Louvor e simplificação de Armando Silva Carvalho

Nos mais difíceis momentos, nós, sós

somos o campo na cidade, a surpresa:

– a luz eléctrica, o autoclismo, o jornal à porta

(Era assim quando chegámos, debruçados

na fotografia amarrotada da nossa alma).

Eram eles que há vinte anos partiam

procuravam nomes, ruas, padrinhos vagos,

e, mal pagos numa selva de secretárias,

iam estudar à noite, procurar.

Partimos, saímos mas voltamos sempre

ao pó, quando os carros passavam tão poucos,

quando os moinhos hoje páram tão cansados

quando os rios morrem nos peixes mortos

para lá do horizonte e da ganância.

Eram eles que dormiam mal, sós,

cavaleiros dum selo de correio para a mãe

dez tostões de palavras trémulas

entre os pontos e o relógio de ponto.

Partimos, saímos, o Império a chamar

tínhamos tido um tio em Cabo Verde

um primo na Índia, anos depois,

nós mesmos temos encontro marcado

seja em África ou num qualquer regimento.

Eram eles que tremiam na voz do padre

nos domingos na missa campal ao sol

e a mãe desmaiava nos braços da avó

ou no coração da tia mais sentimental.

Partimos, saímos, mal habituados

aos cinemas no Inverno, legendas breves,

os olhos a piscar, dois Cineclubes, a voz

– entretanto um remorso a crescer

nos mais difíceis momentos

quando somos o campo na cidade.

_

in «Leme de Luz» 1993 edição «Sol XXI Poesia»

5 thoughts on “Louvor e simplificação de Armando Silva Carvalho”

  1. Era um pesadelo, um cais inteiro a acenar ao nosso medo !
    Muito belo o poema e o selo de cavalinho que os areogramas não tinham, eram de borla.
    O álcool, o tabaco e o correio eram três coisas fortemente subsidiadas d’ além mar.
    Outras eram de borla.
    Obrigado pelo louvor (à ordem) grato pela simplificação.
    Jnascimento

  2. Um abraço J Nascimento valeu a pena ter um leitor assim disponível. Só por isso está justificado o trabalho de o ter recuperado de um livro «perdido» porque houve uma inundação na distribuidora que era na cave…

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