6 thoughts on “Coisas que podem acontecer”

  1. A blogosfera (nunca sei como escrever uma palavra tão recente ou por oficializar num qualquer dicionário) é o melhor sítio para ela se rir de si própria e nós, de nós mesmos. É espantoso como apenas 8 palavras chegam para expressar tanto: o tão pouco que dizemos ao(s) outro(s) no nosso encontro de voz, pele e vida. A comunicação é mediatizada por uma longa carta feita de luz e ilusão, num registo ausente de tom (com que tom lê o outro o que escrevo? com o tom que eu usaria ou com o tom que ele deseja ou teme e escolhe por um desses dois motivos?) em que o outro nos diz, traduz e anima como a voz de um ventríloquo desfasado. Nunca tivemos tantos meios para comunicar; nunca houve tantas oportunidades para percebermos como não o fazemos. A blogosfera é o privado público, uma carta que escrevemos ao outro por partes, um diário de adolescente que o mundo abre e lê. Umas vezes fingimos que não demos por nada, outras, gritamos e pedimos atenção: não vês como me sinto só? já reparaste como escrevo textos inteligentes? vamos fingir que nos conhecemos? e por aí fora. O porta-voz semi-oficial do “eu” é o blogue, onde se fazem comunicados, não de imprensa, mas impressos numa folha inesgotável, onde além do outro a quem a mensagem se destina (há sempre um outro, nem que se encontre diluído) o resto do mundo tem à sua disposição migalhas de outras intimidades. O blogue amplia a voz, mas também a solidão. E depois, prefere-se dizer em público o que não se diz em privado. Gastamos horas a escrever textos, a editar imagens e a publicar comentários na internet, inebriados pela ilusão da comunicação. O mundo que divida as nossas palavras entre si. É verdade: e onde fica o outro no meio de tudo isto? Sentimo-nos muito admirados quando não percebe que aquele post específico era inteiramente dedicado a ele. Precisamente a ele, a quem imaginamos que dizemos sempre o que pensamos e, sobretudo o que sentimos, na praça pública. Esquecidos de que aqui há demasiado ruído para se entender um segredo dito ao ouvido. Ou demasiado irrealidade para sentir o cheiro do outro enquanto a nossa boca se aproxima do seu rosto para dizer essas palavras. Só o exercício quotidiano de andar todos os dias por este universo estranho e paralelo pode dar uma ilusão de pertença. Diz-me que blogues lês, dir-te-ei quem és – (daí as intermináveis listas que quase sempre surgem numa das margens do blogue, ou será que é apenas para preencher esse espaço vazio? Diz-me o que queres saber, dir-te-ei mais logo. Basta consultares o meu blogue, como todos os outros fazem. Ou não sabes ler nas entrelinhas?

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