Um livro por semana 118

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«Salão Portugal» de Vítor Serpa

São 15 viagens à infância do autor: «O meu mundo era Lisboa; o meu país, Belém; a minha aldeia, a Travessa da Memória». Esta infância, tempo no qual não há preço nem para os beijos nem para as lágrimas, tem uma geografia: «A fronteira sul era o Tejo, a norte era a Ajuda, a leste era a Boa-Hora, a poente o Restelo. Os meninos que lá viviam não brincavam connosco nem faziam trocas dos bonecos da bola». Cromos entre o «não tenho» e o «fica para a troca»: «o Ramin, o Falé, o Rita, o Paz, o Rocha». Nesta infância há diferenças entre dona e senhora: «a mulher do peixe, varina velha e cansada, não se chamava dona mas senhora». Aprende-se o primeiro amor (Leila) que veio com o circo Filadélfia, chamava-se Dores e desapareceu numa manhã de nevoeiro. Aprende-se o segundo amor (Sissi) no Salão Portugal: «Na minha frente a deslumbrante visão da Romy Schneider, haveríamos de andar de mão dada». A Escola Primária («os heróis da Pátria eram vizinhos de Deus») faz a ponte para a memória do atentado contra D. José: «Saíra o rei por amor. Outros terão saído por ódio. Tudo acabou em cinzas e sal». Da montra da D. Vitória onde Cochise, Zorro, Silver, Jim Clarck, Buda e a Senhora de Fátima vivem em fantasia, a narrativa salta para a verdade da viúva de 26 anos com o marido morto em Tete que, farta de ser chamada «gaja, mulherzinha e reles» se lança à linha do comboio deixando um bilhete: «Amar-te-ei sempre. Ainda mais na morte do que na vida. Laura» No tempo definido («operários presos pela PIDE, crianças internadas com tuberculose») o registo dual do texto oscila entre a vida («o Matateu foi para o Atlético») e a morte: «Que orgulho pode uma mãe ter pela morte de um filho? Só porque militares fardados lhe chegaram à porta e lhe dizem que o filho morreu pela Pátria?» Entre a vida e a morte, fica o lugar do sonho: «Era a Baixa de Lisboa. As mulheres, elegantes. Os homens, ricos. Os carros, luminosos. As montras, apetecíveis».

(Editora: Dom Quixote, Capa: Henrique Cayatte, Fotos: André Alves e Horace Bristol)

3 thoughts on “Um livro por semana 118”

  1. Lisboa era um conjunto de aldeias com seus limites e seus bairrismos e eu, chegado do mundo rural, ainda conheci isso no príncípio dos anos sessenta.
    Tive a sorte de, a montante do Tejo – Alfama, Terreiro do Trigo, Rua da Alfândega, Cais das Colunas – ter sido adoptado por fragateiros, calafates, estivadores e outra gente da beira-cais com quem acamaradei e que tinham desaparecido quando, quatro anos depois, regressei da tropa.
    Obrigado, José do Carmo Francisco pela bela recensão do livro que hei-de ler com muito prazer, para conferir se a minha memória de puto que chegava confere com a memória de puto nado e criado em Lisboa, entre o Tejo e a Ajuda. Talvez não que Belém era longe para quem morava em Alfama.
    Jnascimento

  2. Vale a pena escrever estas notas para ter leitores desta «laia» como escreveria o nosso mestre Camilo Castelo Branco. A «laia» que não é uma palavra feia – antes pelo contrário. Lembro aquela história do bacamarte que um homenszinho de uma aldeia milhota levou ao armeiro para limpar e este, depois de descobrir no cano algumas moedas de prata que guardou numa saquinha, se voltou para o freguês e disse: «Três pintos é quanto me deve!» Para o outro responder «Pois ainda há homens da sua laia?»

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