Vinte Linhas 355

«A Ericeira vista por quarto gerações Franco Caiado» entre 1895 e 2007

Publicado pela Mar de Letras, organizado por José Constantino Costa e com prefácio de Maria da Conceição Reis, este livro divulga um tempo significativo (1895-2007) da história da Ericeira no testemunho de quatro gerações. A família Franco Caiado tem raízes na Ericeira desde 1630. O ponto de partida do livro são os escritos de António Franco Caiado (1871-1941) que regressou de África em 11-1-1895, pegou na casa comercial da família e iniciou o registo dos factos marcantes da Ericeira. Veja-se o 5-10-1910: «Rebentou a República. De manhã, pelas 10 horas fundeou aqui defronte o vaso de guerra. O comandante veio a terra, montou num cavalo e foi a toda a pressa a Mafra convidar a família real a embarcar, o que fizeram pelas 3 da tarde». José Leão Franco Caiado (1905-1969) escreveu sobre os anos de 1931 a 1968 tendo registado em 20-6-1945 a «visita emocionada da última rainha de Portugal» ao lugar de onde partiu para o exílio em 1910. Pio António Caiado (n. 1930) participa com o maior número de páginas (68) e recorda figuras da Ericeira como os médicos da terra (Bento Franco, António José Caiado e Manuel Peralta) e os de fora (Álvaro Malta, Arsénio Cordeiro e Fernando Namora), os padres da vila (Padre Zé, Padre Monteiro) e o Padre Cruz que em 1929 já tinha fama de santo. Recorda os fadistas (o Airoso, o Grande, o Pirolito, o Zé de Mafra e o Francisco Gato) e os que eram apontados pelos seus defeitos (Luís Pateta, Américo Marreco, Tanganho) sem esquecer o Catitinha que andava nas praias a alertar as crianças para o perigo dos automóveis; dizia-se que lhe morreu um filho atropelado. O quarto texto pertence a Nuno Franco Caiado (n.1959) para quem «olhar a terra é ver um amontoado de casas num sítio proibido mas devidamente permitido por alguma personagem dotada de excepcional incompetência cognitiva». Conclui de forma certeira: «A Ericeira de hoje é parte de um subúrbio mas continua a mobilizar entusiastas com as praias, as Furnas, as Ribas, os restaurantes e as vistas que restam.»

4 thoughts on “Vinte Linhas 355”

  1. Garanto-lhe que nunca tive por ali um qualquer roteiro sentimental, mas gosto tanto da Ericeira, que lhe tenho dedicado alguma da minha prosa pindérica e fotografias no blogue.
    De facto, hoje a Ericeira está descaracterizada, com aquele mar de pára-quedistas de fim-de-semana. Porém, durante a semana, nestes dias de Maio, é possível passar-se uma bela manhã nesta vila de Mafra. E se o forasteiro conhecer o senhor Egídio e puder comer uma caldeirada no Mar de Areia. “Bon, se ne sais pas si je vous dise, si je vous raconte”.
    Abraço

  2. Pois… e a auto-estrada teve um efeito perverso, também. O livro é interessante também por isso – das grandes esperanças da 1ª geração às ilusões perdidas da 4ª geração. Há quem diga que os Açores ainda são um pedaço do paraíso porque não há auto-estradas para lá…

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