Arrebatados pela Segunda Vinda de Mestre Arroja, os Blasfemos andam imparáveis. Agora, descobrimos que a proposta de cedência remunerada de votos não era um improvável exercício de ironia. Afinal, era apenas uma forma de dar “ainda mais encanto ao fascinante mundo da especulação financeira”.
Claro que o importante é mesmo jardinar os tais encantos, não impedir que o poder político fique apenas ao alcance de quem tem capital para investir. Afinal, a fazer fé nos Blasfemos, já toda a gente vende o seu voto a troco de promessas mirabolantes, portanto nem iríamos dar pela diferença. Já que suportamos o Valentim, podemos bem passar a fazer dessa chaga vergonhosa a regra oficial.
Presumo que a venda antecipada dos proventos laborais futuros de crianças e adolescentes não seja ideia a deitar fora sem cuidadosa ponderação pelos auto-nomeados cardeais do pensamento ultra-liberal (nada mais natural, depois das vénias e do beija-mão a quem já se entreteve a gabar as virtudes económicas da escravatura, fechando o olho míope ao pequeno pormenor da liberdade dos envolvidos). Tudo a bem dos “encantos” da especulação mobiliária; mas desde que não envolvesse os rebentos dos liberais, é bom de ver. Essas coisas da compra e venda da consciência são mesmo próprias do povinho: gente ilustrada fica de fora, a intermediar e dirigir tais transações cheias de encanto.
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A Arrojada Parúsia
Nem vale muito a pena glosar pela milésima vez as fantasias alucinadas do regressado Professor Arroja, agora aclamado como santo padroeiro da Liberdade, nem mais. Do insigne combatente contra a tirania, recordo uma intervenção na TSF, já há um ror de anos, em que ele defendia o futebol como sendo a indústria de maior êxito, mesmo internacional, do nosso piolhoso país. Vai daí, bom, bom seria aplicar os seus métodos de gestão ao governo e convidar o supra-sumo dos empresários de sucesso, Pinto da Costa, para nos capitanear.
Não riam, que a coisa é verídica e séria. Para uma legião de académicos sem contacto com as realidades do nosso país, é mesmo boa ideia deixar os empresários lusos em roda livre. Que a coisa redunde quase sempre em conluios, cambalachos e outros arranjinhos limitadores da concorrência e da liberdade de escolha, é uma minudência sem qualquer interesse. Importa é o lindo mundo da teoria, onde o futebol joga com toda a lisura, sem fugas aos impostos nem corrupções, onde um pacote de sal tem o preço escolhido pelo mercado e onde figuras como Pinto da Costa e Valentim Loureiro são faróis a iluminar o nosso destino glorioso, entregues à Mão Invisível.
A liberdade de sermos dominados por quem pague mais. Eis o arrebatador programa destes génios incompreendidos.
Pode o Direito ser a alternativa à cegueira de uma Guerra Perpétua?
Douglas Burgess, na Legal Affairs
TO UNDERSTAND THE POTENTIAL OF DEFINING TERRORISM as a species of piracy, consider the words of the 16th-century jurist Alberico Gentili’s De jure belli: “Pirates are common enemies, and they are attacked with impunity by all, because they are without the pale of the law. They are scorners of the law of nations; hence they find no protection in that law.” Gentili, and many people who came after him, recognized piracy as a threat, not merely to the state but to the idea of statehood itself. All states were equally obligated to stamp out this menace, whether or not they had been a victim of piracy. This was codified explicitly in the 1856 Declaration of Paris, and it has been reiterated as a guiding principle of piracy law ever since. Ironically, it is the very effectiveness of this criminalization that has marginalized piracy and made it seem an arcane and almost romantic offense. Pirates no longer terrorize the seas because a concerted effort among the European states in the 19th century almost eradicated them. It is just such a concerted effort that all states must now undertake against terrorists, until the crime of terrorism becomes as remote and obsolete as piracy.
But we are still very far from such recognition for the present war on terror. President Bush and others persist in depicting this new form of state vs. nonstate warfare in traditional terms, as with the president’s declaration of June 2, 2004, that “like the Second World War, our present conflict began with a ruthless surprise attack on the United States.” He went on: “We will not forget that treachery and we will accept nothing less than victory over the enemy.” What constitutes ultimate victory against an enemy that lacks territorial boundaries and governmental structures, in a war without fields of battle or codes of conduct? We can’t capture the enemy’s capital and hoist our flag in triumph. The possibility of perpetual embattlement looms before us.
If the war on terror becomes akin to war against the pirates, however, the situation would change. First, the crime of terrorism would be defined and proscribed internationally, and terrorists would be properly understood as enemies of all states. This legal status carries significant advantages, chief among them the possibility of universal jurisdiction. Terrorists, as hostis humani generis, could be captured wherever they were found, by anyone who found them. Pirates are currently the only form of criminals subject to this special jurisdiction.
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Idem Idem Aspas
Acabado de ser acolhido a esta confraria pelo animador da colónia, tenho um recadinho para o Fernando Venâncio: se não retira a ameaça de despedida não publico aqui uma posta que tenho ali a jeito acerca do affaire Idomeneo.
Idem, idem!
Tenho um saco cheio de boas desculpas. Mas nem o vou tirar das costas. Por agora, basta-me fazer coro com o Zé Mário e preparar o regresso, que a coisa aqui tá preta…
Futebol: crueldade e ironia
Como se não lhe bastasse ter conduzido o Gil Vicente para os labirínticos meandros jurídicos do tristemente célebre Caso Mateus, o inenarrável presidente Fiúza insistiu, durante semanas, numa estratégia de tudo ou nada, que passava pelo recurso sistemático aos tribunais e por consecutivas faltas de comparência aos jogos da Liga de Honra. Esta semana, um tribunal de Lisboa indeferiu a última esperança legal dos gilistas e o clube lá teve que se deslocar a Vila do Conde, para defrontar o Rio Ave e evitar males maiores. O jogo foi ontem. O resultado: uma derrota por 1-0. E como é que aconteceu essa derrota, após vários meses de inactividade? Com um auto-golo, sempre humilhante e traumático. Um golo na própria baliza, depois de todos os tiros nos pés. Deve ser a isto que se chama justiça poética.
Um selvagem ao piano (versão literal)
Aspirina V
Assim de repente, Fernando, não imagino este blogue sem a tua prosa refinada, a tua candura, a tua generosidade, as tuas provocações e o teu bom senso. Vê lá isso.
PS – Se a pré-despedida for apenas um estratagema para tirar da toca os colaboradores tresmalhados, já viste que acertaste na mouche, pelo menos na parte que me diz respeito.
Assinatura ilegível
Lisboa. Sexta-feira, 29 de Maio de 1986
Pela primeira vez neste país, está estampada, visível, na capa de um semanário de grande tiragem, a expressão ‘bancos de esperma’. Ouço o miúdo perguntar ao pai: ‘Ó pai, o que é esperma?’. Está o pai com visitas, está o pai na cervejaria, no estádio, está o pai com a mãe sentado no sofá. E este pequeno frémito do pai resume uma civilização.
Lisboa, 3 de Agosto de 1986
Querida Kárin,
Foi com certo contentamento e uma mais certa incredulidade que li a tua carta que ontem me chegou. Dentro de menos de três meses – se bem fiz as contas – o teu bebé irá nascer. E eu passo desde ontem o tempo a segredar, que digo eu, a gritar a mim próprio que eu nada tenho a ver com isso. Que o problema e, neste caso, também a alegria são exclusivamente teus. Quiseste de mim esse filho, agradeceste-mo com gentileza que eu jamais pensei me coubesse em sorte. Mas, com isso, estavam as contas saldadas.
Quiseste que o teu filho fosse meu. Desculpa, exprimo-me mal. Quiseste que o filho que tivesses achasse em mim o progenitor. Progenitor, sublinhaste – não ‘pai’. O que até (acrescentaste, como prevendo reservas minhas) nada tinha de original, pois umas amigas tuas tinham tido pouco antes um filho ‘pelo mesmo processo’.
O processo era simples, pude convir. Um boião esterilizado, um termómetro e um homem. O termómetro indica o dia azado, o homem produz, o boião transporta. O transporte devia fazer-se rápido, mas eram só dois quarteirões. Nada de listas de espera, nada de médicos e enfermeiras, nada de milhares de coroas para as clínicas de Estocolmo. Eu tocava à porta, tu abrias, um beijo furtivo, e reentravas na solidão. Que era só para a quebrares que nela agora te fechavas.
‘Descansa, ele há-de saber quem foi o progenitor’ – asseguravas. E eu ria-me intimamente de tantas garantias. Podes crer: tanto se me dava. Tinha achado engraçada a proposta que me fizeras, e havia em toda aquela andança certa aventura. E nem a gratidão de que afiançavas estar repleta conseguia enternecer-me. Pensava, sim (e quem mo levaria a mal), que o ‘processo’ era, como dizer, passível de simplificação. Dispensava-se o boião, as distâncias encurtavam grandemente. Mil vezes me propus fazer te essa contraproposta, com delicadeza suma. Mas mil vezes me dei conta de que nada indicava que só a mim me surgissem tais espertezas. Era evidente que isso não te estava nos propósitos. E não era já excelente elogio o que me fazias?
Porque, disso estou certo, não era só pelos meus olhos verdes ou pelo alourado dos meus cabelos que me pediras colaboração. Tu sabias que eu nunca te humilharia ao ponto de te lembrar, nem logo nem jamais, que também havia para essas coisas processos mais simples.
Agora a criancinha vai nascer. Crescerá sueco ou sueca. E um dia, daqui a muito tempo, perguntar-se-á, perguntará: Quem é o meu pai? Agora sou eu que to peço: Diz-lhe.
Teu do coração,
(assinatura ilegível)
de «Um Selvagem ao Piano»
Então é assim

Nos tempos mais próximos, irei colocando aqui alguns textos – recentes uns, mais antigos outros – que tiveram pouca difusão. Quando achar que não há mais, ou que já não os há apresentáveis, ou que já chateei o suficiente, partirei. A vida é alhures, já dizia o outro. Em francês. Com outro chique.
O Aspirina, esse, continuará. Há mais marés que marinheiros. Quem sabe, leitor e amigo, os grandes dias que ainda o esperam aqui.
O regresso (2)
Os chocolates espanhóis foram deveras comprados, e alguns comidos. Seriam o único gasto seu naquele dia. Mas, na reentrada no país, iriam faltar ele e o pastor. Foram escondidos num matagal, e ficaram esperando que um carro, pela fronteira legal, os viesse buscar. «Duas horitas, e a gente vem apanhá-los.» Procedimento banal, mas ele não o sabia. Cento e vinte minutos podem levar eternidades a passar. Nem por teima, era aquilo uma Sexta-feira Santa, à exacta hora em que o Outro também aguentara horas, e em piores condições.
A madrugada de Sábado Santo achou-os em Madrid. O casalinho amigo, que estava para ficar em Cáceres, acabou por ir levá-los à grande capital, a uma casa de padres, perturbados no sono, mas logo solícitos. Um deles, ainda o sol não rompera, pegou no carro e meteu-se com eles a caminho da longínqua Barcelona. «De comboio, pela fronteira, nunca. É um suicídio», diziam-lhes, querendo demovê-los do plano inicial, passarem a fronteira em Irun, na legalidade. E mais lhes disseram que, em Barcelona, havia alguém, um padre também ele, que conhecia palmo a palmo os Pirenéus, onde nascera, e que os poria salvos em França.
Chegaram à tardinha desse sábado à capital catalã, onde foram entregues em nova casa paroquial, tão suspeita politicamente como a de Madrid, se não mais. O padre fronteiriço apareceu horas depois. Vinha exactamente de uma caminhada pelas montanhas natais. «Combinado. Eu levo-os a França. De hoje a oito dias.» Oito dias! Outra eternidade. Mas não sobravam alternativas.
O válium é uma grande invenção. Uma invenção triste, mas a vida, às vezes, é uma tristeza toda ela. Doze horas de sono podem ser, e nesse caso ali eram, uma prenda inestimável. E, depois, até ao perigo uma pessoa se habitua. Já ao quarto dia eles iniciavam a volta turística de Barcelona. O trivial. Nem merece a pena mencionar.
E chegou o dia aprazado da fuga definitiva, domingo, o primeiro domingo de Abril. Deixaram Barcelona ao fim da manhã. Eram já cinco da tarde quando, a dois mil e quinhentos metros, no cocuruto do monte que subiam, se lhes desdobrou ante os olhos o mais deslumbrante dos panoramas. De leste a oeste, quanto a vista abarcava, uma cordilheira refulgia, rosa e laranja, ao sol declinando.
Não, a liberdade pode vir na mais fria das brumas, ter o cheiro da imundície, e será sempre uma bênção. Não era preciso ela chegar assim, como ali chegava, nesse assombroso esplendor. Mas há destas sortes. E o mais bonito ainda é aquilo que não se mereceu.
Foram dormir a Montpellier, a um convento de mendicantes. O companheiro decidiu ficar. Iria em breve demandar a Suíça, onde estudos de teologia o esperavam. Ele, não. Era o Norte que o atraía. Ao terceiro dia, meteram-lhe na mão uma bucha, um bilhete para Paris e o endereço dum convento. Paris era o que já se conhecia de bilhetes-postais, e por isso rumou mais a norte ainda, a outros países, outras gentes.
Quando pôde regressar, fê-lo banalmente de avião. O peregrinar por terra, que se havia proposto, não foi esquecido, mas estava impraticável. Não guardara moradas nem de Paris, nem de Montpellier, nem de Barcelona, nem de Madrid. Não tivera esse cuidado, ele que tão lindos planos concebera. Não havia, assim, meio de agradecer àquela santa gente. E, depois, o mais certo era que todos eles, como santos verdadeiros, já nem dele se lembrassem.
O regresso (1)
Ao senhor arquitecto Nuno Teotónio Pereira
Era uma daquelas ideias malucas, mas era simpática, bonita até. Quando ele voltasse a Portugal, haveria de regressar pelo mesmo exacto caminho, haveria de repisar estrada a estrada, batendo, casa por casa, à porta de quantos o tinham acolhido na fuga. Quando um dia regressasse. Se regressasse. Porque a situação nacional estava, assim parecia, para durar. Para seu próprio descanso, prometera-se logo dez, quinze, mais anos de exílio. Era moço, sentia-se velho. E era esse o sentimento em que teria morrido se, em vez de atirar-se à deserção, houvesse embarcado para a guerra. Porque, tanto era certo, naquele bocado de mundo para onde iria guerrear, a morte acabava por ser, de todas as hipóteses, a mais realista. Operação no mato, uma bala de olho já nele, e pronto. «O oficial, lá, é sempre o primeiro.» Ouvira, e acreditara. «Gajo inseguro, óculos, mais idade. Não engana.» Era de uma lógica mortal.
Decidiu deixar o País no preciso momento em que, no quartel, vira afixadas as notas daquele segundo mês da «especialidade». Decepcionantes. Ele era bom em algumas coisas, as que metessem lérias por escrito, sobretudo. Tinha mesmo, com base nisso, planos de classificação vistosa. «Um tipo bem classificado tem grandes chances de não ir», afiançavam-lhe. «Ou só vai no fim, e então é que elas doem. Mas vale a pena arriscar.» Uma proeza dessas iria afagar-lhe grandemente a auto-estima.
Simplesmente, o desmontar e voltar a montar da espingarda (a G-3 era uma espingarda? hoje já não tem essas certezas) era desempenho fundamental, e revelara-se um alçapão. E fossem ele só as armas! É que a componente física, também ela, não dera notas brilhantes. Vendo bem, só os exercícios de orientação nocturna – «dropping» num pinhal, um mapa sumário e fé na boa estrela – só eles mereciam menção. O seu grupo, cinco cadetes amigos, era de longe o melhor nessas operações. E na unidade todos sabiam, o alferes e o capitão incluídos, que era a ele, à sua incompreensível bússola interna, que se deviam as chegadas às horas e aos postos certos.
Mas o panorama total era alarmante. Nunca ficaria entre os cinco, mesmo os dez, primeiros, mesmo que batesse a malta de Coimbra, aqueles quinze indisciplinados universitários que a sabedoria militar havia mantido juntos no seu pelotão. É que bastantes outros lhe passariam à frente: os paisanos, esses a quem a cultura não atrofiara nem senso prático nem os músculos.
Só muitos anos depois saberia que, ainda ele não cruzara os Pirenéus, já os revoltosos coimbrões estavam de regresso às carteiras. A saída deles transtornava toda a classificação final, deixando mesmo os melhor classificados à beirinha da mobilização. Nem a genica natural nem o esforçado cerrar dentes, nada havia valido aos pobres.
Abandonou o país por uma bela tarde de Março de 1970. Já conhecia Marvão, só nunca a imaginara cenário de relevo na sua vida. Era lá que alguém que agora ia ajudá-lo tinha uma casa, um arquitecto da capital que só nesse dia havia de conhecer. Bastantes foragidos haviam, antes dele, saído dessa primorosa mansão para irem «comprar chocolates» a Espanha. Acto ilegal, fraqueza lamentável, mas tão humanos que qualquer guarda-fronteira compreenderia.
Iam um grupinho. O arquitecto e a mulher, um filho deles, porventura dois, um casal amigo a caminho de Cáceres, e mais uma pessoa, o jovem tranquilo que, nessa manhãzinha, em Lisboa, se lhe apresentara como pastor protestante, e ele soubera ir ser seu colega de aventura.
Quatro anos mais tarde, em Lisboa – porque o exílio afinal só duraria isso – encontraria o arquitecto num comício da extrema-esquerda moderada. E ele haveria de abordá-lo, e de agradecer-lhe, como quem agradece a um santo. O arquitecto, simpático, sorriu, mas não se lembrava dele. Um santo, nem mais.
continua
Mana
Um homem tinha dois filhos. Um filho e uma filha, desta vez. Um dia, disse-lhe a filha: Pai. Não, não lhe disse, escreveu: Pai. Era a primeira vez que lhe escrevia em duas dezenas de anos, e estava prestes a fazer os vinte. Pai. Saltou uma linha e entrou na carta. Pai. Não, isso já estava. Tenho outro amante. A letra nem denunciava tremuras. Se alguém dever admirar-se, não serás tu. Tinha havido um ponto de exclamação, já só o ponto se aproveitava. Posso-te imaginar ciumento, estupefacto é que não. Parágrafo. Amantes tive eu logo aos catorze, e ninguém melhor do que tu sabe quem foi. As reticências tinham sido postas – era isto evidente – ao ter-se iniciado já a frase seguinte. Levaste-me para o sótão, na nossa outra casa. Parágrafo.
Nisto, entra na história o filho. Entra é uma maneira de dizer, pois ele já esteve, por detrás do pai, seguindo a leitura. Com que então, senhor meu pai! O pai vira-se, estende-lhe a carta e diz: O resto é para ti. O filho pega na carta, procura onde tinham ficado e lê em voz alta. Terás pensado que o segredo ficaria guardado. E, na realidade, nunca a ninguém falei. Mas o Gustavo cedo descobriu o que nem muito escondido estava. Gustavo levantou os olhos da carta para o pai. O pai disse: Continua. Gustavo prosseguiu: Uma tarde, ainda eu de novo chorava a mágoa de ter nascido filha tua, entra ele no sótão. Estava excitado e nada fazia para encobri-lo. E serviu-se, como tu, minutos antes, te serviras.
Gustavo parou. Continua, disse o pai. É mentira, pai. Continua, repetiu ele. Durante semanas, talvez meses, foi um ir e vir entre vocês. Até eu fugir. Pronto, era isto. Gustavo fixava a carta, onde só a garatuja da assinatura sobrava. Continua. Gustavo olhou o pai. Sabia-se lívido, após ter tido o rosto ao rubro. No pai nada parecera alterar-se. Continua, ou eu esquartejo-te com esta bodega. Nas mãos do pai surgiu um revólver. Continua, velhaco. Porque eu hei-de vingar-me da desonra que na minha própria casa me trouxeram. Um filho meu!
Gustavo tinha uma vaga impressão de que o pai exagerava. Descobriu-se também de pistola em riste. Velho aleivoso. Foi então para isso que quiseste ter uma filha, por força uma filha! Ia disparar, quando acordou. Era realmente uma irmã o que sempre desejara ter tido.
de «Um Selvagem ao Piano»
Miguel Real por estas plagas
Alguns blogues já haviam alertado: Miguel Real dera em escrever, também ele, neste precário e volátil meio. Nem mais, e no amável blogue Prazeres Minúsculos. Foi-se ver, e era mesmo. Com um texto brilhante, esse aí indicado.
O brilho não admira. Miguel Real anda a escrever cada vez melhor. Que digo eu? Quem leu A Voz da Terra – o seu romance saído o ano passado, e que teve (se bem recordo) dois votos vencidos no Grande Prémio do Romance da APE – já sabe que temos nele, sem mais, um grande ficcionista. E também um, aqui e ali arrebatador, artista do idioma.
Bem-vindo, Miguel.
Justificação de faltas no Aspirina B
Está aqui e teve, como facilmente se depreenderá, efeitos retroactivos.
Para que serve a Galiza

A Galiza serve para albergar os galegos. Dá-lhes espaço e luz, um chão, um céu. E água, pedra e floresta. E sossego e inquietação. E vontade de partir para longe. E a saudade, já, do regresso.
Mas também a nós, portugueses, a Galiza serve. E para bem mais do que poderíamos supor.
Primeiro, e já não será pouco: a Galiza recorda-nos que somos menos únicos do que apreciamos pensar. E que o Universo, ou mesmo a Europa, não se andaram preparando para produzir, aqui, esta tão inesperada mistura, que chamámos portuguesa, de sonho e pragmatismo, de evasão e acanhamento, de um entusiasmo por amanhã e uma entrega já hoje à fatalidade.
Assim, a Galiza faz-nos sentir-nos menos sós nesta agreste Península. Estamos acompanhados na ríspida vizinhança dos excitáveis e excitados castelhanos. Que nos disturbam e cansam com o seu colorido, a sua eloquência, a sua certeza de ditarem as leis do planeta.
E, por isso, a Galiza serve para lembrar-nos a felicidade, que a Galiza não teve, de podermos fechar as portas e janelas à algazarra. E podemos ler Javier Marías no alpendre, ver Almodóvar no sofá, calcorrear um Prado silencioso e digital, ouvir Tamara enquanto passeamos. Como se o Mediterrâneo luzisse em Elvas ou viesse lamber as praias da Covilhã.
Serve a Galiza, igualmente, para recordar-nos uma sorte, sorte que ela também não tem: a de desconhecermos um idioma superior, dia e noite contaminando, abafando, ameaçando de morte o nosso. E, por isso, quanta necessidade há, quanta urgência talvez, de o protegermos, a este, e da maneira mais simples, e a mais esperta: conhecendo-o melhor, estimulando nele forças dormentes, usando-o com imaginação e fidalguia.
A Galiza é o nosso melhor contacto. Pode a Espanha ser-nos um exemplo de sociedade, e é decerto um parceiro comercial. Mas não nos é, nunca foi, nem parece que venha a ser, um interlocutor. Até hoje, ninguém apresentou uma fórmula para isso que não diminuísse Portugal.
A Galiza, essa, há-de servir-nos, sempre, de casa ao lado. Com amigos certos. Para uma longa conversa ao pôr-do-sol.
*
A conversa entre galegos e portugueses tem vindo a fazer-se também na blogosfera. Salientarei, do lado galego, O Levantador de Minas, o blogue de Jaureguizar Cabaret Voltaire (antigamente Facendo Amigos) e o de Martin Pawley Días Estranhos (sic). E ainda o Portal Galego da Língua. Do lado português, tem de destacar-se Renas e Veados, tal como Coroas de Pinho.
A 13 e 14 de Outubro, haverá no Porto um encontro luso-galaico sobre Weblogs. Toda a informação aqui.
O mapa acima, de fabrico alemão, usa o nome espanhol da Galiza. Para muitos galegos, esse é também o nome do seu país. Mas há que sublinhar, no conjunto, a saborosa incorrecção política da mapeação.
É só um pouco tarde
Leituras de fim-de-semana (2)
UM MOURO NO NORTE (cont.)
Chegara eu de Lisboa? Sim, e de mais longe ainda. Do recanto mais fundo do fundo Alentejo. Vinha duma terra, Mértola, outrora cidade altiva, rica, porto mercantil que abastecia Lisbuna. Um pacífico povo mouro aí vivia, laborioso, feliz. Até ao dia, infausto entre todos, em que hordas cristãs de nortenhos, falando uma língua inaudita, vieram destruir-nos casas e oficinas, impor-nos uma religião, fazer-nos esquecer a amada língua berbere. Ainda hoje a minha cidade, que acabou vila, é uma das três ou quatro jóias urbanas do País. Pois sim. Mas seria exagerado agradecermos aos cristãos do Norte terem tido a gentileza de não nos riscarem do mapa. Por nós, nunca recuperámos da invasão. Hoje batemos palmas à selecção portuguesa? Acreditem que também teríamos feito uma boa equipa.
Não me tornei padre. Essa batalha, o norte cristão perdeu-a. Ficou o mundo, também, com um problema a menos. Hoje, do púlpito, eu encheria atentas naves com verdades em que eu mesmo não acreditaria. Uma vida exemplar não era, igualmente, de mim esperável. Ainda assim, garanto que tinha perfil para voos eclesiásticos. Neste momento, poderia estar já a cónego, quem sabe se a mais. Seria feliz? Algo me faz supor que não. Mas nunca mo poderei provar. Também a vida nos vai formando, e acaba por fazer de nós seres inverosímeis, a perguntarem-se ‘como é que cheguei aqui’, olhando à volta, procurando um código, talvez escrito no desenho dos ramos ou no voo das aves, que nos informe, finalmente, do que viemos aqui fazer.
Concedo: também não eram, estas, considerações que me visitassem o ânimo, naquela tarde, há cinquenta anos, em que de longe avistei Guimarães por primeira vez. Não eram estas reflexões, nem nenhumas outras. E por isso eu era feliz.
Leituras de fim-de-semana (1)

UM MOURO NO NORTE
Há gente que não assenta. Anda de terra em terra, aproveita o melhor de cada uma, e parte, parte de novo, que o vasto mundo chama. Uma pessoa assim sou eu. Nada de especial, adianto já. Mas sou irremediavelmente ‘especial’ para mim mesmo, e vivo na firme, ainda que improvável, convicção de sê-lo também para os outros. Ora, até nisso, não sou especial. É que todos, todos, assim nos sentimos. Vivemos confinados nessa desesperada, e também sólida, impressão de sermos o centro do mundo. Infelizmente, somo-lo. E, porque mais ninguém se dá conta disso, vivemos nesta desdita, e nesta solidão, que a gente sabe.
Não eram, estes, pensamentos que me atormentassem aquele domingo de Março de 1955 em que avistei Guimarães pela primeira vez. Nem é certo, sequer, ter percebido que era Guimarães aquilo que avistava ao longe. Vou explicar. Nesse longínquo dia, jogava o Benfica em Braga. Isso era uma boa razão para eu me meter à viagem, de Lisboa. A outra razão é que queria ser padre, e Braga era um sítio, digamos, muito adequado. Mas, e agora vem, não era bem Braga aonde me dirigia, e onde iria passar os oito intermináveis anos da minha adolescência. Era um alto cerro a leste da cidade, de onde se avistava o mundo inteiro, e Guimarães para começar.
Desde então, passei a acordar vendo a cidade três ou quatro léguas lá adiante, e garanto que há no mundo poucos espectáculos para um despertar assim. Quantas vezes a Penha não se recortou, nítida, sobranceira a um vale, o das Taipas, acamado num lago de nevoeiro, liso e brilhante. Tantos anos depois, isto ainda põe lírica uma pessoa. Depois, e o lirismo ainda não acabou, quantos pores-do-sol não viram estes olhos, em que Guimarães encerrava o dia num rosa-laranja glorioso, agora já não nítido senão irisado, como diriam os poetas. Já se percebeu: tenho da primeira capital portuguesa uma impressão muito devedora à natureza. Impressão limitada, decerto, mas intimamente enriquecedora. Também a natureza nos forma. De resto, mais tarde soube que jóia urbana Guimarães era, com um dos três ou quatro mais belos centros históricos do País. Na altura, este miúdo calhava caminhar pela cidade, achava bonito, mas não sabia quanto.
Chegara eu de Lisboa? Sim, e de mais longe ainda. Do recanto mais fundo do fundo Alentejo.
[prossegue e termina mais logo]
Este artigo apareceu, por convite de Pedro Chagas Freitas (ver blogue aqui ao lado), no jornal «Global Minho e Porto», editado em Guimarães. A fotografia é autêntica. Foi feita num fotógrafo da Rua dos Poiais de São Bento, em Lisboa, na noite anterior à partida para o Norte. Meios sofisticados permitirão identificar o emblema como de um clube importante da capital.
CARTA AO POETA ANTÓNIO CABRITA A PROPÓSITO DE CERTOS IMPASSES

Do poeta natural de Cabo Verde José Luís Tavares publicou o «Aspirina» alguns originais e traduções de poemas portugueses para caboverdiano. Hoje, um novo original, com destinatário e mensagem. Decerto não por causa, mas seguramente por arrastamento do «post» de Valupi / RenatoC. «Somos um aterro literário!».
CARTA AO POETA ANTÓNIO CABRITA
A PROPÓSITO DE CERTOS IMPASSES
Sim — sempre o soube —
amas o fogo que assoa as ventas
aos baixios da alma com a afeição
do sabre gangrenando a giba.
Com a confiança do que atravessou,
incólume, o gargarejo de zeus,
desentranhas o manancial que sete
gerações de poeira ocultaram sob
a cauda centrípeta do harmatão.
Irmão antónio, que suspiro não é
decreto que cauciona a orfandade do escriba?
A minha filha já me ronda os versos
com a veterania do felino, inda desconheçam
os molares o salitre oculto em cada naco.
Irmão antónio, a ciência do desengano
não é apanágio do que se extravia
num raso copo de mezcal,
mas daquele que desabalado de si
apalpa o pulso ao furacão.
Pois, tu também te perdeste,
com a loquacidade do naufragado,
à esquerda pantanosa de um tempo
que recicla os mais débeis gorjeios
que nem cócegas fazem às coronárias
— arrancado aos pinhais onde lufam
polígrafos ignorantes da fotossíntese,
nas margens do limpopo despistas agora
o ranço que aleita os ouedes
onde se oculta o manancial.
Sagrasses em pedra-pome o rasto dos delírios,
qual cego que seguisse o engodo duma mansa voz,
mas conturba-se a atonal rebentação
com seu fio preto de insónias — e meia vida
escoa-se pelo cano que rói o sebo aos mistérios;
a outra, confia-la à pestanejada porosidade
dos versos, reles baforada
sem o póstumo luzimento que recobre
a irrestrita inteireza do abismo.
José Luís Tavares