Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Vinte Linhas 356

Cristiano Ronaldo poderia ter morrido em 17-10-1999

O anúncio televisivo com Cristiano Ronaldo a dizer que daqui a três anos terá o dinheiro no BES arrepiou-me e trouxe-me à memória o dia 17 de Outubro de 1999. Era uma manhã gelada no pelado de Pina Manique, o jogo Casa Pia-SCP, 5ª jornada do Nacional de Iniciados. Chuva e frio ao mesmo tempo e em doses fortes. Aos 24 minutos, sem nada que o fizesse prever, o árbitro António Cardoso interrompe o jogo e chama de imediato o enfermeiro Fontinha. O jogador nº 10 do SCP estava mal. Muito mal. O pulso estava a correr como um cavalo à solta, a taquicardia foi sustida com uma injecção mas só a operação pôde mais tarde debelar o problema que era grave e congénito – o músculo do coração funcionava em duplicado. Tudo correu bem em Santa Cruz e o menino que veio da Madeira com 11 anos pôde prosseguir a carreira até aos píncaros da fama mundial. Eram seus colegas de equipa o Carlos Saleiro (que brilhou na Académica este ano) e o João Pimenta que me lembro de ver jogar no Covilhã além do Christopher que jogou no Torriense. O Carlos Marques chegou à equipa «B» do Sporting. A minha crónica no jornal «Sporting» de 19-10-1999 ficou com o título de «Triunfo no lamaçal» e referia duas contrariedades: a febre do guarda-redes Christopher e a taquicardia do Cristiano Ronaldo além da maior e mais geral – jogar num lamaçal quando o relvado estava às moscas. O treinador era Rui Palhares e o delegado era António Atanásio. O fotógrafo foi Vinicius Carriço mas só saiu uma fotografia porque era preciso espaço para as fichas dos jogos de Escolas e Infantis onde já brilhava um tal Daniel Carriço, esse mesmo. Ninguém é senhor do seu destino e por isso me arrepio quando vejo o anúncio. E sei porquê.

O gato de Fernanda – nove fragmentos

Atento, discreto, pacato. No perímetro da luz, olha a dona. O gato.

No lume aceso com a lenha do barracão antigo, as sombras são afastadas até ao sótão da infância. Aos gatos, sua paisagem, seu povoamento.

Que força empurra o gato frente ao sol no castanho-luz do telhado?

Teu gato a quem a chuva proíbe telhados e terraços. Veio do Egipto num navio de Veneza. No Cacém, sorri à dona portuguesa.

Terra trazida. Pequenas partículas de chuva nos limões e nas maçãs, invisíveis memórias de uma terra trazida. Minha terra, perto do teu gato.

Vejo intervalos de sol nos telhados do bairro, humidade permanente a respirar nas telhas como se o prédio fosse um corpo cansado, humano. O gato espreita.

Roubar alguns cabelos teus para fazer cordas de uma guitarra. Suave melodia, frente ao gato.

Há no teu olhar telhados infinitos, memória de paquetes brancos no rio e de sardinheiras vermelhas na varanda ao lado. Luz e calor. Gatos e sorrisos.

Há na tua voz um som que incorpora os sinos de Lisboa. De São Roque à Sé, da Conceição Velha à Madre de Deus. Toda a geografia de um afecto assim reproduzido, junto ao gato na janela.

Vinte Linhas 355

«A Ericeira vista por quarto gerações Franco Caiado» entre 1895 e 2007

Publicado pela Mar de Letras, organizado por José Constantino Costa e com prefácio de Maria da Conceição Reis, este livro divulga um tempo significativo (1895-2007) da história da Ericeira no testemunho de quatro gerações. A família Franco Caiado tem raízes na Ericeira desde 1630. O ponto de partida do livro são os escritos de António Franco Caiado (1871-1941) que regressou de África em 11-1-1895, pegou na casa comercial da família e iniciou o registo dos factos marcantes da Ericeira. Veja-se o 5-10-1910: «Rebentou a República. De manhã, pelas 10 horas fundeou aqui defronte o vaso de guerra. O comandante veio a terra, montou num cavalo e foi a toda a pressa a Mafra convidar a família real a embarcar, o que fizeram pelas 3 da tarde». José Leão Franco Caiado (1905-1969) escreveu sobre os anos de 1931 a 1968 tendo registado em 20-6-1945 a «visita emocionada da última rainha de Portugal» ao lugar de onde partiu para o exílio em 1910. Pio António Caiado (n. 1930) participa com o maior número de páginas (68) e recorda figuras da Ericeira como os médicos da terra (Bento Franco, António José Caiado e Manuel Peralta) e os de fora (Álvaro Malta, Arsénio Cordeiro e Fernando Namora), os padres da vila (Padre Zé, Padre Monteiro) e o Padre Cruz que em 1929 já tinha fama de santo. Recorda os fadistas (o Airoso, o Grande, o Pirolito, o Zé de Mafra e o Francisco Gato) e os que eram apontados pelos seus defeitos (Luís Pateta, Américo Marreco, Tanganho) sem esquecer o Catitinha que andava nas praias a alertar as crianças para o perigo dos automóveis; dizia-se que lhe morreu um filho atropelado. O quarto texto pertence a Nuno Franco Caiado (n.1959) para quem «olhar a terra é ver um amontoado de casas num sítio proibido mas devidamente permitido por alguma personagem dotada de excepcional incompetência cognitiva». Conclui de forma certeira: «A Ericeira de hoje é parte de um subúrbio mas continua a mobilizar entusiastas com as praias, as Furnas, as Ribas, os restaurantes e as vistas que restam.»

Um livro por semana 120

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«Tribunais Políticos» entre 1926 e 1974

Os processos dos chamados «crimes políticos e sociais» e os ditos «crimes contra a segurança do Estado» que foram julgados em Portugal entre 1926 e 1974 pelos Tribunais Militares e pelos Tribunais Plenários, são o ponto de partida para este trabalho de Irene Pimentel, João Madeira, Luís Farinha e Maria Inácia Rezola com a coordenação de Fernando Rosas. São 3975 réus julgados entre 1933 e 1945 e 3888 réus julgados entre 1945 e 1974, 61 por cento dos quais são oriundos do mundo operário (indústria, transportes, agricultura) emparceirando numa espécie de frente popular com aqueles sectores que eram a base do republicanismo radical (pequenos industriais, comerciantes e proprietários) e os empregados dos serviços das cidades – caixeiros, funcionários públicos e empregados de escritório. Os advogados de defesa destes réus são em número notável e algo inesperado: 320 no período inicial de 1926 a 1945 e 386 a partir dessa data até 1974. Os juízes entre 1945 e 1974 são ao todo 81 e a justiça democrática saída do «25 de Abril» foi muito lenta e generosa para com eles. Várias das mais sinistras figuras dos Tribunais Plenários terminaram gloriosamente as suas carreiras nas cadeiras prestigiadas do Supremo Tribunal de Justiça. E nunca pediram desculpa às suas vítimas.

Esta edição com 663 páginas do Círculo de Leitores e da Temas e Debates integra no seu final uma lista tão completa quanto possível dos réus julgados nos tribunais do Estado Novo. Alguns dos processos foram distribuídos às diversas comarcas do país e o seu rasto perdeu-se no escuro dos arquivos.

(Editoras: Círculo de Leitores/Temas e Debates, Capa: António Rochinha Diogo)

Vinte Linhas 354

Direitos dos animais – entre o delírio e a alucinação

Três ou quatro autarquias portuguesas proíbem touradas e logo surge um alarido – mas há em Portugal mais de trezentas câmara municipais. Este número não tem qualquer expressão. A Assembleia da República rejeitou um projecto de lei para proibir os animais nos circos – ainda bem que o delírio não foi por diante porque mais importantes são os postos de trabalhos dos empregados dos circos. Leio na «NS» um texto de Joel Neto que refere um documentário da RTP2 no qual um adepto transmontano do tuning afaga um cão e explica aos companheiros incrédulos: «Então? É um ser humano como nós!»

Esta nova doença da civilização faz com que os animais sejam vistos por muita gente como mais importantes que as pessoas. Há tempos fiz parte de um júri de um prémio literário autárquico de literatura infanto-juvenil e descobri que um conjunto de originais a concurso fazia dos «animaizinhos» (em vez das crianças) os protagonistas das histórias. Noutra situação, durante uma reportagem, ouvi o lamento de um pároco que tinha celebrado o casamento de uma senhora e ao perguntar-lhe dois anos depois para quando a alegria de ter um filho ouviu esta resposta – «Oh! Ainda agora gastei quatrocentos contos com a operação da minha cadela…»

O grande problema desta falsa questão é que os animais só poderiam ter direitos se pudessem ter deveres. Qualquer pessoa que tenha estudado os princípios fundamentais do Direito sabe isso. Uma coisa é pensar que os animais não devem ser maltratados; outra, bem diferente, é tentar fazer passar a mensagem de que os animais têm direitos. Dizer que os animais dos circos são maltratados já é outro domínio – delírio e alucinação

Um livro por semana 118

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«Salão Portugal» de Vítor Serpa

São 15 viagens à infância do autor: «O meu mundo era Lisboa; o meu país, Belém; a minha aldeia, a Travessa da Memória». Esta infância, tempo no qual não há preço nem para os beijos nem para as lágrimas, tem uma geografia: «A fronteira sul era o Tejo, a norte era a Ajuda, a leste era a Boa-Hora, a poente o Restelo. Os meninos que lá viviam não brincavam connosco nem faziam trocas dos bonecos da bola». Cromos entre o «não tenho» e o «fica para a troca»: «o Ramin, o Falé, o Rita, o Paz, o Rocha». Nesta infância há diferenças entre dona e senhora: «a mulher do peixe, varina velha e cansada, não se chamava dona mas senhora». Aprende-se o primeiro amor (Leila) que veio com o circo Filadélfia, chamava-se Dores e desapareceu numa manhã de nevoeiro. Aprende-se o segundo amor (Sissi) no Salão Portugal: «Na minha frente a deslumbrante visão da Romy Schneider, haveríamos de andar de mão dada». A Escola Primária («os heróis da Pátria eram vizinhos de Deus») faz a ponte para a memória do atentado contra D. José: «Saíra o rei por amor. Outros terão saído por ódio. Tudo acabou em cinzas e sal». Da montra da D. Vitória onde Cochise, Zorro, Silver, Jim Clarck, Buda e a Senhora de Fátima vivem em fantasia, a narrativa salta para a verdade da viúva de 26 anos com o marido morto em Tete que, farta de ser chamada «gaja, mulherzinha e reles» se lança à linha do comboio deixando um bilhete: «Amar-te-ei sempre. Ainda mais na morte do que na vida. Laura» No tempo definido («operários presos pela PIDE, crianças internadas com tuberculose») o registo dual do texto oscila entre a vida («o Matateu foi para o Atlético») e a morte: «Que orgulho pode uma mãe ter pela morte de um filho? Só porque militares fardados lhe chegaram à porta e lhe dizem que o filho morreu pela Pátria?» Entre a vida e a morte, fica o lugar do sonho: «Era a Baixa de Lisboa. As mulheres, elegantes. Os homens, ricos. Os carros, luminosos. As montras, apetecíveis».

(Editora: Dom Quixote, Capa: Henrique Cayatte, Fotos: André Alves e Horace Bristol)

Vinte Linhas 353

«Entre pedra e água» nas Portas da Cidade das Caldas

António Rodrigues expõe fotografias de grande formato («As matérias de Deus e o engenho do Homem») nas paredes do belo espaço da pastelaria Portas da Cidade, nas Caldas da Rainha, na Rotunda da EDP – que não se chamava assim no tempo de Cesário Verde, Rafael Bordalo Pinheiro e Júlio César Machado. O autor das fotografias não nasceu nas Caldas e, talvez até por isso, a sua perspectiva, que as imagens revelam a preto e branco sobre a cidade e o seu povoamento, é diferente, inesperada e inovadora.

António Rodrigues rejeita o bilhete-postal. Os seus registos a preto e branco mostram um lugar fascinante entre o fulgor do iodo das nossas praias e a dureza da pedra das nossas serras, passando pela fertilidade da água das grandes planícies. A Estremadura é esse encontro. A rainha D. Leonor também se deixou fascinar pelas coordenadas do lugar e permanece entre nós sob a forma de estátua visitada às vezes pela pomba do Espírito Santo. Depois há uma igreja onde o relógio mede o som dos sinos de bronze. Ao lado uma rosa de pedra e uma estreita rua de árvores na Mata com suas sombras a perder de vista. Mais ao lado o Hospital Termal e os seus caminhos cruzados: história e quotidiano, memória e esquecimento, luz e sombra, velocidade e quietude, ruído e silêncio. A fotografia surge, pois, como o encontro feliz entre o olhar do forasteiro (mais disponível para o inesperado) e a força do lugar onde as águas milagrosas trouxeram uma Rainha de Portugal para desenhar uma Cidade a partir dum Hospital Termal. Cesário Verde, Rafael Bordalo Pinheiro e Júlio César Machado, chegados aqui pela diligência do Carregado, com paragem no Cercal e na Sancheira, teriam gostado muito de ver estas fotografias.

Tempestade

Eu vou beber em cada café perdido
Nas mesas das pastelarias da cidade
Toda a saudade e a falta de sentido
Do rumo em direcção à tempestade

Que é não ter o teu destino cada dia
E não saber teu paradeiro e latitude
Primeiro deixar de saber o que sabia
Depois confundir a doença e a saúde

Eu vou beber em cada café perdido
Sentado nas cadeiras das esplanadas
Este poema que ainda não foi lido
Porque as palavras estão espalhadas

Pelos blocos que esperam um início
Pelas canetas como cavalos de corrida
O castelo mais que pedra é precipício
Onde a tarde empurrou a minha vida

Louvor e simplificação de Armando Silva Carvalho

Nos mais difíceis momentos, nós, sós

somos o campo na cidade, a surpresa:

– a luz eléctrica, o autoclismo, o jornal à porta

(Era assim quando chegámos, debruçados

na fotografia amarrotada da nossa alma).

Eram eles que há vinte anos partiam

procuravam nomes, ruas, padrinhos vagos,

e, mal pagos numa selva de secretárias,

iam estudar à noite, procurar.

Partimos, saímos mas voltamos sempre

ao pó, quando os carros passavam tão poucos,

quando os moinhos hoje páram tão cansados

quando os rios morrem nos peixes mortos

para lá do horizonte e da ganância.

Eram eles que dormiam mal, sós,

cavaleiros dum selo de correio para a mãe

dez tostões de palavras trémulas

entre os pontos e o relógio de ponto.

Partimos, saímos, o Império a chamar

tínhamos tido um tio em Cabo Verde

um primo na Índia, anos depois,

nós mesmos temos encontro marcado

seja em África ou num qualquer regimento.

Eram eles que tremiam na voz do padre

nos domingos na missa campal ao sol

e a mãe desmaiava nos braços da avó

ou no coração da tia mais sentimental.

Partimos, saímos, mal habituados

aos cinemas no Inverno, legendas breves,

os olhos a piscar, dois Cineclubes, a voz

– entretanto um remorso a crescer

nos mais difíceis momentos

quando somos o campo na cidade.

_

in «Leme de Luz» 1993 edição «Sol XXI Poesia»

Re-Intermitência

 

 

 

 

“O teu cérebro faz-me lembrar, por vezes, o do Picasso”, digo, sinceridade e seriedade, a L., companheiro de uma noite de debate intenso. “Porquê? Por parecer, por vezes, genial”, pergunta-me, surpresa e ego inflamado. “Não. Por parecer, por vezes, estar morto”, respondo.

Vinte Linhas 351

Fotobiografia de José Afonso ou a nossa memória do andarilho

Falei duas vezes com José Afonso. A primeira foi na Livraria Forja no Bairro Alto a propósito de uma notícia publicada no jornal A BOLA sobre as suas ligações desportivas à Académica: «É pá, em Setúbal e em Azeitão toda a gente me falou disso. Parece que a última página é mais lida que a primeira!». A recente «Fotobiografia de José Afonso» assinada por Irene Pimentel (edição Círculo de Leitores) veio em boa hora porque a sua leitura me emocionou. Fiquei espantado em ver como, passados tantos anos, a autora conseguiu recuperar fotografias de 1950, 1951, 1952 e 1953 ou seja, as fotografias do casamento de José Afonso com Maria Amália de Oliveira, as fotos de José Manuel e de Maria Helena, filhos ambos nascidos em 1953 (Janeiro e Dezembro) numa altura em que o pai de José Afonso lhe suspendeu a mesada e ele foi incorporado no serviço militar. Na segunda vez ou seja na entrevista que me deu para o jornal «Poetas e Trovadores» falou desses tempos difíceis: foi revisor do «Diário de Coimbra» e deu explicações a alunos do Liceu. Mas a vida era muito complicada e o casamento naufragou talvez porque se tratava de um casamento de dois náufragos – ele, longe dos pais e a dar-se mal com a tia Avrilete e ela, uma costureira, órfão de 18 anos de idade, pobre mas muito bonita, a dar-se mal com a família adoptiva. Um dos aspectos que emociona neste livro é a sensação de que estamos todos lá dentro. Na página 96 revejo a capa do livro «Cantar de Novo» da «Nova Realidade» de Tomar. Esse livro obrigava as pessoas da editora a irem aos Riachos, a Ourém ou a Torres Novas enviar os livros de Zeca Afonso porque em Tomar havia um bufo nos CTT que desviava as encomendas da editora.

Louvor do pastel de nata (Doce Real)

Como no pódio em lugar cimeiro
Acima do queque e do croissant
O pastel de nata é o primeiro
Da mais bela fornada da manhã

O forno cozeu pão de madrugada
Não esgotou o calor e a doçura
O pão mata uma fome já esperada
A nata adoça o sal da amargura

Quem chega e se dirige ao balcão
Zangado com notícias e jornais
Recebe prazer da boca ao coração
E fica com vontade de pedir mais

No ritual da manhã de cada dia
Tem lugar ao balcão e à mesa
O pastel de nata dá a energia
Para combater a nossa tristeza

Louvor do Vinho Fino

Nas linhas onde o comboio já não anda
Só ecos do rumor de gente nas estações
O poema principia na voz de Fernanda
Versos são socalcos de pedras e canções

Nos seus lábios, palavras são rebanhos
Que se unem à Terra como quem reza
O santuário, o ritual parecem estranhos
O altar já está escolhido, é esta a mesa

Aqui juntamos no cálice todo um mundo
Paisagem povoada por lentos lavradores
Nos seus braços existe um saber profundo
Repetido tanta vez entre pedras e sabores

O vinho bebido longe, no café da cidade
É líquido e mais que líquido é resultado
Da lenta fermentação de uma diversidade
Junta paisagem, luz, suor, tudo registado

Aqui chega o aroma perfeito e suspenso
Há no copo um silêncio que não termina
Prazer está no sabor, no aroma, é imenso
Castas Aragonês, Arinto e Malvasia Fina

Outras são Touriga, Verdelho, Folgazão
Celebradas num lagar em nova liturgia
Cada vindima é o fruto de uma paixão
Repetida cada ano numa ansiosa alegria

De súbito Leandro, menino de dois anos
Quer deixar de ser apenas um espectador
Embrulha-se na azeitona, nos seus panos
Como já tinha procurado andar no tractor

Na poda, na empa, o trabalho é empresa
Joaquim, Nuno e Nely cuidam do tesouro
Tempos depois a garrafa trazida à mesa
Tem o frio e o calor das terras do Douro

Re-Intermitência

 

 

 

 

 

“Não me leves a mal o que acabei de te dizer. Adoro, efectivamente, o desenho das tuas nádegas”, revelo, carinhoso, a C. “Mas não suporto, mesmo, a forma como se expressam”, acrescento. E abandono, em grande velocidade, a casa de banho que partilhávamos.

Vinte Linhas 349

A cidade começava o dia devagar

Não fosse a espuma levantada pelo cacilheiro e eu não teria percebido o início do movimento. Há mulheres que se demoram na luz do dia. Também a cidade, nesse distante dia 9 de Setembro de 1966, me pareceu adormecida, suspensa num sono de séculos, um sono marginado pelas colunas do cais e pelo castelo de S. Jorge. Uma vedeta da marinha levava operários do Arsenal do Alfeite e contornou uma fragata com cortiça vinda do Montijo. Já havia ponte sobre o Tejo mas as galeras de Vendas Novas e de Pegões deixavam ainda a sua carga no Cais dos Vapores da antiga Aldeia Galega. Deste lado das colunas é a apoteose do silêncio: acabo de chegar a Lisboa para o meu primeiro dia de trabalho e ainda não vi os eléctricos com bilhete de operário. A Sé à direita e as ruínas do Carmo à esquerda são compassos de oração numa cidade sem vida. Tenho 15 anos e nada sei do Mundo. Um avião por cima do Jardim Botânico anuncia o movimento mas o resto da cidade dorme o sono das muralhas. O Rossio ainda tem eléctricos mas agora só vejo árvores e anúncios luminosos nos telhados. No Terreiro do Paço ninguém se cruza com a estátua de D. José. Nem sequer um guarda-nocturno com as chaves a tilintar. Tal como um poema, uma peça de teatro ou uma orquestra segundos antes de uma sinfonia, o esplendor do silêncio da cidade espera-me. Caminho até à Rua do Ouro, amanhã vou tirar medidas ao alfaiate, sei que vou ganhar 900 escudos por mês. Os telhados alinhados da Baixa parecem livros. Mais de 40 anos depois estou fascinado como na primeira vez. A cidade começa o dia devagar. Os prédios alinhados continuam a parecer livros nas prateleiras dum alfarrabista. Hoje como em 1966. Lisboa – minha cidade, meu amor.