Louvor do Vinho Fino

Nas linhas onde o comboio já não anda
Só ecos do rumor de gente nas estações
O poema principia na voz de Fernanda
Versos são socalcos de pedras e canções

Nos seus lábios, palavras são rebanhos
Que se unem à Terra como quem reza
O santuário, o ritual parecem estranhos
O altar já está escolhido, é esta a mesa

Aqui juntamos no cálice todo um mundo
Paisagem povoada por lentos lavradores
Nos seus braços existe um saber profundo
Repetido tanta vez entre pedras e sabores

O vinho bebido longe, no café da cidade
É líquido e mais que líquido é resultado
Da lenta fermentação de uma diversidade
Junta paisagem, luz, suor, tudo registado

Aqui chega o aroma perfeito e suspenso
Há no copo um silêncio que não termina
Prazer está no sabor, no aroma, é imenso
Castas Aragonês, Arinto e Malvasia Fina

Outras são Touriga, Verdelho, Folgazão
Celebradas num lagar em nova liturgia
Cada vindima é o fruto de uma paixão
Repetida cada ano numa ansiosa alegria

De súbito Leandro, menino de dois anos
Quer deixar de ser apenas um espectador
Embrulha-se na azeitona, nos seus panos
Como já tinha procurado andar no tractor

Na poda, na empa, o trabalho é empresa
Joaquim, Nuno e Nely cuidam do tesouro
Tempos depois a garrafa trazida à mesa
Tem o frio e o calor das terras do Douro

7 thoughts on “Louvor do Vinho Fino”

  1. José do Carmo Francisco está um homem do Douro e das suas margens, quase barão.
    Oxalá Fernanda lhe ensine, para além do socalco e da lavra, a alquimia do mosto e do mel antes que subam, carreira da viúva acima, uma tarde inteira até à serra, curva, contracurva, curva, desde o Pinhão.
    José do Carmo Francisco bebe do fino sem ter que lhe chamar do Porto e mesmo na cidade merece que ele seja bom
    Saúde, amigo !
    Jnascimento

  2. Confiança.

    O que é bonito neste mundo, e anima,
    É ver que na vindima
    De cada sonho
    Fica a cepa a sonhar outra aventura…
    E que a doçura
    Que se não prova
    Se transfigura
    Numa doçura
    Muito mais pura
    E muito mais nova…

    Cântico do Homem, 1950.
    Miguel Torga, 1907-1995

    Torga um homem bom deste “Reino Maravilhoso”,

    Para ele o meu louvor.

  3. Á tua saúde, «sinhá» e de todos os frequentadores do Blog. Quanto ao João XXI acho bem o elogia de Torga mas foi preciso o post para ele aparecer. Louvar «a» não subentende amesquinhar «b». Eu próprio dediquei a Torga um poema. Nada de confusões…

  4. JCF, vou-te dizer o que não gosto nos teus poemas: semântica religiosa, bucólica, ultrapassada e a desafinação, o remate final falhado, por não haver palavra que encaixe. É um drama verbal.

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