1 + 1 = 3

mashpic.jpgUm mashup consiste, por antonomásia htmélica, na junção de duas canções aparentemente oriundas de universos musicais distintos numa só. Embora seja possível fazer remontar as raízes deste género bastardo da música pop à década de 50 (e ao conceito híbrido de «autor» da música folk), a verdade é que o formato atingiu o auge da sua popularidade com a consolidação da Internet entre os melómanos. Essa prática tem, nos últimos anos, dado origem não apenas a alguns memoráveis MP3 e bootlegs, caso do mítico Grey Album de Danger Mouse, mas também a algumas edições oficiais de grande sucesso como a de Collision Course dos Linkin’ Park com Jay Z. Apesar desta génese musical (em tudo comparável a alguns exercícios literários do Oulipo e aos famosos cut-ups de William Burroughs), a verdade é que o conceito se alargou para outro tipo de exercícios verdadeiramente fascinantes. Reza a lenda que, em 2004, o DJ inglês Mark Vidler, responsável por mais de uma centena de mashups através da sua Go Home Production, lembrou-se de cantar no chuveiro a letra de «Riders Of The Storm» dos Doors, enquanto ouvia na rádio «Rapture» dos Blondie (uma canção absolutamente revolucionária que ficou na história por ter sido, em 1981, o primeiro tema rap a chegar ao primeiro lugar da Billboard, cinco anos antes dos Run DMC terem reinventado Walk This Way dos Aerosmiths). Surpreso pela forma como as duas canções se encaixavam, Mark Vidler concretizou no mesmo dia «Rapture Riders» no PC e disponibilizou-o na Internet, obtendo de imediato um enorme sucesso. Quase dois anos depois, o genial «Rapture Riders» não somente foi editado oficialmente pela GHP, como a EMI o incluiu em Sound + Vision, a mais recente compilação de êxitos da Blondie. A feitura do vídeo foi entregue ao colectivo Addictive TV que pretendia executar um mashup visual dos dois telediscos originais. A maior dificuldade residiu no facto de os Doors nunca terem chegado a gravar qualquer vídeo para «Riders Of The Storm». O problema acabou por ser ultrapassado com a descoberta de imagens inéditas de Jim Morrison , o que, para além de constituir um atractivo extra para essa cambada de doentes que são os fãs dos Doors, possibilitou a abertura de um novo capítulo na história dos vídeos musicais: o do mashup music video.

Paralelamente, um outro género de mashups começou a surgir e a ganhar uma grande popularidade na Internet: o re-cut trailer, que consiste na sobreposição da trilha sonora (narração e música) de um determinado filme com a edição do trailer (imagens e diálogos) de outro. Este tipo de exercício humorístico já deu origens a algumas pérolas, caso de Kill Christ (Kill Bill de Tarantino + The Passion Of The Christ de Mel Gibson), Must Love Jaws (Must Love Dogs de Gary David Goldberg + Jaws de Stephen Spielberg) e Ten Things I Hate About Commandments (Ten Things I Hate About You de Gil Junger+ The Ten Commandments de Cecil B. deMille). Os mais sedentos, podem encontrar no sítio do costume, uma lista com dezenas de exercícios deste género.

Apesar de todos estes tipos de mashups serem por vezes flagrantes demonstrações de talento, criatividade e perícia técnica, nenhum deles faz vibrar mais a minha corda sensível do que o movie music video. Como o próprio nome indica, este tipo de mashup corresponde à confecção de um videoclipe a partir da edição de imagens de filmes (quase sempre clássicos). O exercício, aqui, é particularmente ardiloso, sobretudo nos casos em que o tema e o filme em causa provêm de imaginários aparentemente distintos. Deixo-vos aqui dois exemplos particularmente impressionantes concebidos pelo mesmo génio: J. Taylor Helms. O primeiro consiste na sobreposição do belíssimo All I Need (2007) do último disco dos Radiohead (um tema que é Boards of Canada até ao tutano) com imagens do documentário Microcosmos de Claude Nuridsany e Marie Pérennou (1996) e o segundo na de My Body Is A Cage (2007) dos Arcade Fire com um dos mais belos filmes do mundo: C’era una volta il West de Sergio Leone (1968). Enjoy né.

13 thoughts on “1 + 1 = 3”

  1. Também andei às voltas e a apanhar bonés, desde ontem. Também desformatei o blogue, várias vezes. Não conseguia ter o vídeo e o texto ao mesmo tempo. Então, para o feito de hoje, escrevi primeiro o texto e só depois, na janela Código, inseri o vídeo.

    Depois de publicado, ao fazer uma alteração de texto, voltei a desformatar tudo. O que levou a um pouco de trial and muito erro, passando a solução por voltar a inserir o vídeo na caixa Código. Enfim, não sou capaz de explicar melhor, porque eu próprio não estou certo de saber o que fiz. Mas é tentar.

  2. Ora nem mais, primito. É horrível, desformata tudo. E se tentares centrar os vídeos também dá logo cagada da grossa. Estou inconsolavemente desiludido com esta merda.

  3. E funciona mesmo. Acho que o truque é mesmo cagar de alto para o editor WYSIWYG. E é giríssima essa possibilidade de editarmos os embedded do You Tube.

  4. … tenho aqui um para ti e para todos os que gostarem que é 1 1=1 (aleph0 aleph0=aleph0), mas os matemáticos dizem que não é válido porque não se pode dividir por infinito. Portanto à boa maneira anunciada por Gödel dá-me a idéia que se acrescenta isso como axioma e fica resolvido. Ficamos então com 1 1=1, 1 1=2, e 1 1=3 que trouxeste ao barulho. Eu gosto de todos. Cada um é específico. Convém não esquecer o do meio para o campo real.

    Valupi, parece-me que ficaram uma data de coisas tratadas: os gémeos polacos foram à vida (para efeitos comparativos ver a carinha rechonchuda do pina manique no Museu da Cidade de Lisboa), o FED baixou as tachas de juro e ainda não larguei a canela do tricheur, e por cá vieram as reform,as antecipadas para os cansados que podem ir fazer outras coisas e descansar.

  5. só fui a Damão e Diu, a Goa vou não tarda nada, espero eu, ficava tudo muito corrido e eu sou pachorrento. Vim cá cheirar um pouco.

    por falar nisso um raposato jet-laggado não é nada boa idéia que ainda dou com a cauda numa cadeira ou assim -> xonex

    (andei a pensar que se a gente pensar que Deus é o conjunto de todo@s os deus, reais e imaginários, fica uma coisa transcendente e Ninguém lá de cima fica ofendido,…, )

  6. João Pedro, temos na TubarãoEsquilo um blogue que devias frequentar com mais regularidade, digo eu :) Topa o Remixtures. O Miguel Caetano escreve amiúde sobre esta nova (lá estamos nós) cultura musical que envolve a criação e a recriação (pus!) em formatos digitais misturados. Vais gostar.

  7. Nem por acaso, Paulo, decobri esse blogue a semana passada. Muito bom, de facto. Já deixei lá um comentário e tudo.

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