Um livro por semana 121

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«Boa Morte» de Manuel de Freitas

Nestes 16 poemas de Manuel de Freitas (n. 1972) há o registo da viagem na geografia de uma ilha. «Boa Morte» é o título do último poema do livro: «Não se pode acreditar num mapa / numa vida. Apagam-se, como levadas / secas, todas as palavras que escrevi». O contraponto entre vida e literatura, aqui enunciado, surge no poema «São Martinho»: «Tenho atrás de mim um bar / e à frente um cemitério. / Assim (na opinião de um amigo) / deveria terminar não apenas o postal / mas um poema que não escrevi».

A viagem é a metáfora da vida; por essa razão os títulos de todos os poemas são lugares, paisagens povoadas como «Câmara de Lobos», «Calheta» ou «Ponta Delgada» por exemplo. Ou «Porto da Cruz»: «Não me esquecerei. O engenho de / açúcar, à direita de quem morria / lançava calmos apelos de desordem».

Entre o precário da vida («O indeclinável cerco da tristeza / levou-me aonde queria sempre estar») e o inevitável da morte («a igreja velha onde o meu pai / aprendeu música já só abre para velórios») surge o amor enquanto recusa da morte: «A aflição da luz tornava-se / mais concreta. Seguimos / sem demora para o Pico do Areeiro / com passagem pelo Poço da Neve – onde uma ave negra debruava o céu / Mas não quis morrer».

Na aparente simplicidade dum poema breve inscreve-se a interrogação maior da vida: «De repente, pai, entre / o silêncio de duas ondas / ouvimos a única pergunta: / quantas vezes / ainda nadaremos juntos?»

(Edição do autor, Capa de Luís Manuel Gaspar)

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