O regresso (2)

Os chocolates espanhóis foram deveras comprados, e alguns comidos. Seriam o único gasto seu naquele dia. Mas, na reentrada no país, iriam faltar ele e o pastor. Foram escondidos num matagal, e ficaram esperando que um carro, pela fronteira legal, os viesse buscar. «Duas horitas, e a gente vem apanhá-los.» Procedimento banal, mas ele não o sabia. Cento e vinte minutos podem levar eternidades a passar. Nem por teima, era aquilo uma Sexta-feira Santa, à exacta hora em que o Outro também aguentara horas, e em piores condições.

A madrugada de Sábado Santo achou-os em Madrid. O casalinho amigo, que estava para ficar em Cáceres, acabou por ir levá-los à grande capital, a uma casa de padres, perturbados no sono, mas logo solícitos. Um deles, ainda o sol não rompera, pegou no carro e meteu-se com eles a caminho da longínqua Barcelona. «De comboio, pela fronteira, nunca. É um suicídio», diziam-lhes, querendo demovê-los do plano inicial, passarem a fronteira em Irun, na legalidade. E mais lhes disseram que, em Barcelona, havia alguém, um padre também ele, que conhecia palmo a palmo os Pirenéus, onde nascera, e que os poria salvos em França.

Chegaram à tardinha desse sábado à capital catalã, onde foram entregues em nova casa paroquial, tão suspeita politicamente como a de Madrid, se não mais. O padre fronteiriço apareceu horas depois. Vinha exactamente de uma caminhada pelas montanhas natais. «Combinado. Eu levo-os a França. De hoje a oito dias.» Oito dias! Outra eternidade. Mas não sobravam alternativas.

O válium é uma grande invenção. Uma invenção triste, mas a vida, às vezes, é uma tristeza toda ela. Doze horas de sono podem ser, e nesse caso ali eram, uma prenda inestimável. E, depois, até ao perigo uma pessoa se habitua. Já ao quarto dia eles iniciavam a volta turística de Barcelona. O trivial. Nem merece a pena mencionar.

E chegou o dia aprazado da fuga definitiva, domingo, o primeiro domingo de Abril. Deixaram Barcelona ao fim da manhã. Eram já cinco da tarde quando, a dois mil e quinhentos metros, no cocuruto do monte que subiam, se lhes desdobrou ante os olhos o mais deslumbrante dos panoramas. De leste a oeste, quanto a vista abarcava, uma cordilheira refulgia, rosa e laranja, ao sol declinando.

Não, a liberdade pode vir na mais fria das brumas, ter o cheiro da imundície, e será sempre uma bênção. Não era preciso ela chegar assim, como ali chegava, nesse assombroso esplendor. Mas há destas sortes. E o mais bonito ainda é aquilo que não se mereceu.

Foram dormir a Montpellier, a um convento de mendicantes. O companheiro decidiu ficar. Iria em breve demandar a Suíça, onde estudos de teologia o esperavam. Ele, não. Era o Norte que o atraía. Ao terceiro dia, meteram-lhe na mão uma bucha, um bilhete para Paris e o endereço dum convento. Paris era o que já se conhecia de bilhetes-postais, e por isso rumou mais a norte ainda, a outros países, outras gentes.

Quando pôde regressar, fê-lo banalmente de avião. O peregrinar por terra, que se havia proposto, não foi esquecido, mas estava impraticável. Não guardara moradas nem de Paris, nem de Montpellier, nem de Barcelona, nem de Madrid. Não tivera esse cuidado, ele que tão lindos planos concebera. Não havia, assim, meio de agradecer àquela santa gente. E, depois, o mais certo era que todos eles, como santos verdadeiros, já nem dele se lembrassem.

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