Vinte Linhas 354

Direitos dos animais – entre o delírio e a alucinação

Três ou quatro autarquias portuguesas proíbem touradas e logo surge um alarido – mas há em Portugal mais de trezentas câmara municipais. Este número não tem qualquer expressão. A Assembleia da República rejeitou um projecto de lei para proibir os animais nos circos – ainda bem que o delírio não foi por diante porque mais importantes são os postos de trabalhos dos empregados dos circos. Leio na «NS» um texto de Joel Neto que refere um documentário da RTP2 no qual um adepto transmontano do tuning afaga um cão e explica aos companheiros incrédulos: «Então? É um ser humano como nós!»

Esta nova doença da civilização faz com que os animais sejam vistos por muita gente como mais importantes que as pessoas. Há tempos fiz parte de um júri de um prémio literário autárquico de literatura infanto-juvenil e descobri que um conjunto de originais a concurso fazia dos «animaizinhos» (em vez das crianças) os protagonistas das histórias. Noutra situação, durante uma reportagem, ouvi o lamento de um pároco que tinha celebrado o casamento de uma senhora e ao perguntar-lhe dois anos depois para quando a alegria de ter um filho ouviu esta resposta – «Oh! Ainda agora gastei quatrocentos contos com a operação da minha cadela…»

O grande problema desta falsa questão é que os animais só poderiam ter direitos se pudessem ter deveres. Qualquer pessoa que tenha estudado os princípios fundamentais do Direito sabe isso. Uma coisa é pensar que os animais não devem ser maltratados; outra, bem diferente, é tentar fazer passar a mensagem de que os animais têm direitos. Dizer que os animais dos circos são maltratados já é outro domínio – delírio e alucinação

21 thoughts on “Vinte Linhas 354”

  1. claro, JCF.

    o que dizer dos restantes elementos do circo, que também vivem em “jaulas” com rodinhas?

    há realmente uma grande confusão na cabeça de algumas pessoas que teimam em tornar os animais “humanos”…

  2. Caro JCF

    O questão chave aqui é empatia (ou a falta dela)…

    Se não lhes quer chamar “direitos” chame-lhes outra coisa… Ponha as coisas na perspectiva humana e chame-lhes “deveres”, se quiser, “deveres ecológicos”. Ou acha que não temos deveres para com o resto do ecosistema?

    Quanto aos animais serem “bem tratados” no Circo? Parece-me, parafraseando o seu post, do domínio do delírio e alucinação…

    Para reflectir:

    A uma criança são conferidos direitos desde que nasce, que deveres lhes estão associados, os que passa a ter na vida adulta?
    Porque não considerar as crianças mera propriedade dos pais até que atinjam a idade legal? Afinal o sistema legal português parece bastante inclinado a encarar as crianças deste modo…

  3. “…os animais só poderiam ter direitos se pudessem ter deveres” – jcf

    Bacorada do mês, nunca falha.

    Os direitos existem em função de quem os reconhece ou é obrigado a reconhecer. Os direitos dos animais são deveres dos humanos. Esses direitos e deveres fazem parte dos códigos éticos e jurídicos humanos.

    A Declaração Universal dos Direitos dos Animais, aprovada em assembleia geral da UNESCO, fez 30 anos no ano passado. Devias lê-la. Em todos os países do mundo há legislação que protege os direitos dos animais.

    Claro que um animal não tem os mesmos direitos que os humanos, nem os tem do mesmo modo que os humanos.

    Uma mosca ou um mosquito não tem os mesmos direitos que um cão pastor ou um animal de carga. Mas o direito dos animais selvagens a viverem no seu habitat próprio também já está reconhecido há muito pelos humanos mais civilizados.

  4. Ó Nik deixa-te disso, claro que sei muito bem o que diz a UNESCO mas tu é que estás mal. Então nada dizes dos maluquinhos que concorrem a prémios literários «infanto-juvenis» com histórias cujo protagonista é uma cadelinha ou da maluqinha que disse ao padre não poder ter filhos porque gastou quatrocentos contos na operação da cadelinha. Aí é que está o problema. Esses é que estão mal…

  5. Tem que se arranjar uma carta de direitos das pessoas para com os animais. Uma pessoa tem o direito de gastar 400 contos a operar um cão sem pagar outros 400 de imposto? (se for um cão de competição, há-de ser deduzível no IRS, se for um cão de terapia uma tiver declaração médico/psiquiátrica, para a dedução, etc, por aí além)

  6. Caro JCF

    Depreendo das suas palavras que considera personagens como o Rato Mickey ou o Bugs Bunny completas aberrações, ou estarei enganado? Olhe que eu gostava de fazer parte do manicómio onde se criam semelhantes aberrações… É que para além de ser divertido, dá dinheiro…

    E já agora, desde quando o facto de alguém tentar salvar um animal de estimação é sinal de loucura?

    Mas eu entendo a sua posição. Lançar a polémica é óptimo para ocupar as tardes de Domingo… :-)

  7. Então ja agora Dr António Sampaio como reagiria o senhor se fosse membro de um júri de literatura infanto-juvenil e lhe aparecessem 4 originais com cadelinhas prestes a ter os seus filhotes??? Isto em vez de crianças que ali não eram protagonistas mas sim comparsas. Os protagonistas são os donos das lojas e os veterinários… Não me diga que não dizia o mesmo que eu disse ao vereador da cultura???

  8. Caro JCF

    Não li a história, pelo que não sei se obedecia às regras do concurso ou não.
    Se as regras desse concurso em particular explicitavam que os protagonistas só podiam ser crianças, é claro que a obra era desadequada…
    No entanto, digo-lhe que não me parece nada desadequado, no universo mais amplo da literatura infanto-juvenil, que os protagonistas sejam animais.
    Já agora o que foi que disse ao vereador da cultura? A ver se eu dizia o mesmo…

    Cumprimentos

  9. Botaste lei: animais não podem ser protagonistas de contos infantis. Especialmente se forem cadelinhas grávidas. Nova bacorada! Suponho que também riscarás a Lassie dos candidatos a protagonistas de séries de televisão.

    Olha que houve uma cadela, Laika de seu nome, que foi o primeiro astronauta do planeta Terra. Um escândalo, não?

    A história da operação canina que não permitiu à dona ter filhos, atendendo à via pela qual nos chega, metendo padre e JCF, não merece grande crédito.

  10. Meu Caro Dr. António Sampaio: o que eu disse ao vereador foi que não tinha sequer considerado aqueles 4 originais a concurso dado que os seus autores estavam a laborar num equívoco. Julgo que o senhor faria o mesmo. Os outros seis eram mesmo liteartura infanto juvenil; não literatura de veterinários e de lojas de animais de companhia.

  11. Caro JCF

    Não sei sinceramente se faria o mesmo. Depende do que estivermos a falar…
    Se estamos a falar, literalmente, de simples brochuras de veterinário num concurso de literatura infanto-juvenil, claro que faria o mesmo. Se, por outro lado, estamos a falar de histórias infantis que incluem animais como personagens centrais ou, de histórias cujo propósito é sensibilizar as crianças para a responsabilidade que advém do facto de se possuir um animal de estimação (aprender acerca do ciclo de vida do animal, da necessidade de o levar ao veterinário, etc.), a minha decisão seria completamente diferente da sua.
    As histórias infantis com animais como personagens centrais não têm qualquer problema, bem pelo contrário. Por exemplo, é por vezes mais fácil explicar alguns temas com recurso a animais do que com o recurso a crianças, lembro-me de uma série de livros que folheei na FNAC há uns tempos que usava uma família de coelhos para abordar questões problemáticas como divórcio, doença e morte…

  12. Ninguém que fale assim sobre animais de circo enjaulados e escravizados pode ser boa pessoa.
    É uma questão de empatia. E o Bem é isso, a empatia.

    Exigir a um mamífero selvagem, muitas vezes de relativa inteligência (como um primata, por exemplo) uma vida enjaulado e torturado para entretenimento e “manutenção do emprego dos trabalhadores do circo” , porque este “não pode direito porque não tem deveres” é mais do que cruel. É estéril. É frio. Não é humano.

    Acho que antes de filosofar sobre direitos e deveres, faz algum sentido passar junto às jaulas dos circos, olhar para os bichos e ver o que se sente.

    Como diria o Nuno Markl:

    Um dromedário debatia-se com uma chocante falta de espaço, encafuado dentro de uma jaula, sem saber o que fazer ao longo pescoço. Uma vida sem sentido, enfiada mal e porcamente numa caixa. Como um brinquedo, mal arrumado dentro de uma embalagem pequena demais. Chamem-me esquisito, mas eu tenho esta ideia de que não é suposto um dromedário estar em Carcavelos, ao pé da Marginal. Muito menos amarfanhado numa jaula da qual sai só à noite, para entreter os humanos da linha de Cascais.

  13. normalmente não respondo a comentários, só me interessa verdadeiramente o “post”, António Sampaio. mas a sua resposta ao meu comentário não deixa de ser pertinente.

    penso que nem todas as pessoas que vivem em “jaulas” com rodas o fazem por opção. se perguntassem aos filhos dos funcionários e artistas onde gostariam de viver, provavelmente, muitos deles prefeririam viver numa cidade, com uma casa fixa.

    mas a verdadeira questão do “post” do JCF é esta: «esta nova doença da civilização faz com que os animais sejam vistos por muita gente como mais importantes que as pessoas.»

    não vale a pena darmos voltinhas à volta da questão. a situação começa a ser tão ridicula que qualquer dia encontramos cãezinhos de trela com chapéus e pantufas na rua…

  14. Caro Luís Eme,

    Trata-se da opção dos pais (que deviam ter pensado duas vezes antes de submeter os filhos a uma vida nómada), mas isso não faz com que animais enjaulados debaixo de um sol abrasador (como eu já vi bem perto da minha casa) sejam cenas que devamos desculpar.
    Chapéus e pantufas para cães (ou outros animais) inscreve-se em tudo aquilo que repudio no tratamento dos animais. Os animais não são objectos de divertimento nem devem ser tratados com pessoas, pois têm necessidades muito diferentes destas. Não obstante, os animais de companhia são capazes, dentro dos seus limites particulares, de manifestar e apreciar aquilo que nós definimos como afecto, devendo ser alvo, pelo menos, do nosso respeito.
    Não tenho uma posição radical do tipo “Animal Liberation”, acho simplesmente que a visão utilitária dos animais se deve restringir ao mínimo (produção de carne, leite, vacinas, etc.) sem crueldade desnecessária.
    Acho que os animais deviam ser proibidos nos Circos pois estes espaços não reúnem condições mínimas para que os animais possam ter uma existência confortável (há que ter em conta o espaço que um animal necessita). Esta actividade terá de se reformular mais cedo ou mais tarde, sob pena de desaparecer, uma vez que as pessoas estão cada vez menos receptivas ao entretenimento bacoco do número do domador de leões ou dos cãezinhos com trajes de bailarina. Façam-se Circos com números protagonizados exclusivamente por humanos como tem sido exemplo o “Cirque du Soleil”, e não me venham com o argumento de que o “Cirque du Soleil” faz o que faz porque tem mais dinheiro, porque a explicação é inversa… o “Cirque du Soleil” tem dinheiro porque faz o que faz, senão era mais um cirquinho miserável.
    Não me choca, por exemplo, um jardim zoológico com espaços abertos proporcionais aos animais e em que se desenvolvam, como em muitos jardins zoológicos europeus, programas de reprodução assistida que permitem salvar espécie da extinção. Espaços deste tipo têm um papel pedagógico e não apenas de mero entretenimento.
    Quanto aos animais de estimação, já é demasiado tarde para reverter o processo e é impossível transformar um caniche num lobo ou um gato persa num lince. Aliás, existe uma relação quase simbiótica entre humanos e as suas mascotes devido a milénios de proximidade, estando estas adaptadas a ecosistemas dominados pelo homem e profundamente dependentes deste. Além disso, a nossa espécie está também profundamente habituada à presença próxima deste tipo de animais, pelo que se trata a meu ver de uma relação de interdependência.

    Num registo um pouco menos conciliador:

    Estou-me sinceramente a borrifar para o que pensa um padre acerca do quanto uma pessoa gasta com o seu animal de estimação…

    Vamos imaginar os seguinte cenários:

    Eu tenho um cão há cerca de dois anos e um belo dia eu e a minha namorada decidimos casar. A certa altura, após o casamento, o meu cão adoece e a operação custa 400 contos, mas como eu estou a pensar ter filhos em breve…

    a) deixo morrer o meu cão.

    b) opero-o para que este possa, com a operação, viver mais dez ou doze anos e ser uma companhia estupenda para os meus filhos, que ainda não existem (não vivem, não respiram, são uma mera ideia…) e como tal poderão esperar mais uns tempos…

    Já agora vamos todos fazer um movimento do tipo “Sim á vida” para “salvar” os filhos “em projecto”, não acha?

    Cumprimentos

  15. Um teste que revela muitas vezes se o humanitarismo é de lei ou postiço é ir ver que relação as pessoas têm com os animais. Mostra a careca dos falsos humanitários. Não será infalível, mas pode ser muito revelador. Também é um teste revelador no caso dos falsos «amigos dos animais», os tais que lhes põem chapeuzinho e pantufas.

  16. Eu tive um cão, o «Fadista» e sempre foi bem tratado. Teve todos os mimos possíveis mas o problema é quando as pessoas tratam oa animais como pessoas e acabam por tratar as pessoas como animais…

  17. JCF, tratar mal as pessoas, para ti, é tratá-las como animais.

    Era exactamente isso o que eu pensava a teu respeito.

  18. És mesmo capcioso, maldoso e demagogo. Finges não saber que a frase «quem trata os animais como pessoas acaba a tratar as pessoas como animais» faz parte dos adágios populares tais como «de Espanha nem bom vento nem bom casamento». DEixa-te desses preparos ou, como se diz popularmente, «deixa-te de partes». Vai dar uma curva!

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