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Em parte incerta

Gostei muito deste bocadinho. Garanto que gostei. Tive mesmo momentos de entusiasmo, daqueles em que o Mundo, contra todas as chances, bateu certo.

Mas outro momento chegou. O da partida. Sem dramas nem estados de alma, deixo o Aspirina. Desejo-lhe longos dias. Longos e cheios.

Cá o Degas ficará onde sempre esteve, onde é o seu lugar, e onde estará sempre melhor. Em parte incerta.

Vinte Linhas 254

Uma livraria com livros e muita música

Na passada quinta-feira (27 de Março) aconteceu música nova numa jovem livraria (Trama) na Rua S. Filipe Nery ao pé dos CTT do Rato. Estava frio e sair de casa não é fácil pois tudo nos envolve na chamada «cultura de apartamento». As pessoas são convidadas a comprar filmes e CDs evitando assim idas ao cinema e aos concertos. Mas foi bom, foi positivo ter decidido sair às 21h 30m de casa para ouvir a música do novo grupo, tão novo que deu na quinta-feira a sua primeira audição pública. O nome do grupo é «Bruno Pernadas Emsemble» e integra os seguintes elementos: Ricardo Ribeiro (clarinete baixo, clarinete soprano e sax alto), Pedro Pinto (contrabaixo), João Correia (bateria e percussões) e Bruno Pernadas (piano, guitarra, ukelele e samples). O concerto constou de oito peças musicais e um encore. Oscilando entre o registo do jazz e da música experimental com passagens pelo tipo de música conhecida por «Indie» mas cuja definição é um pouco difícil, foi um ponto de encontro feliz numa livraria onde em vez das palavras nos serviram notas musicais articuladas de modo a percebermos que só pode improvisar quem tem uma boa cultura musical de base. Os músicos todos eles surgiram a interpretar ora melodias com princípio, meio e fim ora discursos musicais integrando outros sons como por exemplo um boletim meteorológico. Lembrei-me logo dos Simon & Garfunkel que uma vez colocaram a voz do locutor de noticiários da NBC sobre a guerra no Vietname em sobreposição com a célebre canção «Silent Night». Não se trata de comparar mas apenas de perguntar: teremos assistido ao nascimento de um grupo musical com muita música a fazer no futuro? Espero muito sinceramente que sim.

Vinte Linhas 253

Dinis Machado na mais velha estação de comboios do Mundo

A fotografia belíssima da estação do Rossio que Fernando Venâncio colocou no «aspirinab» levou-me a recordar algumas memórias. Um dia na Veiga Beirão fui com Dinis Machado falar numa turma de Português. A pedido do professor escrevi estas palavras: «Qualquer maneira de começar é uma boa maneira de começar: estamos no largo do Carmo, perto da mais velha estação de comboios do Mundo, chama-se Rossio, podia chamar-se memória, particular ou colectiva. Afinal todos nós ficámos uma vez de nariz espetado no vidro, afogados em malas, recados e solidão. Todos nós já fomos ao país dos tios, gente de poucas palavras, calos nas mãos e um amor silencioso e sábio, só para nós. Todos nós tivemos uma tia Henriqueta, a despedir-se com sacos da nossa comida com lágrimas no rosto e mãos engelhadas, vestida de preto, numa noite sem luz. Dinis Machado andou por aqui ouvindo a banda da Guarda Nacional Republicana (que foi feito do palanque?) em concertos dominicais, um jovem muito jovem ao pé dos mais velhos que já falavam de empregos, de negócios, de futebol, de fazendas da Covilhã e da reforma quando ele sentia o fato apertado, respirava o ar puro das manhãs e metia ao dedos debaixo do colarinho da camisa para dar uma folga ao pescoço. Dinis Machado atravessou este largo com livros da livraria «Barateira», em circulação no seu grupo de amigos, resmungando a uma pergunta («O livro do Malraux é da Barateira?») com uma resposta irónica – «Donde é que querias que fosse? Da Universidade de Coimbra?». Mais tarde, no café, há-de rematar um desejo dum companheiro («Gostava de ler um livro leve!») com uma frase sábia: «Mão há livros leves. Todos pesam toneladas.»

Vinte linhas 252

«Não é uma boa prosa que ambiciono» (Miguel Torga)

Isto de escrever em público e para o público, tem que se lhe diga. Não é fácil, não é como nos «Morangos com açúcar» onde acontece tudo e ninguém paga nada, desde a prancha de surf ao copo de água tónica. Outro dia falando com o director-geral de um jornal sobre as suas crónicas e lendo alguns dos meus textos e dos outros participantes deste Blog lembrei-me logo das palavras de Miguel Torga. Aqui vai a transcrição: «Não é uma boa prosa que ambiciono mas sim uma claridade gráfica. Gostaria de restituir às palavras a alma que lhes roubaram e que a língua tivesse, nas minhas mãos, além da graça possível, uma dignidade insofismável. Que cada frase, em vez dum habilidoso disfarce, fosse uma sedução e um acto. Uma sedução sem condescendências. Para tanto limpo-a escrupulosamente de todas as impurezas e ambiguidades, na porfiada esperança de que a sua claridade se veja e se entenda ao mesmo tempo. E a vejam e a entendam, sobretudo, os que não são profissionais da literatura. Muito mais do que o juízo da crítica encartada interessa-me principalmente a opinião do leitor comum.»
O texto é de Fevereiro de 1958 mas continua válido e actual.

Balada da Ericeira

Um Tê Zero na Ericeira
Pôr-do-sol de encantar
Vou logo à segunda-feira
Mais tempo a ver-o-mar

Livro feito por Fernanda
Mistério, Ilha Terceira
Uma aventura comanda
Estas tardes da Ericeira

Alto da Forca, moinho
Não faz farinha, é ruína
Num escritório vizinho
As traduções de Regina

Na Brincosa, Anabela
Com aulas e o mestrado
Não pode estar à janela
Tem o seu tempo ocupado

Loja da Berta, enxoval
Lençóis, camisas, toalhas
É o mapa de Portugal
Num desenho sem falhas

Continuar a lerBalada da Ericeira

O túnel do Rossio já não cheira a fumo

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*

Uma das nostalgias da minha meninice é o cheiro a fumo do túnel do Rossio. Nostalgias, e entendam-se não aquelas que nos chegam depois, mas as que não esperam e logo nos dão na altura. Eu passava meses lembrando-me do cheiro desse fumo bem real, o que a máquina ia lançando lá à frente, e penetrava pela menor frincha. Suspirava por Sintra, pelo outro comboio, que levava à Praia das Maçãs.

Hoje, o túnel está iluminado – e mais respirável. Aspiro fundo, e nada. Nem uma lembrança, nem uma impressão. A minha infância está, ali, agora iluminada. Se mais respirável, não sei.

Shemah, Israel!

Como um pastor que esquece os nomes das suas ovelhas
e não reconhece os balidos dos seus cordeiros,
O Senhor fechou os olhos ao sangue dos holocaustos.
A Terra inteira deitou-se com as dores do parto
mas, quando a aurora chegou,
viu que o berço se tornara em ataúde,
que os animais domésticos eram como feras selvagens,
que a enxada se transformara em espada,
e com os arados haviam feito armas devastadoras.
Levantou-se povo contra povo e nação contra nação.
O irmão não reconheceu o seu irmão,
o pai tratou o primogénito como se fosse filho da escrava estrangeira,
e a mãe secou os seios para não amamentar o recém-nascido.
Até Caim cegou os próprios olhos para não ver o sangue derramado,
Nabucodonosor tapou os ouvidos com pez fervente
para não ouvir os gemidos dos cativos,
e Jesabel deu glória a Deus pela hora da sua morte.
A desolação esteve durante o dia nas nossas casas
e deitou-se, à noite, nas nossas camas.
O calor do fogo era como gelo para os nossos corpos,
e o mel mais amargo do que o fel nas nossas bocas.
Não desejávamos o dia, durante a noite,
porque todos os dias eram dias de sofrimento.
Temíamos o entardecer
porque cada noite era a noite do nosso pavor.

Ouve, Israel,
quando vires o Filho do Homem
erguido sobre a terra da desolação,
contarás um a um os seus gemidos
e uma a uma as gotas do seu sangue.
Saberás então que o Senhor habita contigo para sempre,
que aquele é o preço por que serás libertado.
Ele tomará sobre Si as tuas culpas.
O Senhor veio a ti de mãos vazias,
e lavará os pés, antes de serem trespassados,
para que nem sequer o pó dos teus caminhos
receba a afronta dos cravos do sacrifício.

Não compre este livro! (para já…)

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*

O livro tem algum interesse, isso garanto-lho eu. Simplesmente, a edição já disponibilizada, numa livraria perto de si, vai ser retirada do mercado. Não é por nada, mas não está tecnicamente apresentável. A editora, a perfeccionista Assírio & Alvim, vai muito em breve repor a obra. Perfeitíssima. Como é seu timbre.
 
Agora a boa notícia. É que Último Minuete em Lisboa será apresentado na terça-feira 1 de Abril, pelas 19.00 horas, na Casa do Alentejo (Rua das Portas de Santo Antão, ao Coliseu), em Lisboa. A apresentação será feita por Francisco José Viegas.
 
E, como uma alegria nunca vem só, na mesma ocasião serão apresentados os Bilhetes de Colares, de José Cutileiro,  recentemente saídos na mesma editora, e que o autor do primeiro livro organizou. O apresentador será, aqui, Henrique Granadeiro.

Uma cama em Bruges

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*

Morreu ontem o escritor belga Hugo Claus. Nascido em 1929, era romancista e poeta. Está em português o seu espectacular romance «O Desgosto da Bélgica». Era,  a par do holandês Harry Mulisch, um eterno nobelizável de língua neerlandesa. Um dos seus mais célebres poemas, «Een bed in Brugge», vai aqui, em tradução publicada em 1997.

Uma cama em Bruges

«Sou empregado dos Produits Chimiques, meu caro senhor,
empregado na morte lenta.
Ao fim de dez anos pode ter-se a reforma
por causa do gás no bandulho.
Estou lá há catorze já, meu caro senhor,
há dois deles como motorista.
E nesses dois não precisei de vomitar nem uma vez,
por causa do ar fresco.

Nós, belgas, somos os melhores condutores da Europa inteira,
e eu já estive em todo o lado.
Porque somos perigosos a guiar.
E assim temos mais em conta os outros
que também são perigosos a guiar, mas sem quererem sabê-lo.

E sabe a coisa mais linda que estes olhos já viram?
E repare que estive na Capela Sixtina,
e que vi o rabo da Gisela do Mocambo ─
bom, foi numa loja de Bruges,
uma cama carmesim. Em Empire. Ou seria Luís XV?

Aí deitado, com a Gisela, havia de esquecer os meus três filhos
e o calendário inteiro.
O amor, caro senhor, tem de ser de cetim.
E a morte, caro senhor, é o que se sente no estômago
quando se sabe que nunca poderá comprar-se uma cama dessas.»

tradução do neerlandês
Fernando Venâncio

Tempos de guerra

No tempo da guerra é que foi mesmo de mandar carouço. Uma pessoa nem sequer podia chamar seu àquilo que era seu, que vinham fiscais ver o que cada um tinha de trigo e de milho, e ficava um tanto para os donos e outro tanto para o governo, para levar para quem não tinha. Até para levar a farinha dum concelho para outro era preciso autorizo. O José Pimentel, que era carroceiro, foi um dia apanhado por um polícia, vinha da cidade com um carregamento de farinha, o polícia quis ver a licença, ele não tinha, aquilo era farinha para matar a fome a muita gente cá na Maia, o José, que era um rapaz forte, pegou no polícia a aboiou-o para dentro dum tanque de água e veio-se embora depressa, antes que o polícia lhe desse na cabeça de vir atrás dele mesmo todo molhado.
Uma vez foram a casa do Manuel Bispo, que era bom homem, um dia foi à terra e viu um velhote com um espeto a puxar umas batatinhas por um buraco da porta do barraco, e sabe o que é que ele fez? Escondeu-se entre as canas para o velhote não ver que tinha sido apanhado a roubar. E o filho, o Adelino, fez coisa parecida, que um dia chegou à terra e viu uma mulherzinha a rapar com os dedos para desenterrar umas batatinhas, também se escondeu entre as canas para a mulher não saber que tinha sido vista. Pois os fiscais foram a casa do Manuel Bispo, que já mal se levantava da cama e estava meio tarouco, os fiscais queriam ver o trigo que eles tinham, a mulher, que era muito mais nova, e os filhos tinham escondido umas sacas no barraco, eles contaram as sacas que viram e fizeram os quinhões, mas o Manuel Bispo lá da cama começou a dizer que havia as outras no barraco. Era uma casa de família, precisavam daquele trigo para si, a senhora Maria dos Anjos lá se desenrascou disfarçando com o pouco juízo do marido.
A luz era uma aflição, não havia petróleo, era um maldito dum azeite de gata, da gordura dum peixe que chamam peixe-gata, enjoava que revirava a casa toda e embrulhava as tripas, e mesmo assim era preciso tapar as janelas com papéis para não se ver a luz, por causa dos submarinos alemães, os soldados faziam a ronda na freguesia e, se viam uma greta de luz nalguma janela, batiam à porta e diziam muito delicados que era preciso tapar melhor. Foi com uma luz dessas que o meu Carlos, que é da sua idade, nasceu numa noite de temporal medonho.
Os soldados de Lisboa eram gente boa, não há muitas razões de queixa, mas alguns fizeram patifarias que Deus lhes perdoe. A pobre da Isabel da Luísa, que era uma rapariga bonita mas com pouco tarelo, foi enganada por um, que se foi embora sem se importar com o que lhe tinha feito, ela teve o filho no regato da cama, no quarto havia três camas, uma era do pai e da mãe, outra dos irmãos e outra das irmãs, e ela pariu mesmo ali, calada como um nabo, ninguém deu por nada, foi só a irmã que a ajudou.
Há gente que parece que pensa que a gente eram todos tolos naquele tempo, então como é que se passava fome com tanto que Nosso Senhor dá, pois é, mas às vezes não dava, ou tirava o que parecia que ia dar com algum temporal que estraçalhava o milho, as batatas ou as favas, ou com aguaria que nunca mais parava que até o trigo grelava nas terras. E não havia os adubos que há agora, a gente botava nas terras limos que vinham depois das tempestades no mar, já se sabia quando é que eles iam dar à costa, o pessoal ia logo de manhãzinha para o calhau, faziam os seus quinhões o mais que podiam, e depois era acartá-los escorrendo pelas costas abaixo. A gente até juntava pelo caminho as porcarias que os animais faziam, e, já se sabe, não se desperdiçava uma pinga de urina, para as couves. Mas havia alguns que nem sequer eram donos do seu mijo, desculpe-me a palavra, tinham de o guardar num talhão, e depois o senhor Bastião mandava buscar nuns bidões numa carroça, para pôr nas bananeiras. Eram trabalhadores dele, e se queriam ter trabalho tinham que lhe dar não era só o suor, era o mijo também.

Mon cher Antoine

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*

O seu carro descontrola-se, e você atropela o seu escritor favorito, digamos José Rodrigues dos Santos? Em legítima defesa, você dispara um laser paralisante, e atinge, por estúpida coincidência, o seu cantor favorito, digamos Mickael Carreira? Chato, muito chato. Foi o que sucedeu a um piloto de guerra alemão, que abateu – sem sabê-lo – o escritor que mais o deleitava: Antoine de Saint-Exupéry. O nome soa-lhe familiar, mas não o liga a nada? Pense n’O Principezinho, e está lá.

Pois foi. Num voo de patrulha, na costa sul de França, a 31 de Julho de 1944, Antoine, com 44 anos, pilotava um Lockheed P38 Lightning (na imagem). Terá visto um Messerschmidt Me109, que andava perto, colocar-se atrás dele. O que sentiu depois – «c’est ça, la fin» – já não pôde contar-no-lo, ele que em Vol de Nuit descrevera angústias de arrepiar.

Não se suicidou, como se chegou a pensar. Matou-o Horst Rippert, piloto da Luftwaffe, que, hoje com 88 anos, revelou o caso. Passou sessenta e quatro deles, consciente dia e noite de que, sem sabê-lo, pusera fim à vida de alguém que tanto adorava ler.

Por nós, havemos de saber tudo em Saint-Exupéry, l’ultime secret, um livro a aparecer brevemente.  

Conclusões de fim-de-semana

A minha sobrinha é a princesa mais linda de todas as princesas juntas e partilha com as tias um gosto exemplar por sapatos vermelhos.
Sou a pessoa mais cerebral entre todas as conhecidas de alguém que me conhece. Só não sei muito bem o que isso significa.
Em cada esquina, heterónimos.
O fervor empregue por todas as mulheres concentradas numa pista de dança na execução vocal de I will survive, na versão original ou na dos Cake, sugere um soltar da franga pontuado por gritos do Ipiranga que só pode ter significado sociológico.
Nas estações de serviço vendem pão fresco, cedo, pelas 7 horas. Guardado no peito, dentro do casaco, chega a casa quente. Com lâminas de manteiga gelada é o acepipe perfeito para uma ceia matinal.
Não cai mal dar as boas noites à portageira numa gloriosa manhã de domingo. Nem mesmo numa manhã tão manhã como a de ontem.

Vinte Linhas 251

«Não é preciso revisor; os computadores fazem isso!»

Esta frase é célebre e foi ouvida numa redacção nos anos 90 a um «engenheiro» que administra jornais como poderia administrar supermercados ou lojas de bricolage. Hoje lembrei-me dessa frase pois caíram na minha mesa de trabalho três exemplos de como ele está profundamente errado. Vejamos o primeiro caso: no «Diário de Notícias» de ontem (15-3-2008) aparece a palavra crisóstomo para definir a lampreia quando deveria ter sido empregue a palavra ciclóstomo. Sim, o «ciclóstomo» é que é «a ordem dos peixes que compreende as lampreias e formas vizinhas». A Revista «Guias Convida» dedicada ao Bairro de Santos apresenta uma entrevista a Raul Solnado sobre a Sociedade Guilherme Cossoul que, num texto assinado por Isabel Lindim, terá dito: «Iam lá muitos poetas. O Possidónio Muralha, por exemplo, que uma vez jogou pingue-pongue comigo.» Claro que não disse; o nome do poeta é Sidónio Muralha, Possidónio Cachapa é outro autor, muito mais moderno. Entretanto a Revista do Círculo de Leitores no seu nº 176 apresenta Anabela Natário, jornalista que eu conheço desde os tempos em que ela trabalhava no «Correio da Manhã» em 1982, como tendo nascido na Foz do Douro em 1942, licenciada em Direito e advogada no Porto entre 1966 e 1983. Não, não pode ser. Estes dados pertencem a outra pessoa, por acaso do sexo masculino, chamado Vasco Rebordão da Graça Moura, primo do escritor António Rebordão Navarro. Coitada da Anabela Natário, assim de repente promovida a «mais velha» – uma coisa que em África até tem muito prestígio mas que aqui na Europa nem por isso. Fiquemos por aqui. Mais uma vez se prova que os computadores podem fazer muita coisa na ortografia mas só uma pessoa pode perceber os erros de sentido. O «engenheiro» não tem razão, os computadores não fazem isso…

Pimenta e pão de milho

Hoje eu vou-lhe contar umas coisas daqueles tempos, mas peço que as escreva direito. Eu falo torto porque não tenho letras, mas o senhor sabe o que eu quero dizer. O pessoal ri-se da gente, dos modos como a gente fala, mas se os senhores escrevem isso tal e qual a gente fala não falta quem diga que é… como se diz?… Literatura, é isso. Quer dizer que a gente fala, e dá para rir; os senhores escrevem, e levam palmas.
Eu não aprendi a ler porque havia só uma escola de rapazes, alguns cinquenta, ou mais, do professor Francisco Costa, que parece que depois foi posto daqui para fora de castigo, porque não gostava do Salazar. Acho que foi para Setúbal, mais ou menos por trinta e um. Bem, mas a verdade é que meu pai precisava de mim para trabalhar, minha mãe teve oito filhos, morreram dois rapazes e duas raparigas, de machos fiquei só eu e meu irmão, era preciso dar ao gadanho se a gente queria comer. Lembro-me de uma vez à noite estar deitado cheio de fome, a gente não tinha ceado, minha mãe deu-nos água quebrada da friura para beber e enganar o estômago, e eu ia pedir uma nica de pão, mas mal disse “mamã” ela percebeu que eu ia pedir de comer e deu logo um assopro na luz, apagou-a, a modos que quando eu disse “tenho fome” ela respondeu “agora já apaguei a luz”. É triste, e ainda hoje tenho pena dela, que eu ouvi-a chorar na cama, e foi por não ter pão para dar à gente.
Já se sabe que muitas vezes se comeu pão de milho com pimenta salgada, o sal e a água que se bebia enganavam mais a fome do que o resto, era como as sardinhas de Lisboa, aquilo era só sal mas consolava a comer. O senhor pode não acreditar mas uma sardinha de Lisboa dava para a gente todos, a barriga não era sempre para o mesmo, era cada um a sua vez, porque era o que todos gostavam mais. A gente comia mais pelo cheiro que outra coisa, com uma grande tigela de chá e pão de milho, já se sabe, que o de trigo era vê-lo.
Meu pai, que Deus lá tem, se Deus não acode não chegava a ver os filhos crescer. Deu-lhe uma pneumonia, mas a gente pensava que era gripe, foi-se aguentando com chazinhos com uma nica de açúcar, que minha irmã Conceição ia comprar por um ovo, e ainda trazia o petróleo e uma unha de queijo para meu pai meter na boca. Quando minha mãe viu que aquilo ia cada vez pior, chamou o senhor doutor, ele viu meu pai naquele estado, chamou minha mãe de parte e perguntou “Maria do Rosário, tens uns dois contos de rei?” Acho que foi isso, dois contos de rei. Minha mãe tinha a graça de Deus que é grande, disse “ó senhor doutor, para que é que é preciso os dois contos de rei?” O senhor doutor disse que meu pai estava difícil de se salvar, mas podia experimentar penicilina, que era remédio novo nesse tempo e era muito caro porque parece que vinha de Espanha, e disse a minha mãe “já tens os filhos criados, tem paciência que o teu homem não está nada bom, vai contando com o pior.”
Aquilo foi de frio que ele apanhou. Dizem que agora não faz frio como antigamente, mas experimente o senhor a vestir roupinha de cotim por riba da pele e dormir numa casa que o vento entrava por todos os buracos, tapado com mantas de retalhos, e veja se não há frio como naquele tempo. E descalço por esses caminhos, que não havia sapatos, eu só tomei a Nosso Senhor quando os pés serviram nos sapatos de meu irmão. E meu pai tomou a Nosso Senhor descalço, e não foi só ele, que só teve um par de sapatos na vida toda, os do casamento. E sabe como foi o jantar dos noivos de meu pai e minha mãe? Pão de trigo com queijo de cabra, uns canjirões de vinho e uns bolos de massa sovada que uma tia de meu pai cozeu. Mas quando havia casamentos quase toda a gente mandava aos noivos um prato de louça fina, não era da Lagoa, cheio de trigo. O prato ia de oferta com o trigo, tudo junto dava para as primeiras cozeduras ou para guardar para a festa do Santíssimo e do Natal, que era isto o mais certo. Agora não falta fartura, mas naquele tempo as pessoas eram mais amoráveis, acho eu.

Vinte Linhas 250

«Prix Nationale Blaise Cendrars» para um poeta português

Liberto Cruz, com o poema «Partir», foi o vencedor do Prémio Nacional Blaise Cendrars de 2008. O júri, presidido por Miriam Cendrars, atribui o prémio com o nome de seu pai ao poema que veio de Lisboa destacando-o como o melhor entre 415 participantes. Para os leitores do nosso Blog aqui fica em primeira mão o poema de Liberto Cruz:

«São idênticas as águas / de nossas terras e gentes / e um sopro de memória / nos habita e conduz.
Por cá ou por lá correndo / é por líquidos caminhos / de mares e oceanos / que nossa vida jogamos.
Partimos para voltar / e só vacila quem quer. / Se perdemos ou achamos / não importa. Nosso lema / é seguir. Nossa viagem / é terra já inventada. / Todo o espaço é / como tempo já vivido.
Por toda a parte soubemos / raízes distribuir / O exílio não vence / quem nasceu para lutar. / São nosso companheiros / o sonho e a coragem / mais a raiva e o luto / com desejo de partir.
A saudade é a nossa / arma. Dela nos servimos / dia a dia. Traiçoeira, / é difícil enfrentá-la: / ora súbito nos mata / ora não deixa morrer.»

(notícia elaborada por José do Carmo Francisco)

Duas garrafas de Macieira

Olhe qu’ê gosto munto do João Cravalho, aquilo nã era partida qu’ele me fezesse. A gente só pode levar duas garrafas de bebida, dizem qu’a lei nã permete nem sequer essas duas, mas eles fechim os olhos s’a gente nã leva más que duas. Quer-se dezê que eu levê aquelas duas e nã podia levar más ninua. Uma era pra ofrecer ó mê doutor, um belo home, que até fala uma nisquinha de pertuguês, e tá sempre numa ipequeia comigo, quer qu’ê largue a bebida, mas, mê rico amigo, um home bebe desde o breço, nã há modos de largar, nã le parece? Isto nã é mintira ninua, era cma todos os outros pitchenos do mê tempo, mal davam um grito as mãs pansavam qu’era dôs de barriga, ala dar-les licô de esprite de canela, a gente ficava era bêbedos, coutadinhos, ó dispous, já más maorzinhos, era sopas de cavalo cansado, sabe isto o que é, o sê pai tamam dava às mulas uma garrafa de vim e um pã trigue, antes da viage da cedade prà Maia, sete léguas aluídas por aí adiante, entanse pra subir a Croa da Mata, mas más principalmente o Coucinho do Porto Formoso, aqui os carroceros tinham de metê a giga nos varales da carroça pra dar uma ajuda às bestas. Nos Calços, a camineta, qu’era a cravão, nã subia, os passageros tinham de descer e dar uma ajuda a impurrar, o malero ponhava uma pedra mal ela subia uma becadinho, os homes tomavam folgo e ala outro impurrãzinho. E cando era pra sair aqui da Maia, o malero ia aí plas quatro da manhã acender a caldera, despous a camineta tomava balanço pra pegar pla rua da igreja abaxo, se não pegava tava lá em baxo uma junta de bous pra a levar pra riba até à igreja, e lá ia ela por ali abaxo até pegar. E no Coucinho do Porto tava sempre outra junta.
Pous, fu ê munto prezado ofrecer uma garrafinha ó mê doutor, nem faz ideia cm’aquele home tratou a minha mulher, qu’ela morrê fou porque teve de sê, era uma santa, o que penou comigo só Dês sabe e ê tamam. É por isso que agora que tou viúve e na ritaia venho cá más vezes, mas esses coriscos pregam-me cada partida qu’ê nunca m’alembro de ter feto igual a outros, e inda menos a eles, mês ricos amigos. Mas esta fou ideia do João Cravalho, que se ri cm’o demoino cando le conté, e ê tolo inda le fu contar o que m’acontecê. Pous segue-se que cando ê incontré o doutô, despous de le dar a garrafinha, era de Macieira, tava à espera qu’ele me fezesse um elogio, qu’aquilo vendo era mesmo Macieira, eles fezeram a cousa munto bem feta, era tal qual. Um elogio, isso é qu’era bum! Cal-te-cá elogio! Sabe o qu’ele me disse? Os coriscos tinham botado era chá nas garrafas, qu’ê despous provê a outra, que tinha na ideia ofrecê-la a outra pessoa amiga. O doutor ri-se e disse-me, ele fala uma nisquinha de pertuguês, já le disse, “Ó senhor Franco, a aguardente na sua terra é munto fraquinha.”

A sopinha do José Zélia

Como há uns amigos que confessam gostar destas histórias, aqui deixo outra, o mais próximo possível do modo como me foi narrada. O José Zélia foi das pessoas que mais me abençoaram na vida, pois de cada vez que eu ou qualquer outro lhe oferecia um copinho de vinho, incluindo minha mulher quando ia tomar café e o encontrava à espera de uma boa acção, ele punha as mãos num jeito muito característicos e exclamava: “Alminha santa!” Era tão magro que tentar a descrição pareceria um exagero. E não havia uma única dessas almas, santas ou não, que não gostasse dele. Vivia com uma irmã também solteira, seu anjo da guarda.
Notas- “pial” ou piar, amassaria, o que agora se diz bancada da cozinha.
* * *
O senhor prefessor vá-me desculpar, mas eu já contei isto ao senhor Adelino, sê sogro, e ele ri-se que fou misteres. Eu já sou velhinho, a cabeça já não aguenta munto, bebi dous copinhos e fiquei logo tonto. Cheguê a casa, Maria não tava, mas a sopinha tava sôbelo pial, peguê na binquinha, assantê-me e comi tudo nuns arages. Quando acabê de comer, vou pra me alevantar e dê uma grandessíssima cabamdela pr’aquele meo do chão. Ó senhor prefessor, fiquê pr’ali a esgatanhar alguns cinque menutres, já tinha as unhas negras cmà terra da cozinha, e pensê “ó Senhor Santo Cristo queride, se aquela putcha de merda chega agora, tou desgraçado”. Esgatanhê, esgatanhê, e não saía do memo lugar. Ó senhor professor, de repente eu sinti abrir a porta e disse “ó Senhor Santo Cristo, cá vem aquela putcha de merda, tou desgraçado.” Ela vi-me naquele trestalho, pegou-me na gadelha e apuxou, apuxou. O senhor prefessor desculpe, mas ê nã tinha onde agarrar, agarrê-le na marreca e apuxê. Ela gritou “tá-me doendo, cara de macaco”. E ê disse “tamam me tã doendo, putcha de merda, tamam me tá doendo”.

De sapatos e vinho

Mestre Luís Perneta? Aquilo era um demoino em forma de gente. O senhor sabe daquela vez que ele fez os sapatos prò sargento do Continente, não sabe? O home tinha estado aí co’a tropa no tempo da guerra, e ia-se embora, queria uns sapatos bem feitos prà viage. Mestre Luís fez-le os sapatos, ficaram com bum ar, cousa fina. Fina de mais, meu rico senhor. No dia que era prà tropa embarcar veio um temporal medonho, com chuva que Deus la dava, o barco não pude fazer viage. Pous aquela aguaria foi caindo no sargento, que não era melhor qu’os soldados nem qu’os oficiais, o pobre ficou todo num pinto. Os sapatos é que fou pior. Aquilo era cma uma espece de papelão, ou lá que era, começaram a arregoar, a desmanchar-se, o triste ficou quase descalço. Veja lá a figura que fazia se chegasse assim a Lisboa. A tropa voltou prà Maia, à espera de bum tempo, e o sargento fou logo no outro dia ter com mestre Luís. O qu’o home le disse, louvado seja Deus! Daquelas gordas, finas e grossas, umas à nossa moda outras à moda de Lisboa, e mestre Luís ouviu que nem uma pedra. Quando o sargento acabou de botar abaixo, e tinha toda a rezão, disse “garoto, aldrabão”. Mestre Luís alevantou-se, segurou o corpo na perna sã e contra a mesa, e apontou o dedo na cara do sargento dizendo-le: “Garoto e aldrabão é o senhor, que disse que se ia embora ontem e não foi.”
Levado dum corisco, isso é o que ele era. E lembra-se d’ele ter a tenda ali na casa onde mora o senhor Pedro, em frente da igreja? O dono da casa tinha casado c’uma senhora muito mais velha, mas rica, que mandava em tudo. Ele ia às vezes pra lá conversar com mestre Luís, e um dia mestre Luís pegou numa garrafinha, qu’inté tinha o gargalo partido, qu’uma garrafa era um luxo, nesse tempo, porradaria qu’a gente levava se quebrava alguma, qu’era pra encher na fonte qu’havia ao pé das escadas do adro, o senhor alembra-se? Mas vai mestre Luís e vira-se prò senhor Raposo: “A gente vai beber água, com vinho aqui ao lado?” É que mesmo apegado à tenda ficava a adega, era só abrir uma porta, mais nada. Mas o senhor Raposo disse “Ei home, a dona Maria se ouve dá cabo da gente.” Dona Maria era a mulher, e ele tratava-la era assim. Mas mestre Luís disse qu’abria a porta sim fazer barulho. E abriu mesmo. Levantou-la um poucachinho, e fou muito, muito devagarinho inté caber pla greta. Fou à vasilha, tirou o batoque, abriu a fonte e encheu a garrafinha. E fou logo garrafa prà boca, fou duma vez, benzò Deus. O pobre do senhor Raposo tava à espera da sua vez, mas quando mestre Luís acabou meteu a mão no peito cma quem diz que tava consolado, e deu um “ah!” do tamanho d’hoje e d’amanhã. E inda teve o descaramento de dizer “Foge, senhor Raposo, qu’a Dona Maria se vem aí mata a gente os dous.”