Vinte Linhas 349

A cidade começava o dia devagar

Não fosse a espuma levantada pelo cacilheiro e eu não teria percebido o início do movimento. Há mulheres que se demoram na luz do dia. Também a cidade, nesse distante dia 9 de Setembro de 1966, me pareceu adormecida, suspensa num sono de séculos, um sono marginado pelas colunas do cais e pelo castelo de S. Jorge. Uma vedeta da marinha levava operários do Arsenal do Alfeite e contornou uma fragata com cortiça vinda do Montijo. Já havia ponte sobre o Tejo mas as galeras de Vendas Novas e de Pegões deixavam ainda a sua carga no Cais dos Vapores da antiga Aldeia Galega. Deste lado das colunas é a apoteose do silêncio: acabo de chegar a Lisboa para o meu primeiro dia de trabalho e ainda não vi os eléctricos com bilhete de operário. A Sé à direita e as ruínas do Carmo à esquerda são compassos de oração numa cidade sem vida. Tenho 15 anos e nada sei do Mundo. Um avião por cima do Jardim Botânico anuncia o movimento mas o resto da cidade dorme o sono das muralhas. O Rossio ainda tem eléctricos mas agora só vejo árvores e anúncios luminosos nos telhados. No Terreiro do Paço ninguém se cruza com a estátua de D. José. Nem sequer um guarda-nocturno com as chaves a tilintar. Tal como um poema, uma peça de teatro ou uma orquestra segundos antes de uma sinfonia, o esplendor do silêncio da cidade espera-me. Caminho até à Rua do Ouro, amanhã vou tirar medidas ao alfaiate, sei que vou ganhar 900 escudos por mês. Os telhados alinhados da Baixa parecem livros. Mais de 40 anos depois estou fascinado como na primeira vez. A cidade começa o dia devagar. Os prédios alinhados continuam a parecer livros nas prateleiras dum alfarrabista. Hoje como em 1966. Lisboa – minha cidade, meu amor.

3 thoughts on “Vinte Linhas 349”

  1. 1966 também foi o meu primeiro ano de trabalho e voltei a ele no seu texto. Lisboa é a minha Pátria, o meu País, a minha cidade, a minha aldeia. Lisboa é um amor que nunca me traiu.

  2. Já agora devo dizer que só escrevi este texto depois de perceber que sou mais de Lisboa (1966-2009) do que das outras terras onde vivi (1951-1966). Quase 43 anos de fidelidade.

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