Assinatura ilegível

Lisboa. Sexta-feira, 29 de Maio de 1986

Pela primeira vez neste país, está estampada, visível, na capa de um semanário de grande tiragem, a expressão ‘bancos de esperma’. Ouço o miúdo perguntar ao pai: ‘Ó pai, o que é esperma?’. Está o pai com visitas, está o pai na cervejaria, no estádio, está o pai com a mãe sentado no sofá. E este pequeno frémito do pai resume uma civilização.

Lisboa, 3 de Agosto de 1986

Querida Kárin,

Foi com certo contentamento e uma mais certa incredulidade que li a tua carta que ontem me chegou. Dentro de menos de três meses – se bem fiz as contas – o teu bebé irá nascer. E eu passo desde ontem o tempo a segredar, que digo eu, a gritar a mim próprio que eu nada tenho a ver com isso. Que o problema e, neste caso, também a alegria são exclusivamente teus. Quiseste de mim esse filho, agradeceste-mo com gentileza que eu jamais pensei me coubesse em sorte. Mas, com isso, estavam as contas saldadas.

Quiseste que o teu filho fosse meu. Desculpa, exprimo-me mal. Quiseste que o filho que tivesses achasse em mim o progenitor. Progenitor, sublinhaste – não ‘pai’. O que até (acrescentaste, como prevendo reservas minhas) nada tinha de original, pois umas amigas tuas tinham tido pouco antes um filho ‘pelo mesmo processo’.

O processo era simples, pude convir. Um boião esterilizado, um termómetro e um homem. O termómetro indica o dia azado, o homem produz, o boião transporta. O transporte devia fazer-se rápido, mas eram só dois quarteirões. Nada de listas de espera, nada de médicos e enfermeiras, nada de milhares de coroas para as clínicas de Estocolmo. Eu tocava à porta, tu abrias, um beijo furtivo, e reentravas na solidão. Que era só para a quebrares que nela agora te fechavas.

‘Descansa, ele há-de saber quem foi o progenitor’ – asseguravas. E eu ria-me intimamente de tantas garantias. Podes crer: tanto se me dava. Tinha achado engraçada a proposta que me fizeras, e havia em toda aquela andança certa aventura. E nem a gratidão de que afiançavas estar repleta conseguia enternecer-me. Pensava, sim (e quem mo levaria a mal), que o ‘processo’ era, como dizer, passível de simplificação. Dispensava-se o boião, as distâncias encurtavam grandemente. Mil vezes me propus fazer te essa contraproposta, com delicadeza suma. Mas mil vezes me dei conta de que nada indicava que só a mim me surgissem tais espertezas. Era evidente que isso não te estava nos propósitos. E não era já excelente elogio o que me fazias?

Porque, disso estou certo, não era só pelos meus olhos verdes ou pelo alourado dos meus cabelos que me pediras colaboração. Tu sabias que eu nunca te humilharia ao ponto de te lembrar, nem logo nem jamais, que também havia para essas coisas processos mais simples.

Agora a criancinha vai nascer. Crescerá sueco ou sueca. E um dia, daqui a muito tempo, perguntar-se-á, perguntará: Quem é o meu pai? Agora sou eu que to peço: Diz-lhe.

Teu do coração,

(assinatura ilegível)

de «Um Selvagem ao Piano»

3 thoughts on “Assinatura ilegível”

  1. O Senhor FV sabe falar de alguma realidade vivida, isso torna-se claro em alguns escritos. Noutros… bem, sejamos caridosos!

  2. Tá tudo Fxxxxx

    Neste Portugal imenso

    Quando chega o verão,

    Não há um só ser humano

    Que não fique com tesão.

    É uma terra danada,

    Um paraíso perdido.

    Onde todo o mundo fode,

    E todo o mundo é fodido.

    Fodem moscas e mosquitos,

    Aranhas e escorpiões,

    Fodem pulgas e carrapatos,

    E as empregadas c’os patrões.

    Os brancos fodem os pretos,

    Com grande consentimento,

    Há “Amigos” que fodem as noivas

    Até à hora do casamento.

    O General fode o Ministro,

    A Autarca, a ordem de prisão

    E os da Assembleia da República

    Vivem fodendo a nação.

    Os frades fodem as freiras,

    O Padre fode o sacristão,

    Até, na seita do crente,

    O pastor fode o irmão.

    Todos fodem neste mundo

    Num capricho que alívia.

    E os danados dos VIP’S

    Fodem os putos da Casa Pia.

    Parece que a natureza

    A todos nos vem dizer,

    Que andamos neste mundo

    Somente para foder.

    E você, meu nobre amigo

    Que agora se está a entreter,

    Se não gostou da poesia

    Levante-se e vá-se foder!!!

    Tino

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.