O regresso (1)

Ao senhor arquitecto Nuno Teotónio Pereira

Era uma daquelas ideias malucas, mas era simpática, bonita até. Quando ele voltasse a Portugal, haveria de regressar pelo mesmo exacto caminho, haveria de repisar estrada a estrada, batendo, casa por casa, à porta de quantos o tinham acolhido na fuga. Quando um dia regressasse. Se regressasse. Porque a situação nacional estava, assim parecia, para durar. Para seu próprio descanso, prometera-se logo dez, quinze, mais anos de exílio. Era moço, sentia-se velho. E era esse o sentimento em que teria morrido se, em vez de atirar-se à deserção, houvesse embarcado para a guerra. Porque, tanto era certo, naquele bocado de mundo para onde iria guerrear, a morte acabava por ser, de todas as hipóteses, a mais realista. Operação no mato, uma bala de olho já nele, e pronto. «O oficial, lá, é sempre o primeiro.» Ouvira, e acreditara. «Gajo inseguro, óculos, mais idade. Não engana.» Era de uma lógica mortal.

Decidiu deixar o País no preciso momento em que, no quartel, vira afixadas as notas daquele segundo mês da «especialidade». Decepcionantes. Ele era bom em algumas coisas, as que metessem lérias por escrito, sobretudo. Tinha mesmo, com base nisso, planos de classificação vistosa. «Um tipo bem classificado tem grandes chances de não ir», afiançavam-lhe. «Ou só vai no fim, e então é que elas doem. Mas vale a pena arriscar.» Uma proeza dessas iria afagar-lhe grandemente a auto-estima.

Simplesmente, o desmontar e voltar a montar da espingarda (a G-3 era uma espingarda? hoje já não tem essas certezas) era desempenho fundamental, e revelara-se um alçapão. E fossem ele só as armas! É que a componente física, também ela, não dera notas brilhantes. Vendo bem, só os exercícios de orientação nocturna – «dropping» num pinhal, um mapa sumário e fé na boa estrela – só eles mereciam menção. O seu grupo, cinco cadetes amigos, era de longe o melhor nessas operações. E na unidade todos sabiam, o alferes e o capitão incluídos, que era a ele, à sua incompreensível bússola interna, que se deviam as chegadas às horas e aos postos certos.

Mas o panorama total era alarmante. Nunca ficaria entre os cinco, mesmo os dez, primeiros, mesmo que batesse a malta de Coimbra, aqueles quinze indisciplinados universitários que a sabedoria militar havia mantido juntos no seu pelotão. É que bastantes outros lhe passariam à frente: os paisanos, esses a quem a cultura não atrofiara nem senso prático nem os músculos.

Só muitos anos depois saberia que, ainda ele não cruzara os Pirenéus, já os revoltosos coimbrões estavam de regresso às carteiras. A saída deles transtornava toda a classificação final, deixando mesmo os melhor classificados à beirinha da mobilização. Nem a genica natural nem o esforçado cerrar dentes, nada havia valido aos pobres.

Abandonou o país por uma bela tarde de Março de 1970. Já conhecia Marvão, só nunca a imaginara cenário de relevo na sua vida. Era lá que alguém que agora ia ajudá-lo tinha uma casa, um arquitecto da capital que só nesse dia havia de conhecer. Bastantes foragidos haviam, antes dele, saído dessa primorosa mansão para irem «comprar chocolates» a Espanha. Acto ilegal, fraqueza lamentável, mas tão humanos que qualquer guarda-fronteira compreenderia.

Iam um grupinho. O arquitecto e a mulher, um filho deles, porventura dois, um casal amigo a caminho de Cáceres, e mais uma pessoa, o jovem tranquilo que, nessa manhãzinha, em Lisboa, se lhe apresentara como pastor protestante, e ele soubera ir ser seu colega de aventura.

Quatro anos mais tarde, em Lisboa – porque o exílio afinal só duraria isso – encontraria o arquitecto num comício da extrema-esquerda moderada. E ele haveria de abordá-lo, e de agradecer-lhe, como quem agradece a um santo. O arquitecto, simpático, sorriu, mas não se lembrava dele. Um santo, nem mais.

continua

2 thoughts on “O regresso (1)”

  1. Um grandessíssimo abraço ao Fernando, por nos trazer lembranças duns tempos que já ninguém acredita que existiram. O mundo meteu-se a acelerar, e a maltinha deixa-se convencer que a vida começou hoje de manhã. Pura patranha de carteiristas!

  2. Por razões que agora não vêm ao caso, o Crítico Suspeito tira aqui o chapéu ao Senhor FV. E agora sem cinismo, acredite.

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