Professor

Há muito pouco Agostinho da Silva em vídeo na Internet. Ainda. Quando aparecer mais, ver-se-á como nele está consubstanciado um dos pilares da neo-modernidade portuguesa, o acesso pedagógico. O outro pilar está no Pessoa; críptico, iniciático.

Neste fragmento de um documentário, truncado à má-fila, há variedade suficiente para viver saudades. E matar esquecimentos.

37 thoughts on “Professor”

  1. Ah, meu amigo! Que bom rever este Agostinho das frases simples. O homem que achava que nascemos de graça para passar o resto da vida a ganhá-la.
    Haja mais.

  2. “O Agostinho tinha medo que lhe descobrissem o frágil domínio do saber, da qual resultavam muitas das intuições erradas, às vezes adjectivamente, às vezes grosseiramente, às vezes com um aflitivo demasiado decoro. Mas era útil como palhaço da corte, que vivia impunemente sem B.I. e Cartão de Contribuinte”

    Professora Doutora Tita dos Pés Sujos

  3. A simplicidade de Agostinho é pedagógica; ou seja, está ao serviço da comunicação com os ignorantes. Nisso é simétrica da complexidade de Pessoa, a qual está ao serviço da comunicação com os sábios. E, geometricamente, a simplicidade de Agostinho pressupõe uma complexidade fundante sem a qual não teria verdade; tal como a complexidade de Pessoa conduz a uma simplicidade realizadora sem a qual seria mentira.

  4. Chapeau para este teu último comentário Valupi. Só não gosto do termo comunicação no caso do Pessoa. Aquilo é pura fruição estética.

  5. Essa de ser tudo fruição estética é sugestão altamente sugestiva, primo. Mas é tese. Para mim, a generosidade, e maldição, do escritor remete sempre para a comunicação. O que leva a uma proposta conciliatória: também a estética é comunicação. (claro: e o que é a comunicação? resposta: é o convívio, a luta de morte contra a solidão)

  6. A comunicação (no sentido restrito) na linguagem humana verbal acontece nos enunciados em que os seus constituintes verbais estão ao serviço da transmissão de uma determinada informação passível de ser parafraseada sem prejuízo para a sua funcionalidade. A fruição estética implica igualmente uma comunicação, mas de outro nível: o que é transmitido não é a informação frásica do que é dito, mas a forma como os constituintes verbais transmitem essa informação (e, por isso, não passível de ser parafraseada). É uma questão de hierarquização, se quiseres. Em Agostinho interessa o que se diz (mediante a forma como é dito), enquanto que em Pessoa interessa a forma como se diz (mediante o que é dito, que é sempre plural – e é disto que se ocupa a hermenêutica). Por outras palavras, na comunicação de Agostinho o médio é a forma e o conteúdo é o que é dito; na de Pessoa, o médio é o que é dito e o conteúdo é a forma. Como é óbvio, nenhum desses dois modelos teóricos surge isoladamente: mas é sempre possível determinar a importância relativa de cada um deles em todos os enunciados. E não só. Podes aplicar isto, de resto, a qualquer manifestação artística.

  7. Valupi e JPC
    Vão mas é à fava com tanta complicação. Ou é de ser hora de sesta, ou vocês diriam o mesmo se estivessem calados. O Agostinho não merecia. Nem eu.

  8. A questão, de lana caprina, está na definição do estético – então, a questão é a estética -, como construção sempre conceptual, não apenas sensorial ou sensitiva. Logo, também o estético se dá no discurso. Ou seja, é transmissível naquilo em que é formal. Indo ainda mais longe, os gostos (intransmissíveis) discutem-se (transmitem-se, afinal).

    Vou contigo no aceno da forma como preponderante para uma hermenêutica de Agostinho, a qual leva a uma exegese da oralidade – caso raro e vestígio arcano. Já quanto ao Pessoa, e usando a tua equação, o conteúdo é o médio e o que se diz é a forma. E mais, Pessoa não é esgotável.

    Daniel, alinho nas favas. Mas do que é que te queixas? Explica lá melhor.

    claudia, e fazes tu muito bem, se bem te leio.

  9. Valupi, quanto às favas, não as comas todas. Também gosto. Mas bem apimentadas, o que não sei se te agrada. Do que me queixo ou queixei? É que vocês usaram uma linguagem de quem é perito em TLEBS. Só isso. Dou-te a seguir um exemplo de o que é boa comunicação.
    Um jornal de Ponta Delgada transcreveu ontem uma notícia dada na véspera por um qualquer órgão de comunicação social do Continente. Era sobre a Luísa Mesquita. Como se impunha, o “hoje” original deveria ser substituído pelo “ontem” conveniente. A primeira conveniência deu nisto (e bem): “A deputada comunista acusou ontem o PCP de ainda não ter decidido a sua expulsão…” A segunda e a terceira permitiram esta delícia (é a Luisinha a falar entre aspas): Ontem vou à reunião municipal de Santarém e ontem irei representar a CDU na Câmara Municipal de Santarém.

  10. não gosto de favas. são amargas. nem favas, nem pinhões, nem tripas, nem moelas, nem fígado, nem natas.
    gosto de cuscus, de picanha com feijão preto, de feijoada de cair para o lado e de doces.

  11. JPC
    Inteligência de quem? Do Agostinho da Silva, do Valupi, da Luísa Mesquita ou do jornal de que eu não disse o nome?
    Cláudia
    E eu não gosto de natas nem de doces. Mas gosto muito de maranhos (em Santa Maria dizem-se molhos), de ensopado de borrego, de tudo quanto leve arroz (não me importo é com o branco e o doce), de alheiras, de peixe de qualquer qualidade (sempre) e da Cláudia (às vezes).

  12. daniel & claudia,
    eu cá gosto de vocês todas as vezes.
    mesmo quando não gosto do sentido daquilo que dizem.
    que querem, sou uma alma tolerante…

    (ah, sim, e almocei pataniscas, se querem saber)

  13. E fez muito bem. (Refiro-me à alheira.) E faz muito bem. (Refiro-me a gostar de mim às vezes. Até eu mesmo só às vezes gosto de mim. Não poderei esperar mais do que isso de ninguém, não é?)

  14. RVN
    Entraste enquanto eu escrevia aquilo para a Cláudia. Admiro a tua capacidade de gostares de nós dois sempre. Como ambos confessámos, eu só gosto dela às vezes e ela idem de mim. E eu de mim mesmo, aspas.

  15. Daniel de Sá, boa reflexão. Gostamos de nós às vezes. Felizes os que gostam de si a toda a hora (não se mentirão eles a eles próprios?).
    rvn, pataniscas? Ai, eu nem me lembrava dessa. E agora deste-me vontade de comer pataniscas. Onde vou arranjá-las a esta hora?

  16. Daniel,
    Valha a verdade, eu não disse que gostava de vocês sempre. Permite-me a correcção. Eu disse que gostava de vocês todas as vezes, o que é substancialmente diferente. Como perceberás, podemos apreciar todas as prestações de alguém pelo que nos inspiram de per si, (independentemente do que quer que seja que cada uma provoca em nós), e nem por isso apreciar a pessoa no seu todo e enquanto gente. Desvalorizar o outro em função do nosso gosto pessoal é um erro que eu tento evitar com frequência.
    Todo este acrescento não quer dizer nada que eu não tivesse já dito, em termos ‘apreciativos’, enfim. Quer dizer o que quer. O quê? Que a arte da comunicação é uma coisa maravilhosa no rigor dos seus sinais.

    claudia,
    na minha casa, claro. mas não a esta hora. lembras-te do spot das bombocas? O pai natal que dizia ‘só há estas, mas são para mim…’

    rvn

  17. Há melhor coisa que há neste mundo é um homem que saiba cozinhar porque eu não gosto mesmo nada. Tenho que arranjar um cuisinier Gusteau, ihih, et à la commande, s’il vous plaît.

  18. Cláudia, aqui vai a correcção. E nem precisei de usar benevolência.
    “A melhor coisa que há neste mundo é uma mulher que aprecie um homem que saiba cozinhar. A segunda melhor coisa que há neste mundo é um homem que aprecie uma mulher que não saiba cozinhar.”

  19. Lá estou eu com o rigor, para evitar mal entendidos. Não tendo referência a mim a frase, evidentemente, devo no entanto sublinhar a ligeira diferença: há homens que sabem cozinhar e homens que sabem providenciar cozinhados. Sucesso e acesso. Parecido, claro. Mas diferente.

    seja como for, o facto é que papei as pataniscas. (e sim, mon Gusteau é imbatível)

  20. Ó RVN, eu limitei-me a responder a um pedido de uma senhora. Como tu não pedias nada, nem estavas disposto a dar as pataniscas a ninguém, não tinha de fazer comentários. Mas olha lá que cá em casa cozinho às vezes. Sou especialista em generalidades, mas faço ponto de honra na minha caldeirada de peixe, que aprendi vendo meu Pai fazer. Pode ser que calhe um dia que a proves. Rossini dizia que o seu bife ainda iria ficar mais célebre que a sua música… mas eu não me atrevo a tanto entre a caldeirada e a minha escrita. Nem uma nem outra ficarão para a posteridade. (Há quanto tempo não ouvias esta palavra “posteridade”?)

  21. a conversa está realmente saborosa, vim atrás dos aromas. caldeirada de peixe, hum… eu faço uma açorda de camarão tão marcante que até já me valeu o bonito epíteto de mulher-açorda. e tenho a certeza de cozinhar melhor do que faço qualquer outra coisa.

  22. daniel,
    dinheiro a rico não devas, caldeirada a rvn não prometas, lá diz o ditado.
    pois que fica combinado na próxima oportunidade, embora duvide que fique alguma coisa para o gato, quanto mais para a posteridade. ela que vá comer a casa.

    susana,
    uma mulher açorda é que me dava jeito. e escreve, e tudo, e sabe html, e tem humor… diz-me, e de lavores, piano e francês, como é que estamos?

  23. Pois, eu confesso que sou tão azelha como o meu pai neste assunto. Só nos limitamos a comer o que os outros fazem. Da última vez que me lembro ter tentado alguma coisa, foi uma tarte de limão. A parte da massa ficou queimada e o creme de dentro ficou cru. Ninguém comeu. Ni pour faire plaisir, caramba.

  24. claudia,
    esse era o meu ponto de há bocado, exactamente.
    quando não se sabe cozinhar, o caminho que resta ao guloso é providenciar intimidade com quem seja exímio na arte, custe o que custar. (enfim, pronto, custe o que custar talvez seja um nadita forte) mas há que partir preparado para cedências. nem que seja pour faire plaisir au pauvre..

  25. claudia,
    claro que pois, ora, então, é claro, e isso, e coiso, e pronto, pois, eu, bem, evidentemente, sabes, o tempo, e coiso, e eu, pois, e o vento, sim, o vento, hã, eu, hum, pois… olha, sabes que mais: e se fosses jantar fora?

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