 horas do dia 27 de Outubro de 2007, esteve-se marabilhosamente bem na cidade do Porto. Para além da temperatura amena e da total ausência de vento, a luz possuiu aquela rara qualidade descrita em alguns versos do Eugénio de Andrade e inscrita em muitas páginas de Vergílio Ferreira. O HTML também serve para isso: para nos recordar as tardes felinas de um pretérito mais-que-perfeito.


o que faz falta
Alguns sabiam que estavam em falta. Sim, sabíamos. Mas não sabíamos o que faltava. E o que faltava? Por mais um lapso dos serviços administrativos, a musa ausente. As senhoras, por compreensível inveja – natural, considerando a personalidade em causa –, esqueceram-se dela. Mas prontamente o mais curioso e dedicado recensor da autora reclamou, apontando a incompletude, e a gerência respondeu à sua solicitação. Podem agora consultar o arquivo da escritora, inaugurado pelo seu mais grandiloquente poema. Podem, agora, mitigar soledades.
Balada galega
Manuel María, poeta galego contemporâneo, termina assim a sua “Balada ós meus pequenos enemigos”:
Meu querido enemigo: agradecido estou
a túa incompreensión, ó teu pequeno odio
inofensivo, a tua língoa en miniatura,
ó teu cativo leite que non coalla:
así vas ben, tí descansas i eu tamén.
Dificilmente conseguimos alcançar a perfeição de oferecer a outra face a quem nos bate, mas o desprezo teria quase o mesmo efeito. O orgulho, porém, é muitas vezes mais forte que o nosso desejo de paz. Ou até nos apetecem mesmo algumas guerras, para provarmos que somos capazes de enfrentá-las ou de atiçá-las. No entanto, e à semelhança do que de outro modo disse o poeta galego, as palavras do ódio não são nunca proferidas por uma língua eloquente.
Os archotes apagados na livraria de Fernanda
Tudo pode ser simbólico. Depende do nosso olhar. Com uma vida inteira passada entre livros, Fernanda resolveu abrir uma livraria na Calçada do Combro, perto de outros alfarrabistas com nome na praça. Mas que praça? Uma praça que permite um apuro de 3 euros ao fim de um dia de trabalho. Três euros não pagam a água nem a luz, muito menos o trabalho de quem atravessou os arredores da grande cidade num comboio matinal e sonolento. E completou a viagem até à Baixa Chiado num Metro a abarrotar de gente. Mudou o sentido da vida das pessoas.Há quarenta anos era vulgar as pessoas do meu círculo de amizades uma certa tristeza perante um livro importante que ainda não tínhamos lido, um compositor cuja música ainda não tínhamos descoberto, um filme que não tínhamos ido ver ou uma peça de teatro da qual só tínhamos ouvido falar. Um velho alfarrabista sintetizou a ideia numa entrevista ao «Correio da Manhã» no Verão do ano passado: «antigamente as pessoas tinham orgulho dos livros raros e antigos que tinham em casa; hoje procuram ter uma casa de férias no Algarve e se possível uma outra casa de férias no Brasil.» O ter ganhou a corrida ao ser – parece fora de dúvida esta certeza enunciada assim de chofre. Quando fundou a livraria, Fernanda teve a ideia de colocar dois archotes à porta. Ela sabe, a sua intuição diz-lhe, que o fogo é a palavra. Os archotes apagados na porta da livraria são um sinal dos tempos. Ter a porta aberta durante um dia para apurar três euros é também um sinal dos tempos. Tempos difíceis para a palavra, para a escrita, para a alegria. Tudo submerso no ruído da cidade. Um ruído que tudo envolve e tudo ajuda a ficar esquecido na monotonia dos dias sucessivos e cinzentos.

