Se o João Miranda fosse uma gaja


parte II, parte III

Ayn Rand, já ouviste falar? Claro que sim, há sempre alguém a falar dela nos cafés e transportes públicos de Portugal, até aparece na Internet. Por isso sabes bem que esta mulher é absolutamente fascinante, a começar pela facilidade com que pode ser vista como um absoluto monstro inumano. Mas um monstro que está na origem desse superlativo filme: The Fountainhead — entre outras peculiaridades de causar babada admiração. Adiante.

E agora repara na data da entrevista, 1959. Excelente ano, viçoso como poucos. Há exacto meio século, aqueles dois aqui em cima estavam a conversar sobre os mesmíssimos assuntos que, na actualidade, têm ocupado as melhores inteligências planetárias desde Setembro de 2008. E faziam-no na televisão americana, para os burros dos americanos. Desperdícios.

Pois esta exótica e rara mulher tinha um amigo que está no epicentro da crise actual, o famoso Alan Greenspan. Isto anda tudo ligado, eles conhecem-se de ginjeira; sendo mais do que tempo, até porque estou cheio de pressa, para chamar o Miranda. E perguntar: ó Miranda, és homem para te reconheceres nesta gaja?

18 thoughts on “Se o João Miranda fosse uma gaja”

  1. Val,

    Antes de mais obrigado pelo comentário ao meu post.
    Essa criatura é responsável por algumas das mais castiças personagens da bloga portuguesa, e por alguns dos maiores desatinos desta crise. Nesse altar do neoliberalismo que é o Insurgente, acho que todos já se confessaram Randianos, e têm os livrinhos da Senhora na mesinha de cabeceira. Defensora de uma ética em que só indivíduo conta, não tendo qualquer obrigação para com os demais, os neoliberais justificam frequentemente na filosofia randiana o capitalismo purto, ou o anarco capitalismo, sem Estado como único modelo que respeita essa ética. Se quiseres é a filósofa por detrás do capitalismo, estando Hayek e outros na formulação económica. A senhora foi aliás a inspiração do Partido Libertário que envia classicamente Ron Paul às primárias republicanas. O pessoal do insurgente chegou a criar um blog PortugalforRonPaul em blogspot. Ainda está aí no lixo da blogosfera se te quiseres rir.

    É curioso que tenhas falado nela, porque ainda há uma semana o Miguel Moniz fazia um texto sobre Ayn Rand no insurgente, contra Joseph Stiglits e a sua crítica da visão que a direita tem do mercado. Respondi neste post http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/05/o-socialismo-democratico-vs-o.html se eventualmente interessar alguém por aqui. A minha tese de base é que se o mercado é uma construção social e o homem é livre, então é livre de se preocupar com o seu semelhante. E como nada pode ser imposto ao Homem, a solidariedade social não pode ser impedida. E todas as construções que derivam de o homem ser um animal social têm de ser aceites pelos liberais ortodoxos, ainda que os remetam a um grupo marginal.

    Enfim fica a sugestão. A par com outra, que tem a ver com mais uma fractura no PSD revelada ontem, agora entre Rangel e Ferreira Leite:
    http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/05/rangel-no-nicola-iii-desnudada-clivagem.html

    Um abraço,
    Carlos

  2. Magnifico, de antologia de facto.

    A questão é : porque é que nos é tão dificil refutar esta filosofia ? (e, ja agora, o problema não é ela estar na cabeça do João Miranda, o problema é ela estar na cabeça da maioria das pessoas)

    Digo eu : porque so vemos metade do sentido da palavra “liberdade”. Quem, hoje em dia, sabe explicar porque é que Libera era deusa da fecundidade ?

    Como diz João Pinto e Castro, somos zarolhos quando olhamos para a liberdade…

  3. Carlos, tens toda a razão, o Insurgente tem sido o grande divulgador da senhora. E a tua tese explora (retoricamente?) a lógica mesma do liberalismo; o qual, no seu paroxismo, até admite uma concepção colectivista da sociedade (por tudo valer, afinal). Isto porque se está a lidar com conceitos que carecem de definição e reflexão filosófica – o que fica muito claro quando, por exemplo, nos deparamos com a posição de Ayn Rand quanto aos doentes mentais. O que ela afirma sugere um perfilhamento do eugenismo. Dá muito que pensar na correlação com os pressupostos do seu pensamento e respectiva interpretação. Por exemplo, Ayn Rand afirma-se aristotélica, mas a sua leitura do aristotelismo não resiste à aferição hermenêutica.

    Enfim, excelente contributo para o debate, Carlos.
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    via, perguntas bem. Fui buscar o Miranda só pela parvoíce blogosférica. Nada mais.
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    João Pinto e Castro, tens uma galeria de tarados? Mesmo? É que se a tivesses materializada, gostava de a conhecer.
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    joão viegas, é curioso que digas ser difícil refutar a sua filosofia. Por exemplo, o entrevistador pareceu genuíno ao representar a opinião comum de escândalo, ou funda estranheza, perante a suposta couraça racional com que Ayn descreve a sua vida afectiva e volitiva.

    Acresce que, no campo da psicologia evolutiva, e da antropologia (ainda antes), estar estabelecido que os sentimentos de altruísmo e amor, e as emoções ligadas à simpatia e empatia, tiveram um decisivo contributo para a coesão dos grupos humanos, aumentando as suas probabilidades de sobrevivência. Também o humor, por exemplo, tem sido analisado como uma estratégia que tinha como resultado a diminuição da violência no seio do grupo. E por aí fora.

    Mas creio que te entendo bem: este discurso faz fundo sentido. E traz algo libertador, sem dúvida alguma. Não é é a história toda.
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    Sinhã, quem terá inventado essa dos dentes?…

  4. Val, obrigado. Eu não sei se o meu amigo João Pinto e Castro tem uma galeria de tarados, mas acho que todos concordamos que não era díficil fazer uma cerna de cromos engraçada com algumas destas figurinhas. Perdem piada é quando vemos o que as ideias deles deram….

    Abraço,
    Carlos

  5. Valupi,

    Para argumentos desse tipo já tinhamos Nietzsche, que está, obviamente, a milhas desta criatura. Rand (e Niezsche) até teria razão se a moral fosse necessariamente sacrificial. O principal problema de Rand é o de só saber pensar em termos duais -egoismo vs. altruismo; eu vs os outros. Antes de ser especificamente ética, a questão é ontológica — e a ontologia é ética. O objectivismo de Rand limita-se a ser uma assersão infundada: declara, afirma; não argumenta. Um dos seus problemas óbvios é o facto do individuo não existir sem a sociedade. Só um pensamento do tipo dialógico (ou dialéctico) é que nos permite enquadrar correctamente estes temas. Eu aqui sou Hegeliano linha dura. Simplificando, acho que quase tudo o que importa dizer sobre questões de individualidade foi escrito em 1807. Por muito que Marx e Kojeve tenham distorcido a dialéctica do senhor e do escravo, a ética de reconhecimento que Hegel nos propôs é a única que nos permite ultrapassar os debates aporéticos esobre actividade-passividade, sujeito-sociedade, e —sobretudo — ser-dever ser (cujo dualismo redunda necessariamente numa moral sacrificial, que Hegel tão bem criticou, sem cair na perspectiva Nietzschiana, na secção intitulada “visão moral do mundo” da Fenomenologia do Espírito). Hegel é porventura o pensador mais mal interpretado da história da filosofia. O seu barroquismo linguistico não ajuda. Mas ele é, sem dúvida alguma, o grande pensador da modernidade. E um dos poucos que colocou soube colocar a questão da liberdade de forma correcta.

  6. Isto é tão interessante que demorei dois dias, ou seja resolvi ouvir em dois dias diferentes. Não conhecia a mulher Ayn Rand, portanto exponho já a minha ignorância. 1959: a minha dúvida é se o Sartre na Idade da Razão disse coisas muito diferentes, já li há muitos anos e nem sei onde anda.

    Tem um sotaque óptimo, russian style, dá para perceber quase tudinho,

    Portanto é daqui que vem o primeiro plano da auto-estima. Ela diz coisas interessantes como “hold reason as an absolute”, “in love the currency is virtue”, “man has free will”, “it is open to everyone…”,

    ela coloca a questão como se amar fosse uma decisão racional, aliás ela fala como um computador e os olhos são as luzes a piscar, mas aquele final de que está aberto para todos a possibilidade de melhorarem e corrigir aspectos negativos e portanto ganharem o direito ao amor é um final aberto, logo não trágico,

    tem algo a ver com o princípio da exertion defendido pelo Malthus como o alicerce da vida social humana,

    Mas insisto na contextualização, a seguir ao niilismo vem o primado de afirmação do indivíduo, faz sentido, e isso prolonga-se até ao início do novo milénio até que agora derrocou,

  7. já agora anda aí um debate interessante, pode ser que interesse a alguns:

    Stathis Psillos, Scientific Realism and Metaphysics. Metaphysics in Science (ed. A. Drewery), Blackwell Publishing, Malden, 2006.

    Eu subscrevo o realismo científico como plataforma comunicacional, mas não a sua versão fundamentalista, o realismo físico ou fisicalismo, que exige que só existe o que tem expressão física mensurável, e o que está fora deste protocolo definido como exemplo padronizado (paradigma), não existe.

    E creio que foi à conta da dominância desta escola no final do milénio passado, depois de muita coisa e da agenda Sokal que se chegou a este estado de coisas de que ninguém podia prevêr a crise sob pena de excomunhão porque a crise só existia depois de existir, mensurável.

    E mesmo assim burros porque o Dow Jones começou realmente a cair em Outubro de 2007, vê-se bem, e foi preciso o trambolhão de Outubro de 2008 para se dizer finalmente que existia. Sapiens sapiens ma non troppo.

  8. Aqui está um belo exemplo da chamada conversa de enrolar a cobra: o domínio de um certo número de conceitos mais ou menos complexos embrulhados num discurso mais ou menos elaborado que pode ser usado como uma arma bastante perigosa.

    A conversa perde todo o sentido porque omite propositadamente o óbvio, básico e essencial: um dos factores chave para o sucesso da espécie humana tem sido a cooperação comunitária e a partilha de experiências e conhecimentos entre os seus membros.

    E se esta gaja tivesse ficado entregue a si mesmo desde que nasceu?… O que nós tínhamos perdido!

    Seria motivo para perguntar à senhora, afinal quanto vale assim uma coisinha intelectualmente rechonchuda, artisticamente compacta como ela e, calculo, carregadinha de horas de meditação, palestras e o mais o que a terá formado? Quanto custará uma coisa assim, por junto?

    Não passa de mais uma mescla bem afinada de ficção, neuroses pessoais e realidade e nós cá estamos para aturar e resolver os efeitos de intencionais aproveitamentos.

  9. Galamba, não creio estarmos em condições de analisar a obra de Rand com exigência filosófica (e terá ela uma obra filosófica ou meramente ideológica?). E também por isso tens razão, ela nesta entrevista não argumenta, declara. Mas outro campeonato seria analisar a sua obra, a qual inclui dimensões literárias e biográficas que não aconselham rapidez no gatilho.

    Quanto ao que dizes de Hegel, é entusiasmo primaveril. Não se trata de lhe retirar a medalha da grande síntese da modernidade, mas sim de não lhe poderes entregar de bandeja a temática da individualidade. Tal como a sua dialéctica não leva à radicalidade que a abertura heideggeriana irá expor. Por isso Hegel fica refém da sua filosofia da História (como todos os marxistas, em cascata), em resultado do desvio ontológico que remonta ao platonismo.
    __

    z, bem visto, subjaz um niilismo nessa absolutização do sujeito. Mas, à mesma, há algo ali de libertador. É como uma substância que tanto pode ser um veneno como um remédio, dependendo da quantidade. Alquimias, pois.
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    tra.quinas, bem verdade. Mas também verdade a inversa: a pulsão de poder, a guerra e a destruição têm sido constantes na história dos povos e dos indivíduos.

    É também possível que o facto de ela ter sido uma refugiada russa, apanhando o período da Revolução, esteja na origem do seu radicalismo ideológico.

  10. certo Valupi, o pharmakon, pois eu também achei muito interessante e concordo que há algo de libertador porque ela aduz um final aberto, recuso-me a deitar para o lixo, aliás guardei isto no email porque merece. Deverá ter sido mais ou menos por esses anos que a Arendt reflectiu sobre A Condição Humana, não? Estou há milénios para ler isso mas felizmente ainda nem comprei o livro.

    Espero que venham mais comentadores, mas acho que não resisto a ouvir amanhã de manhã outra vez. Só de manhã que à noite quero é ronronar.

  11. Valupi, pois tens razão. Nem o estado é um papão nem o individualismo um cabrão. O capitalismo selvagem não é solução e a crise tirou-lhe toda a razão.

    Não me custa nada aceitar que esse tal de objectivismo de Ayn Rand tem muitos aspectos interessantes quer sobre a moral, quer sobre a liberdade intelectual quer sobre a razão e o conhecimento. Não me custa nadissíma. Mas não tenho nenhuma paciência para desonestidades intelectuais. É um problemazinho meu :)

    É como muitos donzêlos e donzelas que pululam por esta blogosfera: tão pudicos nas causas e demasiadamente porcos nos argumentos. Querem-se muito virtuosos mas mostram-se mais debochados do que muita gente da vida e da estrada.

  12. “A conversa perde todo o sentido porque omite propositadamente o óbvio, básico e essencial: um dos factores chave para o sucesso da espécie humana tem sido a cooperação comunitária e a partilha de experiências e conhecimentos entre os seus membros.”

    Não ouvi a sra. afirmar em algum momento que os homens não deviam cooperar ou partilhar ou ajudar o próximo. Aquilo que diz, segundo percebi, é que tais acções devem depender exclusivamente da vontade do individuo que busca o seu interesse próprio, e não impostas coercivamente pela sociedade.

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