A Arrojada Parúsia II

Arrebatados pela Segunda Vinda de Mestre Arroja, os Blasfemos andam imparáveis. Agora, descobrimos que a proposta de cedência remunerada de votos não era um improvável exercício de ironia. Afinal, era apenas uma forma de dar “ainda mais encanto ao fascinante mundo da especulação financeira”.
Claro que o importante é mesmo jardinar os tais encantos, não impedir que o poder político fique apenas ao alcance de quem tem capital para investir. Afinal, a fazer fé nos Blasfemos, já toda a gente vende o seu voto a troco de promessas mirabolantes, portanto nem iríamos dar pela diferença. Já que suportamos o Valentim, podemos bem passar a fazer dessa chaga vergonhosa a regra oficial.
Presumo que a venda antecipada dos proventos laborais futuros de crianças e adolescentes não seja ideia a deitar fora sem cuidadosa ponderação pelos auto-nomeados cardeais do pensamento ultra-liberal (nada mais natural, depois das vénias e do beija-mão a quem já se entreteve a gabar as virtudes económicas da escravatura, fechando o olho míope ao pequeno pormenor da liberdade dos envolvidos). Tudo a bem dos “encantos” da especulação mobiliária; mas desde que não envolvesse os rebentos dos liberais, é bom de ver. Essas coisas da compra e venda da consciência são mesmo próprias do povinho: gente ilustrada fica de fora, a intermediar e dirigir tais transações cheias de encanto.

7 thoughts on “A Arrojada Parúsia II”

  1. E depois ainda andam para aí a dizer que a malta de esquerda é que fuma cenas esquisitas antes de postar …

  2. Você é perigoso, ó Luís. Subversivo. Essa da escravatura e do elogio só por má fé. Ou então tamanha burrice (que você não tem) de não perceber o que se lê. Leia, homem, leia outra vez. Não foi bem isso que foi dito. Você sabe que não.

  3. Nuno,

    O homem pode ter ganho juizo desde então; mas é óbvio que avaliou a escravatura do ponto de vista económico sem atentar á perda fundamental dos envolvidos: a sua liberdade. Se este fulano é liberal, vou ali e já venho.

  4. Tentar dar a entender que Robert Fogel mereceu o Nobel pelas suas ‘brilhantes’ conclusões sobre a «dolce vita» dos escravos negros. Não terá sido esse o caso. E tacticamente omitir que o mesmo Fogel, no seu estudo, amplamente polémico à época, chegou a justicar o ‘invejável’ nível de vida dos escravos, entre outros motivos, com o facto de «serem apenas açoitados ocasionalmente»,a saber, sabemos nós, quando tentavam fugir ao ‘el dorado’ que tão candidamente lhes era estendido, ou quando se rebelavam contra os seus dóceis proprietários.Como se para certas pessoas um nobelizado não pudesse ser alvo de contestações.

  5. Leituras recomendadas para fãs de Robert Fogel:

    “Slavery and the Numbers Game: A Critique of Time on the Cross” de Herbert G. Gutman

    “A Symposium on Time on the Cross” de Gary M. Walton

    “Reckoning with Slavery: Critical Essays in the Quantitative History of American Negro Slavery” de Paul A. David, Herbert G. Gutman, Richard Sutch, Peter Temin e Gavin Wright.

    “The Treatment receíved by American Slaves: a critical review of the evidence presented in Time on the Cross” de Richard Sutch

    Pouco mais de ano e meio após a publicação do trabalho de Fogel, com a colaboração de Stanley Engerman, todas as teses apresentadas e respectivos dados econométricos foram sendo demolidos pela comunidade académica. Repare-se: não foram meros historiadores clássicos, ou activistas dos direitos civis alicerçados nos ditos juízos de valor, foram precisamente economistas especialistas na mesma disciplina – a cliometria – que demonstraram os erros das teses de Fogel.

    Evsey Domar, professor do MIT, do qual Fogel fora aluno, quando então questionado sobre a nota que daria àquele trabalho do seu ex-aluno, foi conclusivo: um “C”!

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