Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Vinte Linhas 366

Só é juiz social quem quer mas 3,99 euros é muito pouco

Saí de mais uma sessão (audiência) do Tribunal de Menores com o sentido do dever cumprido. Mais uma criança que, depois de abandonada pela mãe (e abandonar já é mal tratar…) esteve um ano numa Instituição e vai ser adoptada por um casal que já está na lista de espera há algum tempo. Saí satisfeito do edifício porque a minha experiência me diz que «a pior instituição é sempre melhor que a pior família».

Esta foi a primeira diligência que decorreu no novo edifício do Tribunal de Menores em pleno Parque EXPO. Fiquei a pensar que o que nos pagam por participar em cada audiência de julgamento é apenas 3,99 euros e antigamente ia a pé para o Tribunal (Rua Pedro Nunes) enquanto agora tenho que ir de Metro. Ora como cada viagem são 0,79 euros; logo ida e volta são 1,58 euros mas como é sempre necessário ir uma segunda vez para assinar a sentença são mais 1,58 euros – o que dá a quantia de 3,16. Portanto muito perto dos 3,99 euros que o Estado nos paga por cada diligência. É evidente que só é juiz social quem quer mas custa um bocado ver um advogado fazer uma «oficiosa» onde se limita a pedir justiça e receber aquilo a que tem direito e os juízes sociais passam horas a ler e a estudar o processo, meditam no assunto e depois participam o lado de todos os outros intervenientes para no fim receberem 3,99 euros.

Alguém já deveria ter reparado nisto. Há tanta gente nos ministérios e nas secretarias de Estado mas talvez porque os gabinetes estão fechados o ar condicionado não lhes permite perceber a vida real que passa cá fora. Ninguém me obriga a ser juiz social mas receber 3,99 euros que pouco mais dá do que para o Metro é uma vergonha. E não para mim.

Re-Intermitência

 

 

 

 

 

 

 


“Que bom, meu Deus”, geme-me, ao ouvido, M. Levanto-me, irritado, visto-me e dirijo-me, com força, para a porta da rua. “Não te admito que digas o que acabaste de dizer. Não sou, fixa bem isso, de ninguém”, explico, transtornado, segundos antes de sair.

Vinte Linhas 365

«Vida e Morte dos Santiagos» de Mário Ventura

A partir de uma invasão espanhola no Alentejo em 1802 (liderada pelo conde de Godoy) começam os problemas de uma família que deixa de poder comprar e vender livremente cavalos nas feiras da raia de Espanha. Trata-se de uma saga familiar que envolve mais de cem personagens e um arco temporal de três séculos. Mário Ventura recebeu com este romance dois prémios literários: Município de Lisboa e Pen Clube Português. Há edições na «Caminho» e na «Casa das Letras» além do «Círculo de Leitores» desta história que não é apenas a história de uma família e da sua busca pela posse da terra mas também uma profunda reflexão sobre a condição humana: «Ter muita terra já é sinal seguro de riqueza mesmo que nela só cultives pedras. Terra é poder e contra ela ninguém pode nada. Tão certo como eu me chamar Custódio Santiago. Quando se começa a mexer na terra, só para a obrigar a dar o que ela muitas vezes não pode ou não quer dar, nunca se sabe que males nos vão acontecer.»

Sobre este livro opinaram António Mega Ferreira (Expresso), Baptista-Bastos (J.L.), Fernando Dacosta (O Jornal), Urbano Tavares Rodrigues (Colóquio/Letras), Fernando Assis Pacheco (O Jornal) além de Júlio Conrado que, no velho Diário Popular escreveu o seguinte: «Torranjo passará à História como território feudal de que se apropriou, na voragem de turbilhonantes contendas políticas, um cigano de apelido Currales, por força dos acasos do amor conhecido mais tarde, solenemente, por Custódio Santiago».

A propósito do livro de Brito Camacho surgiu a sugestão de Manuel Barata para que se recordasse melhor este belo livro, esta acontecimento literário. Fica a breve nota.

Vinte Linhas 364

Carlos Ramos (1907-1969) guitarrista e intérprete do fado

«Carlos (Augusto da Silva) Ramos nasceu em Lisboa (Alcântara) em 10-10-1907. Começou a tocar guitarra nas tabernas do seu bairro e em 1939 acompanhou Ercília Costa numa digressão aos EUA. Tornou-se profissional do fado em 1944 no Café Luso e passou pelas adegas Mondego, Machado, Tipóia e Tágide antes de fundar em 1960 a sua casa típica – A Toca. Amália Rodrigues, Alfredo Marceneiro, Maria Teresa de Noronha, Fernanda Maria, Natércia da Conceição e Maria do Espírito Santo cantaram em A Toca. Carlos Ramos participou nos filmes Cais do Sodré, O Fado, Lavadeiras de Portugal e Fado Corrido. Actuou em Espanha, França e Brasil além dos Açores, Madeira, Cabo Verde, Angola e Moçambique. Participou em várias revistas ao lado de Hermínia Silva, Ercília Costa e Maria Albertina. Senhora do Monte, Não venhas tarde, O amor é louco, Despedida, Mas sou fadista, Saudade, Toca o mesmo, Recordar é viver ou O teu olhar são fados que consagraram a sua voz inesquecível de grande intérprete do fado. Faleceu em 6-11-1969 em Lisboa.»

Esta poderia ser a breve nota para um verbete numa enciclopédia portuguesa. Mas Carlos Ramos está ausente. Lembro-me bem de uma festa de homenagem que lhe foi feita em 1968 no Monumental e de uma fotografia que os jornais publicaram: Hermínia Silva, Madalena Iglésias, Francisco Nicholson e Armando Cortês em pose ao lado de Carlos Ramos. O artista tem uma bengala, sinal dos problemas de saúde que o viriam a matar um ano depois. Só em talheres e loiças foram mais de duzentos contos que «voaram» da sua casa típica. Carlos Ramos, artista, morreu de tristeza porque não soube ser comerciante.

Um livro por semana 122

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«Quadros Alentejanos» de Brito Camacho

Este livro de Brito Camacho (1862-1934) figura ao lado da melhor literatura sobre o Alentejo: entre a poesia do Conde de Monsaraz («Musa Alentejana») e a prosa de Manuel da Fonseca («O fogo e as cinzas»), entre os ceifeiros e carreiros de Francisco Bugalho em «Poesias» e os feitores e negociantes de gado de Mário Ventura em «Vida e Morte dos Santiagos». Nas suas 206 página há todo um certo tempo português e alentejano, articulado a partir das memórias do autor. Por exemplo a despedida da aldeia para ir estudar longe de casa: «Tinha a certeza de que na vila não se jogava o eixo, nem o funcho nem a abelharda, jogos em que eu não era dos últimos, nem se jogava o pião, jogo em que eu era dos primeiros! A cada lugar me prende uma recordação e cada recordação é já uma saudade». Ou então o sentimento religioso: «Raro era o domingo em que a igreja não se enchia. O mulherio ocupava o corpo da igreja. Os homens enchiam as coxias, o guarda-vento e o coro, distribuindo-se ao acaso, sem preocupação de categorias. Ninguém ajoelhava à caçadora, só com um joelho em terra». Ou ainda as guerras políticas locais: «As paixões políticas eram muito vivas na minha terra; os partidos digladiavam-se ferozmente em todos os campos; um dia de eleições era um dia de batalha; muitas listas entravam na urna tintas de sangue jorrando de cabeças partidas». Ou por fim as histórias incríveis em que a vida sorria à morte: «o tio José Branco um dia recolheu ao hospital, foi dado como morto e logo transferido para a igreja para se enterrar no dia seguinte. Sucedeu que pela noite fora o velhote se aliviou da bexiga e isso lhe valeu não ser enterrado vivo». A leitura destes 6 quadros alentejanos de ontem é um enorme prazer para o leitor de hoje.

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Vinte Linhas 363

«Imiscuir-se» não é o mesmo que «eximir-se» – é assim, vem nos livros

Abriu uma nova livraria em Lisboa e a minha filha mais nova esteve lá. Trouxe-me um livro sobre os campeonatos do Mundo de 1930 a 2006. Os autores são Rémulo Jónatas, Pedro Cunha, Sérgio Pires e José Pimentel. Até aqui tudo bem. O pior veio depois. Na página 142 aparece uma frase errada referente a 1982 «A Itália foi a primeira selecção a sagrar-se tricampeã do Mundo». Errada porque o Brasil em 1958, 1962 e 1970 já tinha sido tricampeão mundial. Na página 116 aparece escrito «Pelé lesionou-se no jogo contra Portugal» quando Pelé se lesionou (sofreu uma entrada violenta de Voutsov) no jogo com a Bulgária em 12-7-1966 de tal modo que não jogou contra a Hungria em 15-7-1966 ao contrário do que está escrito na página 196 («derrota com o búlgaros por 3-1 na qual Pelé não joga por lesão»). Quando jogou com Portugal em 19-7-1966 Pelé não estava nem podia estar em condições mas o treinador brasileiro apostou no «tudo por tudo» e o resultado não podia ter sido outro – a derrota do Brasil.

Na página 218 uma «caixa» intitulada «Terramoto em Moscovo» revela que depois da derrota em Portugal por 7-1 no Estádio José Alvalade os jogadores russos foram acusados de «falta de patriotismo» além de «falta de profissionalismo». E segue: «Nem o presidente do Parlamento russo, Boris Grizlov, se imiscuiu de considerar um pesadelo o estrondoso desaire de Alvalade». Ora bem «Nem o presidente se imiscuiu» não pode ser. Tem que ser «Nem o presidente se eximiu» porque imiscuir é «intrometer-se» mas eximir-se é «dispensar». A ideia era essa mas foi mal concretizada. Nem o presidente se eximiu de considerar um pesadelo o estrondoso desaire de Alvalade. Assim, sim.

Palavras em jogo 03

Charneca, Lezíria e Bairro

Vivi em Vila Franca de Xira de 1961 a 1966 e fui colega de turma do Álvaro Pato mas só há muito pouco tempo soube da existência do livro de contos do seu tio Carlos Pato que a PIDE matou com 29 anos de idade em 26 de Junho de 1950.

O livro «Alguns contos» foi editado por Alves Redol em 1951 e contém apenas três contos. O primeiro («Ao receber a jorna») tem como heroína Maria Alexandrina, trabalhadora rural que leva duas filhas para o campo porque não há creches nem infantários. Depois da semana de trabalho chega o dia de receber a jorna: «Uma cantou para que o tempo passasse; as outras ouviram caladas».

O segundo conto («Valados») mostra que o campo não é só paisagem («Tejo bom quando dá pão, mau quando o leva e não o dá») mas também lugar de luta. A falta de assistência médica é o drama em gente desta história.

O terceiro conto («Graxas») fala de um grupo de miúdos que brinca no Tejo. Nesse grupo de engraxadores nem todos sonham com o campo. Divididos entre trabalho e desporto, entre a Estação da CP e a aberta do Tejo onde nadam, eles são um elo na corrida de estafetas por um mundo melhor. Também perguntam entre si «Quando virá o dia que a gente muda de vida?» para logo um deles responder: «Não vem longe, Chico!».

Carlos Pato poderia ter sido um grande escritor. Há na tessitura dos seus contos a ampla respiração de um talento criador e um domínio perfeito da nossa língua. Mas a PIDE não deixou. Tal como não o deixou conhecer os filhos: a Clara tinha 8 meses quando o pai foi preso, o João Carlos nasceu em 2-12-1949 ou seja 5 meses depois da prisão do pai.

Palavras em jogo 02

As duzentas mulheres da Lezíria

A voz de Susan Boyle, um misto de potência e beleza, majestade e furor, limpidez e eficácia, rebentou com a escala num concurso televisivo inglês. Vergou o desdém do júri e a má vontade do público. Ocorreu-me logo a memória de um poema de Miguel Torga sobre as mulheres da Lezíria. O que na mulher escocesa de 47 anos era anonimato e solidão era, nas palavras de Torga, o esplendor da voz da Terra, a tristeza multiplicada de duzentas mulheres com os pés enterrados na água do arroz. E todas as colheitas perdidas dos sonhos por realizar. Não por acaso a canção do musical «Os Miseráveis» que levou a voz de Susan Boyle a todo o mundo se chama, em português, «Eu sonhei um sonho». Eis o poema de Torga:

São duzentas mulheres. Cantam não sei que mágoa

Que se debruça e já nem mostra o rosto.

Cantam, plantadas n´água

Ao sol e a à monda neste mês de Agosto.

Cantam o Norte e o Sul duma só vez,

Cantam baixo e parece

Que na raiz humana dos seus pés

Qualquer coisa apodrece.

Elas cantavam «o Norte e o Sul duma só vez» porque nesse tempo arrastado das migrações sazonais para o Ribatejo os ranchos de mulheres juntavam, na alta pureza das vozes a cantar, o esplendor dos sonhos enterrados no lodo com os pés de quem cantava.

Palavras em jogo 01

Tirou a carta mas vai puxar terra para os pés

Meu pai não tinha sandálias de vento. No ano de 1956 meu pai tinha uma bicicleta cor de cinza e eu sempre soube distinguir, na pequena descida da Várzea do Lameirão, o som inconfundível da roda pedaleira em descanso. Para os outros era penas mais uma bicicleta; para mim era a bicicleta. Não havia outra. Foi nessa bicicleta que ele fez viagens repetidas entre Santa Catarina e Santarém para tirar a carta de condução de pesados. Eram noventa quilómetros por semana, por estradas péssimas, debaixo de chuva, levando batatas e azeite de casa para comprar todos os dias o peixe mais barato no mercado da cidade. Pedalou sacrifícios, suores, poupanças, vento agreste e o mais que natural desejo de fugir ao seu destino traçado de cavador. Ou como dizia o senhor padre Castelão na missa de domingo anunciando futuros casamentos: profissão «jornaleiro». Porque viviam, fingiam que viviam, da jorna paga aos domingos de manhã no largo maior da terra depois da missa e antes da ida à taberna. Quando meu pai voltou orgulhoso da sua carta de pesados e de serviço público, o patrão resolveu contratar um motorista nascido numa aldeia perto de Alcobaça. Vingou-se assim do seu analfabetismo total: como não conseguia tirar a carta de condução pagou uma fortuna a uns aldrabões que o receberam num café das Caldas da Rainha. Saíram pelas traseiras e deixaram-no só, sem dinheiro e sem carta de condução. Foi assim, na trilogia Deus/Pátria/ Autoridade, numa aldeia da Estremadura que aprendi o sentido exacto e total da palavra fascismo. Afinal uma palavra ainda desconhecida para mim nesse já distante ano de 1956. Bastaram dez palavras assim pronunciadas: «Tirou a carta mas vai puxar terra para os pés».

Vinte Linhas 362

«O omãi qe dava pulus» ou Nuno Bragança com 4 anos

Acabei de ver no Centro Nacional de Cultura o filme «O omãi qe dava pulus» de João Pinto Nogueira e recordei de imediato com muita emoção o Nuno Bragança que conheci em 1982 na Editora Moraes. O filme é muito curioso, integra imagens em «super 8» e alguns depoimentos de várias figuras portuguesas que conheceram bem o autor de «A noite e o riso», «Directa» ou ainda «Square Tolstoi». Eu gostei do filme (um achado como solução) mas puxo a brasa à minha sardinha e como gosto muito de crónicas lembro uma crónica de Nuno Bragança no Diário Popular de 10-2-1982 na qual, com a sua habitual lucidez, escreve: «Quem vive do seu trabalho está farto de ver como florescem a corrupção e o contrabando, como o poder judicial favorece a criminalidade soltando a malandragem que a PSP captura, como os ministros emproados e os seus seguidores estão separados da população por um fosso intransponível, resultante de viverem numa atitude donde já não se vê nem se ouve e já da qual ninguém tem vergonha na cara em prejudicar os pobres nos pontos mais sensíveis, como se quisesse mesmo tramar a vida deles (casos da assistência hospitalar, dos preços dos medicamentos, da severidade contentora do leite distribuído pelos professores primários às crianças mais miseráveis e tantas pisadelas mais)». O título da crónica é sugestivo («O povo é sereno mas não é parvo») e termina de modo sério: «Ó pessoas sérias do PS português: estarão enfim dispostas a mostrarem quem são – ou vão mais uma vez ficar à espera de Godot?»

Vinte e sete anos depois, a crónica (escolhida por Fernando Venâncio para o Círculo de Leitores como uma das cem melhores do século XX) mantém toda a actualidade.

Vinte Linhas 361

Canção ébria

Encontrei num livro de Pedro Homem de Mello o verso que procurava para demonstrar uma ideia – ninguém pode ser quem não é. Gostaria de revelar para todos um poema desse livro (Bodas vermelhas) que me parece um belíssimo texto.

*

Não há ciência: há segredo.

E a eternidade é um minuto

Não há silêncios: há medo.

Não há lágrimas: há luto.

Triste, triste, triste, triste

Tristeza de entristecer!

Dança meu bem! Que o prazer

Só ele e mais nada existe.

Olha os palácios escuros

Em que as salas são cavernas!

Olha os jardins! Troncos, muros,

Raízes fundas, eternas…

Olha tanta vida bela!

Olha tanta mocidade

Que nunca foi à janela

Ver se o dia era verdade!

Ó ruas negras sem luz!

Ó noites sem maresia!

Ó terra áspera e fria

Que tudo a cinzas reduz!

E aquela pena apressada

Pior que a treva e que a neve

Que antes que a morte a leve

Escreve e não conta nada?

Que disse a bruxa a teu pai?

Ao longe cantam… Então,

Ergue flâmulas e vai

Atrás daquela canção!

Apenas não me enganaram

As vozes dos meus sentidos

Todos os mapas ficaram

Com nomes desconhecidos.

Mar de Java? Mar Egeu?

Alcácer? Damão e Diu?

Irmãos! Quem sois? Quem sou eu?

Tive uma filha e morreu.

Tive um amigo e mentiu.

As estrelas são estrelas

Não porque assim o quiseste.

As estrelas são estrelas

Como o cipreste é cipreste.

Quantas contaste? – Nenhuma.

Quem tas apontou? – Ninguém.

Dança! Dança! Enquanto a bruma

Te esquecer… Dança meu bem!

Segundo retrato de Helena ao colo de Marta

Helena coloca a mão direita em posição
De afirmar uma ideia sua em fantasia
Desenha no seu gesto futura afirmação
Da vontade que se expressa em alegria

Os olhos que se projectam, linha serena
No horizonte de um quarto de criança
São um bilhete de identidade de Helena
E o sorriso é um passaporte de esperança

Vejo a altivez na sua franqueza do olhar
Como velhos azeitoneiros da Andaluzia
A recolherem a luz do azeite num lagar
Nos fios dourados que dão calor ao dia

No sorriso de uma criança a Primavera
Em três dos corações de quem lhe quer
No tempo mais veloz quando não espera
Vai adormecer menina e acordar mulher

Vinte Linhas 360

Batatas e versos – um texto de Agostinho de Campos

Quando escrevi o texto cujo título era um verso dum poema de Pedro Homem de Mello («Ninguém nos peça o que não somos») descobri nas últimas páginas do seu livro «Bodas vermelhas» um texto muito curioso e bem disposto de Agostinho de Campos. Aí vai: «Existe desde longa data uma concorrência das batatas com os versos. Concorrência feroz na qual as batatas triunfam sempre. Vendem-se mais batatas do que versos porque aquelas são mais necessárias e mais úteis à saúde de cada um e de todos. E esta situação agravou-se nos últimos tempos, por causa da crise, ou antes, das crises: da económica e da poética. As batatas são cada vez mais necessárias e os verso cada vez mais supérfluos. Materialismo. E outra coisa: as batatas conservam sempre o mesmo gosto, o que lhes assegura a fidelidade dos mercados: os versos, salvo honrosas excepções, dizem sempre o mesmo, donde resulta que, antes de lê-los já se conhece de cor e salteado o sabor que eles têm. Dá-se então a injustiça flagrante de que ninguém já compra versos pela mesmíssima razão por que toda a gente continua a comprar batatas. Acresce a isto que ninguém sabe hoje ao certo o que sejam versos e poesia. Surgiu a poesia pura que relegou para os limbos da prosa quase tudo o que ainda há poucos anos considerávamos verso; além disso chegou no aeroplano o modernismo que aboliu os velhos códigos da versificação e da métrica, a ponto de que, muitos versos de agora, sem rima, sem ritmo e sem regra, parecem prosa a muita gente». A data do texto há-de ser 1933 mais ou menos pois Pedro Homem de Mello nasceu em 1904 e é apresentado como um «menos-de-trinta-anos». A crise é a de 1929 que provocou suicídios em Nova Iorque e muitos pobres no Mundo.

Re-Intermitência

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Não te apetece fazer amor”, pergunta-me, esfomeada, C., corpo estendido pelos lençóis por suar. “Sim, apetece”, respondo. “Mas pensei que fosse incomodativo, para ti, deixar-te aqui sozinha a meio da noite”, explico. E, alguns segundos depois, saio de casa, a caminho dos braços de M.

Vinte Linhas 358

«Um ramo de amendoeira» de António Rego

Qualquer jornalista aspira ao recolher em livro da prosa corrida do efémero do jornal. António Rego (n. 1941) é jornalista e padre; daí este seu terceiro título (Edições Paulinas) que se junta a «Palavra entre palavras» e a «Deus na cidade». O ponto de partida é um olhar sobre o Mundo: «Parece mais fácil semear o terror que a esperança. E o caos pode tornar-se mais sedutor que a harmonia». Esse olhar começa por Portugal («Portugal não é uma repartição para envio de relatórios para Bruxelas. Somos pessoas, um povo») embora não se limite ao nosso canto na Europa: «A esperança de vida como que se voltou contra a própria vida ao oferecer tempo de sobra para nada fazer». Perante a informação diária negativa («Como povo parecemos cabisbaixos, sem perspectiva») urge «discernir os sinais para melhor se ler os acontecimentos que perturbam o olhar imediato dos homens e das mulheres, mergulhados na perplexidade desconcertante dos nossos dias». É que há sempre novos e diferentes aspectos numa realidade como, por exemplo, o futebol: «As coisas não são apenas o que são. São o que simbolizam mais as metáforas que escondem, os sentimentos que expressam, as explosões de apreço ou fúria que acordam num clube, numa equipa, num país, numa pátria». Ou então o mundo da justiça: «O Cristianismo liga o eterno ao quotidiano, inspira leis e gestos, sugere a conversão do real sem se enredar no peculiar que compete a cada profissão e a cada construtor da cidade terrestre. A justiça não é um problema prioritariamente burocrático». Fiquemos com uma nota final do jornalista/padre António Rego: «Cada um vê o mundo como quer. Conta-o como entende. Mas a nossa vocação é mais alta que as nossas histórias mesquinhas».

Vinte Linhas 357

«Ninguém nos peça o que não somos» (Pedro Homem de Mello)

A propósito de algumas ferroadas quase venenosas que aqui foram publicadas sobre o texto do Cristiano Ronaldo não podia deixar de recordar (para quem já se esqueceu) que a minha entrada no «aspirinab» foi patrocinada pelo Fernando Venâncio a propósito de um texto meu publicado na Gazeta das Caldas com o título sugestivo de «Não o ponha tão alto que ele nem é licenciado!». Tudo aquilo tinha um enquadramento: aquela frase aparecia proclamada por uma criatura que julgava exagerado tanto o espaço ocupado pelo meu verbete no Dicionário de Literatura Jacinto do Prado Coelho como a nota atribuída por Clara Rocha, Silvina Rodrigues Lopes e António Cândido Franco à tese de mestrado de Ruy Ventura sobre a minha obra poética. Eu tive o cuidado de fazer acompanhar o meu texto de duas citações – uma de José Loureiro Botas e outra da Tomás Ribeiro Colaço. Ou seja: a propósito de um incidente que me colocava no centro de uma pequena polémica eu tive o cuidado de chamar a atenção para uma outra história exemplar passada nos anos 40 com um escritor sobre o qual se dizia que não tinha nome de escritor. E também não era licenciado. Moral da história: Fernando Venâncio, que teve em 1993 a inteligência, a capacidade investigativa e o discernimento para explicar a todos nós que no tempo do Eça de Queirós quem era muito conhecido era o Pinheiro Chagas (tal como no tempo de Cesário Verde o famoso era Cláudio Nunes) terá visto nessa minha crónica um bom princípio para me convidar. Aceitei e aqui estou para o que der e vier. Quem sabe se o Valupi não verá nesta crónica sobre Cristiano Ronaldo um motivo para suspender a minha participação. Aceitarei. Mas o Pedro Homem de Mello tem razão.

Um livro por semana 121

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«Boa Morte» de Manuel de Freitas

Nestes 16 poemas de Manuel de Freitas (n. 1972) há o registo da viagem na geografia de uma ilha. «Boa Morte» é o título do último poema do livro: «Não se pode acreditar num mapa / numa vida. Apagam-se, como levadas / secas, todas as palavras que escrevi». O contraponto entre vida e literatura, aqui enunciado, surge no poema «São Martinho»: «Tenho atrás de mim um bar / e à frente um cemitério. / Assim (na opinião de um amigo) / deveria terminar não apenas o postal / mas um poema que não escrevi».

A viagem é a metáfora da vida; por essa razão os títulos de todos os poemas são lugares, paisagens povoadas como «Câmara de Lobos», «Calheta» ou «Ponta Delgada» por exemplo. Ou «Porto da Cruz»: «Não me esquecerei. O engenho de / açúcar, à direita de quem morria / lançava calmos apelos de desordem».

Entre o precário da vida («O indeclinável cerco da tristeza / levou-me aonde queria sempre estar») e o inevitável da morte («a igreja velha onde o meu pai / aprendeu música já só abre para velórios») surge o amor enquanto recusa da morte: «A aflição da luz tornava-se / mais concreta. Seguimos / sem demora para o Pico do Areeiro / com passagem pelo Poço da Neve – onde uma ave negra debruava o céu / Mas não quis morrer».

Na aparente simplicidade dum poema breve inscreve-se a interrogação maior da vida: «De repente, pai, entre / o silêncio de duas ondas / ouvimos a única pergunta: / quantas vezes / ainda nadaremos juntos?»

(Edição do autor, Capa de Luís Manuel Gaspar)